Opinião: O Jogo de Ripper, de Isabel Allende





O Jogo de Ripper
 de Isabel Allende

Edição/reimpressão: 2014
Páginas: 400

Resumo:
Indiana e Amanda Jackson sempre se apoiaram uma à outra. No entanto, mãe e filha não poderiam ser mais diferentes. Indiana, uma bela terapeuta holística, valoriza a bondade e a liberdade de espírito. Há muito divorciada do pai de Amanda, resiste a comprometer-se em definitivo com qualquer um dos homens que a deseja: Alan, membro de uma família da elite de São Francisco, e Ryan, um enigmático ex-navy seal marcado pelos horrores da guerra.
Enquanto a mãe vê sempre o melhor nas pessoas, Amanda sente-se fascinada pelo lado obscuro da natureza humana. Brilhante e introvertida, a jovem é uma investigadora nata, viciada em livros policiais e em Ripper, um jogo de mistério online em que ela participa com outros adolescentes espalhados pelo mundo e com o avô, com quem mantém uma relação de estreita cumplicidade.
Quando uma série de crimes ocorre em São Francisco, os membros de Ripper encontram terreno para saírem das investigações virtuais, descobrindo, bem antes da polícia, a existência de uma ligação entre os crimes. No momento em que Indiana desaparece, o caso torna-se pessoal, e Amanda tentará deslindar o mistério antes que seja demasiado tarde.

 Rating: 3,8/5 

Opinião: Antes de comentar este livro, tenho de deixar o meu agradecimento à Porto Editora e dizer-vos o quanto tinha saudades de ler e sentir as texturas estruturais da escrita de Isabel Allende. Aqui há uns anos li no "A Soma dos Dias" que a autora tem uma superstição, e se não começar a escrever num dia específico, nesse ano não nascerá um livro. Calculo que a inspiração lhe tenha faltado em alguns 8 de Janeiro, e como tal fico feliz por finalmente ver mais uma obra desta autora chegar à luz do dia. Já agora,e ao verificar a nota dos agradecimentos, fiquei também a saber que a ideia deste livro resultou de uma ideia frustrada de escrever um policial a quatro mãos com o marido, o que justifica a originalidade do enredo e o seu registo tão pouco habitual, mas nem por isso menos surpreendente.

O meu contacto com o estilo riquíssimo de Allende remonta aos meus 14 anos, quando peguei pela primeira vez em "O Reino do Dragão de Ouro". Adorei aquela história juvenil e tão bem escrita e as aventuras de Alex, pelo que não foi difícil ficar a conhecer as restantes obras da autora, passando pela acção de Diego em  "Zorro" ou pela magia de Paula na "A Casa dos Espíritos". Em todos estes, assim como nos restantes, sentiu-se sempre a peculiaridade das personagens, a sua presença de um lado místico, o papel demarcado de cada um e as suas posições filosóficas com as transformações da vida.

Em "O Jogo de Ripper", nenhuma destas constantes fica a faltar, e se assim o fosse iria estranhar. De facto, e sendo tão céptica, gosto bastante desta presença do misticismo que Allende sempre impute aos seus livros, na lógica de valorização dos seres humanos, das suas relações com terceiros e do alcance da sua paz interior. Mas este não é sem dúvida um livro espiritualista ou com pouca acção, pelo que deixemos este lado de parte para prosseguirmos ao que interessa.

Desde as primeiras páginas que sabemos que este será um livro diferente. O constrangedor cenário que nos dá as boas-vindas a esta narrativa diz-nos que vamos avançar às apalpadelas num mundo desconhecido, mas que temos prazer em desvendar. Cada personagem é apresentada a par e passo, assim como as suas relações e vivências, o que permite que fiquemos a conhecer todos os dados disponíveis antes de nos tornar-nos em mais uma peça do jogo. Acredito que esse registo se tenha estendido um pouco para além do ideal ao início, mas mais tarde acabei por dar razão à escolha da autora, tendo servido para unir todas as pontas soltas deste mistério.

Mais uma vez a autora pega em personagens adolescentes (embora sem dúvida Amanda seja mimada e com comportamentos muito pouco adaptados à sua idade), ainda que esse não seja o seu enfoque principal, pelo que não senti um verdadeiro retracto da juventude nestas páginas. Ainda assim, Amanda e os seus colegas de Ripper deambulam entre uma vertente mais adulta e mais infantil, cheia de regras e secretismo, mas também lógica e sensatez, que nos faz querer seguir as suas aventuras.

No que refere aos adultos, Indiana é sem dúvida a personagem mais "Allendesca" e por isso tão acarinhada por todos, tanto personagens como leitores. É uma criança numa pele de mulher, vivendo de certa forma num mundo muito próprio, e daí a sua representação resultar sempre das explicações e vozes de terceiros. Poucas vezes surge como personagem principal, mas nunca abandona a trama por um minuto. Todos os amigos, clientes, admiradores e amantes que a seguem são personagens secundárias que se encaixam no seu universo, e desenvolvem uma componente multicor causada por este ser flutuante e cheio de boas intenções, que paira um pouco pela vida de todas elas.

Ainda assim, de quem gostei mais (também talvez por ser dos mais presentes e reais) foi de Blake, avô de Amanda, com o qual ainda gargalhei umas vezes. É uma personagem fácil de criar afeição, pragmática e que nos apresenta muitas das explicações que precisamos para continuar a narrativa.

Quanto aos grandes crimes e ao mistério que é revelado na sinopse, acho que é necessário que se mentalizem que este livro não é realmente um policial, ou um thriller, e como tal, mesmo com o toque de mistério e cenas algo macabras, a escrita da autora tornam-nas parte de uma história maior onde quem se destaca são as personagens. Ainda assim, criou um ou outro momento de maior tensão, especialmente perto do fim. Devo dizer que a determinada altura (e ainda a meio do livro) acabei por achar o desvendar algo previsível, depois fui baralhada por uma reviravolta, mas no fim acabou por se confirmar o que suspeitei. No entanto, não me senti em algum momento defraudada, dado que a conjugação dos factores que levaram a essa descoberta, tornaram o livro bastante empolgante.

Outro ponto a ressalvar é que de facto, e talvez porque já li vários livros dela, inclusive aqueles de índole mais biográfica, eu senti sempre a presença de Isabel Allende nesta narrativa, tal e qual uma personagem ausente de corpo, mas presente de espírito, que nos guiou por ideias filosóficas, pensamentos críticos, opiniões divagantes muito suas sobre determinados aspectos da condição humana  e uma linguagem muito humana e universal. Gosto que assim seja, já que um livro dela nunca seria igual de outra forma.

Por fim, e um dos motivos pelo qual não consigo dar o 4, existem alguns factores irrealistas, que na conjugação do enredo acabaram por passar despercebidos, mas que num livro que se tenta aproximar da vida real, acaba por criar uma dicotomia estranha. Só para dar um exemplo, que polícia partilha pormenores das suas investigações com a filha?

De resto, para todos os fãs da autora e para os que ainda se vão tornar, este é um livro a não perder.

Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas e bookcrossing, a Cláudia ainda consegue estudar e fazer o seu mestrado enquanto lê nos transportes públicos. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado é tão fácil encontrá-la numa biblioteca como na Rota Jovem em Cascais. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

2 leitores reagiram:

  1. Um livro que não quero perder! Conheci a autora à umas semanas quando li "A Ilha Debaixo do Mar" e achei a história muito envolvente e cativante. Não quero perder esta novidade.

    Boas leituras :)

    ResponderEliminar
  2. Que sorte Ana! Pode ser que ela venha a Portugal em breve! :)

    ResponderEliminar