Opinião: Longbourn - Amor e Coragem, de Jo Baker

 

Longbourn - Amor e Coragem 
de Jo Baker

Edição/reimpressão: 2014
Páginas: 392
Editora: Editorial Presença 

Resumo:
Para todos os que admiram a obra de Jane Austen, esta é uma oportunidade única de revisitar o seu universo, mais concretamente o de Orgulho e Preconceito, mas numa perspetiva completamente nova. Jo Baker conseguiu a proeza de pegar num clássico e reimaginá-lo, com brilhantismo, a partir do ponto de vista dos criados. Enquanto no andar de cima tudo gira em torno das perspetivas de casamento das meninas Bennet, no andar de baixo os criados vivem os seus próprios dramas pessoais, as suas paixões e angústias. À semelhança da obra que a inspirou, também Longbourn é uma história de amor apaixonante e uma comédia social inteligente, que nos dá a conhecer o quotidiano daqueles que serviam nas mansões rurais inglesas do século XIX. Uma obra admirável, que capta na perfeição a atmosfera da Inglaterra de Jane Austen.
  
Rating: 4,5/5 

Opinião: Antes de mais, tenho de dizer o quão contente fiquei com esta nova aquisição. Adoro Jane Austen, e embora não seja uma purista e tenha estudado o seu percurso literário e as características do seu trabalho, é uma das minhas autoras preferidas, cujo universo visito de tempos a tempos (com muita regularidade, diga-se de passagem), e já vi séries, filmes e li livros inspirados nas obras dela. No entanto, desconfio um bocado quando surgem livros que são meros aproveitamentos do que a Austen escreveu em tempos, porque considero que existe uma apropriação indevida de personagens e que acabam por estragar o original, que acabou onde devia acabar (e ficar sempre aquém do esperado). O que significa que para ler um livro que não resulte de uma mera inspiração na obra mas da sua adaptação, teria sempre de ser algo extraordinário e Jo Baker acertou na mouche.
Quando li a sinopse, que não diz grande coisa diga-se de passagem, fiquei logo curiosa e tornou-se um livro que eu à partida já queria gostar, o que lhe colocou uma série de expectativas elevadas, que ele conseguiu igualar (e não desapontar-me).
Vou começar por falar desta capa, que eu adoro. É uma das minhas preferidas dos últimos meses, para além de representar o conteúdo do livro na perfeição. Dá destaque ao paralelismo entre o universo que conhecemos (mas que não será quase visível) e aquele do qual nunca ouvimos falar, mas que nos encara lá do canto, à espera de nos surpreender. Este é um dos pontos principais para mim, porque em momento algum nos defrauda. As personagens já nossas conhecidas em Orgulho e Preconceito estão lá, nunca abandonam a narrativa, mas não são o elemento principal, e portanto a sua realidade não é propriamente vivida neste livro. De vez em quando surgem algumas referências ao enredo de Jane Austen mas que servem apenas para nos situarmos na narrativa original, e para facilitar o entendimento e o posicionamento das nossas personagens quanto ao seu contexto. Gostei bastante dos pequenos excertos que antecederam cada capítulo, e que geralmente conduziam ao estado de espírito das personagens nas páginas seguintes, ou numa outra lógica, para mais uma contextualização alargada.
Para quem lá leu Orgulho e Preconceito (e acreditem, não precisam de o fazer para ler este livro que vale por si só, e continuam a perceber toda a narrativa, que funciona de forma independente da original), talvez sintam falta de algumas personagens, ou da visão que Jane Austen lhes atribuiu. Por vezes foi surpreendente ver algumas discrepâncias de carácter, especialmente um Mr. Bennet não tão irónico ou uma Lizzie não tão desconcertante como habitualmente, embora tenha captado a intenção de Jo Baker ao reforçar a perspectiva dos criados, e como tal, é a sua visão dos acontecimentos que está presente.
Também para quem já leu a obra, sabem que a família Bennet não era muito abonada, pelo que os poucos criados que viviam na casa, um casal e duas raparigas (com uma ligeira diferença de idades), mais tarde acompanhados por um novo membro, são os elementos que vivenciam ao rubro todas as alterações decorridas na propriedade de Longbourn. Desde despejar penicos (ou acuadoiros) numa casa com várias mulheres e diversos momentos de menstruações, a lavar baínhas com 20 centímetros de lama nos vestidos de Lizzie, a recorrer a sais especiais para despertar Mrs. Bennet dos seus momentos de fanico ou aquecer água bem cedo para puderem aquecer a casa dos seus patrões, todas as tarefas são apresentadas assim como a forma que cada elemento da equipa se posicionava perante as diversas situações.

Da parte dos Bennet, perdemos por momentos a realidade algo idílica que o livro nos promove, para sermos deparados por momentos desconcertantes, tais como uma empregada a elogiar o quão bonitas estavam as raparigas para um baile, e a referir a pilosidade das axilas de uma delas enquanto a veste, por exemplo. Embora não sendo comuns, despertam-nos para o que deveria ser a realidade de um romance, sob a perspectiva de um criado, que não vê somente as relações interpessoais mas as questões pragmáticas do quotidiano de uma ocupação profissional.
Relativamente às personagens em si, são todas deliciosas, à sua forma. Cada criado apresenta uma personalidade demarcada, com segredos que muitas vezes se entrecruzam com a realidade da família que os acolheu. Funcionando também como uma pequena família, as suas relações, tanto entre si como com elementos exteriores a propriedade e criados de outras casas tornam este livro bastante rico. E só a sua vida dava (e deu) um romance bastante bonito. Desde uma Polly sonhadora, ingénua e que é ainda bastante criança para trabalhar a sério, a uma Sarah que deseja mais do que a vida que tem, e pretende ir mais longe um dia, a um casal já acomodado, cujo futuro passa por servir os patrões até morrer (Mr. ans Mrs. Hill) e James Smith (eu sei, é irónico e fiquei com receio do que é que sairia daqui quando li o nome, mas não se preocupem), cheio de segredos e mistérios, e que só pretende trabalhar com calma...e longe das milícias. Este grupo de pessoas consegue preencher cada página e levar-nos a sonhar com eles, presenciando a realidade não tão bonita de um dos mais fantásticos romances de Austen, mas sem perder o elevo que nos faz apropriar-nos das personagens e torcer por elas. Contar mais é revelar spoilers, por isso deixo-vos apenas com um recado: não vão arrepender-se de ler este livro!
Jo Baker escreve lindamente, consegue articular o seu discurso com o de Jane Austen, embora escrito em pleno séc. XXI (e com a percepção de que a autora por detrás também pertence a essa época temporal), respeitando a obra original, adornando-lhe elementos que a complementam e, ainda que por vezes tenha fugido dela e tomado algumas liberdades criativas, no contexto são justificadas, e condizem com o que a autora nos promete. Encheu-me o coração, e fiquei curiosa para ler os restantes livros de Jo Baker.



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Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

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