Opinião: Os Dias da Febre, de João Pedro Marques




Os Dias da Febre
de João Pedro Marques
Edição/reimpressão: 2010
Páginas: 320
Editor: Porto Editora




 Resumo:
Descendo a Calçada de Santana e espreitando por entre as cortinas da sua carruagem, Elvira Sabrosa vislumbra Robert Huntley, um inglês que não via desde os tempos da infância, há mais de 20 anos.
Os Dias da Febre narra as circunstâncias que conduziram ao reencontro de Robert e Elvira, e o que dele decorreu. O cerne da ação situa-se em 1857, quando Lisboa estava a ser atingida por uma epidemia de febre-amarela que mataria quase 5 mil pessoas. É nesse contexto alarmante e febril que a intriga se desenvolve e que o leitor é convidado não só a conviver com as figuras da época, mas também a percorrer a cidade em toda a sua diversidade, dos camarotes do S. Carlos às ruas apertadas de Alfama, das enfermarias do Hospital de S. José às bancadas das Cortes, dos salões das senhoras das classes altas ao bulício do café Nicola.
Romance histórico escrito por um historiador e extensamente apoiado na documentação existente, Os Dias da Febre tem a História sempre presente sem, todavia, se dar muito por ela, já que se trata de uma história da vida quotidiana, embebida na própria narrativa. Isto significa que não estamos apenas perante um romance sobre uma epidemia, a morte e o amor: Os Dias da Febre é também uma viagem pelos sons, os cheiros, as gentes, as casas, os costumes, as cores - numa palavra, pela vida - da Lisboa de meados do século XIX.

Rating: 3/5 

Comentário: Comecei por querer ler este livro após terminar a leitura de "Alma Rebelde", de autoria de Carla M. Soares. Todo o enquadramento histórico dado pelo livro em questão, e a falta de um elemento mais contextual, fizeram-me procurar por uma leitura mais profunda sobre o assunto, e quando vi mais um romance histórico português referente à época em causa, não pude resistir.

Acho que este livro começa bem. Permitiu uma exploração da situação da época com a construção de cenários construtivos, com a explicação da disseminação da febre-amarela através de Lisboa, segundo um contexto humanizado e de proximidade ao leitor. A ficção histórica tem o poder de potenciar as narrativas, principalmente quando existe um factor real à volta do qual é construida a sequência de acontecimentos. Senti isso a ler esta obra de João Pedro Marques. Contudo, penso que por vezes tenha caído no erro de exagerar na introdução de informação histórica, pelo menos da forma como foi aplicada, fugindo da construção linguística de um livro de ficção para uma aproximação a um resumo científico (mas julgo que o estilo do autor se deve em parte à sua profissão pelo que não acho que no caso tenha causado algum estrago de maior, até porque me interessei pelo assunto).

Quando às suas personagens e ao evoluir da história, foram várias as vezes em que nos deparamos com umas nuances de analepses, que nos contam toda uma história até chegar a um momento exacto (a melhor forma de o descrever é referi-lo como uma tendência de "How I Met Your Mother". E que tal como na série, criam-se momentos interessantes mas que não acrescentam nada ao enredo principal), mas que a determinada altura nos cansam, já que parece que nunca chegamos ao destino esperado.

Parecendo uma contrariedade, a primeira parte foi ainda assim a minha preferida, já que não fui muito simpatizante do romance que se gerou, do desenvolvimento de personagens já conhecidas até essa altura e do próprio fim do livro.

É um livro rico, ainda assim, que vale pelo esforço de enquadramento, de estudo das variantes históricas, e do extenso trabalho de pesquisa para o redigir. Aprendi certamente novas coisas com ele, e só tenho pena que algumas questões não tivessem tido ukm tratamento diferenciado.


Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas e bookcrossing, a Cláudia ainda consegue estudar e fazer o seu mestrado enquanto lê nos transportes públicos. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado é tão fácil encontrá-la numa biblioteca como na Rota Jovem em Cascais. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

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