Opinião: Inverno do Mundo, de Ken Follett



Inverno do Mundo
de Ken Follett

Edição/reimpressão: 2012
Páginas: 832
Editora: Editorial Presença 

Resumo:
Este volume vem dar continuação à extraordinária trilogia de Ken Follett, O Século, depois do êxito internacional alcançado pelo volume inaugural, A Queda dos Gigantes. A história recente do conturbado século XX continua a desenrolar-se como se diante dos nossos olhos, as figuras históricas e os acontecimentos reais evoluindo e decorrendo em simultâneo com as vidas da segunda geração das cinco famílias que já protagonizaram o primeiro volume, misturando-se num grandioso e colorido fresco em amplas pinceladas que, graças a uma rigorosa fundamentação e a um talento narrativo raro, se encaixam numa totalidade cheia de vida realismo. O Inverno do Mundo decorre entre a ascensão do nazismo e as suas dramáticas consequências até ao início da Guerra Fria.
Rating: 5/5 

Opinião: É-me sempre difícil começar a opinião destes livros do Ken Follett, porque sinceramente?, como é que se disseca uma obra tão complexa, intrínseca, rica em pormenores e em vivências, em estórias humanas e em redes de acontecimentos de causa-efeito com esta? Ainda sem ter lido o último volume da trilogia, posso assegurar que este autor acabou de produzir 3 dos livros com maior qualidade que já li até hoje, e que vão constar sempre na minha lista de preferidos. Depois de ter adorado profundamente A Queda dos Gigantes (e a sua capa, maravilhosa!), Inverno do Mundo não me desiludiu e fez-me sentir em casa, num mundo já em mutação, mas perto de personagens que aprendi a acarinhar no passado.
Como sabem, eu geralmente sou uma leitora múltipla, e gosto de ter vários livros a serem lidos simultâneamente. No entanto, com este não fui capaz e quis dedicar-me inteiramente a ele. Talvez por esse motivo tenha adiado tanto para lê-lo, ainda que o tenha na minha estante desde o Natal de 2012. No fundo, quando os livros são muito bons, damos por nós tanto a querer lê-los mais depressa como a prolongar uma leitura "prazerosa". Nunca deixa de ser conflituoso.
Em Inverno do Mundo voltam estas capas lindas (ainda que goste mais da referente ao primeiro livro da trilogia), no meu entender muito melhores do que a versão original, e que nos anunciam o retomar de um enredo encruzilhado que acompanha cinco famílias por cinco partes do mundo, desta vez em pelo período de ascensão do Partido Nazi e consequente deflagrar da II Guerra Mundial.
Iniciando-se em 1933, podemos acompanhar a prole de Gus e Rosa, Walter e Maud, Ethel e Bernie, Greg e Olga, Boy e Bea e tantos outras personagens secundárias que de alguma forma de cruzam nesta trama, e descobrir os posicionamentos sobre os acontecimentos de ordem mundial, as personalidades, as mágoas e obstáculos, os amores e a força de vontade, a humanidade de cada um. De facto, apesar de ser a continuação do anterior, e continuarmos a presenciar considerações das personagens do I volume, esta é a história dos seus descendentes, e é o seu ponto de vista que prevalece. Sendo natural que assim seja, senti por vezes uma certa nostalgia de não poder estar na "cabeça" de alguns personagens tão acarinhados na temporada anterior, e que neste livro surgem mais fugazmente, atendendo a que o enredo não é sobre eles, mas sobre o resultado das suas escolhas, e sobre uma descendência com os seus próprios valores, objectivos, sonhos e expectativas. Fiquei ligeiramente tristonha com o desfecho de alguns ou com o resultado do que se tornaram, mas faz parte da vida. As pessoas não são as mesmas aos 45 do que eram aos 15, e este é um ponto indubitavelmente em destaque na obra de Follett, ainda que inserido com a sua típica subtileza.
Ainda sobre as personagens, curiosamente são os filhos daqueles que menos me disseram no primeiro volume que aqui brilham e enchem as páginas. Adoro o Woody e o Chuck e o Lyod (todos personagens masculinas, bem sei, mas são os que estão em maioria desta vez), e numa segunda instância a Carla, ainda tão parecida com os pais mas com uma entidade própria que salta à vista desde muito longe. São todos simultâneamente heróis e anti-heróis, personagens com um leque de vivências que demonstra o quanto o ser humano não é só uma coisa, e que todos têm simultâneamente um fundo bom e mau, generoso e egoísta, supérfluo e maduro, pragmático e emocional. São seres humanos, são pessoas com as quais nos cruzaríamos na rua num outro tempo e com as quais nos poderíamos identificar.
Por falar em melancolia, e talvez por o autor ter nascido em 1949 (o que significa que os seus pais terão presenciado as consequências da II Guerra Mundial), senti por vezes um clima mais cinzento, mais depressivo, até mesmo cercando os momentos felizes durante o livro. Obviamente num clima potencialmente tenso e complicado da História Mundial, seria impossível obter uma formalização ligeira, mas acho que em A Queda dos Gigantes, quando as personagens tinham um momento feliz no meio do caos, conseguia senti-las efectivamente felizes. Neste caso, os momentos bons foram sempre meio agridoce, sem permitirem grande efusismo e representando uma pequena gota no meio do oceano. De facto, acho que se no volume anterior depois de todas as desgraças, em alguns casos algumas personagens acabaram mesmo felizes, ou pelo menos com a recompensa merecida, neste livro nunca ocorre nenhuma com essa totalidade (existindo sempre uma fatalidade a enegrecer o horizonte).
Ainda assim, nada disso estraga o enredo, deixando apenas um desejo de que as coisas corram melhor em No Limiar da Eternidade e que depois de tantos desencontros e desgraças, de tanta dor causada por terceiros e pelas inibições auto-impostas, todos possam ter uma conclusão mais justa.
Por outro lado, e tal como já tinha descrito no volume anterior, sente-se o esforço e dedicação perante o pormenor do plano histórico da ação.
Apesar de existirem vários elementos judeus neste livro, gostei que por uma vez não se retractasse a questão dos campos de concentração em primeiro plano, não porque não são importantes ou porque não devam ser lembrados (devem sempre, para que não haja quem possa negar a sua ocorrência, como já se começa a ver por aí..), mas porque o autor se centrou na vida de várias famílias, em representação dos que não foram um alvo a abater pelos regimes fascistas numa primeira instância, mas que sofreram na pele os horrores de um governo com o qual não se identificavam e sobre uma guerra na qual não queriam participar, e que nem por isso estavam mais a salvo que os restantes.
Ainda assim, e perante o modelo anterior, passámos mais tempo com as personagens e com as suas vivências familiares do que em análises dos variados momentos históricos, também porque as personagens anteriores se encontravam maioritariamente ligadas à política e aos corpos diplomáticos, o que já não acontece com tanta preponderância neste volume. Faltava se calhar um maior destaque às transformações da sociedade do pós- I Guerra, de forma a dar continuidade à análise sócio-económica e político-geográfica iniciada no seu antecessor.
Ken Follett, se eu ainda não soubesse, diria que acabaste de te tornar num dos meus autores preferidos.

E como dizia hoje de manhã no Facebook, façam uma série desta trilogia!
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Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

1 leitores reagiram:

  1. Quero mesmo muito, mas acho que vou ler em ebook em vez de esperar pelo blogring :x

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