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segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Opinião: Krabat, O Moinho do Feiticeiro, de Otfried Preußler



 
Krabat, O Moinho do Feiticeiro
Otfried Preußler
 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas: 256
Editor: Sextante





Sinopse: 
Um romance clássico da literatura de língua alemã, Krabat – O Moinho do Feiticeiro tem como pano de fundo histórico a Grande Guerra do Norte – travada entre potências que, no primeiro quartel do século XVIII, disputavam entre si a hegemonia no centro-leste da Europa.

Otfried Preussler conta-nos a história do aprendiz de moleiro Krabat e da sua luta para libertar a azenha da maldição do Mestre-moleiro. Rituais de magia negra e de liturgia cristã, sonho e realidade, amizade e ódio coexistem no mesmo espaço da narrativa, criando uma complexa teia de mistérios por desvendar e de perigos sempre à espreita.

Rating: 3/5
Comentário: Nada como o início do ano para escrever este livro, até porque a ideia da renovação e a mística do ritual de término da transladação da Terra está sempre presente.
Otfried Preußler escreveu "O Moinho do Feiticeiro" em 1971 e o romance juvenil tornou-se um clássico na literatura alemã, tendo sido distinguido com prémios como o Prémio de Literatura Juvenil Alemã (1972) e o Prémio Europeu do Livro Juvenil da Universidade de Pádua (1973). Para além de ter sido traduzido em 37 línguas, existe há uma adaptação ao cinema que, ou passou somente nos circuitos de língua alemã, ou passou-me despercebida porque tinha um total desconhecimento sobre esta história.
O que me atraiu para a sua leitura, para além de um olhar complacente e simultaneamente incisivo sobre um contexto histórico para uma parte da Europa raramente abordada na literatura vendida em Portugal, foi o facto de apresentar um enredo que apelava à magia negra e à simbologia inerente. Magia essa que não segue os preâmbulos criados pela saga do Harry Potter uns anos mais tarde, mas que se agarra às raízes da bizarria e do misticismo do oculto, que poderia não ser vista como indicada para jovens. Não fosse esta uma narrativa construída por camadas, e com várias interpretações à lus da dimensão analisada.
Numa constante dicotomia entre luz e escuridão, paz e guerra, conhecimento e ignorância, o autor traz-nos uma narrativa assente em metáforas e alegorismos, simbologia diversa e introdução de arreigos morais que criam um paralelismo constante entre duas forças que conduzem a narrativa.
Krabat, enquanto rapaz inocente, defronta-se com a argúcia e inteligência do Mestre-moleiro, cuja sagacidade o torna o senhor e capataz não só do Moinho, como da vida de 13 rapazes que compõem a sua força de trabalho. As imagens da brancura da farinha resultante do trabalho desenvolvido no negrume, a compleição dos rituais de compromisso em noite de liturgia sagrada, o reforço do conhecimento enquanto verdadeiro poder sobre a força bruta, são algumas das variantes em análise trazidas pelo autor. Mas são também mecanismos de apoio narrativo, que contam uma história bem mais leve e simples, se vista somente pela óptica narrativa - clara e fácil de entender pelo leitor juvenil.
São estas subtilezas inerentes à trama principal, também com laivos de contexto histórico e fundamentos das histórias tradicionais e populares germânicas, que tornam "O Moinho do Feiticeiro" um enredo mais denso do que inicialmente esperado, mas levado a cabo com mestria e afinamento modular, onde cada ritual de passagem (desde o mundo dos sonhos mudança de um ano para o outro) incute uma peça da trama que merece ser analisada individualmente.
Não obstante, Otfried apresenta uma narrativa corrente e facilmente lida pelos jovens, com os fundamentos certos para criar uma narrativa envolvente, mas também um enquadramento místico que transpira mistério e capacidade de superação e renovação.


Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Opinião: A minha avó pede desculpa, de Fredrik Backman



A Minha Avó Pede Desculpa
de Fredrik Backman
 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas: 336
Editor: Porto Editora
  


Sinopse: 
Elsa tem sete anos de idade, quase oito, e é diferente. Para já, tem como melhor - e única - amiga a avó de setenta e sete anos de idade, que é doida: não levemente taralhoca, mas doida varrida a sério, capaz de se pôr à varanda a tentar atingir pessoas que querem falar sobre Jesus com uma arma de paintball, ou assaltar um jardim zoológico porque a neta está triste. Todas as noites, Elsa refugia-se nas histórias da Avozinha, cujo cenário é o reino de Miamas, na Terra-de-Quase-Acordar, um reino mágico onde o normal é ser diferente.

Quando a Avozinha morre de repente e deixa uma série de cartas a pedir desculpa às pessoas que prejudicou, tem início a maior aventura de Elsa. As cartas levam-na a descobrir o que se esconde por detrás das vidas de cada um dos estranhíssimos moradores de um prédio muito especial, mas também à verdade sobre contos de fadas, reinos encantados e a forma como as escolhas do passado de uma mulher ímpar criam raízes no futuro dos que a conheceram.

A minha avó pede desculpa é uma belíssima história, contada com o mesmo sentido de humor e a mesma emoção que o romance de estreia de Fredrik Backman, o bestseller internacional Um homem chamado Ove.

Rating: 4,5/5
Comentário: Há livros que nos conquistam com as suas narrativas. Este foi um deles.
Elsa é uma miúda cheia de sorte. Porque teve uma avozinha como a sua. E a Avozinha teve o maior dos tesouros, por poder partilhar um mundo de magia e aprendizagens com a sua neta, a pessoa que mais amou em todo o Mundo.
É precisamente através desta menina, cheia de genica e garra, que apesar de vítima de bullying não baixa os braços e se estende à derrota, e encontra formas de resposta (mesmo que estas não correspondam ao por si esperado) que nos vamos ligando e derretendo perante o seu olhar narrativo, já que é através dela que conhecemos toda a história. E também por isso é necessário, mesmo com uma escrita bastante fluída e leve, ler com atenção os relatos desta criança, para quem não passem despercebidos os ciúmes e inseguranças com o irmão mais novo, o medo de rejeição do padrasto quando o novo irmão nascer, o não ter nunca mais uma parceira de brincadeiras, agora que a avó se foi...
Existe uma ternura inalienável nas relações de avós e netos, especialmente naquelas que são dotadas de uma série de códigos especiais, rituais de convivência e amor, segredos que nem se partilham entre pais e filhos  e toda uma mescla de movimentos identificativos que tornam estas relações tão especiais. A desta avó e neta ainda ganha um destaque maior pelo imaginário e universo criado para esta neta, pautado por histórias que compõem toda uma realidade alternativa, e que de uma forma que Elsa nem imagina, irá condicionar toda a narrativa. Porque estas histórias serão a chave para a condução da narrativa, cujo desfecho e enlace será traduzido com mestria, delicadeza e uma enorme sensibilidade.
Outro ponto muito forte nos livros de Fredrik Backman, já sentido com "Um Homem Chamado Ove" é a importância do espírito de comunidade, da partilha de vivências entre vizinhos e das necessidades de não nos isolarmos. A teia que une estas personagens, que surge na edificação de um prédio onde todos habitam, traz mais nas suas estruturas do que seria inicialmente esperado.
A forma como estas personagens se interligam, com as mais diversas e complicadas personalidades, tendo como fio condutor esta miúda destemida, é uma delícia de descobrir. 
Com muitas mensagens especiais sobre a vivência e a condição humana, que são apresentadas com delicadeza e de forma subtil, o autor traz-nos uma belíssima narrativa, uma história familiar, e a noção importante que os laços, quando fortes, perduram para lá da morte.

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

terça-feira, 12 de junho de 2018

Os Altos e Baixos do Meu Coração, de Becky Albertalli




Os Altos e Baixos do Meu Coração
de Becky Albertalli
 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas: 288
Editor: Porto Editora
  


 

Sinopse: 
Aos 17 anos, Molly sabe tudo o que há para saber sobre o amor não correspondido. É que a jovem já se apaixonou 27 vezes, mas sempre em segredo. E por mais que a irmã gémea, Cassie, lhe diga para ter juízo, Molly tem sempre cuidado. É melhor ter cuidado do que sofrer.
Quando Cassie se apaixona, a sua nova relação traz um novo círculo de amigos. Dele faz parte Will, que é engraçado, namoradeiro e um excelente candidato a primeiro namorado da Molly.
Mas há um problema: o colega de Molly, Reid, um cromo e fã incondicional de Tolkien, por quem ela jamais se apaixonaria… certo?
Uma história divertida e comovente sobre primeiros amores e a importância de sermos fiéis a nós mesmos.


Rating: 4/5
Comentário: Becky Albertalli, quem me dera que tivesses escrito estes livros quando eu era adolescente. Porque acredita, teriam feito toda a diferença.
Estou a escrever-vos esta opinião com a companhia dos Florence and The Machine, aproveitem para os ouvir quando lerem este livro, porque é decididamente a sua banda sonora (vão descobrir porquê).
Li "Os Altos e Baixos do Meu Coração" num ápice, durante a tarde de hoje, porque precisava de uma leitura descontraída depois de umas semanas algo tumultuosas. Quando o acabei, fiquei cheia de vontade de partilhar convosco o porquê de não poderem perderem este livro (no caso de serem fãs de YA), e podem crer que me deito com o coração quentinho.
Julgo que nem a sinopse original nem esta fazem jus ao enredo. Porque sim, é sobre a Molly e sobre o seu coração palpitante; mas é muito mais do que isso. Porque todos os livros desta autora se debruçam essencialmente sobre uma necessidade primária de todos: a aceitação e a inclusão, seja ela resultante de que factor estiver em causa.
Não me vou debruçar sobre o conceito inclusivo, porque tal como a autora não lhe dá evidência (porque é uma coisa banal, é suposto ser uma coisa banal, estamos em pleno século XXI para os mais distraídos), também não o vou fazer. Um casal de mães, filhos por procriação assistida ou famílias judias e interraciais? São coisas que deveriam estar assentes nos nos alicerces societais. Por isso todos estes elementos são contextualizações para quem são a Cassie e a Molly, mas não os assuntos em destaque.
Então o que é que discute aqui? A aceitação. A auto-induzida e a vinda do mundo exterior, que muitas vezes é o principal factor a deixar-nos desconfortáveis na nossa pele, mesmo quando achamos que estamos bem e não precisamos de "arranjos".  A idade encarrega-se de nos ensinar estas coisas, mas a adolescência é um período especialmente difícil e todos os factores que nos fazem sentir desconectados, pertencentes a uma outra realidade, incapazes de assentar e fazer parte da maioria levam o ser humano mais confiante a colocar-se em causa.
Molly aborda muitas destas questões na forma como se sente: não descontente com o seu corpo, mas com o que os outros esperam dela por causa disso, não descontente com quem é, mas com medo que isso não chegue para não ser rejeitada pelos alvos do seu afecto, feliz pelo sucesso da irmã, mas incapaz de lidar com o seu pouco à-vontade nas situações onde ela é rainha (e na verdade não é, sendo tão frágil e sensível como a sua gémea), não descontente com os seus talentos, mas que lhe parecem tão banais ao pé de tantos jovens mais artísticos, destemidos, desenvolvidos e com objectivos claros.
Há vários assuntos que esta autora aborda, e que nunca vi abordados desta forma em nenhum livro YA que tenha lido até ao momento. Dou-vos como exemplo as dúvidas que podem assolar os adolescentes quando se vêem alvo de afecto, mas também inspirando-se no afecto que vêm no outro que não encaixa no dito padrão que a sociedade aceita. Para além do risco de abrir o coração e de ter a hipótese de o quebrar, se alguém escolhe como alvo de afecto "um falhado", um "elemento fora da caixa", o que é que isso diz de si? Serão também "falhados"?
Não se tratando de uma questão certa ou errada, o que a autora faz é relembrar-nos da fragilidade e exposição que a adolescência nos deixou/ deixa a todos e o quanto o mundo envolvente pode ser cruel (mesmo quando é bem intencionado) ao ditar-nos padrões aos quais não podemos ou não devemos escapar. E que para além disso, mesmo quando não queremos ou não somos os mais indicados para os seguir, nos perseguem precisamente por evidenciarmos a diferença.
E se existem jovens a ler este texto, vou deixar clara a mensagem da Becky: não há nada errado convosco. Se o mundo não vos aceita, o problema é dele, não vosso. Hão-de encontrar as pessoas certas que vos respeitem tal e qual já são, porque elas também já andam à vossa procura.
Não me revi nesta adolescente, mas sim em muitos dos seus pensamentos quando tinha a sua idade. É uma das características da Becky Albertalli: lembrar-nos que também um dia já fomos adolescentes (ou no caso dos leitores ainda o serem, de que há por aí outros iguais). Molly é intensa, e com um coração enorme, amada e capaz de reagir nos momentos indicados aos problemas que lhe assistem, mas também nervosa, insegura, ciumenta, engraçada, melhor amiga, irmã, filha, namorada. Mas é essencialmente a Molly.
Claro que não posso descurar ou passar em branco o romance. A autora sabe sempre tocar-nos no ponto fraco e trazer histórias ternurentas e cheias de palpitações, sonhos, agitação e desejo. Desejo que seja desta que a personagem tenha o seu final feliz, que dê tudo certo, que a vulnerabilidade dê recompensa. Que prevaleça a coragem, o amor, a amizade e o respeito mútuo. Que os adolescentes aprendam com bons exemplos. Que se revejam nos seus pares. E a Molly, no seu percurso lento, estudado, arriscado, e sempre sonhador, traz-nos todas as boas sensações sobre o que é estar apaixonado e ser-se correspondido, mesmo que o seu coração ande aos altos e baixos. Só me apetece relê-lo de novo. Como já disse ao início, deito-me de coração cheio.

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Porto Editora na Feira do Livro: Primeiras Novidades

 Os 20 anos do Nobel de Saramago, lançamentos de livros, atividades para toda a família e workshops são alguns dos destaques do espaço Autores Que Nos Unem


  
O Grupo Porto Editora volta a marcar presença em mais uma edição da Feira do Livro de Lisboa que, este ano, decorre de 25 de maio a 13 de junho, no Parque Eduardo VII.

 A preparação decorre há vários meses e são muitos os autores convidados para este encontro anual com os leitores, sob o mote Autores Que Nos Unem . Lançamentos, sessões de autógrafos, atividades para crianças, tertúlias, showcookings , workshops e várias outras ações vão, tal como nas edições anteriores, levar milhares de leitores ao espaço Autores Que Nos Unem para conhecer os seus escritores portugueses e estrangeiros de eleição e celebrar o livro e a leitura.

 A programação será divulgada ao longo das próximas semanas através do site www.autoresquenosunem.pt , redes sociais e outros meios.

 Para celebrar os 20 anos da atribuição do Nobel da Literatura a José Saramago , o espaço Autores que nos Unem vai ser palco de várias iniciativas e terá um pavilhão especial dedicado ao autor e à sua obra.

 Os leitores que visitarem o espaço Autores Que Nos Unem vão encontrar vários escritores portugueses, entre eles os que estão agora a lançar os seus livros mais recentes: Mário de Carvalho ( Burgueses somos nós todos ou ainda menos ), Richard Zimler ( Maria e Danilo e o Mágico Perdido ) e Jacinto Lucas Pires ( A gargalhada de Augusto Reis ) são alguns dos exemplos. Os visitantes vão também poder conhecer as novas obras e coleções da renovada Sextante Editora , que surgirá já este mês para uma nova década de bons livros. 

 No dia 4 de junho, o mestre espiritual brasileiro, Sri Prem Baba , estará na Feira para lançar Propósito e, a 13 de junho, será apresentada a obra António Variações: Entre Braga e Nova Iorque , assinada por Manuela Gonzaga .

Outras inicitivas:
  • Revisitação ao Caderno Diário da Memória com Mário Augusto (26 de maio e 2 de junho);
  • Sessão prática de Shinrin-Yoku (banhos de floresta), orientada por Alex Gesse, guia certificado da Shinrin Yoku Portugal (27 de maio);
  • Sérgio Godinho , José Riço Direitinho e Filipa Melo falam sobre Sexo na literatura , com destaque para as suas obras recentes dos autores (31 de maio);
  • Passeio noturno pela Lisboa desconhecida e insólita , guiado pelo autor, Anísio Franco (1 de junho);
  • O Poder dos seus gestos , workshop com a autora, Irina Golovanova (2 de junho);
  • Descãoplicar , ação pet friendly com o autor, Pedro Emanuel Paiva (10 de junho);
  • Evocação a Aquilino Ribeiro, com o lançamento de uma nova edição de Cinco Réis de Gente (10 de junho);
  • Sessões infantis com Luísa Ducla Soares (27 de maio e 2 de junho) e Álvaro Magalhães (3 de junho).

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Uma Mulher Desnecessária, de Rabih Alameddine



Uma Mulher Desnecessária
de  Rabih Alameddine
 
Edição/reimpressão: 2017
Páginas: 264
Editor: Porto Editora
  


Sinopse: 
Aaliya Saleh vive sozinha no seu apartamento em Beirute, rodeada por pilhas e pilhas de livros. Sem Deus, sem pai, sem filhos e divorciada, Aaliya é o «apêndice desnecessário» da sua família. Todos os anos, ela traduz um novo livro para árabe, e depois guarda-o. Os trinta e sete livros que Aaliya já traduziu nunca foram lidos por ninguém. Depois de ouvir as vizinhas, as três «bruxas», a criticar a extrema brancura do seu cabelo, Aaliya tinge-o… de azul.

Neste assombroso retrato da crise de idade de uma mulher solitária, os leitores seguem a mente errante de Aaliya, à medida que ela vagueia pelas visões do passado e do presente da capital do Líbano: reflexões coloridas sobre literatura, filosofia e arte são invadidas por memórias da guerra civil libanesa e do próprio passado volátil de Aaliya. Ao tentar superar o envelhecimento do corpo e as inoportunas explosões emocionais que o acompanham, Aaliya é confrontada com um desastre impensável que ameaça estilhaçar a quietude da vida que ela escolheu para si mesma.

Rating: 4/5
Comentário: Reconheço que este possa não ser um livro para qualquer leitor ou leitora, mas foi dos mais bonitos que li ultimamente. Rabih Alameddine traz-nos a história de uma mulher que à luz da sociedade que a acolhe é precisamente aquilo que o título enuncia: uma mulher desnecessária. Uma mulher que não cumpre os preceitos societais através da sua vida pessoal nem constribui activamente com uma actividade profissional que seja compreendida e aceite pela população em geral. Para além disso, e mesmo que seja de desconhecimento geral, o seu passatempo de tradução acaba por se assemelhar a uma pequena ocupação inglória, atendendo a que o resultado dessa tradução acaba arrumado em caixas espalhadas pela sua casa. Ou será que a sua produção vale pela acção e tempo investido, independentemente do resultado? Até que ponto os nossos interesses são válidos só porque nos dão prazer?
Esta é uma das questões que fica latente ao longo da narrativa e a qual vai sendo abordada e desvendada ponto por ponto, especialmente com reflexões mais aprofundadas e acutilantes sobre a arte da tradução e todos os preceitos que a cobrem.
Simultâneamente, os singelos acontecimentos da vida quotidiana são elucidações e pontes de transposição para outras partes da vida passada desta mulher, que não fossem esses momentos e quase que validações da sua presença e existência, teria passado a vida em branco.
São também os pequenos acontecimentos do presente que lhe atribuem uma certa dimensão corpórea, que desfaz a ilusão de que Aaliya só vive no passado e não tem existência no mundo actual. E esses pequenos momentos, tão caricatos, são também aqueles que reforçam um carácter mais ligeiro a um livro carregado de melancolia, despreendimento e alguma dose de luto pelo mundo já vivido, pelas personagens que passaram pela sua vida e já não estão presentes e por aquilo que Aaliya foi e/ou poderia ter sido.
"Uma Mulher Desnecessária" é também uma ode à arte, com inúmeras reflexões filosóficas e abordagens artísticas, desde a música clássica à, naturalmente, literatura. São mencionados vários autores e autoras, com muitas citações e até desconstruções sobre o que foi por estes/as referenciado. E em variados momentos mais corriqueiros, talvez porque estes/as sejam os companheiros e companheiras que mais a acompanham (mesmo que no campo metafórico) ao longo de toda a sua vida, as análises por estes/as produzida quase que justificam ou valorizam os seus pensamentos.
Não tenho a certeza de tratar-se de liberdade de tradução, mas a referência constante à obra de Fernando Pessoa pareceu-me a determinada altura como excessiva. Percebo a necessidade de aproximar a leitura à realidade do leitor, mas sem que esta deturpe o original quanto ao seu enquadramento geográfico.
No geral, este é um livro muito especial e cheio de nuances, com uma abordagem sensível e sublime ao que é ser mulher na Líbia, sem tomar as dores e as percepções de todo um género mas recriando uma história que facilmente se enquadra na temática. É um enredo que conjuga subtileza, estética, filosofia e poesia, assim como representações multiculturais que não podem nem devem ser desmerecidas.
É um óptimo livro, com um ritmo lânguido que pede para ser lido com prazer e calma. Recomendo.


 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Opinião: A Educação de Eleanor, de Gail Honeyman



A Educação de Eleanor
de 
 
Edição/reimpressão: 2017
Páginas: 328
Editor: Porto Editora
  





Sinopse: 
Eleanor Oliphant tem uma vida perfeitamente normal – ou assim quer acreditar. É uma mulher algo excêntrica e pouco dotada na arte da interação social, cuja vida solitária gira à volta de trabalho, vodca, refeições pré-cozinhadas e conversas telefónicas semanais com a mãe.

Porém, a rotina que tanto preza fica virada do avesso quando conhece Raymond – o técnico de informática do escritório onde trabalha, um homem trapalhão e com uma grande falta de maneiras – e ambos socorrem Sammy, um senhor de idade que perdeu os sentidos no meio da rua. A amizade entre os três acaba por trazer mais pessoas à vida de Eleanor e alargar os seus horizontes. E, com a ajuda de Raymond, ela começa a enfrentar a verdade que manteve escondida de si própria, sobre a sua vida e o seu passado, num processo penoso mas que lhe permitirá por fim abrir o coração.

Rating: 4/5
Comentário: Gail Honeyman esteve nas bocas do mundo no ano passado com o lançamento do livro "Eleanor Oliphant is Just Fine", agora editado em Portugal pela Porto Editora. Confesso que não percebia tantos galanteios ao livro, especialmente porque a sinopse me parecia repetida de uma história já muitas vezes contada. A inserção no enredo foi agradável, mas ainda assim não dispunha de uma enormidade ou genialidade que me fizesse ganhar toda essa afeição à narrativa. Até que me apercebi já presa e com desejo de que Eleanor ficasse, de facto, "just fine" (bem).
Ensinaram-me as aulas de sociologia no secundário a importância da convivência e dos nossos elementos de referência para a formação da nossa personalidade enquanto ser social. Por esse motivo, acompanhar a Eleanor foi um exercício premeditável mas ainda assim com capacidade de criar uma empatia enorme com esta mulher.
Sabendo de antemão que muitas das suas reacções se devem de facto à ineficiência das suas relações sociais, algumas interlocuções com o mundo dito exterior não deixam de ser algo cómicas. É impossível não nos rirmos de alguns dos devaneios desta mulher, sem no entanto evitar que depois surja algum remorso de culpa, por nos lembrarmos enquanto leitores como é que esta mulher chegou a este estado propenso a fragilidades e alguma incompreensão por parte do mundo exterior.
Mas é também no seguimento da narrativa que vamos descobrindo que Eleanor é muito mais do que uma mulher só, que a personagem que está montada e a sustenta há muitos anos é tão frágil como as dores internas que carrega consigo, e que estamos presente uma mulher com uma enorme necessidade de amor, embora nem esta o saiba.
É através das pequenas surpresas que um momento inesperado trará, entrecruzadas numa cadeia de encadeamentos improváveis mas com enorme significado, que Eleanor se lembrará da importância do calor das relações humanas e do quanto este pode ser reconfortante.
É também a partir deste ponto que vamos tendo acesso à mulher por detrás da persona, e que o discurso narrativo também sofre a sua transformação, quase como se toda a análise prévia servisse como enorme introdução a este momento de desenvolvimento. A partir daqui é impossível desligar-nos desta personagem e desejar-lhe o melhor com todas as nossas forças, mesmo que esta não seja sempre a companhia mais agradável. E são os pequenos actos de bondade de estranhos, que a acolhem como um elemento pertencente ao  seu ciclo de relações que acabam de certa forma por fazer brilhar, por contraste, toda a realidade eminente a destruturar-se e uma representação construida num castelo de cartas a ruir.
A dor da personagem é pulsante, estamos com ela e vivemos com ela os momentos de encontro e confronto entre a realidade e o mundo por si idealizado.  É também neste momento que se dá uma pequena reviravolta, a qual não vou relatar para não vos estragar a surpresa. Até porque esse é o elemento-chave de todo o processo de construção desta personagem: o poder de submissão que os relacionamentos tóxicos podem causar no ser humano. A forma como este fio narrativo é conduzido, de forma sub-reptícia mas sempre constante, levantou-me algumas questões ao longo da narrativa e não foram poucas as vezes que desejei que ela se libertasse. Só não tinha noção de quão grande era a prisão de Eleanor.
Por todos estes momentos, "A Educação de Eleanor" revelou-se um livro mais surpreendente do que inicialmente esperava, sem quaisquer pretensões ou moralismos, mas com uma história muito humana, e cheia de esperança.


 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

sábado, 22 de abril de 2017

Opinião: O Coração de Simon contra o Mundo, de Becky Albertalli


O coração de Simon contra o Mundo
de Becky Albertalli
 
Edição/reimpressão: 2017
Páginas: 248
Editor: Porto Editora
  





Sinopse: 
Simon Spier tem 16 anos e os únicos momentos em que se sente ele próprio são vividos atrás do computador.
Quando Simon se esquece de desligar a sessão no computador da escola e os seus emails pessoais ficam expostos a um dos colegas, este ameaça revelar os seus segredos diante de toda a escola.
Simon vê-se, assim, obrigado a enfrentar as suas emoções e a assumir quem verdadeiramente é perante o mundo inteiro. 

Rating: 4/5
Comentário: Na contracapa deste livro, Nuno Pinto (Presidente da Direcção da ILGA Portugal) diz que "A história de Simon podia ser a de muitos de nós". E é uma plena verdade, mais não seja porque todos fomos adolescentes um dia e sabemos o quão difícil pode ser aceitar-nos na nossa própria pele, sermos o que o nosso âmago nos instiga a ser sem medos e com propriedade, e enfrentar a (falta de) tolerância do mundo exterior (quer respeitante às nossas escolhas, ao nosso aspecto ou à nossa orientação sexual).
Simon é, por isso mesmo, um verdadeiro adolescente como já fomos muitos de nós, mas que representa principalmente os vários desafios porque passam jovens da comunidade LGBT  quando estão em processo de crescimento e aceitação.
Ao acabar este livro, não pude deixar de recordar um rapaz cujo blogue eu lia há muitos anos, quando também eu era uma adolescente, em que o mesmo utilizava a internet e a sua página pessoal para expurgar a pouca compreensão que recebia no seu universo escolar, onde era o único gay assumido. E ao pensar naquele rapaz, só desejei que livros como "O Coração de Simon contra o Mundo" tivessem chegado mais cedo e que, diante tantos jovens que ainda se encontram em debates internos perante o preconceito e a necessidade da aceitação, estes pudessem confrontar-se com exemplos como este, incutindo-lhes esperança, (ou pelo menos) uma versão mais positiva à qual se agarrar.
Confesso que me custou a entrar um pouco na narrativa e explico porquê: o cinismo mesclado de insegurança de Simon, assim como as suas expressões e maneira de estar desta personagem, pareceram-me saídas de um amigo de escola. E durante as primeiras páginas, foi-me bastante difícil dissociar a imagem deste rapaz do outro que conheço na vida real, que tirando o seu pretendo desinteresse, nada tinham em comum.
Passado este elemento de estranheza, fui-me entranhando na narrativa e relembrando o que é ser um adolescente de primeira viagem, entrando na cabeça deste rapaz que tem tanto de adorável como irritante. Sabendo de antemão a importância que os seus emails pessoais representavam para a narrativa, achei-os inicialmente um pouco insípidos ou banais. Claro está que rapidamente me recordei que isto de ser adolescente tem o que se lhe diga, e que nem sempre lavamos a alma da forma mais clara, embora esses gestos não percam o significado por isso.
O crescimento da personagem do Simon assinala-se especialmente a partir das primeiras 100 páginas, especialmente porque é nesse momento que a incursão no mundo exterior também ganha nova forma e destaque. Este foi sem dúvida um dos pontos fortes do livro para mim. Aquilo que o Simon não nos diz, as pessoas do seu círculo familiar e das amizades próximas enunciam-nos, trazendo uma imagem mais completa deste rapaz de coração enorme, mas simultaneamente cheio de incertezas. As irmãs (que são chatas ou ausentes), os pais (preocupados e metediços), os amigos (que procuram atenção mas a quem seria estranho falar de sentimentos e coisas do género) são algumas das preocupações deste rapaz. Mas ao mesmo tempo que nos absorvemos pelas suas divagações, temos também acesso a pormenores que compõem o cenário mais geral e que nos permitem ver a narrativa para além do seu olhar e do que este nos conta. E todas elas são  bastante vívidas e corpóreas, valendo a sua existência só por si (mesmo que só tenhamos acesso a alguns relampejos da sua existência) e não somente para justificar aquilo que Simon é enquanto pessoa.
É um livro positivo e cheio de esperança, que lida mais com questões do foro interior do que coma  falta de tolerância. É também repleto de bons e fortes exemplos - dos amigos, da família, da professora furiosa que não admite qualquer caso de bullying ou discriminação perante a sua presença - e que relembra os jovens leitores que pegarem nesta narrativa de que pessoas assim não perduram somente na ficção. Existem na vida real também, e muitos deles, mesmo que ainda não se tenham manifestado, já existem nas suas vidas.
Por fim, não poderia deixar de falar do romance em si. Transparente e sem pretensionismo, com todas as indicações da insegurança de dar os primeiros passos, das dúvidas sobre como lidar com o novo e o desconhecido, do poder que é reencontrar outro igual com quem partilhar a imagem do que se é sem medos, sem esquecer a atracção física e o desejo do encontro. A evolução desta história foi conduzida com muita transparência e doçura, e ainda que não fosse mais segredo para o leitor quem seria o Blue muito antes do Simon descobrir, o corte dos estereótipos e a apresentação desta relação como deveria ser - como tantas outras iguais - só lhe atribui um imenso mérito.
Finalizando, gostava de pegar no título original - "Simon vs the Homo Sapiens Agenda" - que ao fim ao cabo é a essência deste livro e que faz tanto sentido: em vez de termos de estar contra o mundo e lutar para que este nos aceite, porque é que não somos aceites só porque sim? Porque é que é exigida uma necessidade (por vezes defendida de forma sectorial) de afirmação? Somos todos Homo Sapiens, isso deveria ser resposta suficiente. O Simon descobriu-o, e nós não nos podemos esquecer.

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

terça-feira, 21 de março de 2017

#On my shelf booktag 2

Voltamos ao desafio #onmyshelf que vimos no canal da Booktuber Ariel Bissett para que continuem a conhecer melhor as nossas estantes.

Regras:
1. Escolher uma combinação aleatória de dois números, o primeiro para prateleira, o segundo para o livro. Este passo foi realizado com a vossa ajuda na nossa página de Facebook!
2. Apresentar o livro.
3. Falar um pouco dele (se é dos favoritos, se ainda não o leram, porque foi comprado, etc)

8-8
The Ask and the Answer (Chaos Walking, #2)de Patrick Ness

Este é o segundo volume da trilogia Chaos Walking . Esta trilogia tem reviews fantásticas e foi por isso que quando a vi na loja de caridade a comprei. Ainda não a li mas está na minha lista para breve.





6-45
The Ill-Made Mute (The Bitterbynde, #1) de Cecilia Dart-Thornto

Esta foi a saga que embruxou uma das minhas amigas na Universidade. Ela não falava de mais nada e releu a saga umas três vezes enquanto esperava que a autora acabasse de escrever a sua nova saga.

Comprei este livro numa feira porque me lembrou dela mas ainda não tenho o resto da saga por isso só o vou ler quando tiver comprado todos os volumes.




8-22
Rato Picado de David Walliams (Editado em Portugal pela Porto Editora)

Quem nos segue sabe que gosto bastante de literatura infanto-juvenil e David Walliams é de momento um dos escritores infantis mais engraçados e que melhor compreende as crianças.
Li este livro e achei bastante engraçado!
Aqui vos deixo o resumo:
Aviso! Este livro está infestado de ratos! A Zoe é uma rapariga infeliz. A madrasta dela é tão preguiçosa que tem de ser ela a limpar-lhe o nariz. O fanfarrão da escola está sempre a cuspir-lhe no cabelo. Mas o pior é que Burt, o vendedor de hambúrgueres cego, quer roubar-lhe o rato de estimação. Não te queremos revelar os planos dele, mas o título do livro é capaz de ajudar…

4-29
The Worst Witch and the Wishing Star de Jill Murphy

A saga de Mildred Hubble é uma das minhas favoritas. Fiquei super animada quando soube que Jill Murphy ia lançar um novo livro e a autora não desapontou. Mildred volta com peripécias que só podiam ser suas e transporta-nos para um mundo onde crianças ainda são crianças e aprendem com os seus erros.

3-42

The Scandalous Sisterhood of Prickwillow Place de Julie Berry

Haverá algo melhor que policias passados em escolas vitorianas? Não para mim! Depois da saga A Murder Most Unladylike , esta irmandade é dos meus livros favoritos.
Confesso que a capa da imagem não é a que tenho, mas não é fantástica? O que me atraiu neste livro foi a premissa: a 'Irmandade' é no fundo um grupo de rapariga que estão a ser ensinadas a ser 'senhoras decentes' pela sua preceptora na casa desta, que é um colégio privado, mas um dia ao almoço a preceptora cai morta no chão. As raparigas, que não querem voltar para as suas respectivas casas pelos mais variados motivos, decidem juntar-se e levar à frente um plano. Não contar a ninguém que a sua preceptora morreu e continuarem a viver na casa/escola. Como as coisas nunca são fáceis vários problemas surgem e aí começa o nosso divertimento como leitores.
Este foi um dos livros que mais gostei de ler em 2016!

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Opinião: Os Inovadores, de Walter Isaacson



Os Inovadores, de Walter Isaacson

Edição/reimpressão: 2016
Páginas: 616
Editor: Porto Editora







Resumo: Quais as capacidades que permitiram a certos inventores e empreendedores transformar as suas ideias visionárias em realidade? O que provocou os seus saltos criativos? Por que razão alguns foram bem-sucedidos e outros fracassaram? Em Os Inovadores, Walter Isaacson dá resposta a estas questões, oferecendo-nos a mais completa história da revolução digital, uma narrativa fascinante acerca daqueles que criaram o computador e a Internet. Numa escrita empolgante e ágil, Isaacson organiza um roteiro minucioso que começa com Ada Lovelace, filha de Lord Byron e pioneira da programação na década de 1840, passa pela fundação do mítico Silicon Valley e segue até aos nossos dias, com Steve Jobs ou Bill Gates.

Explorando mais as personalidades desconcertantes destes génios do que as suas invenções, Os Inovadores é o guia indispensável para o modo como nasce a inovação e para se compreender o mundo digital que é hoje o nosso.

Rating: 4/5

Comentário: Para alguém nascido na década de 90, alguns registos evolucionários não me passaram despercebidos ao longo da adolescência. Resta lembrar as disquetes, os walkmans ou uma televisão com poucos canais para gravar a diferença. E acetatos! Há jovens que já nem saberão o que são e eu ainda passei pelo processo de preparar alguns para apresentações no secundário.
Estes pequenos registos que diferenciam em grande parte muitas das vivências tidas nos últimos 15 anos justificam o cenário rápido, acelerado, inconstante e constantemente mutável que representa a nossa sociedade contemporânea na qual a dita Revolução Digital tem a maior preponderância.
E foi esse o pretexto para mergulhar nesta colectânia de história científica trazida por Walter Isaacson. 
Trazendo-nos um apanhado dos séculos XIX e XX, o autor consegue reproduzir um conjunto de informação que contextualiza e enquadra cada pequeno momento de evolução científica, com as explicações devidas sobre o seu funcionamento e consequências para  processo evolutivo que conduziu à Revolução Digital, mas também com um notável detalhe para os apontamentos biográficos e para a análise multidisciplinar e complementar entre os vários momentos da História.
Desde a concepção e sonho de construção de máquinas automatizadas que conduziram aos primeiros computadores e às máquinas de calcular, ao movimento hacker (com uma conotação bem mais simpática e abrangente do que a comumente conhecida) e à importância dos contextos sociais e históricos, assim como políticos que despoletaram o aparecimento de vários momentos propensos à inovação, este livro acaba por ser uma colecção de momentos para leigos e curiosos que se  procuram informar sobre este segmento de transformação social e tecnológica que continuamos a atravessar.
As apropriações históricas não saem descontextualizadas e servem como bónus aos apontamentos de reflexão sobre a definição do que serão as mentes inovadoras e quais os seus modos de procedimento. É quase que uma abordagem sobre a tipologia de cultural laboral propensa ao aparecimento do espírito livre para criação e da cooperação colaborativa.
Julgo que a leitura deste volume poderá ser realizada segundo duas vertentes, uma mais ligeira e de entretenhimento puro e outra direcionada para o prazer das instrução. O meu processo acabou por pender pelos dois movimentos, pelo que acabou por ser um livro que vim a deliciar aos poucos, especialmente nos capítulos iniciais onde a inserção de conceitos de engenharia, química e eletromecânica, ainda que bem explicados, me exigiram algum tempo de assimilação por querer de facto compreendê-los (e que acabaram por me suscitar momentos de pesquisa extra) para acompanhar com maior presença todo o processo evolutivo.
Enquanto contexto histórico, gostei de acompanhar e conhecer alguns momentos cuja segmentação me era desconhecida. Ressalvo a formação da estrutura de transformação económica e tecnológica de Silicon Valley, o processo de construção colaborativa da rede que esteve por base da Internet, ou a importância dos movimentos anti governamentais e pacifistas (acompanhados do LSD) que tornaram propenso o aparecimento do computador pessoal tal como o conhecemos hoje. E ainda, porque não referir, o papel fundamental que as mulheres representaram no aparecimento e evolução do software, tido como de menor importância em tempos idos (e que injustiças se cometeram perante alguns nomes sonantes nestas áreas).
Quanto aos momentos biográficos, julgo que quase todos tiveram um factor comum, especialmente ao nível de escolaridade dos progenitores destes revolucionários digitais, mas também de uma série de factores de personalidade comuns que relembram e emancipam o leitor para o mote mais simples para dar origem a um momento evolutivo, seja qual for: nunca parar, e acreditar que o impossível é concretizável.
A um nível mais pessoal, uma vez que a maioria dos nomes dos intervenientes me eram desconhecidos, acabei por tirar um prazer maior na leitura sobre aqueles que não me eram estranhos e através dos quais pude ver revelados mais aspectos sobre si que até então me eram estranhos. Julgo que de todos, o que mais me surpreendeu foi o Bill Gates, provavelmente por nunca me ter debruçado ou interessado pela personalidade para além do que é geralmente conhecido sobre o empresário.  Não obstante, todos os outros me trouxeram vários apontamentos biográficos que os tornaram menos nomes e mais pessoas aos olhos analíticos da História.
Há ainda que referir que o livro, ainda que bem segmentado por "processos evolutivos", atendendo ao que estava em análise em cada capítulo, se preocupa em criar pontes de uns para outros, de modo a que o leitor subentenda que embora explicador segundo um padrão evolutivo, muitos destes passos foram dados em simultâneo, com o cruzamento dos diversos intervenientes em diversas "realidades".
É sem dúvida um livro abrangente, completo para o que se propõe e com uma atenção ao detalhe (vista também pelo cuidado em evidenciar quais as fontes utilizadas para suportar várias afirmações e constatações) que se esforça por acompanhar todas as esferas do processo evolutivo da revolução industrial, sem esquecer a cronologia história e a sua contextualização social, que retiram estes processos do vazio e os inserem em momentos conclusivos e de real proporção.
Uma a não perder!
                                          

Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Opinião: Os Muitos Nomes do Amor, de Dorothy Koomson



Os Muitos Nomes do Amor

de Dorothy Koomson

Edição/reimpressão: 2015
Páginas: 472
Editor: Porto Editora



Resumo:  
Clemency Smittson foi adotada em bebé, e a única ligação à mãe biológica é um berço de cartão com borboletas pintadas à mão. Agora adulta, e em constante conflito com sentimentos de perda e rejeição, decide mudar drasticamente de vida e voltar a Brighton, a cidade onde nasceu.
Mas Clem não sonha que é lá que vai encontrar alguém que sabe tudo sobre a sua caixa das borboletas e a verdadeira história dos seus pais biológicos.
E quando percebe que nem tudo é o que parece, e que talvez tenha sido injusta com aqueles que mais a amam, haverá tempo para recuperar o que foi perdido?

  
Rating: 4/5
Comentário: Dorothy Koomson já nos habituou repetidas vezes com enredos ricos no universo feminino. Mas apesar de contemplar sempre mulheres como personagens principais, a autora não se restringe a uma análise banal e atribui-lhes histórias ricas, complexas e cheias do mínimo detalhe, criando uma composição única e que de banal não tem nada.
De volta ao Reino Unido, desta vez pela mão de Clemency, a autora aborda no novo livro todas as constantes e contrastes do amor nas suas variadas vertentes, desde o respeito pelo próximo e a dor da perda, passando pelos laços da amizade, pela cumplicidade de anos de encontros e partilhas, pelo abdicar de decisões de benefício próprio em prol do outro.
De todos os livros da autora que já li, julgo que "Os Muitos Nomes do Amor" tem um cunho mais introspectivo e de espelho reflectivo para o leitor. De facto, e fugindo aos clichés habituais, Dorothy Koomson explora neste livro as relações humanas em todos os seus níveis trazendo surpresas e fazendo-nos reflectir não só sobre se tomaríamos o mesmo tipo de decisões que Clemency leva em diante em alguns momentos-chave, mas também sobre todas as pessoas da nossa vida que de alguma forma se poderiam associar por características comportamentais a algumas das personagens apresentadas. 
Senti também tratar-se de um livro muito mais íntimo, de análise das repercussões das decisões tomadas em momentos de necessidade, mas com uma abordagem delicada e muito humana. 
Clemency é uma mulher de quarenta anos assombrada pelo sabor da rejeição, nunca ultrapassado nem pela adopção numa família maioritariamente acolhedora nem pela aproximação dos que de lhe têm respeito e carinho. Algumas decisões menos ortodoxas de quem a rodeia, os olhares enviesados por parte de estranhos perante a apresentação da sua filiação, assim como a abordagem indelicada perante o assunto da adopção tornaram-na num patinho deslocado, esperando (pelo menos interiormente) que ou se esqueçam da sua presença ou que o processo de transformação num cisne ocorra depressa. 
Apesar de nem sempre matura ou com comportamentos ditos adequados para a sua idade, Clemency representa ao longo das várias páginas todas as avaliações menos delicadas que lhe fizeram ao longo dos anos, assegurando que por vezes, pequenos momentos têm repercussões imensas e variadas na definição do carácter de cada um. 
Achei bastante interessante a relação que a personagem tinha com a mãe (que sendo única e especial, representava também a necessidade extenuante de corresponder a expectativas, de saber lidar com um amor muito pessoal e por vezes possessivo - especialmente devido ao medo da perda - mas que em última instância expressava sacrifico e falhas de comunicação), que variadas vezes representou a relação entre várias mães e filhas representadas em muitas páginas de livros e ecrans de cinema, sendo certamente fundamentadas por momentos pitorescos da vida real.
A relação com o marido também foi digna de nota, especialmente por ter seguido um percurso diferente do habitualmente definido pela autora nos livros dela, mas também por abordar com um tacto especial o deslevo da mentira ou da traição, que nem sempre é o que parece, mesmo não deixando de o ser. 
Senti que o encontro com a família biológica foi muito inicial e abrupto, sem existir ainda uma condução real para o desenlace, que mas esse atropelo temporal foi propositado, de forma a que a cada página fosse lançado um novo pedaço de uma construção para o climax de uma emancipação planeada, desejada e necessária para o transformar do enredo. 
A um outro nível, em vários momentos do livro são introduzidos alguns emails, sempre do mesmo remetente para o mesmo receptor, que ainda que querendo introduzir outro ponto de vista no enredo, não me forneceram assim tantos detalhes que não pudessem ter seguido o percurso do restante livro. Apesar de não os achar particularmente inúteis, o facto de ser um contacto unilateral, mesmo quando nos apercebemos que existe um certo tipo de resposta da voz ausente, acaba por não fazer muito sentido na minha opinião, quebrando até por vezes o ritmo da história. 
Tirando esse pormenor, é mais um livro cheio, repleto de maneirismos típicos da autora que já marcam o seu registo, mas ainda assim como condão que incutir alguma originalidade na narrativa. 
Em última instância, "Os Muitos Nomes do Amor" é um livro de redenção, em que os afectos falam mesmo mais alto, mesmo quando não compreendidos, quando explorados por alguém indevido ou quando na sua posse, não existe domínio próprio que indique o que fazer com eles. Desde o mesmo da dádiva, à exploração do desconhecido e à compaixão pelo próximo, Dorothy Koomson traz-nos todas as cores do perdão, da redenção, do amor desmedido e da força dos laços, que familiares ou não, biológicos ou não, definem os próximos passos da vida de cada um de nós.

Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projecto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Novidade Porto Editora: Os muitos nomes do amor, de Dorothy Koomson

Novo romance da autora do êxito 
A filha da minha melhor amiga

Um ano depois da lançamento do sucesso Os aromas do amor, a Porto Editora publica, a 2 de julho, Os muitos nomes do amor, o novo romance de Dorothy Koomson.
Nesta obra, um drama familiar de grande densidade psicológica, a protagonista vive um poderoso encontro com o passado, quadro que faz desta uma das mais marcantes
histórias da autora.
Desde que, em 2006, deu a conhecer no nosso país A filha da minha melhor amiga – um enorme sucesso, já na 16.ª edição –, a Porto Editora tem vindo a publicar com regularidade a obra de Dorothy Koomson. O sucesso em Portugal é apenas parte do crescente prestígio internacional desta autora, que assinalou, em 2013, dez anos de carreira literária.


SINOPSE 
Clemency Smittson foi adotada em bebé, e a única ligação à mãe biológica é um berço de cartão com borboletas pintadas à mão. Agora adulta, e em constante conflito com sentimentos de perda e rejeição, decide mudar drasticamente de vida e voltar a Brighton, a cidade onde nasceu. Mas Clem não sonha que é lá que vai encontrar alguém que sabe tudo sobre a sua caixa das borboletas e a verdadeira história dos seus pais biológicos. E quando Clemency percebe que nem tudo é o que parece, e que talvez tenha sido injusta com aqueles que mais a amam, haverá tempo para recuperar o que foi perdido?

PRIMEIRAS PÁGINAS Já é possível ler as primeiras páginas deste romance, através destaligação.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Novidades: Porto Editora


A 20 de março é publicado Hotel Sunrise, o mais recente livro da escritora bestseller Victoria Hislop, que passa assim a integrar o catálogo da Porto Editora. Desde que lançou A Ilha, o seu romance de estreia que já vendeu mais de 3 milhões de exemplares em todo o mundo, a autora tem mantido um sucesso que se estende também a Portugal, onde é muito acarinhada pelos leitores.

SINOPSE 
Famagusta, no Chipre, é uma cidade dourada pelo calor e pela sorte, o resort mais requisitado do Mediterrâneo. Um casal ambicioso decide abrir um hotel que prime pela sua exclusividade, onde gregos e cipriotas turcos trabalhem em harmonia. 
Duas famílias vizinhas, os Georgious e os Özkans, encontram-se entre os muitos que se radicaram em Famagusta para fugir aos anos de inquietação e violência étnica que proliferam na ilha. No entanto, sob a fachada de glamour e riqueza da cidade, a tensão ferve em lume brando... 
Quando um golpe dos gregos lança a cidade no caos, o Chipre vê-se a braços com um conflito de proporções dramáticas. A Turquia avança para proteger a minoria cipriota turca, e Famagusta sucumbe sob os bombardeamentos. Quarenta mil pessoas fogem dos avanços das tropas. 
Na cidade deserta, restam apenas duas famílias. Esta é a sua história.



A Porto Editora publica, a 27 de março, Fantasia para dois coronéis e uma piscina, de Mário de Carvalho, romance agraciado com o Prémio PEN Clube Português Ficção 2003 e com o Grande Prémio de Literatura ITF/DST. Neste livro, protagonizado por dois coronéis reformados do Exército, ex-combatentes da Guerra Colonial, Mário de Carvalho faz, como nos tem vindo a habituar, uso da sátira para promover uma reflexão sobre a sociedade portuguesa do início do século XXI – questionando mesmo, no final do livro, se «Há emenda para este país?».

Leiam as primeiras páginas aqui.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Novidades Porto Editora

A Porto Editora publica, a 20 de fevereiro, Hereges, o mais recente romance de Leonardo Padura e, segundo o El País, «o cruzamento perfeito entre o romance histórico, o romance social e o policial».
O escritor cubano vai participar e apresentar este livro no encontro Correntes d’Escritas 2015, que se realiza de 26 a 28 de fevereiro na Póvoa de Varzim. Posteriormente estará em Lisboa para uma sessão no Instituto Cervantes, no dia 2 de março, às 18:30. 
Vencedor do X Prémio Internacional de Romance Histórico «Ciudad de Zaragoza», um dos mais importantes galardões do género, Hereges é um romance absorvente sobre uma saga judaica que vai desde 1939 até aos nossos dias e que vem confirmar o autor como um dos narradores mais ambiciosos e internacionais da língua espanhola.




quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Novidades: Porto Editora


Sinopse 
Charlie Parker acaba de reaver a sua licença de detetive privado quando Bennett Patchett o procura, pedindo-lhe para averiguar as sinistras circunstâncias que envolveram o suicídio do filho, Damien, um veterano da guerra do Iraque. No decurso das suas investigações, Charlie Parker cedo percebe que um grupo de ex-combatentes, sob a chefia do antigo comandante do batalhão, se envolveu ativamente numa estranha operação de contrabando na fronteira do Maine com o Canadá e que, uns atrás dos outros, todos acabam por conhecer o mesmo destino de Damien. 
E quando Herod, um velho doente mas implacável, com uma propensão para o macabro, entra em cena, o detetive Charlie Parker terá de forjar uma aliança com o homem que mais teme à face da Terra, o assassino conhecido como «o Colecionador».


Sinopse 
Queres saber como nasceu Portugal, o que foram os Descobrimentos ou o que aconteceu no 25 de Abril? Então abre este livro, levanta todas as abas e descobre as respostas e curiosidades sobre o nosso país. Neste livro interativo, escrito por José Jorge Letria, repleto de ilustrações cheias de humor, vais aprender tudo sobre os momentos mais importantes da História de Portugal de uma forma divertida!

sábado, 6 de setembro de 2014

Opinião: A incrível viagem do faquir que ficou fechado num armário Ikea, de Romain Puértolas





A incrível viagem do faquir que ficou fechado num armário Ikea
de Romain Puértolas 

Edição/reimpressão: 2014
Páginas: 208
Editora: Porto Editora 

(As primeiras páginas podem ser lidas no site da Editora)



Resumo:  O maior fenómeno de popularidade da literatura francesa atual. Traduzido em 36 países.

Ajatashatru Larash Patel, faquir de profissão, que vive de expedientes e truques de vão de escada, acorda certa manhã decidido a comprar uma nova cama de pregos. Abre o jornal e vê uma promoção aliciante: uma cama de pregos a €99,99 na loja Ikea mais próxima, em Paris. Veste-se para a ocasião - fato de seda brilhante, gravata e o seu melhor turbante - e parte da Índia com destino ao aeroporto Charles de Gaulle. Uma vez chegado ao enorme edifício azul e maravilhado com a sapiência expositiva da megastore sueca, decide passar aí a noite a explorar o espaço. No entanto, um batalhão de funcionários da loja a trabalhar fora de horas obriga-o a esconder-se dentro de um armário, prestes a ser despachado para Inglaterra. Para o faquir, é o começo de uma aventura feita de encontros surreais, perseguições, fugas e aventuras inimagináveis, que o levam numa viagem por toda a Europa e Norte de África.

A incrível viagem do faquir que ficou fechado num armário IKEA é uma aventura rocambolesca e hilariante passada nos quatro cantos da Europa e na Líbia pós-Kadhafi, uma história de amor mais efervescente do que a Coca-Cola, mas também o reflexo de uma terrível realidade: o combate travado por todos os clandestinos, últimos aventureiros do nosso século.
Rating: 3/5 

Opinião:  Se procuram um livro ligeiro, bem-disposto e que vos faça sorrir por uns instantes, Ajatashatru Larash Patel, mais conhecido por Laracha ou por uma série de palavras a compôr frases impenetráveis (só perceberá quem der uma hipótese a este livro) será o responsável por umas quantas horas agradáveis. Apesar de ser um contexto muito diferente, e com um enredo também diferenciado, foram várias em que me veio à memória o filme "Está Tudo Louco!" de 2001. Com várias peripécias, personagens peculiares, situações cómicas e totalmente fora de contexto, existiram vários momentos que fizeram lembrar o quão louco era realmente o enredo, e que não fica nada atrás neste livro. Ou não estivéssemos a falar de alguém que fica fechado num armário. Do Ikea. Em França. Quando ia às compras.
E deixem-me dizer que algo que aprendi com este livro foi que visitar um IKEA em Alfragide ou em Paris é a mesma coisa. A descrição da loja foi tão clara que me vi a passear mentalmente no de cá, sem ser capaz de encontrar alguma diferença. Ser ser o sari da empregada da cozinha. 
Larash é uma personagem peculiar com um objetivo muito concreto: comprar uma cama de pregos IKEA em promoção (porque é que se venderia algo do género em Paris ultrapassa-me). Mas o que parece uma missão (relativamente) simples irá revelar-se um desafio intenso, imprevisível, caricato e cheio de revelações, apoteoses, e pequenas reflexões sobre o ser humano em várias situações muitas vezes vistas como banais, mas que transformarão o nosso personagem. Uma das partes mais divertidas, e este é um pequeno spoiler, passa exactamente por esta personagem encarnar um vigarista da maior espécie, e que não só se irá (naturalmente) enterrar até ao pescoço por causa disso, como justificará muitas acções e resoluções tomadas por si (que consideraríamos idiotas) e que inexplicavelmente lhe irão correr sempre de formas que o leitor não estava à espera. Não deixa de ser um livro previsível, mas com aquele tipo de previsibilidade que só é visto ao último minuto, ainda que garantamos que estava sempre lá. Está escrito com uma linguagem leve, divertida, capaz de nos fazer passar bons momentos. Confesso que em algumas partes senti que o autor queria forçar o riso, o que me retirava parte do prazer de vivenciar as cenas, pelo que foram realmente as passagens mais naturais, em que o autor intencionalmente ou não se limitava a contar a estória e alguns dos pensamentos do personagem, que me fizeram sorrir.
As poucas personagens secundárias que surgem no livro, mas que nos acompanham até ao final, criaram o factor comédia de forma mais imediata, mas mais dinâmica e interactiva, que contribuiu para enriquecer a narrativa. 
Simultaneamente, o processo de transformação pessoal, de análise do contexto envolvente, da importância da vida e das suas particularidades perante outras e sobre o funcionamento em geral, através do cérebro e coração de um pequeno faquir vigarista, não deixam de ser chamadas de atenção para o que nos rodeia e para a necessidade de o compreender de coração aberto, com vontade de aprender e de sonhar mais longe.
Uma surpresa diferente!

Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Opinião: Aromas do Amor, de Dorothy Koomson


     

 Aromas do Amor
de Dorothy Koomson 

Edição/reimpressão: 2014
Páginas: 472
Editora: Porto Editora 

(As primeiras páginas podem ser lidas no site da Editora)


Resumo:  Procuro a combinação perfeita de aromas; o sabor que eras tu. Se o encontrar, sei que voltarás para mim.

Passaram-se 18 meses desde a morte de Joel, o marido de Saffron, e o culpado nunca foi descoberto.

Agora, fazendo os possíveis para lidar com a perda, Saffron decide terminar Os Aromas do Amor, o livro de receitas que Joel tinha começado a escrever antes da sua trágica morte.

Quando, finalmente, tudo parece ter voltado à normalidade, a filha de 14 anos de Saffron faz uma revelação chocante que abala a relação entre ambas. E, ao mesmo tempo, cartas misteriosas lançam uma nova luz sobre a morte de Joel.

Será um grande amor capaz de sobreviver à maior das perdas?

Rating: 4/5 

Opinião: Descobri a Dorothy Koomson aos 16 anos, quando saiu o primeiro livro da sua autoria em Portugal (A Filha da Minha Melhor Amiga) e gostei instantaneamente do estilo da autora: leve, bem recortado, cativante, capaz de nos colocar nas situações mais incómodas presenciadas pelas personagens, mas também (e especialmente nessas) nas extremamente felizes. Com um carisma extraordinário, as suas personagens não nos deixam indiferentes. E o melhor de tudo é que não são perfeitas: sofrem, riem, sentem, vivem amarguras e medos (pavores até), paixões e arrebatamentos que nos percorrem enquanto lemos as suas histórias e nos levam do mundo real para o seu universo. Mesmo não que não soubesse que um livro era da sua autoria, o estilo de Dorothy é tão patente que duvido que não chegasse a essa descoberta depressa. Acima de tudo, a autora oferece-nos sempre rebuçados agridoce sob a forma de livros mimosos, com histórias que nem sempre correm bem (pelo menos na sua totalidade), mas com um significado muito humano. E esse é o seu factor - chave preponderante: as personagens de Dorothy não têm medo de ser verdadeiramente humanas e de nos arrastar por corredores de memórias que tanto são nossas ou de conhecidos como de personagens dos seus livros. E mais do que isso, as emoções vêem dotadas de um realismo patente, sem hipérboles desnecessárias a forçar o drama (e uma potencial lágrima do leitor), e que ainda assim têm a capacidade de nos comover e criar emoções empáticas.
De todos os seus livros que li até hoje, sempre considerei o primeiro o melhor e o mais rico deles todos. Pelo menos até ler o "Aromas do Amor", que julgo ocupar uma posição muito semelhante. Apesar de ter tido algumas dúvidas em determinadas partes da obra, este volume conseguiu superar-se a si mesmo e provar-me porque é que a autora é tão bem sucedida no que faz. Mas já lá vamos.
Com este novo romance da Dorothy, senti-me a revisitar uma casa de uma tia há muito negligenciada, mas que nunca esquecemos. As suas personagens não são particularmente originais, ou pelo menos não tão diferentes que não as encaixássemos num dos seus livros, mas ainda assim souberam galgar território ao longo da narrativa e torná-la o seu espaço pessoal.
Senti-me meio que aos solavancos no início do livro, e só entrei realmente no enredo quando a Parte I finalizou, mas a partir daí deixei-me render pelas personagens. Saffron continua a sentir-se uma viúva precoce apesar de se ter passado mais de um ano desde o assassinato do marido. É por isso uma personagem instável, que vive a tentar combater o luto para respirar enquanto simultaneamente puxa para si as réstias memórias de um casamento feliz que preenchia todos os compartimentos do seu ser. Por esse motivo, algumas atitudes erráticas tiveram o condão de me espicaçar a irritação com a personagem e considerá-la injusta nas suas configurações. Naturalmente, o seu estado catatónico sempre foi capaz de a justificar e perdoar, pelo que ao longo do livro fui aprendendo a fazer o mesmo sempre que ela pisava o risco. Phoebe e Zane são apresentados pela óptica caleidoscópica de uma mãe-galinha que só pretende proteger os filhos de um mundo perverso que lhes levou o pai cedo demais. Gostava de os ter visto mais presentes no activo, e não apenas em pensamentos ou recordações de situações recentemente vividas pela mãe, mas ainda assim foram ganhando destaque ao longo do livro. Já Fynn é o típico bem-disposto, generoso, coração de manteiga, com sentido de humor apurado que Dorothy gosta de incutir nas personagens masculinas por quem nutre um fraquinho (e ela que não o negue, que os seus livros são o comprovativo disso mesmo ;) ). Já a Tia Betty merece todo o destaque por ser aquele elemento excêntrico mas benemérito que sempre gostaríamos de ter na família. Fiquei bastante satisfeita com as suas inclusões na história, já que são esses elementos que servem de contra-balanço às conjugações que apelam à veia dramática da autora.
Nesse campo, tenho a dizer que o enredo teve a sua exploração devida, com conduções a uma série de explicações mais ou menos lógicas, e que nos fez entender todo o percurso de cada elemento da trama. Não posso contar quase nada sobre a acção principal da estória sem que vos desvende desnecessariamente algum factor que prefeririam ter acesso durante uma boa leitura. Vou apenas dizer que o mosaico criado com todas as articulações temporais e as conjugações interpessoais trouxe um livro que vale a pena ler.
Apesar de tudo, gostava de ter visto mais explorada (e de outra forma) a redação do livro de receitas de Joel (agora também da mulher), e evitar alguns acrescentos desnecessários, que criaram em certos momentos um excesso de complexidade que não trouxe nenhum conteúdo por aí além, enquanto outros elementos dignos de análise acabaram por passar por segundo plano.
Ainda assim, e para concluir, só posso dizer que o final foi bem conseguido justificando toda a narrativa, mas dando simultaneamente uma indicação de fecho do ciclo e também de continuidade numa nova realidade. Fiquei com pena que o desfecho de Fynn fosse o apresentado, apesar de perceber o motivo desse seguimento (mas no entanto não podia deixar de torcer por ele até ao fim, e fiquei um pouco desiludida por não ter a cena que esperava). De qualquer forma, vão sentir-se satisfeitos e concordar que o tempo passado com a família Mack-el-Roy (ou Mack -le- Roy como diria o Agente Clive) foi bem merecido.

Portanto já sabem: adquiram o livro e venham autografá-lo na Feira do Livro de Lisboa nos próximos dias 14 e 15 de Junho pelas 15H. A Dorothy é conhecida por dar grandes abraços aos leitores e suspeito que são capazes de precisar de algum após terminarem "Aromas do Amor".

Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

domingo, 18 de maio de 2014

Novidade: Os Aromas do Amor, de Dorothy Koomson

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Os aromas do amor de Dorothy Koomson
Tradução: Irene Ramalho
Págs.: 472
Capa: mole com badanas
O nono romance de Dorothy Koomson editado em Portugal tem como título Os aromas do amor e é publicado a 20 de Maio. A autora vem à Feira do Livro de Lisboa, nos dias 14 e 15 de Junho, para sessões de autógrafos.
Desde que, em 2006, deu a conhecer no nosso país A filha da minha melhor amiga – um enorme sucesso, já na 16.ª edição –, a Porto Editora tem vindo a publicar com regularidade a obra de Dorothy Koomson. O sucesso em Portugal é apenas parte do crescente prestígio internacional desta autora, que assinalou, em 2013, dez anos de carreira literária.

SINOPSE
Procuro a combinação perfeita de aromas; o sabor que eras tu. Se o encontrar, sei que voltarás para mim. Há 18 meses atrás, Joel, o marido de Saffron, foi assassinado, e o culpado nunca foi descoberto. Agora, fazendo os possíveis para lidar com a perda, Saffron decide terminar Os aromas do amor, o livro de receitas que Joel tinha começado a escrever antes da sua trágica morte. Quando, finalmente, tudo parece ter voltado à normalidade, a filha de 14 anos de Saffron faz uma revelação chocante que abala a relação entre ambas. E, ao mesmo tempo, o assassino de Joel começa a enviar cartas afirmando a sua inocência. Será um grande amor capaz de sobreviver à maior das perdas?