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segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Opinião: Krabat, O Moinho do Feiticeiro, de Otfried Preußler



 
Krabat, O Moinho do Feiticeiro
Otfried Preußler
 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas: 256
Editor: Sextante





Sinopse: 
Um romance clássico da literatura de língua alemã, Krabat – O Moinho do Feiticeiro tem como pano de fundo histórico a Grande Guerra do Norte – travada entre potências que, no primeiro quartel do século XVIII, disputavam entre si a hegemonia no centro-leste da Europa.

Otfried Preussler conta-nos a história do aprendiz de moleiro Krabat e da sua luta para libertar a azenha da maldição do Mestre-moleiro. Rituais de magia negra e de liturgia cristã, sonho e realidade, amizade e ódio coexistem no mesmo espaço da narrativa, criando uma complexa teia de mistérios por desvendar e de perigos sempre à espreita.

Rating: 3/5
Comentário: Nada como o início do ano para escrever este livro, até porque a ideia da renovação e a mística do ritual de término da transladação da Terra está sempre presente.
Otfried Preußler escreveu "O Moinho do Feiticeiro" em 1971 e o romance juvenil tornou-se um clássico na literatura alemã, tendo sido distinguido com prémios como o Prémio de Literatura Juvenil Alemã (1972) e o Prémio Europeu do Livro Juvenil da Universidade de Pádua (1973). Para além de ter sido traduzido em 37 línguas, existe há uma adaptação ao cinema que, ou passou somente nos circuitos de língua alemã, ou passou-me despercebida porque tinha um total desconhecimento sobre esta história.
O que me atraiu para a sua leitura, para além de um olhar complacente e simultaneamente incisivo sobre um contexto histórico para uma parte da Europa raramente abordada na literatura vendida em Portugal, foi o facto de apresentar um enredo que apelava à magia negra e à simbologia inerente. Magia essa que não segue os preâmbulos criados pela saga do Harry Potter uns anos mais tarde, mas que se agarra às raízes da bizarria e do misticismo do oculto, que poderia não ser vista como indicada para jovens. Não fosse esta uma narrativa construída por camadas, e com várias interpretações à lus da dimensão analisada.
Numa constante dicotomia entre luz e escuridão, paz e guerra, conhecimento e ignorância, o autor traz-nos uma narrativa assente em metáforas e alegorismos, simbologia diversa e introdução de arreigos morais que criam um paralelismo constante entre duas forças que conduzem a narrativa.
Krabat, enquanto rapaz inocente, defronta-se com a argúcia e inteligência do Mestre-moleiro, cuja sagacidade o torna o senhor e capataz não só do Moinho, como da vida de 13 rapazes que compõem a sua força de trabalho. As imagens da brancura da farinha resultante do trabalho desenvolvido no negrume, a compleição dos rituais de compromisso em noite de liturgia sagrada, o reforço do conhecimento enquanto verdadeiro poder sobre a força bruta, são algumas das variantes em análise trazidas pelo autor. Mas são também mecanismos de apoio narrativo, que contam uma história bem mais leve e simples, se vista somente pela óptica narrativa - clara e fácil de entender pelo leitor juvenil.
São estas subtilezas inerentes à trama principal, também com laivos de contexto histórico e fundamentos das histórias tradicionais e populares germânicas, que tornam "O Moinho do Feiticeiro" um enredo mais denso do que inicialmente esperado, mas levado a cabo com mestria e afinamento modular, onde cada ritual de passagem (desde o mundo dos sonhos mudança de um ano para o outro) incute uma peça da trama que merece ser analisada individualmente.
Não obstante, Otfried apresenta uma narrativa corrente e facilmente lida pelos jovens, com os fundamentos certos para criar uma narrativa envolvente, mas também um enquadramento místico que transpira mistério e capacidade de superação e renovação.


Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Uma Mulher Desnecessária, de Rabih Alameddine



Uma Mulher Desnecessária
de  Rabih Alameddine
 
Edição/reimpressão: 2017
Páginas: 264
Editor: Porto Editora
  


Sinopse: 
Aaliya Saleh vive sozinha no seu apartamento em Beirute, rodeada por pilhas e pilhas de livros. Sem Deus, sem pai, sem filhos e divorciada, Aaliya é o «apêndice desnecessário» da sua família. Todos os anos, ela traduz um novo livro para árabe, e depois guarda-o. Os trinta e sete livros que Aaliya já traduziu nunca foram lidos por ninguém. Depois de ouvir as vizinhas, as três «bruxas», a criticar a extrema brancura do seu cabelo, Aaliya tinge-o… de azul.

Neste assombroso retrato da crise de idade de uma mulher solitária, os leitores seguem a mente errante de Aaliya, à medida que ela vagueia pelas visões do passado e do presente da capital do Líbano: reflexões coloridas sobre literatura, filosofia e arte são invadidas por memórias da guerra civil libanesa e do próprio passado volátil de Aaliya. Ao tentar superar o envelhecimento do corpo e as inoportunas explosões emocionais que o acompanham, Aaliya é confrontada com um desastre impensável que ameaça estilhaçar a quietude da vida que ela escolheu para si mesma.

Rating: 4/5
Comentário: Reconheço que este possa não ser um livro para qualquer leitor ou leitora, mas foi dos mais bonitos que li ultimamente. Rabih Alameddine traz-nos a história de uma mulher que à luz da sociedade que a acolhe é precisamente aquilo que o título enuncia: uma mulher desnecessária. Uma mulher que não cumpre os preceitos societais através da sua vida pessoal nem constribui activamente com uma actividade profissional que seja compreendida e aceite pela população em geral. Para além disso, e mesmo que seja de desconhecimento geral, o seu passatempo de tradução acaba por se assemelhar a uma pequena ocupação inglória, atendendo a que o resultado dessa tradução acaba arrumado em caixas espalhadas pela sua casa. Ou será que a sua produção vale pela acção e tempo investido, independentemente do resultado? Até que ponto os nossos interesses são válidos só porque nos dão prazer?
Esta é uma das questões que fica latente ao longo da narrativa e a qual vai sendo abordada e desvendada ponto por ponto, especialmente com reflexões mais aprofundadas e acutilantes sobre a arte da tradução e todos os preceitos que a cobrem.
Simultâneamente, os singelos acontecimentos da vida quotidiana são elucidações e pontes de transposição para outras partes da vida passada desta mulher, que não fossem esses momentos e quase que validações da sua presença e existência, teria passado a vida em branco.
São também os pequenos acontecimentos do presente que lhe atribuem uma certa dimensão corpórea, que desfaz a ilusão de que Aaliya só vive no passado e não tem existência no mundo actual. E esses pequenos momentos, tão caricatos, são também aqueles que reforçam um carácter mais ligeiro a um livro carregado de melancolia, despreendimento e alguma dose de luto pelo mundo já vivido, pelas personagens que passaram pela sua vida e já não estão presentes e por aquilo que Aaliya foi e/ou poderia ter sido.
"Uma Mulher Desnecessária" é também uma ode à arte, com inúmeras reflexões filosóficas e abordagens artísticas, desde a música clássica à, naturalmente, literatura. São mencionados vários autores e autoras, com muitas citações e até desconstruções sobre o que foi por estes/as referenciado. E em variados momentos mais corriqueiros, talvez porque estes/as sejam os companheiros e companheiras que mais a acompanham (mesmo que no campo metafórico) ao longo de toda a sua vida, as análises por estes/as produzida quase que justificam ou valorizam os seus pensamentos.
Não tenho a certeza de tratar-se de liberdade de tradução, mas a referência constante à obra de Fernando Pessoa pareceu-me a determinada altura como excessiva. Percebo a necessidade de aproximar a leitura à realidade do leitor, mas sem que esta deturpe o original quanto ao seu enquadramento geográfico.
No geral, este é um livro muito especial e cheio de nuances, com uma abordagem sensível e sublime ao que é ser mulher na Líbia, sem tomar as dores e as percepções de todo um género mas recriando uma história que facilmente se enquadra na temática. É um enredo que conjuga subtileza, estética, filosofia e poesia, assim como representações multiculturais que não podem nem devem ser desmerecidas.
É um óptimo livro, com um ritmo lânguido que pede para ser lido com prazer e calma. Recomendo.


 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Opinião: O Professor de Quéops, de Albert Salvadó



O Professor de Quéops
de 
 
Edição/reimpressão: 2003
Páginas: 203
Editor: Terramar
  





Sinopse: 
Eis uma história da época do faraó Sneferu e da rainha Heteferes, pais do futuro faraó Quéops (ou Khufu), que mandará construir a mais impressionante das pirâmides do Egipto. Mas trata-se também da história de Sedum, escravo que se tornará professor de Quéops. Ora foi precisamente com esta obra que Albert Salvadó - agora revelado ao público português - venceu o II Prémio Néstor Luján de Romance Histórico, em 1998.
Albert Salvadó demonstra ser senhor de uma notável capacidade efabuladora, sem nunca perder de vista a consistência de uma sólida infra-estrutura histórica. E, no entanto, este seu romance põe a nu toda uma trama narrativa, engenhosamente arquitectada, em que se sucedem os episódios dominados pela intriga e a conspiração, pelo amor e a paixão, pelo mistério e a aventura, e também pelo assassínio.

Rating: 3/5
Comentário: Albert Salvadó foi o único autor de Andorra que encontrei traduzido para o projecto "World Book Tour" e foi portanto a minha escolha para o mês de Maio.
Das várias escolhas disponíveis, optei por ler um livro ligeiro e pequenino, até porque foi um mês de mudanças a nível pessoal, e com pouco tempo para enveredar em leituras mais complicadas.
A expectativa cumpriu-se e o autor manteve um estilo ligeiro e corriqueiro numa história contada em jeito de conto e com bastante fluidez assim como rapidez narrativa. A sensação geral coincidiu mesmo com essa nuance, e não pude deixar de ler esta história com um enredo com um estilo narrativo semelhante ao aplicado quando contamos histórias a crianças. Ao longo das páginas vamos acompanhando a vida de Sedum, desde o seu nascimento até à sua morte, com vários saltos temporais e pouca profundidade e envolvimento emocional. Este personagem passará por várias etapas e desafios na sua vida, mediante o contacto que estabelece com diversas pessoas, algumas representando obstáculos à sua sobrevivência pacifica e bem intencionada, tão por si almejada. É uma típica história de triunfo da inteligência e bondade sobre a astúcia e ganância, com uma passagem de moral mais ou menos intencionada e transmitida tal e qual num cenário de fábula, com um herói sofredor e vitimizado pelo acaso, cuja sorte varia consoante as pessoas com que se cruza.
Naturalmente, passando-se no Antigo Egipto, não deixamos de ter contextualização social e comportamental que facilita a compreensão da realidade das personagens e o seguimento das suas histórias. Ainda assim, passam quase que despercebidas, de tal forma que retirando pequenos elementos, esta mesma história quase que poderia ter-se passado em qualquer contexto histórico.
Não será certamente um livro que me ficará na memória, mas não posso deixar de dizer que me diverti a lê-lo, nem que seja como elemento de descompressão (especialmente porque o comecei e terminei numa tarde em que estava extremamente cansada e a necessitar de desligar o cérebro da realidade por umas horas).

Sobre o autor: "Albert Salvadó (Andorra-a-Velha, 1 de fevereiro de 1951) é um escritor andorrano. Estudou engenharia industrial e escreveu contos infantis, ensaios e novelas.
Destaque para suas novelas históricas, onde mistura realidade, ficção e mistério. Suas obras foram publicadas em vários idiomas (catalão, castelhano, francês, português, grego, tcheco e outros) e ganhou numerosos prêmios. Entre eles: Prêmio Carlemany, Prêmio Fiter i Rossel do Círculo das Artes e das Letras, duas vezes o Prêmio Néstor Luján de novela histórica.", in Wikipedia

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Opinião: Viajante à Luz da Lua, de Antal Szerb



 
Viajante à Luz da Lua
de 
 
Edição/reimpressão: 2017
Páginas: 272
Editor: Guerra e Paz
  




Sinopse: 
Mihály, um homem de negócios de Budapeste, vai passar a lua-de-mel em Itália com a mulher, Erzsi. Os problemas começam na primeira paragem, Veneza, mas é em Ravena que um antigo amigo de Mihály perturba o casal com histórias do passado. Ao perder o comboio para Roma, Mihály foge da mulher e vagueia pelo país, numa viagem de autodescoberta. Dividido entre o desejo e o dever, o que quer e o que os outros esperam de si, a boémia da adolescência e as responsabilidades de adulto, Mihály reencontra os seus fantasmas e questiona o sentido da vida.
Amor e morte cruzam-se neste romance trágico cómico de 1937, uma obra-prima do húngaro Antal Szerb, traduzida em diversos países, e que chega finalmente a Portugal.
 
Rating: 3,5/5
Comentário: Antal Szerb nasceu em 1901 em Budapeste, filho de pais judeus, e foi morto num campo de concentração em 1945. Tinha 43 anos, e contabilizava entre os seus feitos a nomeação como Presidente da Academia Literária Húngara e vários romances publicados, para além de ter ganho duas vezes o prémio Baumgarte. "Viajante à Luz da Lua" foi publicado em 1937. 
Fiz esta breve introdução com a intenção de enquadrar esta obra, já que nada nela faz enunciar a época em que se insere. Esta é uma obra pessoal, de consciência, de análise dos sentimentos que nos regem e dos valores e sonhos que nos movem. É uma reflexão sublime sobre a importância da lealdade, da responsabilidade perante os nossos pares, sobre o quando o nosso passado e as nossas experiências nos definem ou influenciam. 
Mihály é um adolescente no corpo de um homem adulto, que se rege pela vivência de juventude perdida para reger as suas decisões. É também, embora não surja directamente escancarado no texto, alguém que sofre de depressão e que lida com períodos de incapacidade atrozes que o submetem ao seu mundo demonizado e introspectivo. É esta a personagem que nos guia por estas páginas numa viagem que não passa tanto pela Itália real como pela da sua percepção sensorial. O encontro com personagens e elementos do seu passado são não menos do que projecções que secundam o seu trajecto psicológico e íntimo do encontro do ser entre a persona que povoa e se representa nestas páginas para o mundo exterior e aquela que habita o seu íntimo. 
O desaforo de lhe ser desconhecido o desfecho de algumas personagens que o acompanharam durante um período particularmente prolífero da sua vida, e a forma como ele reflecte essa angústia e acontecimentos nas decisões mais ou menos impulsivas que vai tomando. 
Não é sempre fácil acompanhar a viagem mental de Mihály ou compreender (ou querer conviver) com as suas escolhas, e alguns comportamentos poderiam ser incompreensíveis se não nos recordássemos de se tratar de uma narrativa de época. Ainda assim, as nuances nem sempre claras do seu intento que surgem por meias palavras e subterfúgios, os dilemas que povoam a sua mente e não declarados senão no momento que a personagem ocorre tornar oportuno, acaba por tornar esta viagem um enigma a ser desvendado. 
Julgo ser a minha estreia com a literatura húngara e futuramente gostaria de ingressar em leituras de outros autores locais, possivelmente com uma maior reflexão sobre o contexto sociocultural do país.                                  

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Opinião: E as Montanhas Ecoaram, de Khaled Hosseini

 
E as Montanhas Ecoaram
de Khaled Hosseini
 
Edição/reimpressão: 2013
Páginas: 392
Editor: Editorial Presença 
  




Sinopse:
1952. Em Shadbagh, uma pequena aldeia no Afeganistão, Saboor é um pai que um dia se vê obrigado a tomar uma das decisões mais difíceis da sua vida: vender a filha mais nova, Pari, a um casal abastado em Cabul e assim poder continuar a sustentar a restante família. A separação é particularmente devastadora para Abdullah, o irmão mais velho que cuidou de Pari desde a morte da mãe de ambos. Nenhum dos dois imaginava que aquela viagem até à capital iria instalar um vazio nas suas vidas que seria capaz de atravessar décadas e quilómetros e condicionar os seus destinos...

Neste seu terceiro romance, "E as Montanhas Ecoaram", Khaled Hosseini traz-nos uma belíssima e comovente saga familiar que reflete sobre como os laços que nos unem sobrevivem aos obstáculos que a vida nos impõe.


Rating: 3/5
Comentário: Esta deveria ter sido a primeira leitura do ano, a estrear o projecto do World Book Tour. No entanto, várias opiniões e comentários sobre os livros do autor colocaram-me algo reticente, na medida em que me apetecia começar o ano com leituras mais leves e desdramatizadas. Nesse sentido, só agora em Março tive vontade de escolher esta leitura. Confesso que o motivo pelo qual escolhi este livro se prendeu não somente pela sinopse mas porque me parecia dos três o menos denso no que toca a violência ou agressividade. Tinha razão, mas também julgo compreender quando as pessoas dizem ser o menos bem conseguido dos três já publicados em Portugal, uma vez que a comparação da sinopse perante a narrativa do livro deixa um pouco a desejar.
De facto, a premissa do enredo parte exactamente desse ponto enunciado, mas estamos muito pouco em contacto com os irmãos, cuja trama passa para segundo plano sem que o leitor esteja à espera. "E as Montanhas Ecoaram", cujo título reflecte mais os preâmbulos e resquícios da cultura afegã pelo Mundo - disseminado por diversas personagens e formatos - do que o enquadramento paisagístico pelo qual o país é conhecido, procura dar voz a vários intervenientes, tanto directos como indirectos, num país em constante mudança politico-social, criando uma crónica de costumes e vivências, reflectindo os diversos agentes passíveis de modificar assim como de ser mudados pela histórica: influenciadores de locais, criminosos e corruptos, população subjugada, intervenientes em causas humanitárias, emigrantes de 1ª geração, emigrantes de 2ª geração cujas raízes afegãs há muito se perderam, os que procuram voltar e rever-se num país que já não é seu e os que fogem dele e das suas idiossincrasias como se a sua vida dependesse disso (e às vezes depende mesmo).
É uma crónica narrada capítulo a capítulo, cujos actores (ainda que remotamente ligados à trama inicial) acabam por servir de linha condutora a esta análise sociocultural,  que através de muitos saltos temporais nos proporciona janelas fotográficas para determinados momentos da história.
Ainda assim, a tentativa de englobar uma série de temáticas no único contexto acabou por defraudar o autor, na medida em que esse manto de retalhos acaba por ser cedido em segundo plano para narrativa pessoal de casa personagem, que por vez acaba por se remeter para o enredo enunciado na sinopse ainda em menor dimensão. Julgo que esse encadeamento constante e a frequência dos saltos temporais, que nos fornecem uma imagem menina e depois uma amadurecida de uma série de personagens, sem grandes explicações para as variâncias e transformações senão pela sucessão factual de diversas enunciações, acaba por deixar uma sensação de ausência e vazio a descoberto, que o autor não soube preencher da melhor maneira. É um quase que nunca chega a ser, e que pouco contribui para embrenhar o leitor na narrativa e torná-la também um pouco sua.
Ainda assim, apaixonei-me por várias das personagens, e talvez daí advenha em parte a desilusão de não as poder descobrir com maior cuidado e minúcia, assim como às suas histórias. As que me cativaram mais compreenderam a infância de Pari e Abdullah, mas também a da madrasta de ambos e do seu irmão. Não obstante, o que me levou a crer na capacidade de Khaled Hosseini ser um grande contador de histórias, foi a narrativa de um pequeno menino cujo olhar de amor filial se irá transformar perante a perda do manto de inocência e ingenuidade com que sempre cobriu o seu pai. 
Não tenho muito interesse em ler as obras prévias do autor, apesar do mar de elogios que lhes tenho visto ser atribuídos, mas por causa desta última personagem estarei atenta a próximos trabalhos do mesmo.

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Opinião: Um Jantar a Mais, de Ismail Kadaré

 
Um Jantar a Mais
de Ismail Kadaré


Edição/reimpressão: 2010
Páginas: 1
72
Editor: Quetzal




Resumo:
Gjirokastër —a cidade de pedra no sul da Albânia—vê desfilar as tropas alemãs que regressam da Grécia ocupada. Quem as comanda é um coronel nazi que em tempos fora colega de um dos dignitários da cidade—o Dr. Gurameto —na Alemanha. O reencontro do coronel von Schwabe com o seu antigo condiscípulo é efusivo e este convidao para jantar.
Mas eis que os resistentes abrem fogo sobre a frente de blindados alemães, e, como represália, os nazis capturam reféns entre os habitantes da cidade.
Sob pena de passar por traidor aos olhos da população, durante o jantar com o estado-maior alemão, o Dr. Gurameto, tenta persuadir o coronel de os libertar —de entre eles, um farmacêutico judeu. E ganha a causa.
Após o fim da guerra, e depois de instaurado o comunismo, este caso volta à discussão. E no momento em que no bloco comunista a paranoia estalinista atinge o seu apogeu, a libertação do farmacêutico judeu pelo coronel nazi transforma Girokäster no centro do complot planetário para a decapitação dos países socialistas…


Rating: 4/5

Comentário: "Um Jantar a Mais" é a escolha de Março do projecto World Book Tour, onde o grupo viajou até à Albânia através das páginas. Tido por muitos como um dos autores que há muito já deveria ter sido consagrado com um Nobel da Literatura, Ismail Kadaré traz-nos uma obra que vinca pelos seus ideais e posições reflexivas, sob um olhar escrutinador perante a História da Europa e as repercussões tidas na Albânia, o seu país natal.
Este livro é uma parábola, tragico-cómica e alegórica que compreende um período da História do séc. XX de completa transformação na Europa. As transformações ideológicas e as suas influências sociais surgem caricaturadas na pequena aldeia de Girokäster, cujos acontecimentos singulares ganham proporções desenxabidas mas bastante claras e perfeitamente honestas sobre as vicissitudes, diferenças e complementaridades de dois regimes ditatoriais, que embora em extremos opostos de um espectro ideológico, se aproximam por diversas vezes nos métodos utilizados para o controlo da população e para a prestação de uma lealdade cega aos líderes que as compõem.
O discurso ligeiro, mas poético, comprometido mas levianamente expondo as construções da acção com perícia e uma deliciosa índole narrativa, tornaram esta pequena leitura num prazer imenso. É ainda assim uma leitura que, ainda que bastante fácil, apela a um olhar perscrutador  por parte dos leitores, na medida em que nada é deixado ao acaso e todos os encadeamentos e reflexões são propositadamente colocadas e com intentos claros. Auxiliará também os leitores terem alguma cultura geral e conhecimento sobre os períodos de ocupação Nazi assim como da Guerra Fria para esta composição lida nas entrelinhas que, ao fim ao cabo, é a missão do livro na sua plenitude. Ainda assim, não é descabido que quem se sinta pouco confortável com estas temáticas não subentenda a mensagem, mesmo para além do plano principal da narrativa. Ismail Kadaré foi sem dúvida uma óptima surpresa trazida pelo projecto doWorld Book Tour e irei certamente enveredar por mais leituras de obras do autor.

Sobre o autor: "Ismaïl Kadaré nasceu em 1936, em Gjirokastra, no Sul da Albânia. Estudou em Tirana e em Moscovo no Instituto Gorky. Após a ruptura do seu país com a União Soviética, em 1960, iniciou uma actividade jornalística e publicou os seus primeiros poemas. Entre 1970 e 1982 foi deputado da Assembleia Popular de Tirana, tendo em Outubro de 1990 obtido asilo político em França. É o mais conhecido escritor albanês e as suas obras estão traduzidas em diversas línguas. De entre as seus livros mais importantes, destacam-se, os romances: O General do Exército Morto (1963), Crónica da Cidade de Pedra (1971), Os Tambores da Chuva (1972), O Concerto (1988), e já editados pelas Publicações Dom Quixote, Abril Despedaçado (1978), adaptado ao cinema pelo realizador brasileiro Walter Salles, autor do filme Central do Brazil, O Palácio dos Sonhos (1981), A Pirâmide (1992), e selecção de textos Três Contos Fúnebres pelo Kosovo (1998). Em Junho de 2005, Kadaré foi galardoado com o primeiro Man Booker International Prize pela sua carreira literária." Fonte: WOOK                            


Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Opinião: Um Mundo de Estranhos, de Nadine Gordimer


Um Mundo de Estranhos
de Nadine Gordimer


Edição/reimpressão: 2009
Páginas: 272
Editor: Difel





Resumo:
Toby Hood, um jovem de classe média-alta inglês, rejeita a actividade política e as causas que os pais, liberais convictos, defendem apaixonadamente. Residindo em Joanesburgo, como representante da editora da família, Toby move-se com facilidade e descontracção, tanto nos aprazíveis subúrbios brancos como nas fervilhantes e vibrantes cidades negras.
O seu círculo de amigos é composto por uma grande variedade de pessoas, desde directores de minas a jornalistas e músicos negros; e os fins-de-semana ao estilo colonial de Toby são muitas vezes intercalados com noites passadas nos bairros de lata negros.
A amizade de Toby com Steven Sithole, um jovem africano desenvolto e amargurado, toca-o profundamente, de uma maneira que nunca teria julgado possível e, quando a ânsia de independência e a revolta de Steven contra as regras estabelecidas acabam em tragédia, a vida de Toby nunca mais será a mesma… Um Mundo de Estranhos é uma das mais representativas obras que abordam os primeiros anos do regime do Apartheid, tendo mesmo sido proibida a sua publicação na África do Sul, durante mais de doze anos.


Rating: 3/5

Comentário: "Um Mundo de Estranhos" foi a leitura de Fevereiro para o projecto World Book Tour, que neste mês contemplou autores da África do Sul. Tendo sido escrito durante os primeiros anos do apartheid, o mesmo esteve proibido no país em causa durante 12 anos.
Apanhando uma época tão preponderante na época de um país, seria impossível suplantar a temática da segregação racial, pelo que a autora esforçou-se por apresentar uma crítica social acutilante mas não centrada na temática de uma forma óbvia.
Toby é um dandy, e comporta-se como tal, sendo despretensioso, despreocupado e capaz de se insinuar com facilidade em qualquer ambiente que lhe traga algum retorno que se prenda com a satisfação imediata. Age como alguém sem ligações com compromissos que não os meramente profissionais, muito em parte porque não quer ver-se restricto pelas convenções sociais que lhe são impostas moralmente e legalmente, mas também não pretende envolver-se na sua resolução, fugindo das expectactivas e esforços familiares e de estranhos para que se encaixe num grupo ou caracterização social. É nesse estado de espírito que acaba por se encontrar entre duas realidades, a do mundo elitista e caucasiano e os bairros sociais dos negros.
Parte de si encaixa em ambos, um na procura do conforto, outro no encontro intelectual e de sociabilidade, sendo que a sua consciência, ainda que pretensamente indiferente constantemente evidencia a diferença e a incapacidade de mesclar ambos universos.
A sua perspectiva acaba por trazer uma análise pessoal centrada nas crónicas de bons costumes, negligenciando uma análise mais externa do contexto social em que o enredo se insere, ficando este relatado pelo assinalar esporádico de certos momentos através de personagens externas. Pela sua despreocupação em considerar as suas acções, o leitor por vezes quase que se esquece do nível de perigo e insegurança em que se colocava esta personagem, uma vez que vencendo as convenções pela sua desconsideração, a personagem principal age como se elas não existissem, tendo de se confrontar com a realidade dos factos perante certas ocasiões que o relembram que lá porque este se posiciona numa abstenção forçada de consciencialização moral, o mundo continua a girar e as suas contristações estarão sempre presentes para o desafiar.
Atendendo a que o livro acompanha o quotidiano de um homem cujas preocupações diárias passam pelos eventos sociais a frequentar, não foi uma leitura tão profunda ou impactante quanto esperava. No entanto, o seu estilo é bastante refinado e dá um prazer enorme em ler, sendo que o segredo desta leitura reside em ler as entrelinhas e tudo o que não é dito.

Sobre o autor:  "Prémio Nobel da Literatura 1991. Escritora sul-africana, Nadine Gordimer nasceu a 20 de Novembro de 1923 em Springs, uma cidade mineira dos arredores de Joanesburgo. Filha de um joalheiro judeu, vindo da Letónia e de uma cidadã britânica, obcecada pela saúde da filha, estudou numa escola de orientação cristã.
Geralmente confinada em casa pelos cuidados da mãe, escreveu o seu primeiro conto com apenas nove anos de idade e, continuando o seu esforço literário, viu Come Again Tomorrow, merecer publicação na secção infantil da revista Forum cinco anos depois. Matriculando-se na Universidade de Witwaterstrand, acabou por desistir dos seus estudos ao fim de um ano, preferindo a escrita. Assim, em 1949 publicou o seu primeiro livro, uma colectânea de contos intitulada Face To Face, e que revelavam as suas preocupações quanto à segregação racial na sociedade sul-africana. [...]
Continuando a explorar o tema dos direitos da maioria negra, Gordimer publicou The Conservationist (1974), romance em que propõe um contraste entre o mundo tradicional Zulu e o devastador fluxo de industrialização conduzido pela etnia europeia. The House Gun (1998) gira em torno do julgamento de um arquitecto, Duncan, que é acusado de ter assassinado o seu amigo Carl Jesperson. [...] Nadime Gordimer foi galardoada com o Prémio Nobel da Literatura em 1991. Faleceu a 13 de julho de 2014, com 90 anos, na sua casa de Joanesburgo". Fonte: WOOK
                                          

Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.