Opinião: A incrível viagem do faquir que ficou fechado num armário Ikea, de Romain Puértolas





A incrível viagem do faquir que ficou fechado num armário Ikea
de Romain Puértolas 

Edição/reimpressão: 2014
Páginas: 208
Editora: Porto Editora 

(As primeiras páginas podem ser lidas no site da Editora)



Resumo:  O maior fenómeno de popularidade da literatura francesa atual. Traduzido em 36 países.

Ajatashatru Larash Patel, faquir de profissão, que vive de expedientes e truques de vão de escada, acorda certa manhã decidido a comprar uma nova cama de pregos. Abre o jornal e vê uma promoção aliciante: uma cama de pregos a €99,99 na loja Ikea mais próxima, em Paris. Veste-se para a ocasião - fato de seda brilhante, gravata e o seu melhor turbante - e parte da Índia com destino ao aeroporto Charles de Gaulle. Uma vez chegado ao enorme edifício azul e maravilhado com a sapiência expositiva da megastore sueca, decide passar aí a noite a explorar o espaço. No entanto, um batalhão de funcionários da loja a trabalhar fora de horas obriga-o a esconder-se dentro de um armário, prestes a ser despachado para Inglaterra. Para o faquir, é o começo de uma aventura feita de encontros surreais, perseguições, fugas e aventuras inimagináveis, que o levam numa viagem por toda a Europa e Norte de África.

A incrível viagem do faquir que ficou fechado num armário IKEA é uma aventura rocambolesca e hilariante passada nos quatro cantos da Europa e na Líbia pós-Kadhafi, uma história de amor mais efervescente do que a Coca-Cola, mas também o reflexo de uma terrível realidade: o combate travado por todos os clandestinos, últimos aventureiros do nosso século.
Rating: 3/5 

Opinião:  Se procuram um livro ligeiro, bem-disposto e que vos faça sorrir por uns instantes, Ajatashatru Larash Patel, mais conhecido por Laracha ou por uma série de palavras a compôr frases impenetráveis (só perceberá quem der uma hipótese a este livro) será o responsável por umas quantas horas agradáveis. Apesar de ser um contexto muito diferente, e com um enredo também diferenciado, foram várias em que me veio à memória o filme "Está Tudo Louco!" de 2001. Com várias peripécias, personagens peculiares, situações cómicas e totalmente fora de contexto, existiram vários momentos que fizeram lembrar o quão louco era realmente o enredo, e que não fica nada atrás neste livro. Ou não estivéssemos a falar de alguém que fica fechado num armário. Do Ikea. Em França. Quando ia às compras.
E deixem-me dizer que algo que aprendi com este livro foi que visitar um IKEA em Alfragide ou em Paris é a mesma coisa. A descrição da loja foi tão clara que me vi a passear mentalmente no de cá, sem ser capaz de encontrar alguma diferença. Ser ser o sari da empregada da cozinha. 
Larash é uma personagem peculiar com um objetivo muito concreto: comprar uma cama de pregos IKEA em promoção (porque é que se venderia algo do género em Paris ultrapassa-me). Mas o que parece uma missão (relativamente) simples irá revelar-se um desafio intenso, imprevisível, caricato e cheio de revelações, apoteoses, e pequenas reflexões sobre o ser humano em várias situações muitas vezes vistas como banais, mas que transformarão o nosso personagem. Uma das partes mais divertidas, e este é um pequeno spoiler, passa exactamente por esta personagem encarnar um vigarista da maior espécie, e que não só se irá (naturalmente) enterrar até ao pescoço por causa disso, como justificará muitas acções e resoluções tomadas por si (que consideraríamos idiotas) e que inexplicavelmente lhe irão correr sempre de formas que o leitor não estava à espera. Não deixa de ser um livro previsível, mas com aquele tipo de previsibilidade que só é visto ao último minuto, ainda que garantamos que estava sempre lá. Está escrito com uma linguagem leve, divertida, capaz de nos fazer passar bons momentos. Confesso que em algumas partes senti que o autor queria forçar o riso, o que me retirava parte do prazer de vivenciar as cenas, pelo que foram realmente as passagens mais naturais, em que o autor intencionalmente ou não se limitava a contar a estória e alguns dos pensamentos do personagem, que me fizeram sorrir.
As poucas personagens secundárias que surgem no livro, mas que nos acompanham até ao final, criaram o factor comédia de forma mais imediata, mas mais dinâmica e interactiva, que contribuiu para enriquecer a narrativa. 
Simultaneamente, o processo de transformação pessoal, de análise do contexto envolvente, da importância da vida e das suas particularidades perante outras e sobre o funcionamento em geral, através do cérebro e coração de um pequeno faquir vigarista, não deixam de ser chamadas de atenção para o que nos rodeia e para a necessidade de o compreender de coração aberto, com vontade de aprender e de sonhar mais longe.
Uma surpresa diferente!

Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

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