Opinião: Aromas do Amor, de Dorothy Koomson


     

 Aromas do Amor
de Dorothy Koomson 

Edição/reimpressão: 2014
Páginas: 472
Editora: Porto Editora 

(As primeiras páginas podem ser lidas no site da Editora)


Resumo:  Procuro a combinação perfeita de aromas; o sabor que eras tu. Se o encontrar, sei que voltarás para mim.

Passaram-se 18 meses desde a morte de Joel, o marido de Saffron, e o culpado nunca foi descoberto.

Agora, fazendo os possíveis para lidar com a perda, Saffron decide terminar Os Aromas do Amor, o livro de receitas que Joel tinha começado a escrever antes da sua trágica morte.

Quando, finalmente, tudo parece ter voltado à normalidade, a filha de 14 anos de Saffron faz uma revelação chocante que abala a relação entre ambas. E, ao mesmo tempo, cartas misteriosas lançam uma nova luz sobre a morte de Joel.

Será um grande amor capaz de sobreviver à maior das perdas?

Rating: 4/5 

Opinião: Descobri a Dorothy Koomson aos 16 anos, quando saiu o primeiro livro da sua autoria em Portugal (A Filha da Minha Melhor Amiga) e gostei instantaneamente do estilo da autora: leve, bem recortado, cativante, capaz de nos colocar nas situações mais incómodas presenciadas pelas personagens, mas também (e especialmente nessas) nas extremamente felizes. Com um carisma extraordinário, as suas personagens não nos deixam indiferentes. E o melhor de tudo é que não são perfeitas: sofrem, riem, sentem, vivem amarguras e medos (pavores até), paixões e arrebatamentos que nos percorrem enquanto lemos as suas histórias e nos levam do mundo real para o seu universo. Mesmo não que não soubesse que um livro era da sua autoria, o estilo de Dorothy é tão patente que duvido que não chegasse a essa descoberta depressa. Acima de tudo, a autora oferece-nos sempre rebuçados agridoce sob a forma de livros mimosos, com histórias que nem sempre correm bem (pelo menos na sua totalidade), mas com um significado muito humano. E esse é o seu factor - chave preponderante: as personagens de Dorothy não têm medo de ser verdadeiramente humanas e de nos arrastar por corredores de memórias que tanto são nossas ou de conhecidos como de personagens dos seus livros. E mais do que isso, as emoções vêem dotadas de um realismo patente, sem hipérboles desnecessárias a forçar o drama (e uma potencial lágrima do leitor), e que ainda assim têm a capacidade de nos comover e criar emoções empáticas.
De todos os seus livros que li até hoje, sempre considerei o primeiro o melhor e o mais rico deles todos. Pelo menos até ler o "Aromas do Amor", que julgo ocupar uma posição muito semelhante. Apesar de ter tido algumas dúvidas em determinadas partes da obra, este volume conseguiu superar-se a si mesmo e provar-me porque é que a autora é tão bem sucedida no que faz. Mas já lá vamos.
Com este novo romance da Dorothy, senti-me a revisitar uma casa de uma tia há muito negligenciada, mas que nunca esquecemos. As suas personagens não são particularmente originais, ou pelo menos não tão diferentes que não as encaixássemos num dos seus livros, mas ainda assim souberam galgar território ao longo da narrativa e torná-la o seu espaço pessoal.
Senti-me meio que aos solavancos no início do livro, e só entrei realmente no enredo quando a Parte I finalizou, mas a partir daí deixei-me render pelas personagens. Saffron continua a sentir-se uma viúva precoce apesar de se ter passado mais de um ano desde o assassinato do marido. É por isso uma personagem instável, que vive a tentar combater o luto para respirar enquanto simultaneamente puxa para si as réstias memórias de um casamento feliz que preenchia todos os compartimentos do seu ser. Por esse motivo, algumas atitudes erráticas tiveram o condão de me espicaçar a irritação com a personagem e considerá-la injusta nas suas configurações. Naturalmente, o seu estado catatónico sempre foi capaz de a justificar e perdoar, pelo que ao longo do livro fui aprendendo a fazer o mesmo sempre que ela pisava o risco. Phoebe e Zane são apresentados pela óptica caleidoscópica de uma mãe-galinha que só pretende proteger os filhos de um mundo perverso que lhes levou o pai cedo demais. Gostava de os ter visto mais presentes no activo, e não apenas em pensamentos ou recordações de situações recentemente vividas pela mãe, mas ainda assim foram ganhando destaque ao longo do livro. Já Fynn é o típico bem-disposto, generoso, coração de manteiga, com sentido de humor apurado que Dorothy gosta de incutir nas personagens masculinas por quem nutre um fraquinho (e ela que não o negue, que os seus livros são o comprovativo disso mesmo ;) ). Já a Tia Betty merece todo o destaque por ser aquele elemento excêntrico mas benemérito que sempre gostaríamos de ter na família. Fiquei bastante satisfeita com as suas inclusões na história, já que são esses elementos que servem de contra-balanço às conjugações que apelam à veia dramática da autora.
Nesse campo, tenho a dizer que o enredo teve a sua exploração devida, com conduções a uma série de explicações mais ou menos lógicas, e que nos fez entender todo o percurso de cada elemento da trama. Não posso contar quase nada sobre a acção principal da estória sem que vos desvende desnecessariamente algum factor que prefeririam ter acesso durante uma boa leitura. Vou apenas dizer que o mosaico criado com todas as articulações temporais e as conjugações interpessoais trouxe um livro que vale a pena ler.
Apesar de tudo, gostava de ter visto mais explorada (e de outra forma) a redação do livro de receitas de Joel (agora também da mulher), e evitar alguns acrescentos desnecessários, que criaram em certos momentos um excesso de complexidade que não trouxe nenhum conteúdo por aí além, enquanto outros elementos dignos de análise acabaram por passar por segundo plano.
Ainda assim, e para concluir, só posso dizer que o final foi bem conseguido justificando toda a narrativa, mas dando simultaneamente uma indicação de fecho do ciclo e também de continuidade numa nova realidade. Fiquei com pena que o desfecho de Fynn fosse o apresentado, apesar de perceber o motivo desse seguimento (mas no entanto não podia deixar de torcer por ele até ao fim, e fiquei um pouco desiludida por não ter a cena que esperava). De qualquer forma, vão sentir-se satisfeitos e concordar que o tempo passado com a família Mack-el-Roy (ou Mack -le- Roy como diria o Agente Clive) foi bem merecido.

Portanto já sabem: adquiram o livro e venham autografá-lo na Feira do Livro de Lisboa nos próximos dias 14 e 15 de Junho pelas 15H. A Dorothy é conhecida por dar grandes abraços aos leitores e suspeito que são capazes de precisar de algum após terminarem "Aromas do Amor".

Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

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