Opinião: A Guerra do Salavisa, de J. F. Matias

                                                 

 A Guerra do Salavisa

de J. F. Matias

Edição/reimpressão: 2014
Páginas: 268
Editora: Marcador 




Resumo: 
Na alvorada do século XX, Joaquim Salavisa é um adolescente valente, boémio, engenhoso e pinga-amor, sem qualquer inclinação para os estudos, e que se desdobra em brincadeiras e partidas por toda a Lisboa. Aos dezanove anos, um incidente rocambolesco, idêntico a tantos outros em que era useiro e vezeiro, corre mal e leva-o à prisão. Filho de boas famílias, o seu pai, para o safar do cárcere, alista-o no Corpo Expedicionário Português com destino à Flandres. Pensando livrá-lo depois através dos bons ofícios de um primo responsável pela mobilização. A mãe, porém, trata de que aconteça precisamente o contrário, na esperança de que a Grande Guerra faça o filho ganhar juízo e o torne um homem.

No epicentro de uma guerra, mas remetido para uma frente estabilizada, calma demais para o seu feitio, trava contacto com um francês e um alemão enquanto se dedica a caçar tordos numa terra de ninguém. À conta da fanfarrice de um deles, desencadeiam uma fuzilaria tremenda entre trincheiras que quase os mata. Refugiados num bosque, tornam-se amigos e entreajudam-se no regresso à segurança das respectivas linhas.

Muitos anos depois, o neto tem a sorte de poder aplicar na boémia e nos prazeres da vida a mesma dose de rebeldia e extroversão do avô. Entre memórias e heranças que o avô deixara para trás, percorre um caminho intricado que o fará erguer uma verdadeira ponte entre gerações.

Rating: 3/5 

Opinião: "A Guerra do Salavisa" leva-nos para um Portugal de época a sofrer transformações reestruturantes da sociedade portuguesa, contextualizando o crescimento espontâneo e estouvado de um menino, no início do livro já rapaz (mas ainda com a cabeça na lua típica dos que não se preocupam porque não têm essa obrigação). O fim da Monarquia, a instauração da I República são os cenários de fundo com os quais convivemos muito brevemente, apenas para contextualizar o desenvolvimento de carácter de Joaquim Salavisa, amado pelo pai que certamente revê no filhos os sonhos cumpridos/ por cumprir de uma juventude desgarrada, e preocupação de uma mãe, que quer educar um fruto da sua linha hereditária para ser um homem, consciente, sensato e pelo menos, com algum nível de decência.
A ida para a Grande Guerra quase passa despercebida, naquela frente de batalha que de batalha não tem nada, e que leva, tal como a sinopse indica, ao levantar de um acontecimento que criará laços de amizade entre Quim, Jean-Paul e Fritz. Esta parte do livro para mim foi a mais deliciosa. A relação entre os três, ainda que bastante breve, mostrou o quanto as barreiras e as composições das ideologias políticas escondem por vezes jovens resgatados para momentos com os quais não se identificam, e que no fundo, não fossem barreiras criadas por terceiros, os seus sonhos e interesses seriam os mesmos. Basta para isso ver a complexa família de Jean-Paul, que tanto atravessa um lado da barreira como se encontra da outra, e que em parte retractou a história de muitos outros na I Guerra Mundial.
Essas passagens são muito rápidas, trazendo Quim para outra nova realidade, onde cruzará caminho com diversas personagens, ocupando lugares distintos na Guerra a decorrer, e que finalmente trarão alguma luz e sensatez a este rapaz que se preocupa consigo e não com os problemas do mundo.
Quando a sinopse descreve a ponte de gerações, esperava que ela de facto tivesse ocorrido, e sinto que poderia ter sido melhor trabalhado. Senti que a passagem de avô para neto não só foi brusca como criou uma narrativa totalmente independente e confesso que me senti um pouco enganada, especialmente porque estava a gostar do desenvolvimento do enredo inicial.
A estória do neto é completamente diferente da levantada ao seu avô. Também boémia e cheia de ajudas, para permitir a existência de bons vivants que só se preocupam com o umbigo e as boas ofertas gastronómicas e culturais de uma vida com regalias, não senti evolução nesta personagem. Paradoxalmente, esta segunda parte apresenta por vezes breves rasgos mais filosóficos que puxam a um lado mais maduro da narrativa, ainda que nem sempre bem conseguidos. Até certa medida gostei de Marcel (seu amigo) e do criaram em sua volta, mas o enfoque acabou por se tornar um pouco forçado e cansativo em algumas partes. É já a última parte, que passa quase que ligeira e despercebida que me fez gostar mais do livro novamente, com a mistura dos vários mundos e a miscelânea de acontecidos resultantes da composição da vida de várias personagens numa única tela, onde o passado e o futuro se misturaram ao ponto de surgirem como uma única época.
O estilo literário do autor salvou este livro quando à criação de empatia com o leitor. Da minha parte, uma personagem corriqueira armada em Dandy que tem tudo o que cai do céu em cinco segundos não seria uma composição de que fosse gostar. Tantas cunhas e boa vida, facilidades que nem repara e sobre as quais não reflecte ou agradece soam-se aos chico-espertos que tudo querem e conseguem. No entanto, o estilo leve de J. F. Matias, solucionado numa mistura de brincadeira e tom irónico a um rectacto-tipo de uma sociedade portuguesa em estilo saudosista (e que infelizmente, em muitos casos correspondeu à realidade), acabam por criar uma ligação com o leitor que ainda que não se reveja nela conhece o seu país, o que inevitavelmente nos aproxima da estória que estamos a ler e, em parte, nos leva a desculpar os Salavisas, toda a sua linhagem, pelos defeitos de carácter que julgamos corrigidos neste narrador que reconta tempos idos.
E falando em Salavisa e para terminar esta opinião, este título surge então como uma analogia um pouco mais vasta aos acontecimentos bélicos decorridos entre 1914 e 1918, passando antes a ser resultado do conflito da emancipação e da entrada na idade adulta, da compreensão do mundo por estes avô e neto, e da consciência da importância de estar vivo e de fazê-lo com dignidade.


Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

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