Opinião: Eu, Earl e a tal Miúda, de Jesse Andrews




Eu, o Earl e a tal Miúda
de Jesse Andrews
 
Edição/reimpressão: 2015 
Páginas: 304
Editor: Topseller
  



Resumo: 

O mais divertido livro sobre a morte que os jovens alguma vez vão ler.
Esta é a história criativa e comovente de Greg, um finalista do secundário cujo único objetivo é manter-se completamente anónimo e evitar quaisquer relações profundas.
Para ele, essa é a melhor estratégia de sobrevivência no verdadeiro campo de minas social que é a vida de um adolescente. Juntamente com Earl, Greg faz curtas-metragens parodiando filmes clássicos, o que os torna mais colegas de trabalho do que propriamente amigos.
Tudo corria bem até ao dia em que a mãe de Greg insiste com ele para passar algum tempo com Rachel, uma miúda da sua turma que acabou de ser diagnosticada com cancro. Lentamente, Greg descobre que um pouco de amizade não faz mal a ninguém.
Tão tocante quanto divertido, o livro de estreia de Jesse Andrews inspirou o filme aplaudido pela crítica e duplamente premiado no prestigiado Festival de Cinema de Sundance 2015. Uma história capaz de partir o coração sem roubar uma só gargalhada.

Rating: 2/5

Comentário: Eu, Earl e a Tal Miúda é aquele livro de que todos já ouvimos falar, que despertou mais ou menos interesse, e que a adaptação cinematográfica e um trailer bem conseguido acaba por despertar um enorme interesse sobre si.
Este foi pelo menos o meu percurso com este livro, que me despertou muitas expectativas, embora me tenha acabado por deixar algo desiliudida.
Quando dizem que este não é um livro sobre cancro, não o é mesmo, pelo que se esperam uma abordagem à lá "A Culpa é das Estrelas", talvez não seja uma boa aposta. Foi mesmo pela procura desse cunho original e da abordagem não focada mas que não ignora a doença que me fui aproximando deste livro. Ao fim ao cabo, é também o que a sinopse nos vende. Esta é certamente garantida pelas páginas da obra, embora com até alguma negligência. Rachel tem cancro, mas podia ter hepatite, esperar um transplante de coração ou até mudar-se para o Alasca. O que fica patente em todos os momentos é que esta se encontra a passar por uma fase fragilizada e que o seu desaparecimento do universo ao qual temos acesso acontecerá a qualquer instante. No entanto, ela quase que nunca está efetivamente presente, vivendo de referências de personagens secundárias que a transportam para o assunto principal e que ajudam a construir um puzzle, ainda que tangente, que abarque este lado da narrativa.
Greg e Earl são personagens peculiares também, muito adolescentes mas também caricaturas exageradas (embora não menos reais por isso), mas que infelizmente se esforçam tanto por fugir aos clichês e para serem modernos, que tendem a recair nas abordagens habituais do que é uma visão da adolescência por vezes um pouco rude, numa tentativa vã de se aproximar à realidade de uma forma bonacheirona e/ou diferente.
Ter o Greg como personagem principal trouxe um lado genuíno, onde sobressai o egocentrismo, a auto-depreciação constante e a desilusão com a vida como características típicas da adolescência, mas também uma série de mecanismos de defesa que reforçaram a necessidade constante de indiferença e de proteção com o mundo em geral e com o que pode causar mágoa. As suas diligências e a própria relação tanto com Earl como com Rachel são sinónimos deste comportamento.
No entanto, e na igual medida em que por vezes compreensão e paciência não chegam para lidar com jovens mais intensos, estar na mente deste personagem acabou por se tornar cansativo, aborrecido e irritante em igual medida, não existindo hipótese de fuga para o leitor. Os comentários depreciativos constantes sobre si e sobre o mundo deixam de ter piada após terem sido emitidos pelas quarta ou quinta vez, reforçando só a necessidade de despertar a atenção a este miúdo de que há mundo para lá dele mesmo e que a vida não acaba na escola ou em todas as situações que este considera embaraçosas ou potencialmente esmagadoras do equilíbrio de sobrevivência por si criado. E atendendo que todos os jovens passam por isto, acho que o ponto de discórdia passa pelo facto deste rapaz ter estado constantemente com um discurso demasiado irascível neste aspecto (a título de exemplo, enunciava a torto e a direito querer dar um murro na sua cara - que ele achava totalmente merecedor - por dá cá aquela palha). No meio disto tudo, não deixa de ser uma personagem algo plana e sem todas as nuances que poderiam ter tornado este livro muito bom. Do livro todo, destaco Earl, que poderia ter sido a personagem se melhor limado, com menos placidez no que respeita aos seus diálogos e postura, atendendo a todas as intervenções certeiras que fez.
Por outro lado, julgo que é válido referir que por vezes o simbolismo tem maior impacto e pode ser transformador. Esperava corroborar esta afirmação já perto do fim do livro, atendendo a uma iniciativa conjunta do Earl e do Greg, mas até essa ficou propositadamente distorcida (e embora percebendo a intenção do autor, tanto neste momento como ao longo de todo o livro, não consegui retirar prazer dessa sensação frustrada).
Por fim, julgo ser importante referir que o cunho da originalidade também se demonstrou pela forma de condução da narrativa, com várias nuances onde se incluía a escrita em versão de guião, e o livro em si, como se percebe pelas últimas páginas (embora essa descoberta só tenha tornado a leitura anterior um processo um pouco mais desgastante, irrealista e frustrante).
Embora conseguindo perceber o sucesso que está por detrás do livro, pela junção de vários componentes que até acabam por resultar no conjunto, Eu, Earl e a Tal Miúda acabou por não se revelar como o meu tipo de livros.

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

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