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sábado, 22 de abril de 2017

Opinião: O Coração de Simon contra o Mundo, de Becky Albertalli


O coração de Simon contra o Mundo
de Becky Albertalli
 
Edição/reimpressão: 2017
Páginas: 248
Editor: Porto Editora
  





Sinopse: 
Simon Spier tem 16 anos e os únicos momentos em que se sente ele próprio são vividos atrás do computador.
Quando Simon se esquece de desligar a sessão no computador da escola e os seus emails pessoais ficam expostos a um dos colegas, este ameaça revelar os seus segredos diante de toda a escola.
Simon vê-se, assim, obrigado a enfrentar as suas emoções e a assumir quem verdadeiramente é perante o mundo inteiro. 

Rating: 4/5
Comentário: Na contracapa deste livro, Nuno Pinto (Presidente da Direcção da ILGA Portugal) diz que "A história de Simon podia ser a de muitos de nós". E é uma plena verdade, mais não seja porque todos fomos adolescentes um dia e sabemos o quão difícil pode ser aceitar-nos na nossa própria pele, sermos o que o nosso âmago nos instiga a ser sem medos e com propriedade, e enfrentar a (falta de) tolerância do mundo exterior (quer respeitante às nossas escolhas, ao nosso aspecto ou à nossa orientação sexual).
Simon é, por isso mesmo, um verdadeiro adolescente como já fomos muitos de nós, mas que representa principalmente os vários desafios porque passam jovens da comunidade LGBT  quando estão em processo de crescimento e aceitação.
Ao acabar este livro, não pude deixar de recordar um rapaz cujo blogue eu lia há muitos anos, quando também eu era uma adolescente, em que o mesmo utilizava a internet e a sua página pessoal para expurgar a pouca compreensão que recebia no seu universo escolar, onde era o único gay assumido. E ao pensar naquele rapaz, só desejei que livros como "O Coração de Simon contra o Mundo" tivessem chegado mais cedo e que, diante tantos jovens que ainda se encontram em debates internos perante o preconceito e a necessidade da aceitação, estes pudessem confrontar-se com exemplos como este, incutindo-lhes esperança, (ou pelo menos) uma versão mais positiva à qual se agarrar.
Confesso que me custou a entrar um pouco na narrativa e explico porquê: o cinismo mesclado de insegurança de Simon, assim como as suas expressões e maneira de estar desta personagem, pareceram-me saídas de um amigo de escola. E durante as primeiras páginas, foi-me bastante difícil dissociar a imagem deste rapaz do outro que conheço na vida real, que tirando o seu pretendo desinteresse, nada tinham em comum.
Passado este elemento de estranheza, fui-me entranhando na narrativa e relembrando o que é ser um adolescente de primeira viagem, entrando na cabeça deste rapaz que tem tanto de adorável como irritante. Sabendo de antemão a importância que os seus emails pessoais representavam para a narrativa, achei-os inicialmente um pouco insípidos ou banais. Claro está que rapidamente me recordei que isto de ser adolescente tem o que se lhe diga, e que nem sempre lavamos a alma da forma mais clara, embora esses gestos não percam o significado por isso.
O crescimento da personagem do Simon assinala-se especialmente a partir das primeiras 100 páginas, especialmente porque é nesse momento que a incursão no mundo exterior também ganha nova forma e destaque. Este foi sem dúvida um dos pontos fortes do livro para mim. Aquilo que o Simon não nos diz, as pessoas do seu círculo familiar e das amizades próximas enunciam-nos, trazendo uma imagem mais completa deste rapaz de coração enorme, mas simultaneamente cheio de incertezas. As irmãs (que são chatas ou ausentes), os pais (preocupados e metediços), os amigos (que procuram atenção mas a quem seria estranho falar de sentimentos e coisas do género) são algumas das preocupações deste rapaz. Mas ao mesmo tempo que nos absorvemos pelas suas divagações, temos também acesso a pormenores que compõem o cenário mais geral e que nos permitem ver a narrativa para além do seu olhar e do que este nos conta. E todas elas são  bastante vívidas e corpóreas, valendo a sua existência só por si (mesmo que só tenhamos acesso a alguns relampejos da sua existência) e não somente para justificar aquilo que Simon é enquanto pessoa.
É um livro positivo e cheio de esperança, que lida mais com questões do foro interior do que coma  falta de tolerância. É também repleto de bons e fortes exemplos - dos amigos, da família, da professora furiosa que não admite qualquer caso de bullying ou discriminação perante a sua presença - e que relembra os jovens leitores que pegarem nesta narrativa de que pessoas assim não perduram somente na ficção. Existem na vida real também, e muitos deles, mesmo que ainda não se tenham manifestado, já existem nas suas vidas.
Por fim, não poderia deixar de falar do romance em si. Transparente e sem pretensionismo, com todas as indicações da insegurança de dar os primeiros passos, das dúvidas sobre como lidar com o novo e o desconhecido, do poder que é reencontrar outro igual com quem partilhar a imagem do que se é sem medos, sem esquecer a atracção física e o desejo do encontro. A evolução desta história foi conduzida com muita transparência e doçura, e ainda que não fosse mais segredo para o leitor quem seria o Blue muito antes do Simon descobrir, o corte dos estereótipos e a apresentação desta relação como deveria ser - como tantas outras iguais - só lhe atribui um imenso mérito.
Finalizando, gostava de pegar no título original - "Simon vs the Homo Sapiens Agenda" - que ao fim ao cabo é a essência deste livro e que faz tanto sentido: em vez de termos de estar contra o mundo e lutar para que este nos aceite, porque é que não somos aceites só porque sim? Porque é que é exigida uma necessidade (por vezes defendida de forma sectorial) de afirmação? Somos todos Homo Sapiens, isso deveria ser resposta suficiente. O Simon descobriu-o, e nós não nos podemos esquecer.

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Opinião: O Universo nos Teus Olhos, de Jennifer Niven

 
O Universo nos Teus Olhos
de Jennifer Niven
 
Edição/reimpressão: 2017
Páginas: 408
Editor: Nuvem de Tinta
  





Sinopse: 
 Libby Strout, outrora a rapariga mais gorda da América, conseguiu finalmente ultrapassar o desgosto causado pela morte da mãe e está pronta para voltar a viver. Transformou-se e o que mais deseja é ser a rapariga que consegue ser tudo o que quer. No entanto, o resto do liceu não parece partilhar deste entusiasmo de Libby.Jack Masselin é o típico rapaz popular do liceu: bonito, sempre com o comentário certo na hora certa. No entanto, o gosto que tem em perceber a mecânica dos objetos, em reconstruir e transformar tudo o que encontra, não lhe serve de muito na sua incapacidade para reconhecer caras. Jack tem prosopagnosia e à sua volta, familiares e amigos incluídos, parecem-lhe desconhecidos e são, para ele, um autêntico quebra-cabeças.Quando o destino junta Libby e Jack, a solidão que cada um sente dá lugar a sentimentos muito diferentes… Uma história de superação e de um amor verdadeiro e invulgar que nos devolve a esperança no mundo, em nós e no outro.

Rating: 3,5/5
Comentário: Sei que muitos dos leitores de Jennifer Niven contavam com outro romance emocionalmente avassalador (e algo destrutivo) como foi o "Falam-me de um dia Perfeito" (opinião aqui). Mas por vezes também é necessário incutir um pouco de esperança junto da nossa juventude e a ideia de "tu és amado, alguém te quer" é tão importante como a lição de superar os nossos obstáculos e ter coragem de pedir ajuda, patente no livro anterior.
"O Universo nos Teus Olhos" é um livro-resposta que Jenifer Niven esccreveu como presente para os milhares de fãs que continuaram a contactá-la após a publicação do seu romance predecessor, esperando desta forma não só apoiar como recordar a importância de sermos ouvidos e acarinhados pelo que somos, e como somos. É um livro de aceitação, de aprendizagem, de superação também, mas especialmente de auto-aceitação.
Libby é uma personagem cheia de força, cujo processo de desenvolvimento pessoal já decorre de forma avançada quando travamos conhecimento com a personagem, e como tal, nem sempre as suas dúvidas ou receios ficam tão visíveis como o inicialmente esperado, mas ainda assim é muito humana e a esperança e fé incondicional em si e no mundo, assim como o desejo de não ser retractada como a rapariga gorda, mas como a miúda que é, com a altura e o peso que tem, mas tem com a sua cor de olhos, as sardas, os sonhos, os hobbies e os gostos pessoais. Gostei que, para variar, um livro para adolescentes com uma personagem com excesso de peso não se centrasse na perda de peso em si (embora esse factor nunca seja ignorado, não por questões estéticas mas de saúde) mas sim nos motivos pelo qual uma situação descontrolada chegou até este ponto. Bem sei que existe ainda uma certa incompreensão pela temática mas por vezes o excesso de peso não se prende com a quantidade de vezes que alguém abre a boca para comer per si, mas com comportamentos compulsivos associados a insegurança, problemas de foro emocional e ansiedade, que se poderão desenvolver em patologias se não forem diagnosticadas e tratadas a tempo. O ponto forte aqui demarcado é precisamente a elevação desta diferença, expressa pelo mundo exterior versus os que a conhecem mais de perto. É uma personagem corajosa, e gostei do brilho de luz que esta trouxe para as páginas deste livro, embora de facto, mesmo que percebendo o ponto de decalque que a autora queria assinalar (e indo contra o que acabei de expressar em cima), a questão da alimentação pudesse ter tido um enfoque mais em determinadas alturas, porque mesmo não sendo o factor-chave ou o gatilho que causa as suas fragilidades anteriores, era através deste que ela se tinha expressado no passado e que seria motivo de luta constante para a sua regulação.
Já Jack tem prosopagnosia, a incapacidade de reconhecer rostos, mesmo que perante conhecidos, familiares e amigos. Não tendo ninguém próximo que sofra desta patologia, mesmo que ela não me fosse desconhecida, não consigo precisar se o tratamento da mesma foi feita com verosimilhança ou não. A autora inspirou-se num caso familiar e pelos agradecimentos sabemos que era procurou acompanhamento especializado na revisão da temática médica. No entanto, também já li vários comentários no Goodreads de quem passa pelo mesmo que a personagem principal e que o assinala como algo exagerado e não muito verosimilhante. No meu entender, a autora preserva-se destas críticas em dois sentidos: primeiramente, quando a temática é abordada, elucida-se logo sobre a necessidade de considerar que existem vários níveis para a doença. Em seguida, porque o que julgo que ela pretende evidenciar são as características da doença. Naturalmente, se o jovem vivia numa família só com irmãos, mesmo não reconhecendo a cara da mãe, saberia ser ela a entrar no seu quarto ou nas várias divisões da casa (até porque mesmo não a reconhecendo, conseguiria identificá-la pela voz, pelo som dos seus passos, etc.). Ainda assim, o que a autora pretende é demonstrar pelos olhos de um adolescente como é que se processa a doença. Parece-me um pouco inverosímil também que ninguém soubesse do seu estado ou que pelo menos desconfiasse do mesmo, mas compreendo o impacto que essa acção tem para o enredo principal.
A relação dos dois como seu leque de amigos pretende demonstrar, mesmo por contraste, a importância de valorizarmos quem somos e de não termos receio de mostrar quem somos, mas também a necessidade de nos sabermos rodear das pessoas certas e que nos estimem, e eliminar as que possam contribuir para as nossas fragilidades.
Ainda assim, apesar de ter gostado de Jack e Libby enquanto personagens, senti que o contexto enredo demonstrava algum vazio de conteúdo.
A relação de Libby com o pai era bonita mas sabendo-os tão unidos, pareceu-me pouco desenvolvida. Já o contexto familiar de Jack também se moveu segundo um modelo periférico, ainda que compreenda o egocentrismo da narrativa.
Não obstante, sinto que a mensagem principal - a recuperação da auto-estima e a aceitação de que somos importantes, à nossa maneira, para pelo menos para uma pessoa neste mundo - foi bem transmitida e fez com que tenha acabado o romance satisfeita.
 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Opinião: E as Montanhas Ecoaram, de Khaled Hosseini

 
E as Montanhas Ecoaram
de Khaled Hosseini
 
Edição/reimpressão: 2013
Páginas: 392
Editor: Editorial Presença 
  




Sinopse:
1952. Em Shadbagh, uma pequena aldeia no Afeganistão, Saboor é um pai que um dia se vê obrigado a tomar uma das decisões mais difíceis da sua vida: vender a filha mais nova, Pari, a um casal abastado em Cabul e assim poder continuar a sustentar a restante família. A separação é particularmente devastadora para Abdullah, o irmão mais velho que cuidou de Pari desde a morte da mãe de ambos. Nenhum dos dois imaginava que aquela viagem até à capital iria instalar um vazio nas suas vidas que seria capaz de atravessar décadas e quilómetros e condicionar os seus destinos...

Neste seu terceiro romance, "E as Montanhas Ecoaram", Khaled Hosseini traz-nos uma belíssima e comovente saga familiar que reflete sobre como os laços que nos unem sobrevivem aos obstáculos que a vida nos impõe.


Rating: 3/5
Comentário: Esta deveria ter sido a primeira leitura do ano, a estrear o projecto do World Book Tour. No entanto, várias opiniões e comentários sobre os livros do autor colocaram-me algo reticente, na medida em que me apetecia começar o ano com leituras mais leves e desdramatizadas. Nesse sentido, só agora em Março tive vontade de escolher esta leitura. Confesso que o motivo pelo qual escolhi este livro se prendeu não somente pela sinopse mas porque me parecia dos três o menos denso no que toca a violência ou agressividade. Tinha razão, mas também julgo compreender quando as pessoas dizem ser o menos bem conseguido dos três já publicados em Portugal, uma vez que a comparação da sinopse perante a narrativa do livro deixa um pouco a desejar.
De facto, a premissa do enredo parte exactamente desse ponto enunciado, mas estamos muito pouco em contacto com os irmãos, cuja trama passa para segundo plano sem que o leitor esteja à espera. "E as Montanhas Ecoaram", cujo título reflecte mais os preâmbulos e resquícios da cultura afegã pelo Mundo - disseminado por diversas personagens e formatos - do que o enquadramento paisagístico pelo qual o país é conhecido, procura dar voz a vários intervenientes, tanto directos como indirectos, num país em constante mudança politico-social, criando uma crónica de costumes e vivências, reflectindo os diversos agentes passíveis de modificar assim como de ser mudados pela histórica: influenciadores de locais, criminosos e corruptos, população subjugada, intervenientes em causas humanitárias, emigrantes de 1ª geração, emigrantes de 2ª geração cujas raízes afegãs há muito se perderam, os que procuram voltar e rever-se num país que já não é seu e os que fogem dele e das suas idiossincrasias como se a sua vida dependesse disso (e às vezes depende mesmo).
É uma crónica narrada capítulo a capítulo, cujos actores (ainda que remotamente ligados à trama inicial) acabam por servir de linha condutora a esta análise sociocultural,  que através de muitos saltos temporais nos proporciona janelas fotográficas para determinados momentos da história.
Ainda assim, a tentativa de englobar uma série de temáticas no único contexto acabou por defraudar o autor, na medida em que esse manto de retalhos acaba por ser cedido em segundo plano para narrativa pessoal de casa personagem, que por vez acaba por se remeter para o enredo enunciado na sinopse ainda em menor dimensão. Julgo que esse encadeamento constante e a frequência dos saltos temporais, que nos fornecem uma imagem menina e depois uma amadurecida de uma série de personagens, sem grandes explicações para as variâncias e transformações senão pela sucessão factual de diversas enunciações, acaba por deixar uma sensação de ausência e vazio a descoberto, que o autor não soube preencher da melhor maneira. É um quase que nunca chega a ser, e que pouco contribui para embrenhar o leitor na narrativa e torná-la também um pouco sua.
Ainda assim, apaixonei-me por várias das personagens, e talvez daí advenha em parte a desilusão de não as poder descobrir com maior cuidado e minúcia, assim como às suas histórias. As que me cativaram mais compreenderam a infância de Pari e Abdullah, mas também a da madrasta de ambos e do seu irmão. Não obstante, o que me levou a crer na capacidade de Khaled Hosseini ser um grande contador de histórias, foi a narrativa de um pequeno menino cujo olhar de amor filial se irá transformar perante a perda do manto de inocência e ingenuidade com que sempre cobriu o seu pai. 
Não tenho muito interesse em ler as obras prévias do autor, apesar do mar de elogios que lhes tenho visto ser atribuídos, mas por causa desta última personagem estarei atenta a próximos trabalhos do mesmo.

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

sábado, 1 de abril de 2017

Opinião: Os Filhos do Vento e do Mar, de Sandra Carvalho (Editorial Presença)


 

Filhos do Vento e do Mar
de Sandra Carvalho
 
Edição/reimpressão: 2017
Páginas: 328
Editor: Editorial Presença 
  





Resumo:
Forçadas a fugir de Águas Santas para escapar à fúria de Tomás Rebelo, Leonor e Guida chegam ao porto de Lisboa e confrontam-se com Corvo, o famoso pirata sobre o qual se contam tantas lendas. Horrorizada com a descoberta de que é filha de Diogo, o Açor, Leonor decide disfarçar-se de rapaz quando Corvo a obriga a embarcar no seu navio, protegendo-se assim dos impulsos masculinos. Inconformada com o seu destino, Leonor resolve fazer tudo para escapar aos piratas. Porém, com o passar do tempo, sente a herança do Açor a despertar dentro dela. O segredo que ensombra o passado de Corvo começa a inflamar a sua curiosidade, enquanto estabelece amizade com os homens que tanto temia. Conseguirá ela regressar a Águas Santas e desmascarar a perversidade de Tomás Rebelo, ou o apelo da liberdade e da aventura, conjugado com a vontade de conhecer o seu verdadeiro pai, tornar-se-á irresistível?

Rating: 4/5
Comentário: "Com os Filhos do Vento e do Mar", Sandra Carvalho chegou ao cerne da temática já enunciada para a trilogia sobre a descoberta dos Açores.
Foi um prazer retornar ao universo de Leonor e Guida, especialmente depois de as ter deixado há dois anos num momento crucial de mudança nas vidas das suas jovens. "O Olhar do Açor", o primeiro volume desta saga, foi uma leitura de descoberta (sendo o primeiro livro que da autora em causa) de um novo universo, e tenho para mim que, apesar de ser uma leitura da qual gostei bastante (podem ler a minha opinião aqui), constituiu um esforço de longo alcance, quase que à semelhança de uma prequela, para chegar ao início de "Filhos do Vento e do Mar". Proventura a autora já terá iniciado a redacção da série com uma narrativa em mente, que justifica  o processo narrativo até agora, mas talvez por causa do chamariz da sua promoção (a descoberta dos Açores) assim como uma capa que apelava desde início a mar e a aventura, lembro-me que passei a narrativa anterior a ansiar pelos "barcos". E é precisamente nesse ponto que a autora nos deixou no final do volume passado: numa chegada atribulada ao porto de Lisboa.
Para quem não leu ou já não tem muito presente a história do primeiro volume, não é fácil captaro rumo narrativo, embora possa se possa sentir alguma falta de sustento na compreensão das sequências motivacionais das personagens. Diria, no entanto, que sendo quase que paralela perante a trama inicial, com uma panóplia que personagens novas que preenchem as páginas e as emoções desta continuedade narrativa, não será o impedimento se quiserem saltar o primeiro livro (embora não o aconselhe) directamente para este.
A realidade aristocrática de "O Olhar do Açor" é substituída pelo pragmatismo e pela venturança de "Filhos do Vento e do Mar", onde as duas jovens que incutem o rumo ao enredo se vêem perante novos desafios e necessidades, que as obriga a repensar os seus valores, certezas e meios de sobrevivência. Naturalmente, e tratando-se de um enredo que se quer inserido num tempo histórico, os posicionamentos das personagens estão adaptados à época e pretendem dar voz a considerações consonantes. Como tal, nem sempre é fácil associar-nos à Leonor e gostar dela enquanto personagem, mas tal como as restantes com quem ela interage, existe um prazer em vê-la desabrochar e tornar-se mais real e menos caricatura. É ainda curioso que a realção entre ela e Guida seja repleta de dualidades e subterfúgios, onde a oscilação entre uma e outra contrabalança a postura do par perante o resto do Mundo, mesmo quando estão mais afastadas.
Quando ao novo leque de personagens, Corvo e a sua tripulação criam um conjunto vivo da vida em alto mar, cheio de prestações acutilantes, rápidas e de acção de continuidade, mas também descobertas, aventura, pujança e muita camaradagem de alto mar. O contraste de realidades assim como a constantação de que as necessidades sentidas poderão não ser colmatadas junto dos contextos que lhes são familiares trazem um confronto entre o passado e o presente, as atracções superficiais são substituídas por anseios mais profundos e o encadeamento da acção deixa tudo em aberto para o desfecho do terceiro livro, que se espera que chegue em breve!
A dinâmica do fantástico continua presente, mas desta vez não tão preponderante, e confesso que me atraiu mais esta dinâmica, aliando-se dons sobrenaturais às personagens e não brilhando na sua vez. 
Por fim, não posso deixar de mostrar entusiasmo por finalmente começarmos a desvendar o véu que cobre a vida de Açor, e começar a escortinar quem é o homem de quem todos falam mas com o qual ainda convivemos pouco.
Esperam-se mais aventuras para o próximo volume, sobre o qual estou bastante expectante, e ainda que várias pistas tenham já desvendado alguns dos acontecimentos que de certeza irão suceder-se, faltam ainda uma série de nós para unir toda a trama. Será que finalmente chegamos aos Açores? Espero que sim! Há um certo encontro familiar que vai agitar as águas marítimas por aqueles lados!
Em jeito de curiosidade, e depois de recordar o nome da trilogia, "Crónicas de Terra e Mar", cheguei à conclusão de que o primeiro volume se focou em Terra, o segundo no Mar, e que o terceiro será provavelmente uma mescla de ambos. E com esta conclusão termino esta opinião, em jeito de piscadela de olho.

Livro cedido pela Editorial Presença em troca de uma opinião honesta sobre a experiência de leitura. A editora não se responsabiliza nem detém qualquer influência no conteúdo apresentado na opinião.

«Estas e outras novidades no site da Editorial Presença aqui»
 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Opinião: A Célula Adormecida, de Nuno Nepomuceno


 
A Célula Adormecida

de Nuno Nepomuceno


Edição/reimpressão: 2016
Páginas: 592
Editor:TopBooks





Resumo:
Em plena noite eleitoral, o novo primeiro-ministro português é encontrado morto. Ao mesmo tempo, em Istambul, na Turquia, uma jornalista vive uma experiência transcendente. E em Lisboa, o pânico instala-se quando um autocarro é feito refém no centro da cidade. O autoproclamado Estado Islâmico reivindica o ataque e mostra toda a sua força com uma mensagem arrepiante.

O país desperta para o terror e o medo cresce na sociedade. Um grande evento de dimensão mundial aproxima-se e há claros indícios de que uma célula terrorista se encontra entre nós. Todas as pistas são importantes para o SIS, sobretudo quando Afonso Catalão, um reputado especialista em Ciência Política e Estudos Orientais, é implicado.

De antecedentes obscuros, o professor vê-se subitamente envolvido numa estranha sucessão de acontecimentos. E eis que uma modesta família muçulmana refugiada em Portugal surge em cena.

A luta contra o tempo começa e a Afonso só é dada uma hipótese para se ilibar: confrontar o passado e reviver o amor por uma mulher que já antes o conduziu ao limiar da própria destruição.

Com uma escrita elegante e o seu já tão característico estilo intimista e sofisticado, inspirado em acontecimentos verídicos, Nuno Nepomuceno dá-nos a conhecer A Célula Adormecida. Passado durante os 30 dias do Ramadão, este é um romance contemporâneo, onde ficção e realidade se confundem num estranho mundo novo e aterrador que a todos nós nos perturba. Um thriller psicológico de leitura compulsiva, inquietante, negro e inquestionavelmente atual.




Rating: 3/5

Comentário: O último livro de Nuno Nepomuceno foi uma surpresa quando chegou ao mercado editorial, tendo estado fechado a sete chaves de tal forma que surpreendeu até quem acompanha o seu trabalho de perto. Bem recebido pelo público em geral, rapidamente esgotou a primeira edição e foi uma das minhas últimas leituras do ano passado, cuja opinião se arrastou até agora. Isto de ser blogger tem o seu encanto mas por vezes queremos só ler e sentir, deixando esta parte de reflexão e análise para depois. Foi o que fiz em parte com este livro, na medida em que o li numa leitura conjunta com a Cata do Páginas Encadernadas, e inevitavelmente fomos trocando opiniões durante todo o processo.
"A Célula Adormecida" não deixa de ser um livro actual, nem pode deixar de sê-lo, atendendo ao mundo que vivemos que hoje. Arrisco-me a dizer sem medo que este terá sido também um factor de peso para todos os que adquiriram o livro nestes últimos meses. Ninguém quer imaginar o que seria ver/acontecer tragédias que já se perpetuam em outros destinos europeus neste nosso canto ao mar plantado. Mas ainda assim, o factor risco e a possibilidade que infelizmente nunca poderemos descartar, leva a que um quase voyeurismo que nos imerge nesta necessidade de pensar nos "e se?" e "como faríamos no caso de?".
Considero também uma leitura necessária, cada mais, numa lógica de desmistificação de conceitos, preconceitos e estereótipos, para o bem de todos os que pretendem viver numa sociedade mais sã e sadia, de pensamento e de vivências. Não é de todo um livro pregador, mas a clarificação de acontecimentos, momentos, práticas religiosas, incursões culturais e muito mais, são tentativas claras de separação do trigo do joio e de elevação moral com a qual concordo e defendo, ainda que por vezes se caia na falácia de abordar uma situação complexa como exemplificativa em dois extremos ideológicos, esquecendo-se do espectro multifacetado e diversificado existente entre ambos. Ainda assim, julgo que foi uma abordagem propositada, especialmente numa época em que todas estas questões são sensíveis e essa exigência de separação de conceitos e procedimentos muitas vezes tão confundidos pela opinião pública, era preponderante e necessária para abordagens que vão para além da leitura e que contribuem para questões de cidadania.
Dito isto, vamos voltar-nos para o enredo. Quando li a sinopse, imediatamente veio-me à mente um filme que tinha visto há largos anos, chamado precisamente "A Célula", com o Denzel Washington e a Annette Bening. Cedo me apercebi que tinha de limpar a mente e esquecer-me do enredo associado ao filme em causa para desfrutar da trama.
O autor já nos habituou ao seu estilo de narrativa: descritivo, indutor, com muita acção e capacidade de criar reviravoltas que surpreendem o leitor mais desatento. Estão também feitas para não serem desvendadas, ainda que um olhar mais acutilante chegue lá com alguma precisão. Mesmo sem um volte face constante, a narrativa prende atendendo à rapidez dos acontecimentos e também à sua colocação espacio-temporal restrita e bem definida.
Gostei da adrenalina que proporcionou, sendo uma leitura, rápida, fácil e bem conseguida, que mistura as doses certas de acção e secretismo, momentos-chave que criam elementos de andamento acelerado na história e uma série de tramas paralelas que contribuem para o enredo original (e que por vezes se interpelam, de forma a que quando algo novo ocorre em alguma delas, existe sempre um elemento de superação).
Quanto à trama principal (ou aquela que vou tomar como principal), gostei da personagem de Afonso Catalão e das suas várias dimensões, embora tenha ficado desiludida com o grande segredo que socorre este homem, uma vez que contava com algo mais original e diferenciado dos romances anteriores do autor. 
As caracterizações desta célula adormecida foram bem fundamentadas, plausíveis e capazes de gerar discussão, que é essencialmente o que a narrativa pede. Não me senti muito confortável com os mecanismos de ingnição das suas demonstrações públicas, porque na sua maioria foram todas rápidas, simplificadas e bastante semelhantes, e dado todo o tratamento cuidado ao longo do livro assim como a natureza sensível da narrativa, pareceu-me uma resposta demasiado fácil para os acontecimentos. Especialmente quando a fórmula de cativação se supõe a mesma para todos os membros, gerando algumas situações menos bem conseguidas no meu entender.
Senti também que por vezes surgiram alguns elementos que não me eram muito lógicos e que perfaziam o número somente para dar o salto estratégico para o avanço da narrativa, mas foram situações tão pontuais e menores que nunca estragaram a experiência de leitura. 
Olhando para trás agora após tantos meses, suponho que um dos factores que mais me entusiasmou e manteve agarrada à narrativa é a fórmula que o autor utiliza, e que por vezes me faz lembrar o Dan Brown (não porque sejam iguais, mas porque julgo que os seus fãs se sentiriam bastante confortáveis em ler os livros do Nuno Nepomuceno quando em busca de algo do mesmo género): um thriller onde há vários planos de acção, todos desvendados por camadas e perante a superação de obstáculo a obstáculo, com inimigos ocultos, romances algo inesperados que surgem por força de situações extremas onde só a confiança e a cumplicidade poderão salvar as personagens em perigo, uma eminência na temática principal que interliga de uma forma ou de outra todos os intervenientes da narrativa e uma série de informação didáctiva, importante, com capacidade de ensinar sem ser cansativa e aparecendo com esmero quase como se não fosse sua intenção estar presente, mas que não nos abandona a mente durante toda a narrativa.
Se gostam de livros deste género, escolham o "Célula Adormecida" do Nuno Nepomuceno, tirem a prova dos nove, e venham deixam a vossa opinião aqui nos comentários!

Boas leituras e boa semana para todos/as.
                                          

Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Review: Letters to a Young Muslim, by Omar Saif Ghobash


Letters to a Young Muslim
by Omar Saif Ghobash

Edition: 2017
Pages: 272
Publisher: PICADOR





Summary: From the Ambassador of the UAE to Russia comes a bold and intimate exploration of what it means to be a Muslim in the twenty-first century.

In a series of personal letters to his sons, Omar Saif Ghobash offers a short and highly readable manifesto that tackles our current global crisis with the training of an experienced diplomat and the personal responsibility of a father. Today’s young Muslims will be tomorrow’s leaders, and yet too many are vulnerable to extremist propaganda that seems omnipresent in our technological age. The burning question, Ghobash argues, is how moderate Muslims can unite to find a voice that is true to Islam while actively and productively engaging in the modern world. What does it mean to be a good Muslim?

What is the concept of a good life? And is it acceptable to stand up and openly condemn those who take the Islamic faith and twist it to suit their own misguided political agendas? In taking a hard look at these seemingly simple questions, Ghobash encourages his sons to face issues others insist are not relevant, not applicable, or may even be Islamophobic. These letters serve as a clear-eyed inspiration for the next generation of Muslims to understand how to be faithful to their religion and still navigate through the complexities of today’s world. They also reveal an intimate glimpse into a world many are unfamiliar with and offer to provide an understanding of the everyday struggles Muslims face around the globe.


Rating: 4/5

Review: 
I will start by saying that I received an online copy of this book through NetGalley in exchange of a honest review.

"Letters to a Young Muslim" was one of the many books I wished for at Netgalley. Of course I was really excited when my wish was granted by PICADOR and they sent me an online ARC of this book. 
We are facing difficult times, always threatened by our own fears, by the challenges of tomorrow and also by our beliefs and moral values. It is impossible not to hear the fear of some social groups in the news, as well as misconceptions about Islamism, migrants and terrorists, as if all of them fit in one whole box and are all the same (which we are pretty aware it's not truth). Because of that, I'm with the group that defends the need to bring to the light modern and moderate voices, to discuss this subjects with open minds and that are willing to reflect altogether about this issues that can contaminate or save our future world.
For what it's written on this book, Mr. Omar Saif Ghobash is as much needed as courageous for  being so outspoken about many subjects. I truly believe this book probably will not be well received near the conservative sections of Islam and considering his position and profession,  I am amazed by what he did and profoundly touched.
However, his book isn't preaching anybody, neither the reader or the receptor of his message. This is exactly what it aims to be. A collection of letters that hopefully will help his eldest son to grow up as a stir young man, with his own values and beliefs well developed, but structured upon reflection and introspection. I found the organization of the book very interesting and structured, with chapters that went from role models, the analysis of the violence and its repercussions on nowadays, the need of dialogue between the west and western world, the temptations of any faith (but specially the Islamic faith) when facing other realities and ways of living, the need of learning further knowledge and the importance of comparing it with their own beliefs in order to create better and educated versions of themselves, always facing the dichotomies of the world and finding the better answers to deal with them.
What I also liked here was a honest and transparent analysis of the world, without running away from further analysis and even some conscience and logic criticism when facing the dogmas of his own religion. They naturally had some influence and dictate his existence as a religious person but this logical constructions are also fundamental and adapted to the reality of XXI century.
It's a book for reflection, and I indicate it to everybody: the moderate voices, the more controversial ones, the doubtful and  the minds which are lost and in need of some seeds to wake up to the reality we face today. We need more active voices defending the civilization as a system that will work better with communication, friendly approaches to the unknown, and always with the aim to grow peacefully and for all.



Cláudia
About the author:
 
Addicted to the library Claudia loves to read on the move and we can usually find her sitting in a train or bus reading while commuting to and from work. But don't be fooled she is also keeping an eye on the landscape and all around her. She is an avid defender of sustainability and volunteering and it's as easy to find her starting a new project as it is to find her chatting with her friends. She is a dreamer and loves good stories so she keeps looking for them in her personal life.

terça-feira, 14 de março de 2017

Review: The Sun is Also a Star, by Nicola Yoon


The Sun is Also a Star
by Nicola Yoon

Edition: 2016
Pages: 384
Publisher: Penguin Random House UK Children's




Summary: Natasha: I’m a girl who believes in science and facts. Not fate. Not destiny. Or dreams that will never come true. I’m definitely not the kind of girl who meets a cute boy on a crowded New York City street and falls in love with him. Not when my family is twelve hours away from being deported to Jamaica. Falling in love with him won’t be my story.

Daniel: I’ve always been the good son, the good student, living up to my parents’ high expectations. Never the poet. Or the dreamer. But when I see her, I forget about all that. Something about Natasha makes me think that fate has something much more extraordinary in store—for both of us.

The Universe: Every moment in our lives has brought us to this single moment. A million futures lie before us. Which one will come true?


Rating: 3/5

Review: 
I will start by saying that I received an online copy of this book through NetGalley in exchange of a honest review.

A mixed junction of fate, love, desires and teenage dreams!

Wow. I haven't read much lately and due to many factors I find myself leaning on young adult books to overcome this reading slump with lighter reads. Which is kind of odd and even a bit funny, since I almost stopped reading young adult books a long time because I can't find myself enjoying them as much as I did in the past. Nevertheless, I'm still keen of a good story and "The Sun is Also a Star" had all the right ingredients to get my attention. Starting by the author's nationality.
Ever since I started thinking and preparing the project of the World Book Tour (now in partnership with my friends Cata and Jojo ) I started to look out not only for books representing diverse public segments but also different authors, with different experiences and a wider spectrum of analysis. And this book had it all: a Jamaican author, Jamaican characters, Korean characters, and a bit of youthful, confrontation between a magical fate and logic and some scents of the historical paths that brought two different branches of immigration to the United States of America.
It's also a test to life in general, calling the readers to decide where is the line that divides a predisposed destiny and the cadence of small happenings which, in the end, transform who we are and what are our next steps.
Firstly I considered a bit annoying all the parallel stories to which I couldn't find a reason for them to appear constantly, since they interrupted the main plot quite often and line of the story I was designing on my mind. Therefore, I understood near the end their purpose and I could even understand the little magic created from them. It's amazing to conceal how small moments and differences can change someone's life! Nevertheless, they weren't my favourite part of the story for sure.
Natasha and Daniel couldn't be more different from each other. That's why it's so lovely to find them in love, surpassing the inconveniences of family's expectations, emotional baggage, a timeline they can't avoid and their personal insights about how life should be or shouldn't be lived.
 It's a love story, but it's also a bit more than that, fruitfully resulting from the dimensions created by their family stories. In the middle of all the unbelievable situations and actions during that 24 hours, that elements added new memories and moments for both of them to cherish. This book also adds a dimension of real life, when discussing that being a teenage is not always so easy as it seams, since many of the major decisions responsible for defining our future are taken so early.
Because of that, I felt there was a realm of reality claiming to make the readers think about what they are expecting to build on their paths (or what they did in the past) and what it means at the present moment. It's also a lucky charm against blue days, because I doubt that someone isn't going to fall for Daniel, he has that spirituous and free mind we all would like to keep on us (even just a little) every time we see ourselves on the mirror, besides he is a dearest and it's impossible not to smile at his blind faith in the world.
Finally, I enjoyed the last chapter, it felt realistic and honest and as sincere as it could get. Until the author decided to add that small plot twist at the very last. Even if I still understand why she did it, I find it a bit pushed. I just hope her choice was done due the need to create a more enjoyable ending for her readers and not because she thought her readers couldn't handle a bit of factual happenings and life in general. Because every young person conscious about the world knows life isn't perfect and many times isn't fair either. But it always teach us something and leave marks to never be forgotten. If not by memory, at least by heart.


Cláudia
About the author:
 
Addicted to the library Claudia loves to read on the move and we can usually find her sitting in a train or bus reading while commuting to and from work. But don't be fooled she is also keeping an eye on the landscape and all around her. She is an avid defender of sustainability and volunteering and it's as easy to find her starting a new project as it is to find her chatting with her friends. She is a dreamer and loves good stories so she keeps looking for them in her personal life.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Opinião: Um Jantar a Mais, de Ismail Kadaré

 
Um Jantar a Mais
de Ismail Kadaré


Edição/reimpressão: 2010
Páginas: 1
72
Editor: Quetzal




Resumo:
Gjirokastër —a cidade de pedra no sul da Albânia—vê desfilar as tropas alemãs que regressam da Grécia ocupada. Quem as comanda é um coronel nazi que em tempos fora colega de um dos dignitários da cidade—o Dr. Gurameto —na Alemanha. O reencontro do coronel von Schwabe com o seu antigo condiscípulo é efusivo e este convidao para jantar.
Mas eis que os resistentes abrem fogo sobre a frente de blindados alemães, e, como represália, os nazis capturam reféns entre os habitantes da cidade.
Sob pena de passar por traidor aos olhos da população, durante o jantar com o estado-maior alemão, o Dr. Gurameto, tenta persuadir o coronel de os libertar —de entre eles, um farmacêutico judeu. E ganha a causa.
Após o fim da guerra, e depois de instaurado o comunismo, este caso volta à discussão. E no momento em que no bloco comunista a paranoia estalinista atinge o seu apogeu, a libertação do farmacêutico judeu pelo coronel nazi transforma Girokäster no centro do complot planetário para a decapitação dos países socialistas…


Rating: 4/5

Comentário: "Um Jantar a Mais" é a escolha de Março do projecto World Book Tour, onde o grupo viajou até à Albânia através das páginas. Tido por muitos como um dos autores que há muito já deveria ter sido consagrado com um Nobel da Literatura, Ismail Kadaré traz-nos uma obra que vinca pelos seus ideais e posições reflexivas, sob um olhar escrutinador perante a História da Europa e as repercussões tidas na Albânia, o seu país natal.
Este livro é uma parábola, tragico-cómica e alegórica que compreende um período da História do séc. XX de completa transformação na Europa. As transformações ideológicas e as suas influências sociais surgem caricaturadas na pequena aldeia de Girokäster, cujos acontecimentos singulares ganham proporções desenxabidas mas bastante claras e perfeitamente honestas sobre as vicissitudes, diferenças e complementaridades de dois regimes ditatoriais, que embora em extremos opostos de um espectro ideológico, se aproximam por diversas vezes nos métodos utilizados para o controlo da população e para a prestação de uma lealdade cega aos líderes que as compõem.
O discurso ligeiro, mas poético, comprometido mas levianamente expondo as construções da acção com perícia e uma deliciosa índole narrativa, tornaram esta pequena leitura num prazer imenso. É ainda assim uma leitura que, ainda que bastante fácil, apela a um olhar perscrutador  por parte dos leitores, na medida em que nada é deixado ao acaso e todos os encadeamentos e reflexões são propositadamente colocadas e com intentos claros. Auxiliará também os leitores terem alguma cultura geral e conhecimento sobre os períodos de ocupação Nazi assim como da Guerra Fria para esta composição lida nas entrelinhas que, ao fim ao cabo, é a missão do livro na sua plenitude. Ainda assim, não é descabido que quem se sinta pouco confortável com estas temáticas não subentenda a mensagem, mesmo para além do plano principal da narrativa. Ismail Kadaré foi sem dúvida uma óptima surpresa trazida pelo projecto doWorld Book Tour e irei certamente enveredar por mais leituras de obras do autor.

Sobre o autor: "Ismaïl Kadaré nasceu em 1936, em Gjirokastra, no Sul da Albânia. Estudou em Tirana e em Moscovo no Instituto Gorky. Após a ruptura do seu país com a União Soviética, em 1960, iniciou uma actividade jornalística e publicou os seus primeiros poemas. Entre 1970 e 1982 foi deputado da Assembleia Popular de Tirana, tendo em Outubro de 1990 obtido asilo político em França. É o mais conhecido escritor albanês e as suas obras estão traduzidas em diversas línguas. De entre as seus livros mais importantes, destacam-se, os romances: O General do Exército Morto (1963), Crónica da Cidade de Pedra (1971), Os Tambores da Chuva (1972), O Concerto (1988), e já editados pelas Publicações Dom Quixote, Abril Despedaçado (1978), adaptado ao cinema pelo realizador brasileiro Walter Salles, autor do filme Central do Brazil, O Palácio dos Sonhos (1981), A Pirâmide (1992), e selecção de textos Três Contos Fúnebres pelo Kosovo (1998). Em Junho de 2005, Kadaré foi galardoado com o primeiro Man Booker International Prize pela sua carreira literária." Fonte: WOOK                            


Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Opinião: Um Mundo de Estranhos, de Nadine Gordimer


Um Mundo de Estranhos
de Nadine Gordimer


Edição/reimpressão: 2009
Páginas: 272
Editor: Difel





Resumo:
Toby Hood, um jovem de classe média-alta inglês, rejeita a actividade política e as causas que os pais, liberais convictos, defendem apaixonadamente. Residindo em Joanesburgo, como representante da editora da família, Toby move-se com facilidade e descontracção, tanto nos aprazíveis subúrbios brancos como nas fervilhantes e vibrantes cidades negras.
O seu círculo de amigos é composto por uma grande variedade de pessoas, desde directores de minas a jornalistas e músicos negros; e os fins-de-semana ao estilo colonial de Toby são muitas vezes intercalados com noites passadas nos bairros de lata negros.
A amizade de Toby com Steven Sithole, um jovem africano desenvolto e amargurado, toca-o profundamente, de uma maneira que nunca teria julgado possível e, quando a ânsia de independência e a revolta de Steven contra as regras estabelecidas acabam em tragédia, a vida de Toby nunca mais será a mesma… Um Mundo de Estranhos é uma das mais representativas obras que abordam os primeiros anos do regime do Apartheid, tendo mesmo sido proibida a sua publicação na África do Sul, durante mais de doze anos.


Rating: 3/5

Comentário: "Um Mundo de Estranhos" foi a leitura de Fevereiro para o projecto World Book Tour, que neste mês contemplou autores da África do Sul. Tendo sido escrito durante os primeiros anos do apartheid, o mesmo esteve proibido no país em causa durante 12 anos.
Apanhando uma época tão preponderante na época de um país, seria impossível suplantar a temática da segregação racial, pelo que a autora esforçou-se por apresentar uma crítica social acutilante mas não centrada na temática de uma forma óbvia.
Toby é um dandy, e comporta-se como tal, sendo despretensioso, despreocupado e capaz de se insinuar com facilidade em qualquer ambiente que lhe traga algum retorno que se prenda com a satisfação imediata. Age como alguém sem ligações com compromissos que não os meramente profissionais, muito em parte porque não quer ver-se restricto pelas convenções sociais que lhe são impostas moralmente e legalmente, mas também não pretende envolver-se na sua resolução, fugindo das expectactivas e esforços familiares e de estranhos para que se encaixe num grupo ou caracterização social. É nesse estado de espírito que acaba por se encontrar entre duas realidades, a do mundo elitista e caucasiano e os bairros sociais dos negros.
Parte de si encaixa em ambos, um na procura do conforto, outro no encontro intelectual e de sociabilidade, sendo que a sua consciência, ainda que pretensamente indiferente constantemente evidencia a diferença e a incapacidade de mesclar ambos universos.
A sua perspectiva acaba por trazer uma análise pessoal centrada nas crónicas de bons costumes, negligenciando uma análise mais externa do contexto social em que o enredo se insere, ficando este relatado pelo assinalar esporádico de certos momentos através de personagens externas. Pela sua despreocupação em considerar as suas acções, o leitor por vezes quase que se esquece do nível de perigo e insegurança em que se colocava esta personagem, uma vez que vencendo as convenções pela sua desconsideração, a personagem principal age como se elas não existissem, tendo de se confrontar com a realidade dos factos perante certas ocasiões que o relembram que lá porque este se posiciona numa abstenção forçada de consciencialização moral, o mundo continua a girar e as suas contristações estarão sempre presentes para o desafiar.
Atendendo a que o livro acompanha o quotidiano de um homem cujas preocupações diárias passam pelos eventos sociais a frequentar, não foi uma leitura tão profunda ou impactante quanto esperava. No entanto, o seu estilo é bastante refinado e dá um prazer enorme em ler, sendo que o segredo desta leitura reside em ler as entrelinhas e tudo o que não é dito.

Sobre o autor:  "Prémio Nobel da Literatura 1991. Escritora sul-africana, Nadine Gordimer nasceu a 20 de Novembro de 1923 em Springs, uma cidade mineira dos arredores de Joanesburgo. Filha de um joalheiro judeu, vindo da Letónia e de uma cidadã britânica, obcecada pela saúde da filha, estudou numa escola de orientação cristã.
Geralmente confinada em casa pelos cuidados da mãe, escreveu o seu primeiro conto com apenas nove anos de idade e, continuando o seu esforço literário, viu Come Again Tomorrow, merecer publicação na secção infantil da revista Forum cinco anos depois. Matriculando-se na Universidade de Witwaterstrand, acabou por desistir dos seus estudos ao fim de um ano, preferindo a escrita. Assim, em 1949 publicou o seu primeiro livro, uma colectânea de contos intitulada Face To Face, e que revelavam as suas preocupações quanto à segregação racial na sociedade sul-africana. [...]
Continuando a explorar o tema dos direitos da maioria negra, Gordimer publicou The Conservationist (1974), romance em que propõe um contraste entre o mundo tradicional Zulu e o devastador fluxo de industrialização conduzido pela etnia europeia. The House Gun (1998) gira em torno do julgamento de um arquitecto, Duncan, que é acusado de ter assassinado o seu amigo Carl Jesperson. [...] Nadime Gordimer foi galardoada com o Prémio Nobel da Literatura em 1991. Faleceu a 13 de julho de 2014, com 90 anos, na sua casa de Joanesburgo". Fonte: WOOK
                                          

Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Review: Here We Are, by Kelly Jensen


Here We Are
by Kelly Jensen

Edition: 2017
Pages: 240
Publisher: Perseus Books Group, Running Press





Summary: Let’s get the feminist party started!

Here We Are is a scrapbook-style teen guide to understanding what it really means to be a feminist. It’s packed with essays, lists, poems, comics, and illustrations from a diverse range of voices, including TV, film, and pop-culture celebrities and public figures such as ballet dancer Michaela DePrince and her sister Mia, politician Wendy Davis, as well as popular YA authors like Nova Ren Suma, Malinda Lo, Brandy Colbert, Courtney Summers, and many more. Altogether, the book features more than forty-four pieces, with an eight-page insert of full-color illustrations.

Here We Are is a response to lively discussions about the true meaning of feminism on social media and across popular culture and is an invitation to one of the most important, life-changing, and exciting parties around.


Rating: 3/5

Review: 
I will start this review by saying that I received an online copy of this book through NetGalley in exchange of a honest review.

I will start by saying that I will not take any part in discussions about feminism here but as usual you are more than welcome to share your thoughts in the comments box if you want to. However I must say there isn't a better time to publish a book about this subject than nowadays. The truth is western society has been changing its paradigms since the middle of XX century and of course it reflects on how we face today's challenges when discussing gender equality. Girls and young ladies are being feed wirh many versions of what feminism is (or should be) today but sometimes the people and institutions feeding them forget the subject's core and what we should be talking about. Feminism is, for all the purposes, no matter how you represent or think about the movement, the search of equal rights to men and women. This is also how I see it and how my own vision reflected on this book.
Here We Are is a collection of essays from different sources to discuss what is feminism. Its target group are young people (even if there is a particular focus mainly on girls - which, from my perspective, mixes the message from the beginning) and it considers all the subjects and concerns about teenagers and youth development nowadays. 
I enjoyed the visual art and the structure created in order to make it specially appealing for young people who generally don't read non-fiction. I also appreciated the presence of essays written by men, even if the book was quite unbalanced and gave you more female writers. However one of the aims of this book is also to make girls around the world to know their inner voices matters, that what they think is valid and important and that they have a place in this world. Due to that I can understand the final decision to engage them by this strategy. Other gripping aspect was the presence of pop culture elements to help the readers see how much this subject is underlined in their lives, in so many different spheres we can't imagine it. So having lists of movies, song lyrics or TV shows (I don't want to lie but I have the idea I also saw one of these) which represent good feminist examples, showing they don't need to become different people or very engaged activists to stand up for themselves and protect their rights, is also something very enlightening.
I found very intelligent the divided structure to the various aspects, making it easier to dive in when different doubts arise. Even so, the last few essays lacked the cohesive structured presented on the first ones and seamed to be put together just to fill an empty space.  
As much I understand the need to create space and encourage the girls (and boys) to stand up for themselves, to have ideas, to discuss them and to look for better, equal and fair futures, I found that many essays focused on emancipation - which is one of the many pillars of the feminism but not the only one (which caused me some itchy feelings when reading the book) - stepping aside from other aspects. 
Another positive remark is the approach to the different stages of feminism in History and I think the descriptions will make young readers better prepared to deal with the challenges associated with the concept and the label itself. 
I would be lying if I didn't told you I have also learned a few things during this reading, like the concept of intersectionality feminism which - for me -  before reading this book and getting closer to the subject wasn't really a matter of discussion (not because it didn't matter but because I faced all the challenges presented to women on the same big package). I was forced to admit to myself that's because I don't fit in any other labels that pull someone to the middle of a big judgmental and fierce bowl of thoughts. 
Finally, I'm not American neither do care much about public personalities but I understand the importance of role models and therefore, having essays written by people who these teenagers are aspiring to turn alike in the future was important as it's a hint of hope and encouragement to become better citizens and more prepared to deal with their future challenges.



Cláudia
About the author:
 
Addicted to the library Claudia loves to read on the move and we can usualy find her sitting in a train or bus reading while commuting to and from work. But don't be fooled she is also keeping an eye on the landscape and all around her. She is an avid defender of sustainability and volunteering and it's as easy to find her starting a new project as it is to find her chatting with her friends. She is a dreamer and loves good stories so she keeps looking for them in her personal life.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

"À Luz do que Sabemos", de Zia Haider Rahman




À Luz do Que Sabemos
de  Zia Haider Rahman
 
Edição/reimpressão: 2016
Páginas: 744
Editor: Quetzal
  





Sinopse: 
Numa manhã de setembro, um investidor da banca, a rondar os quarenta anos, com a carreira em colapso e o casamento em queda-livre, recebe uma visita-surpresa na sua moradia de Londres. Após a dificuldade inicial em identificar uma figura pobremente vestida e de mochila às costas, acaba por reconhecer nela o amigo dos tempos da faculdade, um tipo brilhante que desaparecera anos atrás em circunstâncias misteriosas. Ao longo dos dias que se seguirão, Zafar contará a sua história.

À Luz do Que Sabemos é a epopeia de um homem e da sua desintegração psicológica - e uma peça extraordinária de uma nova literatura pós-colonial. Temas como a não-pertença, o deslocamento, a emigração e a migração voluntária e económica - e também a política, a história, a religião e a matemática. Uma história repleta de histórias e de personagens em movimento, com ecos de W.G. Sebald e de Teju Cole.

Uma ligação amorosa entre Zafar - o bem-sucedido filho de emigrantes do Bangladesh - e Emily, filha da elite aristocrática - atravessa toda a narrativa, que se desenrola entre Londres, Nova Iorque, Bangladesh e o Afeganistão. À Luz do Que Sabemos é um romance enciclopédico, mas é também um livro sobre tudo aquilo que não sabemos ou que não conseguimos saber.

Rating: 3/5
Comentário: A julgar pelas opiniões que tenho lido sobre este livro, este insere-se na categoria dos extremos: ou se ama, ou se odeia. Curiosamente, julgo ter obtido uma reacção mais equilibrada e posso evidenciar muitas secções de interesse, em detrimento de outras que julgo terem-se estendido para além do necessário (e criando alguns momentos de leitura mais lentos e algo aborrecidos).
Voltemos ao início. "À Luz do Que Sabemos" reflecte uma gestão básica da condição humana: agir em conformidade com as nossas dúvidas, angustias e necessidades mediante o que sabemos nesse exacto momento. É um livro que aborda longamente as reflexões mundanas e intelectuais, assim como filosóficas do que é estar vivo e em que circunstâncias.
A outro nível, conduz paralelamente uma história contada em momentos avulsos sobre a existência de Zafar, demarcando várias ocasiões da sua vida como uma retrospectiva constante, algo periclitante, e com incidência em variâncias que tanto elucidam o leitor com novos momentos que compõem a narrativa, como servem somente como elementos do mosaico global.
A composição discursiva é estranha e pode dificultar a leitura a um olhar mais distraído, exige concentração e foco, dado que a estrutura está montada como num discurso real: com interrupções, desvio para contar outras histórias, retorno ao ponto de origem como se nada se tratasse, divagações em profundidade sobre determinadas temáticas, interrupções de parte a parte.
Fez-me alguma confusão a identidade desconhecida, o nunca pronunciarmos ou tornar claro quem é o narrador, que acaba por se tornar o leitor, embora nunca o sendo porque acrescenta momentos episódios  à sua nova posição.
Não é fácil gostar de nenhuma das personagens, e talvez este seja um dos maiores entraves para muitos leitores. Pertencem a uma elite, algo snob e pouco dada à compaixão e com crises existenciais que não se adequam, em primeira instância, ao mundo real. Mas não deixam de transmitir uma humanidade que as torna difíceis de decifrar mas com um interesse contínuo e latente.
A relação contínua entre os vários intervenientes do enredo começará por evidenciar uma série de contrariedades e fossos só levemente enunciados, e que mediante a exploração de quem são estas personagens ao longo da narrativa, elas vão perdendo o seu ADN translúcido e tornando-se bastante mais palpáveis, menos perfeitas e com enormes falhas. E à luz do que vamos sabendo, a nossa percepção de cada uma, o nosso posicionamento sobre os valores, a identidade e a veracidade de cada uma, vai-se constantemente alterando.


 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Inês, de Maria João Fialho Gouveia



Inês
de Maria João Fialho Gouveia
 
Edição/reimpressão: 2016
Páginas: 416
Editor: Topseller
  




Sinopse: 
Esta é a história de Inês de Castro, a bela aia galega que arrebatou o coração do príncipe D. Pedro, futuro rei de Portugal. Bisneta ilegítima do rei D. Sancho IV de Castela, chegara a Portugal no séquito de Dona Constança, futura mulher do príncipe, que viu o coração do noivo incendiado pela sua própria dama de companhia. Perdidamente apaixonado, o casal viveu um amor proibido, até que, após a morte de Dona Constança, passou a partilhar o mesmo tecto.
Dando largas à paixão que por tanto tempo haviam escondido, Pedro e Inês viveram dias idílicos, de paço em paço, até se instalarem em Coimbra, já casados e com três filhos.
Esta ligação desagradou ao rei D. Afonso IV, pai de D. Pedro. As intrigas políticas com que os conselheiros reais o sobressaltavam, alegando que os irmãos de Inês alimentavam pretensões à coroa portuguesa, contribuíram para que o rei não descansasse enquanto não libertasse, da forma mais trágica e terrível, o filho da influência da bela galega.
O amor de Pedro e Inês foi maior do que a vida, sendo  outrora, como hoje, o símbolo da paixão em Portugal. Primeiras páginas aqui.
Rating: 3/5
Comentário: A história de Pedro e Inês, que se confunde entre História e Mito, sonho e tragédia factual, há muito que fascina toda uma nação. Se o que é destacado quase que por obrigação é o grande amor (algo doentio, diriam alguns), a dor egoísta e a desfaçatez da vingança imputada por D. Pedro, já enquanto rei, aos que não aceitaram D. Inês, em vida, a verdade é que esta história de amor foi também (e essencialmente) política.
Engane-se quem achar que estamos a lidar com um rei desagradado per si, e julguem alguém toda uma cadeia de interesses e especulações que saía muito do âmbito do país e das fronteiras tão arduamente defendidas por D. Dinis, avô de D. Pedro I. A verdade, é que o real conhecimento deste acontecimento infame exige conhecer as trocas e guerrilhas políticas ocorridas na Península Ibérica até duas gerações antecedentes, de forma a compreender a intrincada e frágil dança efectuada entre os reinos de Portugal, Castela e Aragão.
No entanto, resumir esta história ao jogo político é retirar poder e personificação a um amor, forte como os poucos que ficam registados na História. É principalmente inibir a análise da fuga à regra, do amor que não foi só político, pelo menos aos olhos de D. Pedro I. E embora toda a gente fale de Inês (do poder sedutor, da família ambiciosa, da intromissão na vida do príncipe herdeiro), ninguém fala realmente sobre ela. Esta foi a proposta de Maria João Fialho Gouveia quando nos trouxe mais uma abordagem romanceada a um período histórico visitado pela mão de uma das mulheres com maior destaque nos anais da História de Portugal (independentemente de ter ou não feito algo para isso).
Este livro começa precisamente pela apresentação de uma árvore genealógica, sem a qual também a narrativa pudesse ser mais confusa. E a narrativa pretende também acompanhar um processo evolutivo ao colocar Inês inicialmente desde jovem sob o olhar do leitor. A ideia é precisamente humanizar esta personagem e torná-la mais real e palpável para quem pretende conhecê-la.
Apesar de já não estar habituada aos diálogos exemplificados em registo dito histórico, e por esse motivo me ter custado a entrar na leitura, retirei prazer da narrativa  e foi uma oportunidade de mergulhar num outro tempo e retirar pormenores (que ainda desconhecia) para o meu leque de aprendizagens. Julgo que ninguém fará indiferente a esta jovem, que de um percurso tranquilo e límpido, foi arrastada para um furacão de desavenças, inveja, tragédia e superação.
 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Opinião: A Coroa de Inverno, de Elizabeth Chadwick



A Coroa de InvernoElizabeth Chadwick    
 
Edição/reimpressão: 2016
Páginas 464
Editor: Topseller
  






Sinopse: 
Uma das mulheres mais poderosas da História. No ano de 1154, em Inglaterra, Leonor volta a assumir o papel de rainha, ao lado do seu novo e jovem marido Henrique II. Detentor de uma ganância imensa e sede de poder, o rei passa grande parte do tempo em viagem, a afastar rebeliões e a impor a sua vontade pelos territórios que ambiciona conquistar. A Leonor cabe a tarefa de conciliadora de Estado e de tutora da sua crescente prole de herdeiros. Mas Henrique nega-lhe a sua autoridade legítima ao afastá-la das decisões políticas e, simultaneamente, ao expor a sua amante, assim fomentando intrigas cortesãs. Os anos de reinado e matrimónio são tecidos de sentimentos cada vez mais ousados e ambíguos, ora de discórdia ora de tréguas, numa era sombria dominada pelos homens. Mas Leonor, mulher de força inabalável, ultrapassa os mais diversos e dolorosos ardis e não desiste de reclamar para si a excelência e o reconhecimento que merece.

Primeiras páginas aqui.

Rating: 4/5
Comentário: Sempre fui uma apaixonada por história, e cada vez mais me tem despertado a curiosidade pela História da Europa para além daquela que abordámos nas aulas durante o ensino regular. Leonor de Aquitânia foi uma das mais distintas rainhas da Europa e passa despercebida para a maioria dos portugueses. Com uma trilogia que conta com "A Coroa de Inverno" como segundo volume, Elizabeth Chadwick pretende dar-nos a descobrir a vida desta personalidade europeia, e desvendar o poder feminino em pleno séc. XII.
Não é todos os dias que se reinam dois países, mas Leonor de Aquitânia conseguiu-o, primeiro de França (abrangendo o primeiro livro da trilogia) e depois de Inglaterra, como mulher de Henrique II. É também conhecida como a mulher-chave que originou a dinastia Plantageneta, da qual tanto falamos quando abordamos a Guerra das Rosas.
Ao longo de quase 500 páginas, a autora faz valer a fibra de Leonor, mas também as fragilidades e inseguranças de qualquer ser humano na sua posição. Inteligente, acutilante e capaz de se antecipar aos acontecimentos, Leonor é retratada como uma mulher que não se verga, nem a um marido fraco pela carne e, talvez, com ambição desmedida. Talvez como já vem sendo hábito para muitas, e dividida entre a lealdade conjugal e a protecção da sua prole, esta rainha poderá ser vista pelos leitores muitas vezes em situações confrontais que colocariam o melhor mestre de xadrez numa situação complicada.
Não querendo revelar mais do enredo do que já fiz, gostava de confirmar que o discurso é fluído, com uma escrita que agarra os leitores e e cria, nos momentos certos, acção intrincada com mestria e angústia, sempre numa abordagem ficcional o mais aproximada possível à realidade. Para quem gosta de História e ainda não conhece esta mulher de mão cheia, não percam a oportunidade de a descobrir a fundo. Se tiver tanto sucesso de vendas como o volume anterior, suspeito que o próximo volume não demore muito a sair!

Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Opinião: As Primeiras Quinze Vidas de Harry August, de Claire North


As Primeiras Quinze Vidas de Harry August
de Claire North

Edição/reimpressão: 2016
Páginas: 432
Editor: Saída de Emergência




Resumo: Harry August não é um homem normal. Porque os homens normais, quando a morte chega, não regressam novamente ao dia em que nasceram, para voltarem a viver a mesma vida mas mantendo todo o conhecimento das vidas anteriores. Não interessa que feitos alcança, decisões toma ou erros comete, Harry já sabe que quando morrer irá tudo voltar ao início. Mas se este acumular de experiências e conhecimento podem fazer dele um quase semideus, algo continua a atormentar Harry: qual a origem do seu dom e será que há mais pessoas como ele?
A resposta para ambas as perguntas parece chegar aquando da sua décima primeira morte, com a visita de uma menina que lhe traz uma mensagem: o fim do mundo aproxima-se.
Esta é a história do que Harry faz a seguir, do que fez anteriormente, e ainda de como tenta salvar um passado que não consegue mudar e um futuro que não pode deixar que aconteça.
Rating: 3,5/5

Comentário: O tempo é e tem sido desde sempre um dos grandes mistérios da vida. Procuramos conhecer o passado e sonhar com o futuro, aprender com os que já viveram e conjunturar sobre as inovações que nos trarão os homens e mulheres de amanhã. A literatura nunca se esqueceu desta caixa de pandora, e a imortalização de "A Máquina do Tempo" de H. G. Wells é um exemplo disso, marcando toda uma corrente literária que tem vindo a explorar a temática sob as mais diversas formas. Claire North seguiu a tendência e trouxe-nos uma abordagem diferenciada à ideia da viagem no tempo. Harry August não se movimenta no espaço temporal segundo a sua vontade, mas num ritmo cíclico marcado por uma mesma origem e vivência, se assim por si determinada (pelo menos esta última, uma vez que a sua âncora é precisamente o acto do seu nascimento).
A sinopse já me tinha deixado curiosa por diversas vezes, pelo que fiquei entusiasmada com a publicação deste livro em Portugal. E não estava à espera de gostar tanto, mas acabei agradavelmente surpreendida.
O tempo está no centro da acção deste livro, mas o enredo vai muito além disso e centra-se principalmente na vida (ou vidas) de Harry August. É portanto um livro para apreciadores e contadores de histórias, centrando-se no percurso existencial desta personagem, que se revela bastante rica, complexa, humana e com uma sensibilidade especial, limada ao longo de todas as vidas derivadas da sua experiência.
Nascimento na década de 1920 e tendo uma esperança média de vida que invariavelmente garante a sua morte por volta de 1990, a personagem acaba por se inserir num contexto histórico bastante interessante, juntando elementos de ficção histórica com ficção científica, de uma forma bastante equilibrada e envolvente, que transforma um movimento cíclico num percurso mais interessante para o leitor. 
Tratando-se de uma narrativa assente numa perpectiva singular, a estrutura do livro acaba por facilitar uma maior dinâmica, ao não nos ser apresentada uma versão linear da sua existência, intercalando acontecimentos e "vidas" consoante os assuntos de relevo a apontar, que se fundamentam com uma estrutura narrativa de base, que acompanha a acção principal, que acabará por ganhar uma maior força a partir do meio do livro.
Gostei especialmente da confluência de pequenas observações e elementos para a construção do puzzle final, para além dos registos filosóficos e de reflexão sobre as viagens do tempo e as suas implicações para a estrutura temporal. Por vezes, e ainda que seja um livro muito diferente dos que irei mencionar, senti alguns elementos que me relembraram de "O Mundo de Sofia" e "A Mulher do Viajante do Tempo". Acho que tem um pouco do espírito de ambos se atentarmos às análises frequentes sobre a representação e consequências destas viagens num sentido mais vasto (dando azo a pequenos momentos quase que filosóficos), mas também pela influência que várias personagens catalisadoras acabam por ter na construção da trama final e na "colagem" deste personagem de forma a que a sua identidade não se perca. A abordagem desta personagem ao passar do tempo é também bastante interessante, especialmente porque, se o leitor assim quiser e estiver com alguma atenção, conseguirá detectar pequenas reflexões que se adaptam ao nosso presente, acelerado, repentino e corrido, que por vezes não nos deixa com muito espaço para aproveitar experiências, consolidá-las e torná-las parte de nós.
Não obstante, em "As Primeiras Quinze Vidas de Harry August" contamos também com uma trama de mistério e acção, um exercício que pede para ser desvendado e que nos leva para um plano para além do conto do passado, puxando o leitor para o centro da movimentação e criando desejo de atingir o desfecho.
Acabou por ser uma abordagem diferente do que esperava, mas bastante completa, pormenorizada, e com poder de envolver o leitor na história de um homem que foi quinze diferentes e um só ao longo de 400 páginas.
                                          

Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.