Opinião: Viajante à Luz da Lua, de Antal Szerb



 
Viajante à Luz da Lua
de 
 
Edição/reimpressão: 2017
Páginas: 272
Editor: Guerra e Paz
  




Sinopse: 
Mihály, um homem de negócios de Budapeste, vai passar a lua-de-mel em Itália com a mulher, Erzsi. Os problemas começam na primeira paragem, Veneza, mas é em Ravena que um antigo amigo de Mihály perturba o casal com histórias do passado. Ao perder o comboio para Roma, Mihály foge da mulher e vagueia pelo país, numa viagem de autodescoberta. Dividido entre o desejo e o dever, o que quer e o que os outros esperam de si, a boémia da adolescência e as responsabilidades de adulto, Mihály reencontra os seus fantasmas e questiona o sentido da vida.
Amor e morte cruzam-se neste romance trágico cómico de 1937, uma obra-prima do húngaro Antal Szerb, traduzida em diversos países, e que chega finalmente a Portugal.
 
Rating: 3,5/5
Comentário: Antal Szerb nasceu em 1901 em Budapeste, filho de pais judeus, e foi morto num campo de concentração em 1945. Tinha 43 anos, e contabilizava entre os seus feitos a nomeação como Presidente da Academia Literária Húngara e vários romances publicados, para além de ter ganho duas vezes o prémio Baumgarte. "Viajante à Luz da Lua" foi publicado em 1937. 
Fiz esta breve introdução com a intenção de enquadrar esta obra, já que nada nela faz enunciar a época em que se insere. Esta é uma obra pessoal, de consciência, de análise dos sentimentos que nos regem e dos valores e sonhos que nos movem. É uma reflexão sublime sobre a importância da lealdade, da responsabilidade perante os nossos pares, sobre o quando o nosso passado e as nossas experiências nos definem ou influenciam. 
Mihály é um adolescente no corpo de um homem adulto, que se rege pela vivência de juventude perdida para reger as suas decisões. É também, embora não surja directamente escancarado no texto, alguém que sofre de depressão e que lida com períodos de incapacidade atrozes que o submetem ao seu mundo demonizado e introspectivo. É esta a personagem que nos guia por estas páginas numa viagem que não passa tanto pela Itália real como pela da sua percepção sensorial. O encontro com personagens e elementos do seu passado são não menos do que projecções que secundam o seu trajecto psicológico e íntimo do encontro do ser entre a persona que povoa e se representa nestas páginas para o mundo exterior e aquela que habita o seu íntimo. 
O desaforo de lhe ser desconhecido o desfecho de algumas personagens que o acompanharam durante um período particularmente prolífero da sua vida, e a forma como ele reflecte essa angústia e acontecimentos nas decisões mais ou menos impulsivas que vai tomando. 
Não é sempre fácil acompanhar a viagem mental de Mihály ou compreender (ou querer conviver) com as suas escolhas, e alguns comportamentos poderiam ser incompreensíveis se não nos recordássemos de se tratar de uma narrativa de época. Ainda assim, as nuances nem sempre claras do seu intento que surgem por meias palavras e subterfúgios, os dilemas que povoam a sua mente e não declarados senão no momento que a personagem ocorre tornar oportuno, acaba por tornar esta viagem um enigma a ser desvendado. 
Julgo ser a minha estreia com a literatura húngara e futuramente gostaria de ingressar em leituras de outros autores locais, possivelmente com uma maior reflexão sobre o contexto sociocultural do país.                                  

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

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