Opinião: Furiosamente Feliz, de Jenny Lawson

 
Furiosamente Feliz

de Jenny Lawson
 
Edição/reimpressão: 2016
Páginas: 320
Editor: Marcador
  




Resumo:
Furiosamente Feliz é sobre agarrar os momentos em que as coisas estão bem e transformá-los em momentos fantásticos, porque esses instantes são aqueles que nos fazem ser quem somos e nos levam para a batalha que travamos connosco sempre que o nosso cérebro declara guerra à nossa existência. Essa é a diferença entre «sobreviver à vida», e «viver a vida». Essa é a diferença entre estar «são» e estar «furiosamente feliz».

«Irá desatar à gargalhada, esboçar um ligeiro sorriso, contorcer-se com algum desconforto, chorar e, finalmente, desatar novamente a rir.»
BRENÉ BROWN, PH.D., LMSW, autora do #1 Bestseller do The New York Times, A Força da Coragem


Rating: 4/5

Comentário: Junho foi um mês de poucas, mas de óptimas leituras, em parte devido a Jenny Lawson. 
Não tenho por hábito ler autobiografias ou ensaios autobiográficos, mas Furiosamente Feliz foi daqueles livros que de tão falados acabou por despertar a minha atenção. 
Este é mais do que um livro sobre doenças mentais ou de superação, é uma colectânea de peripécias na vida de alguém que não nega as condições de saúde que lhe assistem, como quem não pode negar um pedaço de si, mas que também não as torna na sua história, como se só isso importasse. Este é um aspecto digno de coragem a ressalvar, e Jenny demonstra-o sem pudor ou pretensionismo. 
De facto, os ataques de ansiedade, as tendências para a auto-mutilação, as crises depressivas e uma certa neurose estão sempre lá, e são também as potenciadoras de novas peripécias. Mas não brilham ao ponto de roubar a voz a Jenny, que é muito presente, vívida e provocadora. E esse é um dos aspectos que tornam este livro mais merecedor de atenção.
Jenny é sem dúvida um ser humano que não tem medo de desvendar a sua complexidade, que adopta o inusitado e o fora do comum como causa e segunda pele, e que arrasta consigo família e amigos. Ela poderia até ser aquela amiga "maluca" que se mete sempre em confusões e sem a qual não conseguem viver nem acompanhar ou "aguentar" por muito tempo seguido. Porque ela é completamente louca, e não me refiro ao seu estado clínico! Desde uma apetecência para interromper o marido em situações indevidas a deixar qualquer pessoa com que se cruze numa pilha de nervos devido a respostas improváveis e descontextualizadas, esta é a Jenny. E é também um dos pontos fortes do livro.
Através de uma colecção de ensaios independentes e pouco articulados (o que acaba por ser um ponto contra o livro, uma vez que se salta de assunto para assunto com uma rapidez estrondosa) conseguimos ter acesso a um vislumbre da sua vida, da sua relação familiar, da forma como o amor e a compreensão andam de mãos dadas mas se manifestam de formas diferenciadas e nem por isso menos importantes. É também uma abordagem honesta sobre o que é viver com doenças mentais ou com alguém que as detenha, sendo também uma chamada de atenção para um elemento bastante básico: cada ser humano é diferente e cada doença, mesmo que igualmente diagnosticada, será diferente de pessoa para pessoa. Por esse motivo, acaba por ser uma leitura recomendada para quem está a passar por algo semelhante ou por quem rodeia alguém nas mesmas situações, mas também com uma forma para acabar com respostas pouco empáticas e compreensivas por quem por vezes não entende que uma doença mental não difere de uma doença física senão nos sintomas e nas consequências: é real e deve ser abordada como tal. Num dos ensaios presentes neste livro, Jenny aborda esta mesma temática, fazendo a comparação entre um doente oncológico, demonstrando que em caso remissão da doença, a movimentação geral em volta dessa pessoa é de festejo e parabenização, em oposição a um doente com depressão, a quem nunca ninguém dedica o mesmo tempo ou sistema de celebração em caso de vencimento da doença. Quem já tiver convivido de perto, seja por ter passado pelos processos ou porque conhece quem os vive, certamente compreende o que ela enuncia com uma enorme clareza. Acaba portanto por ser também um livro de esclarecimento sem se tornar pregador, castigador ou desconfortável para o leitor; passando mais por uma amigável chamada de atenção para uma situação que é real e muitas vezes negligenciada.
Confesso que por vezes a falta de articulação entre ensaios já anteriormente descrita e a colocação de alguns para o final do livro que me pareceram isentos de sentido acabaram por estragar em parte um pouco a leitura já que desequilibrou a narrativa.  Ainda assim, não foi suficiente para quebrar o enlevo criado pelo livro no geral, servido só de apontamento de referência para futuros livros da autora.
Passando para a parte que ditou o nome a este livro, o movimento Furiosamente Feliz, ele está sempre presente: nas histórias mirabolantes contadas pela autora, no estilo cadenciado e jocoso da autora, na demonstração de que não, não somos sempre felizes, mas que por vezes podemos ser e devemos tentá-lo. E que esse é também um exercício que como todos os projetos dignos desse nome, necessita de ser repetido e exercitado até se tornar mecânico.
De algumas opiniões que fui posteriormente à minha leitura, a autora é por vezes considerada forçada nas suas tentativas de fazer rir o leitor, afirmações com as quais discordo. Não porque não estejam lá presentes essas expressões mais ditas forçadas, mas porque elas estão a ser escritas essencialmente da Jenny para a Jenny. Esse exercício de fingimento existe especialmente para si, numa tentativa de agarrar-se a um estado furiosamente feliz, uma vez que se uma situação for assim tão extraordinária e com uma resposta perspicaz mas também sagaz e bem-humorada, então esse é um sinal de que a autora prossegue num bom caminho, num que a mantém afastada dos seus núcleos negros.
Mas é também natural em muitas ocasiões, que tiveram o condão de me colocar a sorrir e a abanar a cabeça para esta mulher muitas vezes destrambelhada a quem só apetece dar um abraço quando a vemos perdida num mundo de divagações que comprovam que ela não é deste mundo, é do seu mundo. E é um mundo bonito, que gostei de conhecer. Muitas vezes dei por mim com um sorriso no rosto e dei algumas pequenas gargalhadas com ela, o que comprova que esta é definitivamente uma leitura que vale a pena.

Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

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