Opinião: O Ano da Dançarina, de Carla M. Soares


 
O Ano da Dançarina
de Carla M. Soares
 
Edição/reimpressão: 2017
Páginas:392
Editor: Marcador
  





Sinopse: 
No ano de 1918, o jovem médico tenente Nicolau Lopes Moreira regressa da Frente francesa, ferido e traumatizado, para o seio de uma família burguesa de posses e para um país marcado pelo esforço de guerra, pela eleição de Sidónio Pais e pela pobreza e agitação social e política.

No regresso, Nicolau vê-se confrontado com uma antiga relação com Rosalinda, dançarina e amante de senhores endinheirados, e com as peculiaridades de uma família progressista.

Enquanto a Guerra se precipita para o fim e, em Lisboa, se vive a aflição da epidemia e da difícil situação política, a família experimenta o medo e perda, e Nicolau conhece um amor inesperado enquanto trava as suas próprias batalhas contra a doença e os próprios fantasmas.

O Ano da Dançarina é um romance de grande fôlego, histórico, empolgante e profundo, sobre a superação pessoal e uma saga familiar num tempo de grande mudança e turbulência em Portugal.

Rating: 4,5/5
Comentário: Confesso-vos que nem sei bem como começar esta opinião ao mais recente livro de Carla M. Soares, pelo que optei por ir buscar o comentário que escrevi no goodreads mal terminei uma leitura, desenfreada, que me deixou algumas noites de insónias:
"Apesar de ter gostado de vários livros da autora, este foi de facto o que me encheu as medidas e ao qual me rendi. E nem me refiro já ao estilo de narrativa, sempre cuidado e um pouco lírico, com muito embalo e mestria na composição de uma história. Rendi-me porque tenho um fraco por histórias familiares, porque me apaixonei por todas as personagens cuja comparência me soube sempre a pouco na impossibilidade de as desnudar a todas numa história centrada essencialmente num único irmão, porque Lisboa se viveu e respirou nestas páginas e ainda hoje, tantos meses depois de ler um dos primeiros esboços, vários momentos me ecoam na mente quando passo pelos ditos locais. Preencheu-me e deixou-me um pouco vazia também, já com saudades, e um dos que irei estimar e reler de tempos a tempos. a opinião completa sairá em breve no blogue."
Partindo deste ponto, volto a reafirmar que este foi o livro que me rendeu totalmente à escrita da Carla. Já tinha gostado bastante dos anteriores, mais pelo estilo literário do que pelas histórias, que ainda que bem construídas e delineadas contextualmente, me faziam ficar sempre aquém, devido à centralização em casais que nunca me convenceram por completo e a desejar desvendar outras secundárias, com pouco tempo de antena. 
Em o "Ano da Dançarina", para além de um trocadilho genialmente inserido que só descobrirão a meio, todas as personagens têm a oportunidade de brilhar, sobrepondo as fraquezas de umas pela força narrativa eminente de outras. 
A família Lopes Moreira representa um núcleo filial cheio de  laços de fraternidade e carinho, construção colectiva e muitas ramificações de força e sonhos, que poderemos acompanhar com mais detalhe ao longo de quase 400 páginas. Todos, até os mais novos (mesmo que este apareçam em terceiro plano) demonstram ser personagens construídas com personalidade individual, e conquando o leitor se digne a olhar para um por si só, poderá retirar daqui uma experiência de leitura estupenda. 
Um dos factores que achei mais interessantes foi o início desta narrativa, conseguido quase que a media res, dando-nos conta de uma vida já passada, com repercussões presentes, e todo um historial familiar que daria um livro extraordinário por si só. A vida da mãe e do padrasto no Brasil, a vivência societal das duas realidades do atlântico, a I Guerra Mundial e a vivência dos soldados em França junto às trincheiras, todos conjuntos narrativos cheios de nuances que constituiram um puzzle de retalhos unido com primor e muita destreza construtiva. 
Tenho também a dizer quem embora tenha lido esta história ainda em versão experimental, quase meio ano antes do seu lançamento, vi-me completamente embrenhada na narrativa de tal forma que o li em dois dias, com madrugadas pelo meio, e ainda me deixei tocar mais pela narrativa, agora somente na posição de leitora sem qualquer tipo de responsabilidade. Senti-me surpreendida e tocada pela narrativa, de coração cheio com tantas personagens deliciosas de descobrir e plenamente satisfeita com a experiência. 
Como dizia no início, em "O Ano da Dançarina" reúnem-se todas as condições para assumir uma leitura como uma das minhas preferidas:  para além da continuidade da escrita brilhante, segue-se uma contextualiação histórica acertiva e detalhada (e com muita aprendizagem não impositiva pelo meio), uma coerência descritiva e de acontecimentos sucedâneos e personagens que falam connosco e são partes de nós. 
E por falar em personagens, ainda que a nossa perspectiva se centre em Nicolau, é impossível não validar a presença de várias figuras femininas de presença forte, cada uma à sua maneira, e todas senhoras do seu querer e vontade. É um livro que não as exalta por si só, mas que reforça o valor de sonhar alto e de procurarmos corresponder às nossas expectativas, sem olhar a terceiros e sem inibições externas. Não há falta de fibra a nenhuma delas, e a integridade de actuação de todas, em conjunto com os irmãos, demonstra os valores fortes sobre os quais assentou a educação e evolução desta estepe familiar. 
O único momento que continua a não me render na totalidade passa pelo plano do romance, que embora eu já antevisse e até tivesse ficado contente pelo seu seguimento, me pareceu pouco sustentado. Mas esta análise prende-se mais com o meu pragmatismo pouco romantico que procura construção pela convivência e pelos momentos e que torce quase sempre o nariz a declarações de cariz sentimental, por mais sentidas que estas sejam.
À excepção disso, "O Ano da Dançarina" é uma história apaixonante, completa, capaz de nos agarrar de forma conpulsiva à narrativa e com uma série de detalhes aos quais iremos querer olhar com pormenor. Adorei, fiquei com estas personagens gravadas em mim, e que continuam a recorrer-me à memória de tempos a tempos, tendo entrado na lista dos meus livros preferidos. Parabéns Carla, espero o próximo!
 

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

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