Opinião: Ervamoira, de Suzanne Chantal

http://www.civilizacao.pt/folder/artigo/2774766_LC_3267_Ervamoira_WEB.jpg
Ervamoira
de Suzanne Chantal

Edição/reimpressão: 2011
Páginas: 624
Editor: Civilização Editora

Resumo: A apaixonante história dos Castro Avilez entrelaça-se com a história do Vinho do Porto e de Portugal. Durante um século e meio (de 1809 a 1967), a saga da família inicia-se com as trágicas invasões napoleónicas e o desastre da Ponte das Barcas, passando pelo faustoso ambiente da corte francesa e por um baile real no Palácio da Bolsa, no Porto. No coração do Douro, entre os áridos socalcos e os rabelos pesados de vinho, Leonardo de Castro, o patriarca da família, um humilde secretário de um negociante de vinhos, transforma-se num empresário da indústria vinhateira, travando conhecimento com o influente Barão de Forrester. De Leonardo de Castro a Nathalie, que vem conhecer o Porto em 1966, seguimos, de geração em geração, a vida e o desenvolvimento da família com os seus sucessos, dramas, alegrias, celebrações e destinos.

Rating: 4,5/5

Comentário: Há muito que não lia um livro histórico passado em Portugal. E há muito que não lia um romance de que gostasse tanto dentro deste género, direccionado para terras lusitanas. Como a sinopse nos elucida, acompanhamos a história de uma família ao longo de cerca de 100 anos, iniciando-se a narrativa com um Leonardo inocente e perdido no meio do terror da invasão do Porto por tropas francesas, até caminharmos para o séc. XX, onde a sexta geração se depara com a evolução dos tempos e o desapego a uma história há muito passada.
O Porto, e a região do Douro em si, que tenho a infelicidade de não conhecer, apelam-nos aos sentidos e à memória fotográfica não vivida, com a transcrição de quadros fidedignos sem que sejam muito descritivos ou maçudos.

A riqueza e intensidade das personagens, e as suas relações entre-cruzadas, explorando os amores e paixões (tanto pelas diferentes pessoas com que se vão cruzando como pelas terras e vindimas que fazem escorrer a fonte de riqueza de uma família) traz-nos uma malha de histórias fortes e demarcadas umas das outras. Em algumas alturas, despertam-nos o interesse para saber sobre si mais do que nos é apresentado.
A transposição entre capítulos, que por vezes fez decorrer intervalos de quase vinte anos entre si não se revelou abrupta, sendo seguida de uma transposição harmónica que nos deixa com saudades da juventude daqueles que nos iam acompanhando, mas com curiosidade para descobrir os próximos. A escrita é sonante, simples mas confortante e arrebatadora quando necessário. A meu ver, e sem revelar muito o conteúdo do enredo, os últimos dois anos da história foram aqueles aos quais me senti menos apegada, dado que que o seguimento da narrativa se afasta das personagens iniciais, da ligação à herdade de bonito nome redondo de Ervamoira e nos conduz para uma história diferente, para um século diferente e para personagens que não acompanham o processo de construção desde o início, como o autor. No fundo no fundo, compadeço-me da mágoa de Ramiro, neto de Leonardo e tio-bisavô das últimas personagens que relembra o passado não como algo morto, mas como berço de um sonho que pode e deve continuar a ser reconstruído.
Recomendo para quem, como eu, gosta de histórias. De vida, de sonhos e de possibilidades. E que acima de tudo, gosta de romances históricos. É um livro desconhecido do público em geral mas que merece atenção.

Leva o selo do Encruzilhadas Literárias, e o primeiro que eu atribuo a um livro aqui.













Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas e bookcrossing, a Cláudia ainda consegue estudar e fazer o seu mestrado enquanto lê nos transportes públicos. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado é tão fácil encontrá-la numa biblioteca como na Rota Jovem em Cascais. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

0 leitores reagiram:

Que pensam Encruzilhad@s?