Opinião: Vingança de Sangue, de Wilbur Smith


Vingança de Sangue
de Wilbur Smith

Edição/reimpressão: 2014
Páginas: 576
Editora: Editorial Presença 

Resumo:
Vingança de Sangue é a sequela de A Lei do Deserto, obra também publicada pela Presença nesta coleção. Neste segundo volume reconhecemos de imediato a mesma intensidade dramática e o suspense levados a níveis capazes de desafiar o leitor mais intrépido. Aqui, Hector Cross tem encontro marcado com o inimigo, e fica a sabê-lo da pior forma possível, quando este ataca, sedento de sangue e vingança, assassinando brutalmente Hazel Bannock, agora mulher de Hector e nos últimos meses de gravidez.


Determinado a fazer justiça, Hector reúne os seus amigos mais leais e juntos viajam para o Médio Oriente. Mas Hector percebe que está a lidar com um inimigo de múltiplos rostos quando figuras sinistras do passado da família Bannock começam a emergir, envoltas em segredos hediondos que Hazel nunca teve coragem de lhe revelar.... 

Rating: 2/5 

Opinião: Gostam de acção, descrições sórdidas, sangue e mistério? Este livro é para vocês.
Wilbur Smith completa em 2014 cinquenta anos de carreira que merecem ser celebrados. Ao pegar num dos seus livros, nenhum leitor deixa de se surpreender e é impossível sentir-se indiferente ao enredo e à construção complexa e cheia de pormenores que ele nos traz. Ao fim de dois livros deste autor, penso ter já detectado o seu estilo, mas ainda assim deixei-me levar pela narrativa e surpreender. Em Vigança de Sangue acompanhamos Hector numa demanda vingativa e intencional contra a força desconhecida que dilacerou o seu mundo e o deixou sem Hazel, o elemento mais estável da sua vida cheia de cicatrizes e desilusões (e sobre as quais, apesar de tudo, conhecemos pouco). E se algumas peças deste mistério parecem facilmente encaixáveis, acabam por não o ser de todo e deixar o leitor agarrado da primeira à última página. 
À semelhança de A Lei do Deserto, este é um daqueles livros que se lê com uma rapidez tamanha, sendo um autêntico vira páginas. As primeiras páginas começam logo a abrir, não nos dando muito tempo para respirar e aproveitar a nova situação familiar e vivencial de Hector e Hazel enquanto um casal a passar por um período de marés calmas. Ainda assim e atendendo ao volume anterior (o qual adorei e atribui 4 estrelas), Vingança de Sangue teve algumas partes mais maçudas que deram a sensação de o livro ser ainda maior do que na realidade. Mas já explico porquê.
Mantenho a minha opinião de que as personagens deste enredo individualmente não me agradam, pelo que ganham pela construção complexa da narrativa sempre cheia de acção, descobertas, mistérios e uns ossos quebrados. É este o ponto forte do autor e com o qual ele nos deveria brindar sempre. Hector é uma personagem com a qual não me identifico de todo, e cuja estrutra me irrita muitas vezes. É machista, armado em Don Juan, supostamente despretensioso e humilde, mas com uma dose de snobismo que não me passou despercebida. É enquanto operacional que esta personagem é forte e dá gosto de acompanhar, pelo que uma vivência mais demorada na sua cabeça não me agradou por aí além, mas também não foi insuportável. Acima de tudo, foi possível confirmar as minhas primeiras impressões sobre este homem, construídas já com o volume anterior.

 É quando o mistério se adensa que damos por nós expectantes, sabendo que o autor nos vai surpreender, não sabe bem como e/ou de que forma, mas com a certeza de que vamos ficar chocados. E vamos mesmo, acreditem.
Mas se tudo é bom, então porquê este rating? Para os que desejam saber, poderão surgir alguns pontos a rondar o spoiler, ainda que sem enquadramento ou referências a personagens e/ou situações, pelo que fica a vosso risco continuarem a ler. 
Após a morte de Hazel, vão-se passando vários meses, muitas vezes delimitados por capítulos de uma página, e que foram de grande ajuda nesse sentido. No entanto, e exactamente porque defendo que esta série sobrevive apenas de um enredo de acções e emoções fortes, após as primeiras 150 páginas que me presentearam com tudo o que esperava, surgiram vários momentos banais com descrições de rotina, que pouco fizeram por mim ao longo do livro. Mas esse não é o factor que me fez gostar menos do livro, com muita pena minha, mas sim um flashback de quase 200 páginas, que tanto oscilou para momentos mais agrestes como para outros mais maçudos, que no meu entender poderiam ter sido encurtados. E o que chamo de agreste foi o que realmente me fez dar uma classificação tão baixa ao livro. Eu gosto de acção, não me importo com um pouco de sangue e violência q.b., mas o autor em algumas partes tornou-se demasiado descritivo para mim, com uma apresentação crua das situações que retractava e que me fizeram sentir desconfortável (para além de me custar a ler). Refiro-me ao retractar de violações e de cenas de pedofilia (assim como algumas de tortura que me arrepiaram até aos ossos) que para mim foram de mais. Dou a mão à palmatória ao autor, que conseguiu de facto recriar com imensa clareza estas circunstâncias e colocar-nos quase na mente de uns quantos psicopatas, mas para mim ler aquela construção de uma perspectiva tão pessoal para além de me fazer impressão, deu-me imenso nojo. Isto só prova que Wilbur Smith conseguiu chocar-me e construir algo que soa realístico, o que comprova os seus dotes como escritor. No entanto, e enquanto leitora, estragou-me o prazer da leitura que só vim a recuperar já perto do fim. Acho que muitos leitores podem gostar do livro. Com a excepção do flashback excessivo, existe todo um enquadramento lógico e uma enorme capacidade de agarrar o leitor ao ecrã. É bom para quem gosta mesmo de ler descrições cruas e um pouco violentas, e não se inibe com uma certa maldade do ser humano.
Eu não o esperava com tanta punjança, e dessa forma, este não é um livro para mim. 


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Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

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