Quantas estrelas vale uma vida?

Como todos os meus caros leitores sabem, pelo menos os que usam o GoodReads, existe o sistema de clasificação de livros em cinco estrelas. Há quem dê até sete estrelas, mas nós aqui no Encruzilhadas, tal como no GoodReads, ficamos pelas cinco. A lógica dita que quanto mais perto das cinco estrelas melhor é o livro e quanto mais baixa a classificação pior o livro é. 
Ora isto deixa-me numa situação muito complicada em relação a diário, colecções de cartas privadas e biografias (quer sejam auto ou não). Porque, meus caros leitores, eu não faço ideia de quantas estrelas vale uma vida. Claro que podemos debater que na realidade não estamos a classificar a vida e sim a escrita do autor, mas sejamos sinceros, se a história for boa, mesmo que a escrita não seja a melhor, acabaremos por ler o livro até ao fim. Um pouco como a relação que a Cláudia tem com As Crónicas de Gelo e Fogo , ela adora as personagens, já com a escrita do autor tem uma relação mais complicada. Mas são as personagens que a fascinam que a fazem pegar em volume após volume após volume, numa tentativa cega de tentar perceber o que se está a passar. Logo, o facto da história ser interessante, apesar de a escrita nem sempre ser a favorita da Cláudia, faz com que ela continue a ler. O mesmo na minha opinião se passa em relação às biografias que andam para leitura no mercado editorial.
Devo confessar que o meu primeiro contacto com este mundo foi através da leitura de "O Diário de Anne Frank", fortemente aconselhado por uma amiga da época, peguei no livro a medo, principalmente por saber tratar-se de uma história real e tenho algo a confessar. Nunca o acabei. A escrita entediou-me de morte, e apesar de eu repetir para mim mesma que tudo aquilo fora real, uma parte de mim não para de se queixar contra a falta e originalidade do enredo. 
Discretamente descartei o livro e nunca mais lhe peguei. Durante anos senti-me culpada por causa desta minha acção e pelo facto de achar que a vida de Anne Frank era chata. Mas devo confessar que foi isso que me levou a chegar à conclusão que é impossível classificar uma vida. Anne Frank era uma jovem de treze anos presa num anexo, o seu testemunho intemporal ajuda-nos a perceber os horrores que a raça humana praticou entre si e une-nos contra isso. Mas a escrita é a escrita de uma jovem que só queria uma amiga com quem desabafar, Anne Frank provavelmente nunca sonhou que o seu diário seria um dia encontrado e publicado. 
Assim sendo, eu recuso-me a classificar diários e biografias. Apesar de ter gostado de ler "As cartas de amor do Poeta", na qual podemos ler a correspondência privada de Khalil Gibran também me recusei a classificá-las, afinal quem sou eu para dizer que a correspondência privada de Gibran vale mais estrelas que o diário de Frank? 
Este ano já li duas biografias, a de Caitlin Moran, que inclusive já foi comentada aqui no blog,e a de Mindy Kaling. Uma é um relato feminista meio auto-biografico de uma inglesa, a outra é uma auto-biografia de uma rapariga de origem indiana nos Estados Unidos. Ambas as escritoras contam os seus confrontos com a vida e os obstáculos que tiveram de enfrentar. Uma tinha muitos irmãos, outra era filha única. Como é suposto eu classificar isto?
Se eu um dia ficar famosa e publicarem os meus bilhetinhos da escola por aí, Deus me livre!, e alguém decidir que os meus bilhetinhos eram chatos e lhes der uma estrela estará no seu direito. Mas sejamos sinceros, será que os bilhetinhos de escola dessa pessoa eram "mais interessantes" que os meus? Porque haveriam de ser? Não são tudo experiências pessoais e únicas?
Parando de bater no ceguinho, até porque acho que já me exprimi bastante sobre o assunto, deixo novamente uma das minhas fantásticas perguntas: Quantas estrelas vale uma vida? Costumam classificar as biografias que lêem? Quais são os vossos critérios de avaliação?


Ki
(Catarina)
Sobre a autora:

Bibliófila assumida e escritora de domingo. Gosta de livros e tudo o que esteja relacionado com eles, tem a mania que tem opiniões sobre coisas e gostas de as expor no seu blog conjunto Encruzilhadas Literárias, tem também uma conta no GoodReads e é das melhores coisas que já lhe aconteceu.

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