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quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Opinião: Passagem para o Ocidente, de Mohsin Hamid



Passagem para o Ocidente
Mohsin Hamid
 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas 208
Editor: Saída de Emergência




 
Sinopse: 
Num cenário de guerra, é possível o amor e a esperança.
A história do amor furtivo de Nadia e Saeed tem lugar numa cidade não nomeada cheia de postos de controlo e de bombas, um labirinto humano à beira da rutura. Quando a guerra civil rebenta, surgem estranhos rumores sobre a existência de portas clandestinas que levam a outros países. À medida que a violência aumenta, os dois jovens sabem que têm de deixar para trás a vida que sempre conheceram, embarcando numa viagem sem regresso, vertiginosa e cheia de surpresas.
Numa mistura singular de realismo e magia, Passagem para o Ocidente é um belíssimo romance sobre refugiados, que nos leva a questionar em que mundo queremos viver.

Rating: 3.5/5
Comentário:  Só me apercebi que "Passagem para o Ocidente" era o tão aclamado "Exist West" quando já ia a meio da narrativa, ainda que na capa estivesse bem explícito que este livro de Mohsin Hamid tinha sido nomeado para o Man Booker Prize.
Da minha parte, fiquei agarrada pela sinopse e queria redescobrir mais sobre esta relação num ambiente nada frutífero ao amor e ao despoletar das emoções humanas que associamos aos períodos em que estamos mais relaxados e em paz connosco.
Não podia deixar de começar por referir que Mohsin Hamid criou uma história muito humana e cheia de nuances, que tentou captar a essência do Ser Humano sem sem paternalista nem desonesto, sem dourar pílulas nem apimentar processos.
Embora em nenhum momento se diga que esta seria a realidade da Síria, nenhum leitor deixa de ajustar este país sem nome à realidade macabra que nos entrou em casa pelas televisões nos últimos 4 anos. E é também uma lembrança constante, agora que os media já não consideram notícia uma desgraça que é vigente e que infelizmente se tornou quase que estrutural da sociedade do séc. XXI e neste caso particular, da Europa - a crise dos refugiados.
O que o autor nos traz é de facto um romance que começa num período em que facções diferenciadas num país se começam a guerrear, obrigando a uma intervenção também não pacífica por parte do Estado.
A forma como as relações humanas se vão adaptando e reconstruindo com derivadas criadas pelo contexto social e político que se vive na posição geográfica onde as personagens se encontram é transmitida com enorme sensibilidade mas também sem receio de tocar na ferida.
Por sua vez, a condensação de emoções, sensibilidades, nuances narrativas tendo por base o objetivo de descrever o quanto uma guerra pode destituir as pessoas daquilo que são e têm sido até ao momento é poderosíssimo.
Com um toque alegórico e metafórico, quase que a roçar o fantástico, suplantam-se os processos de travessia associados às rotas de fuga dos refugiados. Mas este elemento insere-se no enquadramento geral com enorme mestria.
Outro dos pontos positivos pela narrativa é precisamente o facto de o autor não se assumir como defensor de uma outra situação quando o tratamento dos países ocidentais, optando por evidenciar as diversas áreas cizentas que circundam o espectro do certo e errado nestas situações. Tratando-se de personagens muito humanas, não poderiam deixar de existir momentos de tensão, defeitos e envolvimentos benéficos e várias óptimas de leitura para um mesmo acontecimento.
Mohsin Hamid não torna os refugiados num único grupo sem rosto nem cor, valorizando as suas personagens por aquilo que elas são e atribuindo-lhes a humanidade que elas merecem.
Mas também não desvaloriza as várias reacções e envolvimentos que são expectáveis e facilmente desenvolvidos nos países que passam a albergar milhares de migrantes resultantes de conflitos armados.
Com uma análise bastante real, assim como crua, o autor pretende não chocar nem sensibilizar mas contar as coisas pelo que elas são, repensando as respostas da Europa e dos Estados Unidos num modelo de resposta preditivo e funcional. "Passagem para o Ocidente é, no fundo, uma educação para os Direitos Humanos num contexto universal e complexo, sem análises dúbias e simplistas.
Vale a pena ler.


Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

terça-feira, 6 de março de 2018

Opinio: A Arte Subtil de Saber Dizer Que Se F*da, de Mark Manson



A Arte Subtil de Saber Dizer Que Se F*da
de Mark Manson

 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas: 208
Editor: Desassossego
  


Sinopse: 
Uma abordagem que nos desafia os instintos e nos força a questionar tudo o que sabemos sobre a vida
Durante décadas convenceram-nos de que o pensamento positivo era a chave para uma vida rica e feliz. Mas esses dias chegaram ao fim. Que se f*da o pensamento positivo! Mark Manson acredita que a sociedade está contaminada por grandes doses de treta e de expectativas ilusórias em relação a nós próprios e ao mundo.
Recorrendo a um estilo brutalmente honesto, Manson mostra-nos que o caminho para melhorar a nossa vida requer aprender a lidar com a adversidade. Aconselha-nos a conhecer os nossos limites e a aceitá-los, pois no momento em que reconhecemos os nossos receios, falhas e incertezas, podemos começar a enfrentar as verdades dolorosas e a focar-nos no que realmente importa.
Recheado de humor e experiências de vida, A Arte Subtil De Saber Dizer Que Se F*da é o soco no estômago que as novas gerações precisam para não se perderem num mundo cada vez mais fútil.

Rating: 3/5
Comentário: Quem já nos acompanha há uns tempos, sabe que não tenho por hábito ler livros de auto-ajuda e/ou desenvolvimento pessoal; mas este título sobressaiu no meio das novidades editoriais do início do ano e achei que era uma lufada de ar fresco necessária no que tocava ao meu panorama de leituras.
De qualquer forma, não acho que este livro de Mark Manson se encaixe verdadeiramente em nenhuma destes géneros. Isto porque o autor nos apresenta, acima de tudo, o que é a sua visão do mundo e o que fazer para enfrentá-lo, visão essa que advém (embora o mesmo se tenha especializado no assunto através do ganho de competências ao longo dos anos a escrever colunas sobre a temática) de uma base empírica, e que como tal, pouco ou nenhum fundamento científico tem. Mas também sou apologista que na maioria dos casos, não são os estudos ou as intervenções científicas que se adaptam melhor às nossas necessidades do dia a dia, mas os mecanismos de resposta que vamos adquirindo através da experiência e das coisas que nos correm melhor ou pior. Dito isto, é a partir deste pressuposto que o autor nos apresenta um conjunto de acções/ projecções de vida por si adquiridas e que, fazendo-lhe sentido e tendo-lhe trazido um maior nível de bem-estar, este decide partilhá-lhas connosco.
Não há como começar a escrever sobre elas sem referir o título. Quando o vi em português, quis ir descobrir o original (já que sabemos que as traduções nunca são fáceis, especialmente pela impossibilidade literal de comportar os mesmos significados e intenções para um público socio- culturalmente diferente). A aproximação entre ambos está deliciosa, embora no fundo não compreenda o alcance que o autor lhe quis transmitir. Se a expressão "que se f*da" se prende mais com a intenção de embora pesando as consequências e as responsabilidades dos nossos pensamentos e acções, decidimos avançar, pensando que logo se vê no que é que vai dar (e mandando-as para trás das costas), verbalizar um "not giving a f*ck", transmite mais a ideia de que as coisas deixam, efectivamente, de ter importância (isto, claro, no meu entender). Ainda assim, ambos cumprem o propósito de chamar a atenção do leitor para a necessidade de equacionar o que é que anda a fazer e quanto tempo perde preocupado com coisas que, a acontecer, não merecem o tempo que lhes dispensamos.
Compreendendo o que é que os críticos indicam como uma abordagem contra intuitiva, os princípios com os quais o autor se rege não me eram desconhecidos (alguns até os coloco em prática, na minha medida) e portanto não posso dizer que contenham o factor "uau" que poderá ter para muitas outras pessoas. Ainda assim, não posso negar que foi um prazer encontrar outro semelhante naquelas páginas porque, como o autor enuncia a determinada altura, não somos assim tão especiais nem diferentes uns dos outros.
É um livro que cria uma abordagem crítica ao egocentrismo e antropocentrismo que rege a maioria das sociedades (especialmente as ocidentais, sendo as que o autor naturalmente conhece mais de perto), e que esparrama as suas fragilidades diante dos olhos do leitor. Mas também reforça com contra indicativos formatos para contrariar as ratoeiras por elas criadas.
Podendo ser ligeiramente provocador a determinadas alturas, reconheço que Mark Manson sofre de um dos mal por si enunciados, já que contrariando o que disse anteriormente, o seu posicionamento quando nos apresenta quais os mecanismos ditos contra intuitivos, é precisamente numa lógica dourada, como se a sua metodologia fosse A certa e devesse ser adoptada por todos, não fosse verdade que ao não o fazerem, a responsabilidade dos seus problemas será somente sua.
Falando em responsabilidade, um dos capítulos que achei mais interessantes passa precisamente pela relação dinâmica entre culpa e responsabilidade, segundo uma abordagem que já pratico no meu dia a dia, embora considere algo perigosa pela aura de plenitude que o autor transmite. A título de exemplo, ele relata um caso de um pai que perdeu um filho e refuta a sua teoria. Diz ter-se sentido inicialmente culpado, mas que no fundo depois de ponderar o assunto considera estar correcto. No meu entender, esta análise a todos os níveis e esferas da nossa vida pode desenvolver outros sentimentos de culpa e inadaptabilidade, precisamente porque acontecimentos mais trágicos nem sempre nos permitem reagir segundo um plano de acção e que não acho, de todo, que alguém se deva culpar e responsabilizar por isso (Leiam o livro e venham discutir esta teoria comigo mais tarde!).
O segundo capítulo que mais ocupou a minha atenção tratou das relações tóxicas e de dependência, e neste caso acho que o autor acertar na mouche.
No fundo, não concordando na totalidade com as várias indicações transmitidas pelo autor, considero que "A Arte Subtil de Saber Dizer Que se F*da" não deixa de ser uma lufada de ar fresco e de remexer algumas mentes que nunca se tenham debruçado sobre as temáticas abordadas pelo autor segundo este prisma. São provocadoras, mas não se imiscuem no universo dos leitores, já que o livro está montado quase que numa lógica de story telling, evidenciando precisamente os desafios sentidos pelo autor ao longo da sua vida, e as respostas que teve de dar para vencer um obstáculo, tornando-as depois mantras para vencer numa vida mais simples e feliz.
Merece ser lido e discutido, já que os posicionamentos enunciados pelo autor pretendem acima de tudo servir como alavancas para o despertar de consciências. E se no final aprendermos todos a dizer "que se f*da" ou "not giving a f*ck" mediante uma série de circunstâncias da nova vida, o livro cumprirá o seu propósito.


 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

domingo, 3 de setembro de 2017

Opinião: Corações de Pedra, de Simon Scarrow



Corações de Pedra
de 
 
Edição/reimpressão: 2017
Páginas: 417
Editor: Edições Saída de Emergência
  





Sinopse: 
1938: Três jovens vivem um verão perfeito na ilha grega de Lefkas, isolados dos problemas políticos que fervilham na Europa. Peter, de visita da Alemanha enquanto o pai lidera uma expedição arqueológica, desenvolveu uma forte amizade com Andreas e Eleni.
À medida que o mundo resvala para a tragédia e Peter é forçado a partir, os amigos juram encontrar-se de novo. 1943: Andreas e Eleni juntaram-se às forças da resistência contra a invasão alemã. Peter regressa - agora um oficial inimigo e espião perigoso. Uma amizade formada em paz irá transformar-se numa batalha desesperada entre inimigos dispostos a sacrificar tudo pelos países que amam…
 

Rating: 2/5
Comentário: Ninguém gosta de escrever opiniões sobre livros que não gostou tanto. Eu não sou diferente e por isso demorei alguns dias a trazer a opinião a "Corações de Pedra", de Simon Scarrow. Não que o livro seja mau, mas ia com expectativas completamente diferentes, especialmente insinuadas pela sinopse, e que foram completamente defraudadas.
No que respeita à trama, efectivamente temos um enquadramento e contexto histórico centrado na II Guerra Mundial, num país ocupado pelos países do Eixo. Gosto sempre destas análises de realidade ficcionadas à luz da História, e que demonstrem outros lados deste conflito bélico a nível mundial. A perspectiva da ocupação da Grécia foi bastante interessante, especialmente quando enquadrada com o contexto político local da altura, dando uma luz a um momento histórico para além da visão mais generalista.
Gostei também da abordagem do processo inicial de resistência por parte do exército grego, assim como das descrições a bordo de um submarino de guerra, que criaram momentos de acção bélicos cativantes para a atenção do leitor. Acho que existe todo um imaginário associado a lugares menos alcançáveis, nos quais se encaixaria um submarino. Acaba por ser uma visita guiada, ilustrada por momentos de actuação ao minuto.
O problema é que este plano narrativo estende-se para além do agradável e acabamos com uma série de momentos quotidianos de vida militar, seja ela resultante do pleno exercício do exército ou das forças de resistência no exterior. Tanta análise das forças militares poderia ser interessante, não fosse o facto de não ser essa a temática do livro, pelo menos em teoria.
É precisamente esse o meu problema com este livro. Há uma série de planos de acção que são referidos e inseridos na construção do livro mas que depois se perdem no panorama geral. Começamos com saltos temporais que não beneficiam em nada o enredo principal, e que poderia ter brilhado muito mais com a retirada desse plano mais moderno, que foi uma alavanca para a narração da história da História, mas que poderia ter sido conduzida tem a utilizar.
Seguidamente, a inserção de um suposto mistério que surge como insinuação nas primeiras páginas e só retorna muito posteriormente, só causa também, na minha opinião, ruído para a mente do leitor. Até porque ele não é senão um pretexto para facilitar a resolução de uma parte da trama mesmo nas últimas páginas.
Por outro lado, dou a mão à palmatória com a abordagem dos processos de resistência das populações locais, embora esta se baseasse somente numa forma de fundamentar o concretizar de alguns momentos para a narrativa principal, em vez de efectivamente valorizar as personagens apresentadas como pano de fundo.
Por fim, fiquei desiludida com a ligeireza com que foi tratada a dita amizade das três personagens, especialmente atendendo ao conflito de se nutrir sentimentos de amizade e confiança por alguém que num período temporal diferente se encontraria do outro lado da barricada. Esperava momentos de constrição e dúvida, de tentativa de racionalização de parte a parte para facilitar a compreensão do que ao seu olhar seria incompreensível. Isto deve-se ao ter achado desde o início que as relações interpessoais fossem bastante trabalhadas e este fosse um livro sobre pessoas e as suas histórias, e acabei por receber um livro de momentos de acção encadeados e com saltos geográficos algo constantes.
No fundo, a sensação premente que tive ao longo da narrativa - e que não faço ideia se será verídica ou não - foi que o autor tinha um final definido em mente e queria lá chegar, não sabendo algumas vezes como conduzir o processo e perdendo-se a meio. Mas também talvez se deva a ter tido as minhas expectativas defraudadas e ao não me ter conseguido adaptar à narrativa.
Ainda assim, se quiserem um livro com conteúdo militar (mas não exageradamente), forças de resistência, forças invasoras, histórias de passados distantes, pessoas interligadas por laços de afecto e antepassados, então dêem-lhe uma hipótese e contem-me depois qual a vossa reacção ao mesmo. Acredito que ainda poderão eventualmente sair-se surpreendidos, desde que não leiam a sinopse de todo para não vos estragar a experiência de leitura, como a mim.


 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Opinião: As Primeiras Quinze Vidas de Harry August, de Claire North


As Primeiras Quinze Vidas de Harry August
de Claire North

Edição/reimpressão: 2016
Páginas: 432
Editor: Saída de Emergência




Resumo: Harry August não é um homem normal. Porque os homens normais, quando a morte chega, não regressam novamente ao dia em que nasceram, para voltarem a viver a mesma vida mas mantendo todo o conhecimento das vidas anteriores. Não interessa que feitos alcança, decisões toma ou erros comete, Harry já sabe que quando morrer irá tudo voltar ao início. Mas se este acumular de experiências e conhecimento podem fazer dele um quase semideus, algo continua a atormentar Harry: qual a origem do seu dom e será que há mais pessoas como ele?
A resposta para ambas as perguntas parece chegar aquando da sua décima primeira morte, com a visita de uma menina que lhe traz uma mensagem: o fim do mundo aproxima-se.
Esta é a história do que Harry faz a seguir, do que fez anteriormente, e ainda de como tenta salvar um passado que não consegue mudar e um futuro que não pode deixar que aconteça.
Rating: 3,5/5

Comentário: O tempo é e tem sido desde sempre um dos grandes mistérios da vida. Procuramos conhecer o passado e sonhar com o futuro, aprender com os que já viveram e conjunturar sobre as inovações que nos trarão os homens e mulheres de amanhã. A literatura nunca se esqueceu desta caixa de pandora, e a imortalização de "A Máquina do Tempo" de H. G. Wells é um exemplo disso, marcando toda uma corrente literária que tem vindo a explorar a temática sob as mais diversas formas. Claire North seguiu a tendência e trouxe-nos uma abordagem diferenciada à ideia da viagem no tempo. Harry August não se movimenta no espaço temporal segundo a sua vontade, mas num ritmo cíclico marcado por uma mesma origem e vivência, se assim por si determinada (pelo menos esta última, uma vez que a sua âncora é precisamente o acto do seu nascimento).
A sinopse já me tinha deixado curiosa por diversas vezes, pelo que fiquei entusiasmada com a publicação deste livro em Portugal. E não estava à espera de gostar tanto, mas acabei agradavelmente surpreendida.
O tempo está no centro da acção deste livro, mas o enredo vai muito além disso e centra-se principalmente na vida (ou vidas) de Harry August. É portanto um livro para apreciadores e contadores de histórias, centrando-se no percurso existencial desta personagem, que se revela bastante rica, complexa, humana e com uma sensibilidade especial, limada ao longo de todas as vidas derivadas da sua experiência.
Nascimento na década de 1920 e tendo uma esperança média de vida que invariavelmente garante a sua morte por volta de 1990, a personagem acaba por se inserir num contexto histórico bastante interessante, juntando elementos de ficção histórica com ficção científica, de uma forma bastante equilibrada e envolvente, que transforma um movimento cíclico num percurso mais interessante para o leitor. 
Tratando-se de uma narrativa assente numa perpectiva singular, a estrutura do livro acaba por facilitar uma maior dinâmica, ao não nos ser apresentada uma versão linear da sua existência, intercalando acontecimentos e "vidas" consoante os assuntos de relevo a apontar, que se fundamentam com uma estrutura narrativa de base, que acompanha a acção principal, que acabará por ganhar uma maior força a partir do meio do livro.
Gostei especialmente da confluência de pequenas observações e elementos para a construção do puzzle final, para além dos registos filosóficos e de reflexão sobre as viagens do tempo e as suas implicações para a estrutura temporal. Por vezes, e ainda que seja um livro muito diferente dos que irei mencionar, senti alguns elementos que me relembraram de "O Mundo de Sofia" e "A Mulher do Viajante do Tempo". Acho que tem um pouco do espírito de ambos se atentarmos às análises frequentes sobre a representação e consequências destas viagens num sentido mais vasto (dando azo a pequenos momentos quase que filosóficos), mas também pela influência que várias personagens catalisadoras acabam por ter na construção da trama final e na "colagem" deste personagem de forma a que a sua identidade não se perca. A abordagem desta personagem ao passar do tempo é também bastante interessante, especialmente porque, se o leitor assim quiser e estiver com alguma atenção, conseguirá detectar pequenas reflexões que se adaptam ao nosso presente, acelerado, repentino e corrido, que por vezes não nos deixa com muito espaço para aproveitar experiências, consolidá-las e torná-las parte de nós.
Não obstante, em "As Primeiras Quinze Vidas de Harry August" contamos também com uma trama de mistério e acção, um exercício que pede para ser desvendado e que nos leva para um plano para além do conto do passado, puxando o leitor para o centro da movimentação e criando desejo de atingir o desfecho.
Acabou por ser uma abordagem diferente do que esperava, mas bastante completa, pormenorizada, e com poder de envolver o leitor na história de um homem que foi quinze diferentes e um só ao longo de 400 páginas.
                                          

Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Opinião: O Livro dos Mosquetes, de Emílio Miranda

O Livro dos Mosquetes
de Emílio Miranda
Edição/reimpressão: 2012
Páginas: 368
Editor: Saída de Emergência
Resumo:
Em pleno século XVI, quando o Império Português atingia o seu auge, um junco com marinheiros portugueses naufraga numa praia desconhecida. Sem o saberem, acabam de confirmar a existência de uma terra que só existia nas lendas: a Terra do Sol Nascente, o Japão. Deste inesperado contacto resulta a descoberta de um mundo tão diferente que parece arrancado dos sonhos: um mundo ordeiro e magnificamente belo, habitado por um povo cujos guerreiros - os samurais - superam em dignidade e crueldade, tudo quanto os portugueses haviam visto até então.
Depois do junco português ser reparado, parte de novo para o Mar da China. Mas nada voltará a ser igual, nem para os marinheiros que partem com a notícia para o rei português, nem para João Boavida, o marinheiro que, apaixonado pelo Japão e por uma misteriosa mulher, decide ficar.
Mas a maior mudança será para a própria Terra do Sol Nascente que, enfeitiçada pelos mosquetes que os portugueses trazem, nunca mais será a mesma.

Rating: 3,8/5 (desculpem mas 4 é muito alto e 3,5 é muito baixo!)


Comentário:
Gostaria de começar por dizer que a minha única e grande crítica a este livro vai para o diálogo. E digo-o porque este tem alturas em que passa de fluído e natural para autênticas lições de história, o que o torna não necessariamente massador e mas sim irrealista. 
Sei que na altura as pessoas eram mais instruídas que hoje, ora se a memória não me falta houve um jesuíta italiano que levou para a China mais de 50 livros dentro da sua cabeça, completamente memorizados e chegando lá os escreveu. Com isto quero dizer, que havia um certo nível de excelência que era requisitado às pessoas que se faziam ao mar com o intuito de descobrir mais sobre os povos. No entanto, João dá-nos a entender que, e apesar de ter sido educado pelo tio que era padre, recebeu uma educação muito superior ao normal. Esta educação acaba por não incluir, necessariamente, uma educação religiosa mas lhe dá capacidade para falar e dar opinião sobre vários temas, que talvez fossem de difícil compreensão para um português normal. Assim sendo, pareceu-me um pouco irrealista quando ele começa a explicar tudo, em japonês, à sua amada quando ela lhe faz perguntas.
De resto, o livro é genial, é um livro de época que faz justiça à cultura japonesa e mesmo as falas dos mesmos, estando em português, tem os seus maneirismos, como o "né", tornando-as mais realistas. Toda a atmosfera foi também muito bem descrita e creio que o povo foi capturado na sua essência. Algo que é raro encontrar, visto que os autores tendem a fantasiar as culturas orientais conferindo-lhes uma certa magia e encantando, perpetuando com isso estereótipos.
A verdade é que os portugueses foram os primeiros ocidentais a chegar ao Japão e na realidade, este ano fazem 450 anos desde a chegada dos portugueses ao porto de Kochinotsu. Foi por isso uma grande sorte este livro ter sido lançado este ano, foi na realidade, talvez o ano ideal e fico muito feliz de o ter lido nesta data tão especial.
Apesar de todo o romance em torno de João Boavida ser especulativo a verdade é que foi muito bem encaixado no contexto histórico e é deveras realista. Tenho que felicitar o autor pela sua pesquisa que sem dúvida deve ter sido intensiva e pela sua prosa que tão bem misturou romance e factos. Um livro que sem dúvida despertará a atenção dos curiosos em relação ao oriente.
Por curiosidade acabo este comentário com uma foto das celebrações dos 450 anos da "nossa" chegada ao porto de Kochinotsu. Nesta foto os japoneses vestem trajes típicos e carregam espingardas japonesas, que deduzo sejam de época.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Rubrica: As Serviçais de Kathryn Stockett

As Serviçais
de Kathryn Stockett

Edição/reimpressão: 2010
Páginas: 464
Editor: Saída de Emergência
Resumo:
Um romance que vai fazer de si uma pessoa diferente.
Skeeter tem vinte e dois anos e acabou de regressar da universidade a Jackson, Mississippi. Mas estamos em 1962, e a sua mãe só irá descansar quando a filha tiver uma aliança no dedo.
Aibileen é uma criada negra, uma mulher sábia que viu crescer dezassete crianças. Quando o seu próprio filho morre num acidente, algo se quebra dentro dela. Minny, a melhor amiga de Aibileen, é provavelmente a mulher com a língua mais afiada do Mississippi. Cozinha divinamente, mas tem sérias dificuldades em manter o emprego… até ao momento em que encontra uma senhora nova na cidade.
Estas três personagens extraordinárias irão cruzar-se e iniciar um projecto que mudará a sua cidade e as vidas de todas as mulheres, criadas e senhoras, que habitam Jackson. São as suas vozes que nos contam esta história inesquecível cheia de humor, esperança e tristeza.

Rating: 4/5

Comentário:
A história das serviçais ocorre durante o ano de 1962, no estado do Mississippi, numa altura em que se lutava pelos direitos civis na América e em que havia muito preconceito contra a raça negra.
Ao longo do livro acompanhamos o percurso de três mulheres que fizeram a diferença na sociedade. Skeeter acaba de sair da faculdade e o seu maior sonho é escrever, mas o único trabalho que consegue é num jornal a escrever uma coluna de assuntos domésticos. Isto leva-a a conhecer Aibellen, travando amizade com esta, pois Aibe faz-lhe lembrar a criada negra que a ciroi. Aibe é carinhosa e gentil mas solitárias pela morte do filho. A ideia de escrever algo polémico nasce desta amizade espontânea, e o assunto em questão era argumentar algo que incomodasse, mas este tema depressa evolui para uma ideia controversa: publicar um livro com relatos sobre as relações entre as criadas negras e as patroas, naquela altura, ou seja nos aos 60.
Mesmo apreensiva pelo que poderia acontecer se alguém descobrisse este relato, Aibeleen aceita esta proposta de Skeeter e ainda convence Minny a participar. Minny, também uma criada, e talvez com a pior patroa possível, é uma mulher sem papas na língua e concorda com a ideia do livro. É a partir destas três mulheres e com a ajuda de Martin Luther King, que naquela altura lutava pelos direitos dos negros, que o preconceito quanto às criadas negras iria ser batalhado e vencido.
Uma história muito bem escrita, onde se destacam as personagens, adorei a Skeeter, a Minny e claro a Celia, que me proporcionou várias gargalhadas, e adorei odiar a Hilly, que mulher mesquinha!! É um livro que aborda a questão do preconceito de uma forma humana, mostrando que são todos iguais.

Mafi
Sobre a nossa convidada:

Mafi, devoradora de livros, romântica incurável e futura historiadora de arte. Adora romances que aquecem o coração. Receia que um dia morra soterrada na pilha de livros por ler mas está sempre aberta a novas sugestões. Adoradora incurável de livros, é impulsionadora do grupo Maratonas Literárias no Goodreads.

quinta-feira, 18 de março de 2010

O Dilema de Shakespeare por Harry Turtledove

O Dilema de Shakespeare
por Harry Turtledove

Edição/reimpressão: 2011
Páginas: 480
Editor: Saída de Emergência
  
Ser livre ou não ser livre... Eis a questão!

Em 1588, a invencível armada de Filipe, rei de Espanha e Portugal, zarpou de Lisboa para conquistar Inglaterra. Mas uma série de tormentas e o génio de Francis Drake desbarataram-na, salvando assim Inglaterra. O que aconteceria se essas tormentas nunca tivessem acontecido e Francis Drake não tivesse a sorte do seu lado? É isso que descobrimos neste fabuloso romance de Harry Turtledove. Onde dez anos depois do desembarque dos espanhóis, os ingleses vivem subjugados pela inquisição que atira os heréticos para a fogueira. E com a rainha Isabel encarcerada na torre de Londres, os ingleses não têm qualquer símbolo que os una contra os invasores. William Shakespeare é apenas mais uma vítima. Não tendo qualquer interesse na política, a sua paixão é escrever para o teatro onde as suas palavras provocam gargalhadas e lágrimas na população oprimida. Mas agora é dada a Shakespeare a oportunidade de escrever a sua maior obra... Um drama que incite os ingleses a levantarem-se contra os opressores e a mudar o curso da história.
Rating: 3,5/5

Comentário:
Nunca fui fã de literatura histórica. Mas o facto desta Inglaterra nunca ter existido cativou-me, como aqueles "ses" que brincam na parte de trás da nossa mente. Se isto tivesse acontecido, se aquilo não se tivesse passado. Como me ofereceram o livro pouco tempo depois, fiquei curiosa e quis começar a ler, como sempre a vida pôs-se pelo meio, e só agora tive tempo para o fazer.
Adorei o livro, segui Shakespeare em cada passo da sua revolução, suspirei com ele e suei com ele. Fui cúmplice, devo admitir desta revolta. Por isso aconselho-o vivamente a todos!