Opinião: O Tempo dos Milagres, de Karen Thompson Walker

O Tempo dos Milagres
O Tempo dos Milagres
Edição/reimpressão: 2012
Páginas: 256
Editor: Civilização Editora

Resumo:
Nunca é aquilo que receamos que acaba por acontecer. As verdadeiras catástrofes são sempre diferentes - inimagináveis, inesperadas, desconhecidas…
E se o nosso dia de 24 horas se tornasse mais longo, primeiro em minutos, depois em horas, até o dia se tornar noite e a noite se tornar dia? Que efeito teria este abrandamento no mundo? Nas aves do céu, nas baleias do mar, nos astronautas do espaço e numa rapariga de onze anos, a braços com as mudanças emocionais da sua própria vida?
Uma manhã, Julia e os pais acordam na sua casa nos subúrbios da Califórnia e descobrem, juntamente com o resto do mundo, que o movimento de rotação da Terra está a abrandar visivelmente. A enormidade deste facto está quase para além da compreensão. E, no entanto, ainda que o mundo esteja, na realidade, a aproximar-se do fim, como afirmam alguns, a vida do dia a dia tem de continuar. Julia, que enfrenta a solidão e o desespero de uma adolescência difícil, testemunha o impacto deste fenómeno no mundo, na comunidade, em si própria e na sua família.

Rating: 3,5/5

O Tempo dos Milagres despertou-me logo o interesse pelo enredo. Desde pequena que me fascinam as séries, os filmes, os livros sobre o Planeta Terra, especialmente quando acontece algo que coloca em cheque a nossa tão amada casa gigante. Talvez seja a alma de geógrafa, ou de curiosa pelo funcionamento do mundo, mas a verdade é que é impossível afastar-me de algo que peça por uma temática tão apelativa.
Neste caso, Karen Walker apresenta-nos uma realidade em que é colocado em causa o que aconteceria caso o movimento de rotação da Terra abrandasse. Que consequências teria para as espécies, para a organização das cidades, para a vida do ser humano, para a capacidade de adaptação e coexistência com o desconhecido. No fundo, de que forma seria possível continuar a viver, a partir do momento em que tudo o que tomamos como se certo se torna apenas confuso e caótico?
Começamos esta narrativa com a descoberta de um fenómeno que todos achavam improvável de ocorrer, e que gera um pânico atroz mundo fora. Embora o ache bastante credível, a meu ver anunciar o abrandamento da rotação da Terra numa fase inicial não geraria o caos demonstrado pela autora, simplesmente porque a percepção das consequências daí derivadas não seriam tão explícitas como no caso de um meteoro se dirigir de encontro ao nosso Planeta. Fora isso, todas as reacções representam o que esperamos que aconteça, mas também aquilo em que nunca pensámos. Ao fim ao cabo, as relações interpessoais mudam: amigos separam-se, ex-casais retornam,  pessoas calmas tornam-se agitadas e as que já o eram em radicalistas, não crentes dirigem-se a Deus e crentes perdem a fé....
A religião é de resto abordada neste livro de uma forma que me parece realista, embora, e porque a autora preferiu dar um foque considerável à questão, eu gostasse que ela tivesse abordado mais certas religiões, já que decidiu explorar uma ou duas de forma mais cuidada.
O que torna tudo mais interessante é a própria personagem condutora da acção, uma menina de 11 anos que tem de lidar com as mudanças que se apresentam em casa e na escola devido a este fenómeno. É de resto a expressão da inocência, da incompreensão e da tentativa de ultrapassá-la que acompanham Julia na maioria do tempo. Não concordo e confesso que não achei grande piada com a atribuição de certos comportamentos tipicamente de adolescentes mais velhos (caso de conotações sexuais e uso de drogas) que foram imiscuídos nesta realidade. Não sou ingénua ao pensar que não existem comportamentos precoces, mas atendendo à imagem que a autora quis criar, preferia que isso não tivesse passado como uma generalidade assumida.
As consequências posteriores, desde as mudanças do campo magnético da terra, da alteração das marés, da desestabilização da vida animal são bem descritas e muito completas, passando-as para o leitor de uma forma simples, atendendo que são transmitidas pela perspectiva de Julia.
Depois disso, torna-se interessante ver a exploração dos que se seguem pelos diversos sistemas criados e das reacções do ser humano, que por vezes nega a existência de quem não se comporta inteiramente como igual.
Julia vê várias partes da sua vida e das suas relações alteradas: desde a melhor amiga que parte inesperadamente, aos professores que deixam de aparecer, ao avô que desesperadamente lhe força a adquirir as suas relíquias, ao pai e à mãe que se comportam como dois ímans (e que tanto se atraem como repelem), às aulas que ocorrem em noite cerrada e às noites de sol em ponta... Vê-se obrigada a lidar com tudo e a crescer inesperadamente depressa, porque para variar, são os outros a precisar de si e não ela a querer ser socorrida.
Fiquei um bocadinho desiludida com o final, mas ao longo da obra sempre me fui perguntando como é que a autora seria capaz de o fazer, e também não tenho uma melhor sugestão a dar.
Confesso que não me encontro muito com o título do livro, e não o acho o mais adequado, apesar de ser a tradução literal do original. De qualquer forma, percebo a sua intenção: é o tempo dos milagres, porque é de um milagre que todos esperam para que possam retornar à normalidade e esquecer o enorme pesadelo a ser vivido.
O Tempo dos Milagres não é um livro de acção. É sim de reflexão e de descoberta, de reconhecimento da fragilidade das estruturas, e das necessidades de adaptação do ser humano. Uma boa leitura de fim de semana.

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas e bookcrossing, a Cláudia ainda consegue estudar e fazer o seu mestrado enquanto lê nos transportes públicos. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado é tão fácil encontrá-la numa biblioteca como na Rota Jovem em Cascais. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

2 leitores reagiram:

  1. Gostei muito da opinião. Apesar dos pontos negativos, a história despertou-me imenso o interesse e, sem querer, comecei a pensar o que faria se algo assim acontecesse agora. Fiquei com vontade de ler o livro. :)
    Boas leituras

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  2. Olá Kel. Gostei de o ler também, e é inevitável ficarmos a pensar na forma como nos comportaríamos, mesmo sabendo que fosse o caso, nunca iria ser como esperamos. Agora vou começar a ler um sobre o ano de 2012. Estou ansiosa!

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