Opinião: O Segredo de Sophia, de Susanna Kearley


O Segredo de Sophia,
de Susanna Kearley
Edição/reimpressão: 2012
Páginas: 512
Editor: Edições ASA

Resumo:
Carrie McClelland é uma escritora de sucesso a braços com o pior inimigo de qualquer artista: um bloqueio criativo. Em busca de inspiração, ela decide mudar de cenário e visitar a Escócia, onde se apaixona pelas belas paisagens e pelo Castelo de Slain, um lugar em ruínas que lhe transmite uma inexplicável sensação de pertença e bem-estar. Tudo parece atraí-la para aquele lugar, até mesmo o seu coração, que vacila sempre que encontra Graham Keith, um homem que acaba de conhecer mas lhe é, também, estranhamente familiar. Com o castelo como cenário e uma das suas antepassadas - Sophia - como heroína, Carrie começa o seu novo romance. E rapidamente dá por si a escrever com uma rapidez invulgar e com um imaginário tão intrigante que a leva a perguntar-se se estará a lidar apenas com a sua imaginação. Será a "sua" Sophia tão ficcional como ela pensa? À medida que a sua escrita ganha vida própria, as memórias de Sophia transportam Carrie para as intrigas do século XVIII e para uma incrível história de amor perdida no tempo. Depois de três séculos de esquecimento, o "segredo de Sophia" tem de ser revelado.

Rating: 4/5

Comentário: Antes sequer de entrar pelo enredo, não posso deixar de referir esta capa. Embora para algumas pessoas possa parecer algo apagada pela escolha de cores claras, eu considero-a harmónica e foi um dos motivos pelos quais me apaixonei por este livro primeiramente. Transmite uma certa delicadeza que cativa e a própria imagem meio apagada da rapariga, mas com um olhar atento e desafiador, consegue sem dúvida agarrar-nos a atenção.
E agarrar-nos a atenção é algo que "O Segredo de Sophia" consegue fazer desde a primeira página, sem sombra de dúvida.
Carrie é uma mulher que vive assombrada pelos seus personagens, e não o digo num mau sentido. Não sei se têm amigos escritores, mas é bastante comum que as suas personagens passem mais tempo convosco do que eles mesmos, por vezes.  Ou que demos por nós a falar de personagens como se fossem um amigo conhecido. Para quem não está habituado pode parecer estranho, mas é a mais plena verdade que as personagens de um escritor por vezes ganham vida própria e são elas que comandam a própria estória, no qual quem as escreve não passa de um mero intermediário para as fazer chegar à luz do dia. A Catarina que vos diga a quantidade de vezes que temos conversa deste género. O que por sua vez tornou bastante engraçado o início deste livro para mim, dado que me identifiquei bastante com o que estava a ler. E se não me era estranho para mim, muito menos o era para Carrie e para a sua melhor amiga e agente. O que ela não esperava era que Slain lhe apresentasse uma composição diferente e que algumas personagens acabassem por ser mais reais do que outras...
Não quero entrar muito no enredo, como já vem sendo habitual nas minhas opiniões, mas não posso deixar de referir que este é um livro adorável. Achei piada ao conceito do livro dentro do livro e de ir realmente acompanhando a vida de Sophia e de todos os que a rodeiam. Certamente, tornou todo o livro mais rico e interessante. No entanto, e exactamente devido ao enfoque atribuído ao livro, a vivência de Carrie perdeu-se ao ponto dela se tornar uma personagem secundária. Não sei se esta foi a intenção inicial de Susanna, mas se assim o era não haveria necessidade de criar pequenas peças de um enredo a explorar, como a relação dela coma família Keith, que acaba por ser feita muito pela rama. A própria relação dela com a amiga e confidente perde-se e conclui-se em três rápidos momentos do livro. Todas as vezes que nos deparamos com Carrie, ou está a dormir sobre uma mesa, ou a conversar à porta de casa com alguém ou à procura de moedas para manter a electricidade.. No fim, acho que gostava de a ter conhecido, o que não me parece que o tenha feito; assim como gostava que tivesse sido mais explicado o motivo e o porquê de ter decorrido o que a fez chegar tão perto da sua personagem...
Concentrando-de então em Sophia e nessa segunda parte da história, apesar do enquadramento da estória e da própria sinopse o apresentar como um romance histórico, para mim enquadra-se mais num romance de época. A abordagem às questões históricas que estruturam acção acabam por se resumir a pequenos momentos, sendo que é a personagem feminina, a sua vida e as relações pessoais que possui aquelas nas quais a maior parte do livro se centra. Sophia não é uma personagem marcante, mas a sua doçura acaba por se alastrar até nós. Os seus sonhos e desejos, apesar de adaptados à época, podem em última instância ser considerados intemporais. Fiquei contente com o fim dela, sendo que até às últimas 30 páginas não achei possível que o enredo nos levasse naquela direcção.
No fundo, não vos consigo dizer claramente porque gostei deste livro. As pequenas falhas ao longo na narração assim como as partes omissas acabam por não ser essenciais para a narrativa, dado que esta personagem acaba por demarcar-se e centrar a nossa atenção nela. Talvez esse seja o verdadeiro segredo de Sophia. Adorei lê-lo e certamente que irei voltar a fazê-lo no futuro.

Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas e bookcrossing, a Cláudia ainda consegue estudar e fazer o seu mestrado enquanto lê nos transportes públicos. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado é tão fácil encontrá-la numa biblioteca como na Rota Jovem em Cascais. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

0 leitores reagiram:

Que pensam Encruzilhad@s?