A morte das palavras

Um estudo revelou recentemente que as palavras estão a morrer. Esta morte não envolve obviamente um parar de bater de um coração, uma facada a meio da noite num beco escuro ou o uso de veneno mas sim a palavra parar de andar de boca em boca. Já lá dizia o poeta "palavras leva-as o vento" e desta vez parece estar a levá-las desta para melhor.

As palavras estão a morrer e ninguém as está a tentar salvar. São pequenos gestos que ninguém nota como o uso dos correctores automáticos nos computadores ou a simples preguiça de procurar um sinónimo para uma palavra trivial (comum).

Uma equipe de cientistas analisou aproximadamente o equivalente a dois séculos em livros publicados em inglês, espanhol e hebreu (algo como 10 milhões de livros diferentes) e após algumas comparações (e vamos-nos recordar que se tratam de cientistas e não linguistas) chegaram à conclusão que palavras que anteriormente eram populares estão a desaparecer de livros!
Sinceramente não são palavras como "toucado" ou "supimpa", que me fazem falta, mas há palavras como "esgrouviado" e "trenguice" que me são necessárias. (O meu corrector automático quer matar-me a trenguice mas eu não o deixo, trengo é ele que não sabe o que faz :c ) E admito que me assusta saber que nos últimos 40 anos morreram mais palavras que nos 208 anos que vão de 1800 a 2008. 

Outros factores descobertos por estes cientistas incluem a utilização cada vez mais corrente de calão e os anglicismos usados para definir instrumentos e serviços que surgiram recentemente. Como exemplos práticos podemos dar palavras como Internet, Ipad e e-reader que deixam de ter tradução directa para português, como maior parte das palavras tinha, e são usadas na sua língua mãe.
Os "muito" e os "pouco" também matam lentamente as palavras (e o romance), afinal será mais fácil sentir simpatia por um homem que está muito cansado ou por um homem que está exausto? (E o amor? Quem quer amar muito quando pode amar perdidamente?)
O novo acordo ortográfico também ajudará na matança, não tanto pelo desaparecimento de palavras, mas pela mudança na maneira como são tratadas, escritas e avaliadas. Nomes próprios virarão comuns, a letra "c" vai desaparecer de muitas palavras e algumas frases vão tornar-se complicadas de entender numa primeira leitura. Por exemplo "O metro de Lisboa para".

Tudo isto ajudará as palavras a desaparecerem mais facilmente, pois as pessoas acabarão sempre por optar por palavras mais fáceis de entender e de utilizar.  Frases que não criem dúvidas, a única coisa boa é que talvez alguma palavras acabem por ser reanimadas para evitar confusões. por exemplo: "O metro de Lisboa detém-se"

Todos os dias há palavras que morrem, que é como que, caem em deduzo. Que fazemos para as salvar? Há vários sites na internet que podem ser usados como dicionários de sinónimos e temos de nos lembrar que os correctores de computador não conhecem todas as palavras que existem. Além de "trengo" o meu corrector não reconhece "supimpa", "brilhadeira" ou  "bogalhos", palavras que existem na nossa língua e que podem ser usadas livremente.

São pequenos e decisivos gestos que fazem toda a diferença no nosso vocabulários e nos podem ajudar a salvar as palavras. E a criar uma bela imagem de nós próprios em diversas situações! (Afinal chá nunca fez mal a ninguém).
Em memória das palavras que desapareceram o Encruzilhadas pede um minuto de silêncio pelas mesmas. Ou melhor, um minuto de barulho em que as possamos gritar em plenos pulmões e fazer um estardalhaço!

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