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sexta-feira, 29 de junho de 2018

Opinião: Segredos de Uma Alimentação Saudável, Michel Lallement





Segredos de Uma Alimentação Saudável
de Michel Lallement
 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas: 256
Editor: Guerra & Paz


  



Sinopse: 
Agora sim! Um médico oncologista que nos ensina de forma simples, a prevenir e combater as doenças que mais nos afectam.
que têm em comum o cancro, o Alzheimer, a diabetes, a fibro­mialgia, a artrose, a osteoporose e a obesidade? Além de estarem a afectar cada vez mais pessoas, estas e outras doenças têm origem numa inflamação crónica das nossas células, cujas causas es­tão muitas vezes associadas ao consumo de alimentos tóxicos e a intolerâncias alimentares.
Em Segredos da Alimentação Saudável, o Dr. Michel Lallement, cirurgião oncológico,  explica e mostra-nos como funcionam na prática os mecanismos por meio dos quais intoxicamos o nosso organismo com uma alimentação inadequada e ensina-nos a escolher o que comemos, invertendo o caminho que nos pode levar ao encontro de algumas das piores doenças dos nossos dias. 

Rating: 3,5/5
Comentário: Acho que para falar sobre "Segredos de Uma Alimentação Saudável", terei de começar por abordar a experiência do autor enquanto profissional. Isto porque na atualidade proliferam livros sobre alimentação saudável, ou sustentável, ou para emagrecer, etc. No entanto, na medida em que este livro aborda a questão das doenças e a forma como estas duas temáticas se correlacionam, não estaria ao alcance de cada um criar um livro de referência sobre a temática.
"Confrontado durante duas décadas com o feroz aumento da incidência de cancro nos seus pacientes cada vez mais jovens, o Dr. Michel Lallement, cirurgião oncológico, dedicou muitos anos de trabalho e pesquisa para determinar o grau de influência dos factores nutricionais neste fenómeno. Desde 1991 envolvido no combate ao cancro, o Dr. Lallement propôs aos seus pacientes compilar toda a informação sobre os seus hábitos de alimentação, e foi com base nos resultados obtidos da análise desse dossiê, munido ao mesmo tempo dos mais recentes e avalizados estudos de outros médicos e investigadores desta área, que conseguiu chegar às impressionantes conclusões apresentadas em Comer Saúde, um êxito de vendas em França. Actualmente, o Dr. Lallement dedica-se à prevenção e acompanhamento terapêutico de doenças degenerativas. (Guerra & Paz)"É precisamente pela questão da inflamação e das inflamações crónicas que Michel Lallement começa este livro. Toda a parte introdutória do livro se dedica na abordagem ao processo inflamatório (o que é, potenciais causas e consequências, como é que a inflamação se relaciona com as doenças cancerígenas e qual o impacto da mesma na casualidade de progredirem para o aparecimento de cancros no futuro), sempre, claro, criando paralelos com a alimentação.
Evidenciando desde a primeira página que não pretende ser um livro de recomendação médica, mas de esclarecimento, o autor determina por diversas vezes a necessidade do leitor contactar outro colega de profissão em caso de necessidade.
É evidente que o livro foi pensado no mercado para o qual foi escrito, pelo que há diversas estatísticas que dizem respeito a França, mas é possível equacionar os valores correspondentes para o território nacional pelos artigos e reportagens que vão saindo sobre as temáticas abordadas de tempos a tempos.
Julgo que foi precisamente esta a abordagem que tornou a leitura mais fácil, mas também interessante e fresca, diferente do que tenho lido até então sobre as temáticas. Naturalmente abordas os alimentos e a alimentação pelo todo, focando-se mais nas propriedades e nas evidências científicas da aplicação de mais nutrientes ou proteínas provenientes de um leque da pirâmide alimentar em detrimento de outro.
Todo o discurso é realizado dentro da lógica do carácter consultivo e não dogmático, sem insistências, abordagens decisivas para que mudemos de vida ou geradores de culpa por falta de capacidade de correspondência. Acima de tudo, coloca disponível para o leitor o maior número de informação possível, seguindo os preceitos de que, no que respeita a médicos e a doenças, mas também aos livros o/a paciente é que sabe.

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Opinião: A minha avó pede desculpa, de Fredrik Backman



A Minha Avó Pede Desculpa
de Fredrik Backman
 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas: 336
Editor: Porto Editora
  


Sinopse: 
Elsa tem sete anos de idade, quase oito, e é diferente. Para já, tem como melhor - e única - amiga a avó de setenta e sete anos de idade, que é doida: não levemente taralhoca, mas doida varrida a sério, capaz de se pôr à varanda a tentar atingir pessoas que querem falar sobre Jesus com uma arma de paintball, ou assaltar um jardim zoológico porque a neta está triste. Todas as noites, Elsa refugia-se nas histórias da Avozinha, cujo cenário é o reino de Miamas, na Terra-de-Quase-Acordar, um reino mágico onde o normal é ser diferente.

Quando a Avozinha morre de repente e deixa uma série de cartas a pedir desculpa às pessoas que prejudicou, tem início a maior aventura de Elsa. As cartas levam-na a descobrir o que se esconde por detrás das vidas de cada um dos estranhíssimos moradores de um prédio muito especial, mas também à verdade sobre contos de fadas, reinos encantados e a forma como as escolhas do passado de uma mulher ímpar criam raízes no futuro dos que a conheceram.

A minha avó pede desculpa é uma belíssima história, contada com o mesmo sentido de humor e a mesma emoção que o romance de estreia de Fredrik Backman, o bestseller internacional Um homem chamado Ove.

Rating: 4,5/5
Comentário: Há livros que nos conquistam com as suas narrativas. Este foi um deles.
Elsa é uma miúda cheia de sorte. Porque teve uma avozinha como a sua. E a Avozinha teve o maior dos tesouros, por poder partilhar um mundo de magia e aprendizagens com a sua neta, a pessoa que mais amou em todo o Mundo.
É precisamente através desta menina, cheia de genica e garra, que apesar de vítima de bullying não baixa os braços e se estende à derrota, e encontra formas de resposta (mesmo que estas não correspondam ao por si esperado) que nos vamos ligando e derretendo perante o seu olhar narrativo, já que é através dela que conhecemos toda a história. E também por isso é necessário, mesmo com uma escrita bastante fluída e leve, ler com atenção os relatos desta criança, para quem não passem despercebidos os ciúmes e inseguranças com o irmão mais novo, o medo de rejeição do padrasto quando o novo irmão nascer, o não ter nunca mais uma parceira de brincadeiras, agora que a avó se foi...
Existe uma ternura inalienável nas relações de avós e netos, especialmente naquelas que são dotadas de uma série de códigos especiais, rituais de convivência e amor, segredos que nem se partilham entre pais e filhos  e toda uma mescla de movimentos identificativos que tornam estas relações tão especiais. A desta avó e neta ainda ganha um destaque maior pelo imaginário e universo criado para esta neta, pautado por histórias que compõem toda uma realidade alternativa, e que de uma forma que Elsa nem imagina, irá condicionar toda a narrativa. Porque estas histórias serão a chave para a condução da narrativa, cujo desfecho e enlace será traduzido com mestria, delicadeza e uma enorme sensibilidade.
Outro ponto muito forte nos livros de Fredrik Backman, já sentido com "Um Homem Chamado Ove" é a importância do espírito de comunidade, da partilha de vivências entre vizinhos e das necessidades de não nos isolarmos. A teia que une estas personagens, que surge na edificação de um prédio onde todos habitam, traz mais nas suas estruturas do que seria inicialmente esperado.
A forma como estas personagens se interligam, com as mais diversas e complicadas personalidades, tendo como fio condutor esta miúda destemida, é uma delícia de descobrir. 
Com muitas mensagens especiais sobre a vivência e a condição humana, que são apresentadas com delicadeza e de forma subtil, o autor traz-nos uma belíssima narrativa, uma história familiar, e a noção importante que os laços, quando fortes, perduram para lá da morte.

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Opinião: Reino de Feras, de Gin Phillips



Reino de Feras
de Gin Phillips

 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas: 272
Editor: Suma de Letras Portugal
  


Sinopse: 
Lincoln é um bom menino. Aos quatro anos, é curioso, inteligente e bem-comportado. Lincoln faz o que a mãe diz e sabe quais são as regras.
«As regras hoje são diferentes. As regras são que temos de nos esconder e não deixar que o homem da pistola nos encontre.»
Quando um dia comum no Jardim Zoológico se transforma num pesadelo, Joan fica presa com o seu querido filho. tem de reunir todas as suas forças, encontrar a coragem oculta e proteger Lincoln a todo o custo – mesmo que isso signifique cruzar a linha entre o certo e o errado, entre a humanidade e o instinto animal.
É uma linha que nenhum de nós jamais sonharia cruzar.
Mas, por vezes, as regras são diferentes.
Um passeio de emoção magistral e uma exploração da maternidade em si – desde os ternos momentos de graça até ao poder selvagem. Reino de Feras questiona onde se encontra o limite entre o instinto animal para sobreviver e o dever humano de proteger os outros. Por quem deve uma mãe arriscar a sua vida?

Rating: 3/5
Comentário: Este livro é daqueles que têm como função dividir águas e grupos, com muitas opiniões diversificadas, o que para um primeiro romance para adultos (a autora é maioritariamente conhecida pelos seus livros infantis) é o melhor chamariz possível.
Depois de ter tido a oportunidade de o discutir com leitoras bem mais rápidas do que eu, tive curiosidade de saber o que esta leitura faria por mim, mesmo sabendo de antemão um ou outro pormenor.
Como enuncia a sinopse, Joan encontra-se no Jardim Zoológico com o seu filho Lincoln, quando se depara com o inesperado e se vê obrigada a esconder-se para proteger a sua vida e a do seu filho.
Com a infeliz frequência com que se vão sucedendo casos de tiroteios e sequestro pelos Estados Unidos, Gin Phillips poderia dar-nos uma visão resultante de uma fórmula que continua a ser frequente mas ainda assim aterradora. No entanto, vai mais longe e enuncia-nos uma caçada inexplicável e incoerente, que me relembrou o massacre de Anders Behring Breivik na Noruega em 2001. As razões do mesmo não são muito exploradas para além de umas breves nuances em jeito de explicação, mas cumprem o propósito de denotar que existe uma multiplicidade na perversidade alheia, que não se termina nos casos mais conhecidos; até porque também o fanatismo tem várias tonalidades de cinzento.
O cenário seleccionado é precisamente alvo dessa intenção premeditada e através de alguns momentos onde a abordagem se direcciona para um dos atiradores, conseguimos ter acesso a essa alegoria.
De qualquer forma, precisamente por se tratar de um jardim zoológico, senti que faltavam duas coisas: a primeira passa pela criação de um desenho esquemático em género de planta do Zoo, porque nem sempre foi fácil construir uma imagem mental para as deslocações dos personagens. Do ponto de vista do próprio espaço, a narrativa é pautada por muitos silêncios. Embora seja explicado em parte o motivo dessa ausência de ruído, estando num lugar repleto de animais, seria de esperar que uma situação avessa causasse não só um enorme impacto nos bichos, como estes se tornassem também imprevisíveis e mais um elemento de perigo.
A abordagem narrativa leva-nos em várias direcções, ao termos como companhia não só Joan e o seu filho, como um dos assassinos e algumas personagens secundárias. Estes permitiram que fosse tendo acesso a outros elementos da acção, de forma a compor um cenário mais exigente do que as narrativas individuais transmitiam ao longo da leitura.
Por falar em ritmo narrativo, admito que para os habitué no mundo do thriller este romance possa não parecer muito dinâmico, já que são somente dois ou três elementos a pontuar os momentos de maior acção, que nunca chega a ser verdadeiramente vertiginosa. Ainda assim, a acção faz sentido, o contexto está explicado e existe capacidade de encaixe e curiosidade para perceber o desvendar do conflito.
Relativamente às personagens, nem Joan nem o filho são companhias fáceis de suportar, ele porque sendo criança tem necessidades constantes, ela porque nem sempre é a mais inteligente nas decisões que toma. Ainda assim, é o facto de passarmos o tempo maioritariamente com eles que evidencia o real ponto forte da narrativa: o poder do amor maternal e todas as vertiginosas correntes que ele acarreta. Talvez esse amor não se evidencie tanto pelas acções mas pelas considerações que a personagem vai fazendo sobre o seu papel enquanto mãe e o crescimento do filho, quase que numa lembrança constante de que aquele menino terá de sair vivo daquela situação porque tem muito por viver e desenvolver.                           
É aqui que surge a controvérsia, por duas ou três decisões tomadas pela personagem. Posso dizer-vos que todas pessoas que são mães com quem falei deste momento, torceram o nariz à credibilidade do enredo e questionaram se a autora seria mãe na vida real. Não tendo acesso a essa informação, e não sabendo portanto se é isso que nos divide, uma vez que não tenho filhos também, a verdade é que uma das acções de Joan, por muito que chocante ao início (e algo que eu julgo nunca ser capaz de fazer), acabou por fazer sentido: a verdade é que o acompanhamento do raciocínio dela tornou-a plausível, especialmente porque também a personagem não está em paz com o seu comportamento, e isso em parte"desculpa-a".
Quanto à representação do mal, a análise das motivações primordiais deste grupo é algo fugidia para permitir grandes considerações, mas o tipo de discurso do elemento com o qual temos contacto, levou-me a crer que talvez se tratasse de alguém com algum défice de aprendizagem, o que traria uma abordagem bastante interessante sobre o perigo de reunir vários elementos explosivos no mesmo cocktail (especialmente pela capacidade de manipulação e promoção da maldade por parte do mundo exterior) .
O desfecho não foi surpreendente, mas cumpriu o seu propósito na totalidade. Algumas pontas são deixadas soltas ou por resolver, o que no contexto de um livro não traz grande nível de satisfação para o leitor. Da minha parte, tendo estado maioritariamente no papel de Joan, porque esta é a companhia mais regular da narrativa, optei por considerar que o facto desta decorrer ao momento, fez com que a personagem tivesse exactamente as mesmas dúvidas, as quais só veria esclarecidas posteriormente ao último momento do livro.
No geral, não é de todo um romance de ritmo acelerado. Muitas das situações relatadas foram provocadas de forma algo incisiva somente para que se pudessem desencadear os elementos perfeitos de uma perseguição de risco, levando o leitor sempre a crer que na ausência de uma decisão pouco inteligente, talvez nenhuma das personagens como potenciais vítimas fosse ameaçada.
Ainda assim, o facto que os pormenores estarem lá (mesmo que mais ou menos explorados), da escrita ser fluente e estar estruturada de forma interessante, leva-me a crer que Gin Phillips poderá trabalhar melhor os seus pontos fracos e trazer-nos um thriller em cheio muito em breve. Li-o em dois dias e quis muito conhecer o desfecho desta história. Podendo não ser o que os fãs do género procuram, é uma boa porta de entrada para leigos e curiosos do thriller.

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

sábado, 31 de março de 2018

Opinião: Boneca de Trapos, de Daniel Cole



Boneca de Trapos
de Daniel Cole

 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas: 472
Editor: Suma de Letras Portugal
  




Sinopse: 
O teu nome está na lista. Conseguirás salvar-te?

William Fawkes, um controverso detetive conhecido por «Wolf», acabou de ser reintegrado no seu posto após ter sido suspenso por agressão a um suspeito. Ainda sob avaliação psicológica, Fawkes regressa ao ativo, ansioso por um caso importante. se encontra com a sua antiga colega e amiga, a inspetora Emily Baxter, num local de crime, tem a certeza de que é aquele o grande caso: o corpo que encontram é formado pelos membros de seis vítimas, suturados de modo a formar uma marioneta, que ficou conhecida como «Boneca de Trapos». Fawkes é incumbido de identificar as seis vítimas, mas tudo se complica quando a sua ex-mulher, que é repórter, recebe uma carta anónima com fotografias do local do crime, acompanhada de uma lista na qual constam os nomes de seis pessoas e as datas em que o homicida tenciona assassiná-las. O último nome da lista é o de Fawkes. A sentença de morte com data marcada desperta as memórias mais sombrias de Wolf. O detetive teme que os assassinatos tenham mais a ver com ele — e com o seu passado — do que qualquer um possa imaginar.

 

Rating: 4/5
Comentário: Todos sabem que a melhor parte dos policiais e dos thrillers é a tensão crescente e a necessidade de adivinhar o que é que vai acontecer a seguir. É por isso que os leio pouco, nunca aguento e fico maluca enquanto os leio. Adoro assistir séries e filmes do género, mas é certo que uma vez ou outra escondo a cara entre os dedos em antecipação. É uma tontice, mas que uma leitura impossibilita porque temos de ler todas as linhas para que o enredo faça sentido. Isso não me impede de gostar do género, e de tanto em tanto tempo seleccionar uma história para descobrir.
Daniel Cole trabalhou na produção de séries de acção e policial como 24 e como tal, é perito em reunir os ingredientes necessários para criar uma trama que prenda o leitor. Mas também sem esquecer que as personagens devem ser carismáticas e que algumas deverão ter o condão de nos pautar com muito momentos humorísticos, mesmo que de humor negro, como acontece neste livro.
Julgo que foi fácil para o autor reunir todos estes ingredientes, porque de facto dei por mim por diversas vezes a visualizar a acção como num episódio televisivo.
Daniel Cole fornece-nos uma personagem principal com os seus próprios mistérios, várias personagens secundárias com protagonismo e histórias individuais (o que num enredo de um policial nem sempre é fácil de surgir, assim como de manter o equilíbrio) fornecidas em pequenos pormenores que abrem o apetite para saber mais, e um criminoso que parece sempre estar à frente do departamento da polícia e do leitor.
Os crimes são desenhados com mestria e surpresa e não dão indícios ao leitor de que os mesmos irão acontecer e no formato em causa. Por outro lado, um ponto alto deste livro para mim passa pela descrição dos crimes e dos actos do criminoso. São claros, bem distintos, mas sem excesso de pormenores e imagens gráficas, as quais eu dispenso de sobremaneira.
É bastante claro, desde início, que existe uma relação entre o momento inicial narrado e o caso que está a ser discutido posteriormente e que dá nome ao livro, e este quebra-cabeças acompanha o leitor e fá-lo tentar descortinar pistas ao longo de cada momento da narrativa.
Adorei a interacção das personagens, as piadas sarcásticas, a acção interrupta e o estilo corriqueiro que fizeram as páginas voar a um ritmo acelerado.
O desfecho é completamente inesperado e alguns pontos causaram estranheza, que se explica por este ser o primeiro livro de uma série, com elementos a serem explorados em próximos volumes.
No total, destaco principalmente esta equipa de polícias que para mim foi o ponto forte da narrativa, mais até do que o crime em causa, e cuja estrutura se assemelha mesmo à das séries televisivas.
Vou estar atenta aos próximos livros e desafios de Wolf, até porque gostaria de saber qual o ponto de partida de um próximo volume atendendo ao desfecho de "Boneca de Trapos".

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

terça-feira, 6 de março de 2018

Opinio: A Arte Subtil de Saber Dizer Que Se F*da, de Mark Manson



A Arte Subtil de Saber Dizer Que Se F*da
de Mark Manson

 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas: 208
Editor: Desassossego
  


Sinopse: 
Uma abordagem que nos desafia os instintos e nos força a questionar tudo o que sabemos sobre a vida
Durante décadas convenceram-nos de que o pensamento positivo era a chave para uma vida rica e feliz. Mas esses dias chegaram ao fim. Que se f*da o pensamento positivo! Mark Manson acredita que a sociedade está contaminada por grandes doses de treta e de expectativas ilusórias em relação a nós próprios e ao mundo.
Recorrendo a um estilo brutalmente honesto, Manson mostra-nos que o caminho para melhorar a nossa vida requer aprender a lidar com a adversidade. Aconselha-nos a conhecer os nossos limites e a aceitá-los, pois no momento em que reconhecemos os nossos receios, falhas e incertezas, podemos começar a enfrentar as verdades dolorosas e a focar-nos no que realmente importa.
Recheado de humor e experiências de vida, A Arte Subtil De Saber Dizer Que Se F*da é o soco no estômago que as novas gerações precisam para não se perderem num mundo cada vez mais fútil.

Rating: 3/5
Comentário: Quem já nos acompanha há uns tempos, sabe que não tenho por hábito ler livros de auto-ajuda e/ou desenvolvimento pessoal; mas este título sobressaiu no meio das novidades editoriais do início do ano e achei que era uma lufada de ar fresco necessária no que tocava ao meu panorama de leituras.
De qualquer forma, não acho que este livro de Mark Manson se encaixe verdadeiramente em nenhuma destes géneros. Isto porque o autor nos apresenta, acima de tudo, o que é a sua visão do mundo e o que fazer para enfrentá-lo, visão essa que advém (embora o mesmo se tenha especializado no assunto através do ganho de competências ao longo dos anos a escrever colunas sobre a temática) de uma base empírica, e que como tal, pouco ou nenhum fundamento científico tem. Mas também sou apologista que na maioria dos casos, não são os estudos ou as intervenções científicas que se adaptam melhor às nossas necessidades do dia a dia, mas os mecanismos de resposta que vamos adquirindo através da experiência e das coisas que nos correm melhor ou pior. Dito isto, é a partir deste pressuposto que o autor nos apresenta um conjunto de acções/ projecções de vida por si adquiridas e que, fazendo-lhe sentido e tendo-lhe trazido um maior nível de bem-estar, este decide partilhá-lhas connosco.
Não há como começar a escrever sobre elas sem referir o título. Quando o vi em português, quis ir descobrir o original (já que sabemos que as traduções nunca são fáceis, especialmente pela impossibilidade literal de comportar os mesmos significados e intenções para um público socio- culturalmente diferente). A aproximação entre ambos está deliciosa, embora no fundo não compreenda o alcance que o autor lhe quis transmitir. Se a expressão "que se f*da" se prende mais com a intenção de embora pesando as consequências e as responsabilidades dos nossos pensamentos e acções, decidimos avançar, pensando que logo se vê no que é que vai dar (e mandando-as para trás das costas), verbalizar um "not giving a f*ck", transmite mais a ideia de que as coisas deixam, efectivamente, de ter importância (isto, claro, no meu entender). Ainda assim, ambos cumprem o propósito de chamar a atenção do leitor para a necessidade de equacionar o que é que anda a fazer e quanto tempo perde preocupado com coisas que, a acontecer, não merecem o tempo que lhes dispensamos.
Compreendendo o que é que os críticos indicam como uma abordagem contra intuitiva, os princípios com os quais o autor se rege não me eram desconhecidos (alguns até os coloco em prática, na minha medida) e portanto não posso dizer que contenham o factor "uau" que poderá ter para muitas outras pessoas. Ainda assim, não posso negar que foi um prazer encontrar outro semelhante naquelas páginas porque, como o autor enuncia a determinada altura, não somos assim tão especiais nem diferentes uns dos outros.
É um livro que cria uma abordagem crítica ao egocentrismo e antropocentrismo que rege a maioria das sociedades (especialmente as ocidentais, sendo as que o autor naturalmente conhece mais de perto), e que esparrama as suas fragilidades diante dos olhos do leitor. Mas também reforça com contra indicativos formatos para contrariar as ratoeiras por elas criadas.
Podendo ser ligeiramente provocador a determinadas alturas, reconheço que Mark Manson sofre de um dos mal por si enunciados, já que contrariando o que disse anteriormente, o seu posicionamento quando nos apresenta quais os mecanismos ditos contra intuitivos, é precisamente numa lógica dourada, como se a sua metodologia fosse A certa e devesse ser adoptada por todos, não fosse verdade que ao não o fazerem, a responsabilidade dos seus problemas será somente sua.
Falando em responsabilidade, um dos capítulos que achei mais interessantes passa precisamente pela relação dinâmica entre culpa e responsabilidade, segundo uma abordagem que já pratico no meu dia a dia, embora considere algo perigosa pela aura de plenitude que o autor transmite. A título de exemplo, ele relata um caso de um pai que perdeu um filho e refuta a sua teoria. Diz ter-se sentido inicialmente culpado, mas que no fundo depois de ponderar o assunto considera estar correcto. No meu entender, esta análise a todos os níveis e esferas da nossa vida pode desenvolver outros sentimentos de culpa e inadaptabilidade, precisamente porque acontecimentos mais trágicos nem sempre nos permitem reagir segundo um plano de acção e que não acho, de todo, que alguém se deva culpar e responsabilizar por isso (Leiam o livro e venham discutir esta teoria comigo mais tarde!).
O segundo capítulo que mais ocupou a minha atenção tratou das relações tóxicas e de dependência, e neste caso acho que o autor acertar na mouche.
No fundo, não concordando na totalidade com as várias indicações transmitidas pelo autor, considero que "A Arte Subtil de Saber Dizer Que se F*da" não deixa de ser uma lufada de ar fresco e de remexer algumas mentes que nunca se tenham debruçado sobre as temáticas abordadas pelo autor segundo este prisma. São provocadoras, mas não se imiscuem no universo dos leitores, já que o livro está montado quase que numa lógica de story telling, evidenciando precisamente os desafios sentidos pelo autor ao longo da sua vida, e as respostas que teve de dar para vencer um obstáculo, tornando-as depois mantras para vencer numa vida mais simples e feliz.
Merece ser lido e discutido, já que os posicionamentos enunciados pelo autor pretendem acima de tudo servir como alavancas para o despertar de consciências. E se no final aprendermos todos a dizer "que se f*da" ou "not giving a f*ck" mediante uma série de circunstâncias da nova vida, o livro cumprirá o seu propósito.


 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Opinião: As Curiosidades da História de Portugal no Arquivo do Ministério do Tempo



As Curiosidades da História de Portugal no Arquivo do 
Ministério do Tempo

 
Edição/reimpressão: 2017
Páginas: 448
Editor: Manuscrito
  



Sinopse: 
Será que Viriato foi mesmo o primeiro grande herói de Portugal?
Conhece a história do rei que foi casado com duas mulheres?
Sabia que o infante D. Henrique, o Navegador, fundador da Escola de Sagres, pouco ou nada andou de barco?

Com base na série de ficção histórica da RTP que conquistou os portugueses - Ministério do Tempo -, As Curiosidades da História de Portugal no Arquivo do Ministério do Tempo reúne 64 episódios curiosos da História de Portugal. Partindo desde os tempos mais remotos, atravessando a Idade Média e a Idade Moderna, para chegar à época contemporânea, vamos reviver nestas páginas a nossa História pelo seu lado mais curioso, inusitado e divertido, pondo em causa alguns dos factos que os livros de História sempre nos deram como certos.

Na mesma época em que os marinheiros portugueses davam novos mundos ao mundo, D. João II ficou a conhecer o incrível segredo das Portas do Tempo. Para as gerir criou o Ministério do Tempo. E atribuiu-lhe uma única missão: garantir que ninguém viaja ao passado para alterar o presente. O Ministério do Tempo mantém-se aberto até aos nossos dias. É o grande segredo do Estado Português. A sua existência passa da boca de uns poucos eleitos para os ouvidos de outros. Apenas os melhores e mais úteis são chamados para trabalhar no Ministério do Tempo.

Rating: 4/5
Comentário: Não sei quanto a vocês, mas sempre fui uma enorme fã de História, desde miúda. O prazer de assistir a "O Ministério do Tempo" proveio precisamente do facto da série trazer de uma forma divertida, vários contextos de época que se introduziam na História de Portugal, sem correr o risco de efectivamente a contar e entrar em incongruências. A parte mais engraçada passou precisamente pela entrada de personagens históricas, que enlaçadas por um sentido de humor bastante inteligente, lançavam vários comentários que só o ouvido mais atento e algo conhecedor poderia entender na totalidade, sem estragar no entanto a visualização para o público vasto.
Nesse sentido, e porque sempre tive curiosidade sobre factos menos conhecidos da História de Portugal, quis muito ler este lançamento da Manuscrito.
Começo por dizer que da série do "Ministério do Tempo", só herda o título, pelo que os fãs da mesma que não forem acérrimos da História de Portugal podem não divertir-se por aí além. Julgo que, embora cumpra o seu propósito, já que o mesmo acaba por utilizar a referência à série, poderia ter um capítulo introdutório que incidisse mais na lógica da ficção, do género de um relatório de missão ou nem que fosse um apanhado que contextualizasse a série.
Seguidamente, confesso que me assustei com o primeiro capítulo, porque esperava algo mais leve e a linguagem pareceu-me demasiado enciclopédica para o que pretendia ser uma colectânea de episódios curiosos da História de Portugal.
Felizmente, essa situação compreendeu somente o capítulo inicial e permitiu-me desfrutar em pleno dos restantes do modo que esperava: uma redacção episódica, simples, fácil de acompanhar e com algum sentido de humor envolvido, nem que fosse pelo tipo de casos seleccionados.
O livro está organizado por ordem cronológica, acompanhando todos os períodos da História do nosso país até ao 25 de Abril, sendo que os casos seleccionados se inserem em narrativas menos conhecidas sobre a nossa História para cada um desses períodos.
Outra questão interessante, para além das pertinentes chamadas de atenção, passou pela apresentação de referências e datas-chave em quadros de chamada de atenção, que facilitam ainda situar os enredos narrados não só no plano nacional, mas também europeu.
Várias personalidades, já de todos conhecidas pela intervenção dos manuais escolares ganham assim uma nova cor, com destaque para situações menos exploradas ou de total desconhecimento da maioria das pessoas. A título de exemplo, poderão descobrir que Vasco da Gama não era santinho nenhum, que a expressão "Deus, Pátria e Família" pode não ser tão lusa como o esperado ou que o romance de D. Fernando com D. Leonor Teles podia não ser tão afogueado como nós pensamos. A tão fantástica polémica de D. Afonso Henriques e D. Teresa? Claro que não poderia faltar.
Os episódios são curiosos, interessantes, sucintos e capazes de captar a atenção do leitor, para além de virem relatados em capítulos breves.
Eu optei por vir descobrindo estes e outros momentos um de cada vez, para saborear em pleno cada novo momento descoberto. É um óptimo livro para relaxar ao final do dia e descansar a cabeça após um dia de trabalho. Fica a recomendação.


 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Uma Mulher Desnecessária, de Rabih Alameddine



Uma Mulher Desnecessária
de  Rabih Alameddine
 
Edição/reimpressão: 2017
Páginas: 264
Editor: Porto Editora
  


Sinopse: 
Aaliya Saleh vive sozinha no seu apartamento em Beirute, rodeada por pilhas e pilhas de livros. Sem Deus, sem pai, sem filhos e divorciada, Aaliya é o «apêndice desnecessário» da sua família. Todos os anos, ela traduz um novo livro para árabe, e depois guarda-o. Os trinta e sete livros que Aaliya já traduziu nunca foram lidos por ninguém. Depois de ouvir as vizinhas, as três «bruxas», a criticar a extrema brancura do seu cabelo, Aaliya tinge-o… de azul.

Neste assombroso retrato da crise de idade de uma mulher solitária, os leitores seguem a mente errante de Aaliya, à medida que ela vagueia pelas visões do passado e do presente da capital do Líbano: reflexões coloridas sobre literatura, filosofia e arte são invadidas por memórias da guerra civil libanesa e do próprio passado volátil de Aaliya. Ao tentar superar o envelhecimento do corpo e as inoportunas explosões emocionais que o acompanham, Aaliya é confrontada com um desastre impensável que ameaça estilhaçar a quietude da vida que ela escolheu para si mesma.

Rating: 4/5
Comentário: Reconheço que este possa não ser um livro para qualquer leitor ou leitora, mas foi dos mais bonitos que li ultimamente. Rabih Alameddine traz-nos a história de uma mulher que à luz da sociedade que a acolhe é precisamente aquilo que o título enuncia: uma mulher desnecessária. Uma mulher que não cumpre os preceitos societais através da sua vida pessoal nem constribui activamente com uma actividade profissional que seja compreendida e aceite pela população em geral. Para além disso, e mesmo que seja de desconhecimento geral, o seu passatempo de tradução acaba por se assemelhar a uma pequena ocupação inglória, atendendo a que o resultado dessa tradução acaba arrumado em caixas espalhadas pela sua casa. Ou será que a sua produção vale pela acção e tempo investido, independentemente do resultado? Até que ponto os nossos interesses são válidos só porque nos dão prazer?
Esta é uma das questões que fica latente ao longo da narrativa e a qual vai sendo abordada e desvendada ponto por ponto, especialmente com reflexões mais aprofundadas e acutilantes sobre a arte da tradução e todos os preceitos que a cobrem.
Simultâneamente, os singelos acontecimentos da vida quotidiana são elucidações e pontes de transposição para outras partes da vida passada desta mulher, que não fossem esses momentos e quase que validações da sua presença e existência, teria passado a vida em branco.
São também os pequenos acontecimentos do presente que lhe atribuem uma certa dimensão corpórea, que desfaz a ilusão de que Aaliya só vive no passado e não tem existência no mundo actual. E esses pequenos momentos, tão caricatos, são também aqueles que reforçam um carácter mais ligeiro a um livro carregado de melancolia, despreendimento e alguma dose de luto pelo mundo já vivido, pelas personagens que passaram pela sua vida e já não estão presentes e por aquilo que Aaliya foi e/ou poderia ter sido.
"Uma Mulher Desnecessária" é também uma ode à arte, com inúmeras reflexões filosóficas e abordagens artísticas, desde a música clássica à, naturalmente, literatura. São mencionados vários autores e autoras, com muitas citações e até desconstruções sobre o que foi por estes/as referenciado. E em variados momentos mais corriqueiros, talvez porque estes/as sejam os companheiros e companheiras que mais a acompanham (mesmo que no campo metafórico) ao longo de toda a sua vida, as análises por estes/as produzida quase que justificam ou valorizam os seus pensamentos.
Não tenho a certeza de tratar-se de liberdade de tradução, mas a referência constante à obra de Fernando Pessoa pareceu-me a determinada altura como excessiva. Percebo a necessidade de aproximar a leitura à realidade do leitor, mas sem que esta deturpe o original quanto ao seu enquadramento geográfico.
No geral, este é um livro muito especial e cheio de nuances, com uma abordagem sensível e sublime ao que é ser mulher na Líbia, sem tomar as dores e as percepções de todo um género mas recriando uma história que facilmente se enquadra na temática. É um enredo que conjuga subtileza, estética, filosofia e poesia, assim como representações multiculturais que não podem nem devem ser desmerecidas.
É um óptimo livro, com um ritmo lânguido que pede para ser lido com prazer e calma. Recomendo.


 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Opinião: Os Falsários, de Bradford Morrow



Os Falsários
de  Braford Morrow
 
Edição/reimpressão: 2017
Páginas: 264
Editor: Clube do Autor
  





Sinopse: 
Na tradição dos policiais de Agatha Christie e Arthur Conan Doyle, um romance misterioso e profundo sobre o fascínio do colecionismo e o lado sombrio do comércio de livros raros.

O que acontece quando mentimos tão bem que perdemos a noção do que é real? Numa prosa magnificamente cuidada, Bradford Morrow traça uma linha débil entre o devaneio e a intuição, a memória e a ficção autoilusória, entre o amor verdadeiro e o falso.

Uma comunidade bibliófila é abalada com a notícia de que Adam, um colecionador de livros raros, foi atacado e as suas mãos decepadas. Sem suspeitos, a polícia não consegue avançar no caso, e a irmã procura desesperadamente uma pista.

Ao longo das páginas repletas de mistério e simbologias, escritores famosos e citações brilhantes, Will, cunhado e colega de profissão de Adam Diehl, tenta obter uma resposta e, ao mesmo tempo, escapar às ameaças do misterioso «Henry James». Consciente do simbolismo do caso, ele sabe que um homem sem mãos se vê privado do instrumento mais precioso quando se trata de imitar a caligrafia de William Faulkner, James Joyce, Conan Doyle e outros que tais. Na verdade, Will, ele próprio genial falsário, talvez saiba demais.

Rating: 3/5
Comentário: Vamos começar pelo elementar: não acho que "Os Falsários" seja um livro para todos. Mas quem gostar do género, vai deixar-se embrenhar pelo enredo, não tanto pela acção mas mais pela teia que é montada.
Nunca li Agatha Christie, por isso não tenho elemento de comparação, mas o que posso dizer é que embora esta história se inicie com um crime, rapidamente se transforma num livro de memórias do narrador, que utiliza o crime como ponto de partida para enunciar a sua história, assim como definir os caminhos que o ligam a esse acontecimento (neste caso, pelo facto de conhecer a vítima).
Ainda assim, há sempre a nuance de mistério porque o crime, por si bastante estranho, vai sendo alvo de debate e exploração fugidia ao longo de todo o romance. É certo que a determinada altura há uma quase certeza da origem e razão do seu desfecho, mas ainda assim aguarda-nos sempre um elemento que induz a insegurança de se estar a ser precipitadamente rápido a julgar a evidenciar juízos de valor.
Outra coisa de renome é o amor aos livros, que é evidenciado de diversas formas e por diferentes personagens, o que só transmite que este é também um objecto de apreço para o autor.
O mundo das falsificações das obras de arte é sempre interessante para quem gosta de livros e que, ainda que não sendo bibliófilo no sentido mais lato, tem interesse em perceber o objecto e colecção e qual a sua validade e interesse no seio do mercado dos livros raros.
Existe na mesma o misto de mistério e de uma certa latência lânguida que o arrasta, o coloca num sfumato que nunca o tira de cena mas também não o traz para o plano principal da acção, e cujo desenvolvimento é paralelo, contínuo, e explorado quanto baste até que a terminologia da cadência narrativa traga novamente o crime para a ribalta.
Sendo um livro de quase memória e com um cunho tão pessoal, "Os Falsários" contam uma história passada, completa, sem grandes sobressaltos ou composições rápidas como as dos thrillers actuais. Mas traz a capacidade de desvendar um mistério ao decompô-lo por partes, de forma a analisar o todo, e de descobrir a lógica por detrás da engrenagem. É assim um livro muito mais intelectual ou de análise crítica, mas óptimo para quem se julga à altura de um bom mistério.


 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Review: An Almost Perfect Christmas, by Nina Stibbe

 
An Almost Perfect Christmas
by Nina Stibbe

Edition: 2017
Pages: 234
Publisher: Penguin Books UK





Summary:
"My mother is not a foodie. But for as long as I can remember, once a year, she becomes possessed of a profound and desperate need to serve up a perfect roast turkey. Faced with a walk into the village though, she might think 'oh, f*** it' and decide to get a frozen one from Bejams on the 23rd and leave it to defrost in the downstairs toilet for not quite 48 hours."

From perennially dry turkeys to Christmas pudding fires, from the round robin code of conduct to the risks and rewards of re-gifting, An Almost Perfect Christmas is an ode to the joy and insanity of the most wonderful time of the year.

Rating: 3/5

Review: 
I will start this review by saying that I received an online copy of this book through NetGalley in exchange of a honest review.

Who doesn't like a good Christmas book? I try to read a different one every year around holiday's time. This year I've choose "An Almost Perfect Christmas" by Nina Stibbe because I was in the mood for a stress relief and non fiction book. 
Nina brings the reader different and funny stories from her Christmas memories and reminds us why this time of year can bring such a love/hate relationship to everybody. Because of course we love the blings, the charity spirit and the willingness to make all around us happy and complete. But we also can't forget the screaming, the last minute changes, the skipping ingredients after the shops' have closed and all the plans and preparation which most of the times doesn't have any other function that never being followed. Her mother and the story about the Christmas Turkey is a perfect example of that!
With different approaches and intentions, some of Nina stories were hilarious, others were insightful, some created empathy and others the desperation and empathy of having been there before. Nevertheless it's a great book to relax around this time and a good reminder of what's missing in our lives or in our Christmas preparation list. 
I must say I've enjoyed some of the chronicles more than others, as you probably imagined. It's not difficult to imagine why, since we all have our own personal stories. Searching through these pages, I found some moments I could identify with and I laughed with the author because of them. In the end, who never had a big drama around Christmas gifting in their families (Nina's family is way better imagining thematic and justifications for shifting the gifting rules!).
It's a light read we all can appreciate on these busy moments we are going through, but don't deceive yourself. Nina's life it's not perfect and she doesn't have any problem showing it. I guess the nostalgia takes also part on these amazing Christmas cocktails and, of course, it couldn't be missing here. 
If you are looking for some reading suggestions, try this not so perfect Christmas, as they all should be.


Cláudia
About the author:
 
Addicted to the library Claudia loves to read on the move and we can usualy find her sitting in a train or bus reading while commuting to and from work. But don't be fooled she is also keeping an eye on the landscape and all around her. She is an avid defender of sustainability and volunteering and it's as easy to find her starting a new project as it is to find her chatting with her friends. She is a dreamer and loves good stories so she keeps looking for them in her personal life.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Opinião: Uma Estranheza em Mim, de Orhan Pamuk


 
Uma Estranheza em Mim
de 
 
Edição/reimpressão: 2016
Páginas: 640
Editor: Editorial Presença
  



Sinopse: 
O novo romance de Orhan Pamuk combina uma história de amor marcante com um retrato muito pessoal de Istambul e das profundas mudanças aí ocorridas entre 1969 e 2012.

Mevlut viu-a apenas uma vez e foi o suficiente para se apaixonar. Após 3 anos de cartas enviadas em segredo, decidem fugir. A escuridão da noite auxilia a fuga mas a luz de um relâmpago revela um engano terrível que os marcará para sempre.

Chegados a Istambul, Mevlut decide aceitar o seu destino seguindo os passos do pai. Todas as noites vende boza, uma bebida tradicional turca, esperando um dia enriquecer. Durante 4 décadas acompanhamos Mevlut pelas ruas de Istambul, o seu olhar face às alterações que ocorrem e as diferentes pessoas com quem se cruza.

Uma Estranheza em Mim, do autor Prémio Nobel da Literatura, foi candidato ao Man International Book Prize 2016.  Excerto
 
Rating: 3,5/5
Comentário:  "Uma Estranheza em Mim" foi a minha estreia com Orhan Pamuk. Deixei-me inicialmente ser envolvida pelo título, tão peculiar, e depois pela sinopse. Quem nos segue há uns tempos já sabe que é fácil deixar-me seduzir por sagas familiares, especialmente quando passadas em países diferentes dos que habitualmente aparecem retractados.
Pamuk traz-nos a transformação de um mundo visto pelo olhar de homem simples ao longo de três gerações, enquanto que simultaneamente nos arrasta pela transformação estrutural que sofre Istambul - a cidade, mas que também se torna em Istambul - a personagem, ao longo de quatro décadas.
Melut é um rapaz simples, sonhador, mas também muitas inconstâncias, que parte para Istambul com o pai, de forma a dar seguimento ao negócio familiar de venda ambulante de Boza, que lhes permite sustentar a família que se mantém na aldeia natal.
É a partir deste momento que se denotam os contrastes, da vivência de uma aldeia para a cidade, da cidade em si e das suas diversas regiões, dos actores que nela residem e que determinam o seu comportamento e desenvolvimento.
O enredo é transmitido paralelamente na primeira pessoa, mas também como sendo uma crónica, um relato documental do que foi a vida desta família. Todas as personagens que a determinada altura assumem o papel de narrador interpelam directamente quem as lê, rompendo a quarta dimensão. É um elemento original, que contrasta com os romances do género, trazendo-nos a verdadeira essência de uma família: a mesma história, várias versões, atropelos na narrativa, várias versões, segredos e intrigas.
Alguns dos dilemas existenciais destas personagens acompanham-nos desde a primeira à última página, ao longo de todos os anos da sua existência. São instâncias que fazem parte da sua personalidade e definem o ADN que lhes dá voz. Sem estas problemáticas, o que cada uma representa e as suas relações interpessoais não seriam as mesmas. Há os direitos de propriedade de um terreno, há umas cartas direccionadas a uma irmã (que poderia ou não ser a destinatária original), há o futuro dos vendedores de rua, do ser um bom muçulmano e/ou um bom turco, de respeitar a moral e a ordem familiar, do que é estar vivo e ter uma certa estranheza em nós.
Como já tive oportunidade de referir, a cidade de Istambul ganha um destaque bastante relevante, ao ponto de por vezes não se entender bem se lemos uma história que se passa pela cidade ou se vemos a história da cidade a ser representada pelos que vivem nela. As alterações dos bairros, os movimentos sociais que as impulsionaram, a ida e vinda de grupos minoritários à medida que as relações diplomáticas do país se vão alterando, a diminuição do espaço de vivência da rua como era, a proliferação exótica dos vendedores de boza tradicionais, são todas marcas da mesma moeda, que realçam o fervilhar que conduz esta narrativa.
Foi uma história em que gostei de emergir e descobrir aos poucos, já que o facto de não se evidenciar realmente uma parte dos elementos neste cenário complexo e diversificado, por vezes dificultou a criar uma conexão mais próxima durante a leitura.
Ainda assim, foi uma estreia brilhante com este autor, e já tenho mais uns três na calha para dar continuidade a esta exploração de Istambul perante o olhar acutilante e a consciência moral de Orhan Pamuk.



                                          Foto: Editorial Presença



 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Opinião: Desenvolver pessoas Lean numa Organização de Serviços, de João Alves Moura




Desenvolver pessoas Lean numa Organização de Serviços
de João Alves de Moura

 
Edição/reimpressão: 2016
Páginas: 188
Editor: Edições Ex Libris
  

Sinopse: 
Mais do que um mero exercício académico, o Modelo de Projeto de Implementação Lean que se preconiza assenta num “tempo” necessário para criar, numa empresa, condições que permitam ligar estreitamente Filosofia de Longo Prazo e Cultura Lean.
Utilizando as ferramentas de trabalho que a metodologia Lean propõe, suportada na aplicação de uma sistemática de resolução de problemas, a aplicação deste modelo assenta em lições aprendidas, que permitirão, à partida, um caminho mais fiável, mais alinhado e menos sujeito a erros.
A par da responsabilidade que a Gestão de Topo detém no sucesso da implementação de uma filosofia de melhoria contínua, assim, o sucesso deste Modelo assenta também no facto de se proporcionar às pessoas a desenvolver, uma aprendizagem para a interiorização de novos hábitos.

Comentário: Quem já nos segue há algum tempo, sabe que não tenho por hábito comentar livros técnicos, como o que vos apresento hoje. Mas a vida traz-nos acasos interessantes. Conheci o autor, João Moura, durante uma formação em Lisboa e acabámos por falar de hobbies e interesses pessoais, o que nos trouxe ao convite do autor para me dar a conhecer parte importante do seu trabalho, que passa precisamente pelo objectivo de desenvolver pessoas Lean em organizações Lean.
Sendo este um modelo de aplicação prática para quem já domina os conceitos, e sendo eu uma leiga no assunto, antes de me debruçar sobre ele necessitei de pesquisar um pouco para me integrar na temática (o meu conselho para edições futuras passa precisamente pela introdução de um capítulo exploratório breve, que embora não eduque a fundo, permita uma melhor contextualização do conteúdo que se segue).
A cultura Lean teve a sua origem no Japão pela mão da Toyota em meados de 1950, e autoria de Taiichi Ohno e Shigeo Shigeo. O sistema de produção adoptado foi inicialmente conhecido como "Toyota Production System". Cerca de 20 anos mais tarde, passou a ser adoptada por outros construtores automóveis japoneses e europeus (e posteriormente estendido a outras indústrias).

Na década de 80 passou a ser designada pelo nome pelo qual é hoje conhecida através da acção do investigador John Krafcik do MIT, envolvido num projecto internacional que seguia a abordagem à produção referida anteriormente. [Carvalho, J. 2010]
 Na prática, Lean corresponde a um conjunto de técnicas e metodologias de cultura empresarial que validem uma produção ao maior nível, com o mínimo de recursos possíveis, isto tendo sempre como foco as pessoas e o seu papel fundamental para o desenvolvimento de qualquer organização que se queira bem sucedida, inovadora, e sustentável.
Embora com vários anos de prática e reconhecimento no mundo industrial e empresarial, é certo que em Portugal não existam ainda muitas organizações a trabalhar sobre este fundamento. Certamente, alguns dos motivos prementes para que isso suceda passam pela falta de compromisso de todo o tecido (já que esta não é uma metodologia que possa ser adoptada por metades ou só parcialmente) e pela implicação de custos (tanto de tempo, dinheiro e recursos humanos) que exigem os primeiros anos para a sua aplicação eficaz (e que poderá dar origem a algum prejuízo inicial).
É precisamente sobre esta questão que se debruça João Moura, ao apresentar um plano a 3 anos para a aplicação de um sistema Lean eficiente e eficaz numa Organização de Serviços, tendo sempre, claro está, as pessoas por base.
Este livro é inevitavelmente um modelo de aplicação prática e de concretização de projecto. Com explicações passo por passo, indicações de constrangimentos que possam surgir em cada um, assim como exemplificações de como suplantar os constrangimentos são algumas das análises elaboradas pelo autor. Recorrendo a versões esquemáticas e resolutivas, o autor acompanhar o gestor de um processo Lean nas diversas etapas, preparando-o para os desafios e dotando-o de ferramentas para fazer face às mesmas.
Muitas vezes indicando estratégias ou abordagens metodológicas para o desenrolar do processo, o autor contempla-nos com um glossário de conceitos e intervenções bastante completo, explicando exercícios e recorrendo ao apoio visual para os tornar mais eficazes.
A ideia de que este processo não resulta sem o real envolvimento de cargos de chefia e gestão está assente desde a primeira página, assim como a necessidade de contemplar recursos humanos com a disponibilidade necessária para que se tornem agentes Lean e tenham a capacidade de monitorizar e acompanhar o processo junto dos seus colegas nas mais variadas esferas.
É um livro esclarecedor, de fácil acesso (após compreensão do conceito), visualmente apelativo e de fácil entendimento. Acima de tudo, um guia prático que poderá fazer a diferença.
Num sentido mais percursionista, só a sua aplicação prática poderá garantir que se adapta e corresponde às necessidades da realidade, o que a mim me suplanta de momento.
Ainda assim, foi um conceito que me foi caro descobrir, pelo que João Moura trouxe-me uma enorme fonte de conhecimento.


 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

domingo, 3 de setembro de 2017

Opinião: Corações de Pedra, de Simon Scarrow



Corações de Pedra
de 
 
Edição/reimpressão: 2017
Páginas: 417
Editor: Edições Saída de Emergência
  





Sinopse: 
1938: Três jovens vivem um verão perfeito na ilha grega de Lefkas, isolados dos problemas políticos que fervilham na Europa. Peter, de visita da Alemanha enquanto o pai lidera uma expedição arqueológica, desenvolveu uma forte amizade com Andreas e Eleni.
À medida que o mundo resvala para a tragédia e Peter é forçado a partir, os amigos juram encontrar-se de novo. 1943: Andreas e Eleni juntaram-se às forças da resistência contra a invasão alemã. Peter regressa - agora um oficial inimigo e espião perigoso. Uma amizade formada em paz irá transformar-se numa batalha desesperada entre inimigos dispostos a sacrificar tudo pelos países que amam…
 

Rating: 2/5
Comentário: Ninguém gosta de escrever opiniões sobre livros que não gostou tanto. Eu não sou diferente e por isso demorei alguns dias a trazer a opinião a "Corações de Pedra", de Simon Scarrow. Não que o livro seja mau, mas ia com expectativas completamente diferentes, especialmente insinuadas pela sinopse, e que foram completamente defraudadas.
No que respeita à trama, efectivamente temos um enquadramento e contexto histórico centrado na II Guerra Mundial, num país ocupado pelos países do Eixo. Gosto sempre destas análises de realidade ficcionadas à luz da História, e que demonstrem outros lados deste conflito bélico a nível mundial. A perspectiva da ocupação da Grécia foi bastante interessante, especialmente quando enquadrada com o contexto político local da altura, dando uma luz a um momento histórico para além da visão mais generalista.
Gostei também da abordagem do processo inicial de resistência por parte do exército grego, assim como das descrições a bordo de um submarino de guerra, que criaram momentos de acção bélicos cativantes para a atenção do leitor. Acho que existe todo um imaginário associado a lugares menos alcançáveis, nos quais se encaixaria um submarino. Acaba por ser uma visita guiada, ilustrada por momentos de actuação ao minuto.
O problema é que este plano narrativo estende-se para além do agradável e acabamos com uma série de momentos quotidianos de vida militar, seja ela resultante do pleno exercício do exército ou das forças de resistência no exterior. Tanta análise das forças militares poderia ser interessante, não fosse o facto de não ser essa a temática do livro, pelo menos em teoria.
É precisamente esse o meu problema com este livro. Há uma série de planos de acção que são referidos e inseridos na construção do livro mas que depois se perdem no panorama geral. Começamos com saltos temporais que não beneficiam em nada o enredo principal, e que poderia ter brilhado muito mais com a retirada desse plano mais moderno, que foi uma alavanca para a narração da história da História, mas que poderia ter sido conduzida tem a utilizar.
Seguidamente, a inserção de um suposto mistério que surge como insinuação nas primeiras páginas e só retorna muito posteriormente, só causa também, na minha opinião, ruído para a mente do leitor. Até porque ele não é senão um pretexto para facilitar a resolução de uma parte da trama mesmo nas últimas páginas.
Por outro lado, dou a mão à palmatória com a abordagem dos processos de resistência das populações locais, embora esta se baseasse somente numa forma de fundamentar o concretizar de alguns momentos para a narrativa principal, em vez de efectivamente valorizar as personagens apresentadas como pano de fundo.
Por fim, fiquei desiludida com a ligeireza com que foi tratada a dita amizade das três personagens, especialmente atendendo ao conflito de se nutrir sentimentos de amizade e confiança por alguém que num período temporal diferente se encontraria do outro lado da barricada. Esperava momentos de constrição e dúvida, de tentativa de racionalização de parte a parte para facilitar a compreensão do que ao seu olhar seria incompreensível. Isto deve-se ao ter achado desde o início que as relações interpessoais fossem bastante trabalhadas e este fosse um livro sobre pessoas e as suas histórias, e acabei por receber um livro de momentos de acção encadeados e com saltos geográficos algo constantes.
No fundo, a sensação premente que tive ao longo da narrativa - e que não faço ideia se será verídica ou não - foi que o autor tinha um final definido em mente e queria lá chegar, não sabendo algumas vezes como conduzir o processo e perdendo-se a meio. Mas também talvez se deva a ter tido as minhas expectativas defraudadas e ao não me ter conseguido adaptar à narrativa.
Ainda assim, se quiserem um livro com conteúdo militar (mas não exageradamente), forças de resistência, forças invasoras, histórias de passados distantes, pessoas interligadas por laços de afecto e antepassados, então dêem-lhe uma hipótese e contem-me depois qual a vossa reacção ao mesmo. Acredito que ainda poderão eventualmente sair-se surpreendidos, desde que não leiam a sinopse de todo para não vos estragar a experiência de leitura, como a mim.


 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Opinião: O Professor de Quéops, de Albert Salvadó



O Professor de Quéops
de 
 
Edição/reimpressão: 2003
Páginas: 203
Editor: Terramar
  





Sinopse: 
Eis uma história da época do faraó Sneferu e da rainha Heteferes, pais do futuro faraó Quéops (ou Khufu), que mandará construir a mais impressionante das pirâmides do Egipto. Mas trata-se também da história de Sedum, escravo que se tornará professor de Quéops. Ora foi precisamente com esta obra que Albert Salvadó - agora revelado ao público português - venceu o II Prémio Néstor Luján de Romance Histórico, em 1998.
Albert Salvadó demonstra ser senhor de uma notável capacidade efabuladora, sem nunca perder de vista a consistência de uma sólida infra-estrutura histórica. E, no entanto, este seu romance põe a nu toda uma trama narrativa, engenhosamente arquitectada, em que se sucedem os episódios dominados pela intriga e a conspiração, pelo amor e a paixão, pelo mistério e a aventura, e também pelo assassínio.

Rating: 3/5
Comentário: Albert Salvadó foi o único autor de Andorra que encontrei traduzido para o projecto "World Book Tour" e foi portanto a minha escolha para o mês de Maio.
Das várias escolhas disponíveis, optei por ler um livro ligeiro e pequenino, até porque foi um mês de mudanças a nível pessoal, e com pouco tempo para enveredar em leituras mais complicadas.
A expectativa cumpriu-se e o autor manteve um estilo ligeiro e corriqueiro numa história contada em jeito de conto e com bastante fluidez assim como rapidez narrativa. A sensação geral coincidiu mesmo com essa nuance, e não pude deixar de ler esta história com um enredo com um estilo narrativo semelhante ao aplicado quando contamos histórias a crianças. Ao longo das páginas vamos acompanhando a vida de Sedum, desde o seu nascimento até à sua morte, com vários saltos temporais e pouca profundidade e envolvimento emocional. Este personagem passará por várias etapas e desafios na sua vida, mediante o contacto que estabelece com diversas pessoas, algumas representando obstáculos à sua sobrevivência pacifica e bem intencionada, tão por si almejada. É uma típica história de triunfo da inteligência e bondade sobre a astúcia e ganância, com uma passagem de moral mais ou menos intencionada e transmitida tal e qual num cenário de fábula, com um herói sofredor e vitimizado pelo acaso, cuja sorte varia consoante as pessoas com que se cruza.
Naturalmente, passando-se no Antigo Egipto, não deixamos de ter contextualização social e comportamental que facilita a compreensão da realidade das personagens e o seguimento das suas histórias. Ainda assim, passam quase que despercebidas, de tal forma que retirando pequenos elementos, esta mesma história quase que poderia ter-se passado em qualquer contexto histórico.
Não será certamente um livro que me ficará na memória, mas não posso deixar de dizer que me diverti a lê-lo, nem que seja como elemento de descompressão (especialmente porque o comecei e terminei numa tarde em que estava extremamente cansada e a necessitar de desligar o cérebro da realidade por umas horas).

Sobre o autor: "Albert Salvadó (Andorra-a-Velha, 1 de fevereiro de 1951) é um escritor andorrano. Estudou engenharia industrial e escreveu contos infantis, ensaios e novelas.
Destaque para suas novelas históricas, onde mistura realidade, ficção e mistério. Suas obras foram publicadas em vários idiomas (catalão, castelhano, francês, português, grego, tcheco e outros) e ganhou numerosos prêmios. Entre eles: Prêmio Carlemany, Prêmio Fiter i Rossel do Círculo das Artes e das Letras, duas vezes o Prêmio Néstor Luján de novela histórica.", in Wikipedia

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Opinião: A Educação de Eleanor, de Gail Honeyman



A Educação de Eleanor
de 
 
Edição/reimpressão: 2017
Páginas: 328
Editor: Porto Editora
  





Sinopse: 
Eleanor Oliphant tem uma vida perfeitamente normal – ou assim quer acreditar. É uma mulher algo excêntrica e pouco dotada na arte da interação social, cuja vida solitária gira à volta de trabalho, vodca, refeições pré-cozinhadas e conversas telefónicas semanais com a mãe.

Porém, a rotina que tanto preza fica virada do avesso quando conhece Raymond – o técnico de informática do escritório onde trabalha, um homem trapalhão e com uma grande falta de maneiras – e ambos socorrem Sammy, um senhor de idade que perdeu os sentidos no meio da rua. A amizade entre os três acaba por trazer mais pessoas à vida de Eleanor e alargar os seus horizontes. E, com a ajuda de Raymond, ela começa a enfrentar a verdade que manteve escondida de si própria, sobre a sua vida e o seu passado, num processo penoso mas que lhe permitirá por fim abrir o coração.

Rating: 4/5
Comentário: Gail Honeyman esteve nas bocas do mundo no ano passado com o lançamento do livro "Eleanor Oliphant is Just Fine", agora editado em Portugal pela Porto Editora. Confesso que não percebia tantos galanteios ao livro, especialmente porque a sinopse me parecia repetida de uma história já muitas vezes contada. A inserção no enredo foi agradável, mas ainda assim não dispunha de uma enormidade ou genialidade que me fizesse ganhar toda essa afeição à narrativa. Até que me apercebi já presa e com desejo de que Eleanor ficasse, de facto, "just fine" (bem).
Ensinaram-me as aulas de sociologia no secundário a importância da convivência e dos nossos elementos de referência para a formação da nossa personalidade enquanto ser social. Por esse motivo, acompanhar a Eleanor foi um exercício premeditável mas ainda assim com capacidade de criar uma empatia enorme com esta mulher.
Sabendo de antemão que muitas das suas reacções se devem de facto à ineficiência das suas relações sociais, algumas interlocuções com o mundo dito exterior não deixam de ser algo cómicas. É impossível não nos rirmos de alguns dos devaneios desta mulher, sem no entanto evitar que depois surja algum remorso de culpa, por nos lembrarmos enquanto leitores como é que esta mulher chegou a este estado propenso a fragilidades e alguma incompreensão por parte do mundo exterior.
Mas é também no seguimento da narrativa que vamos descobrindo que Eleanor é muito mais do que uma mulher só, que a personagem que está montada e a sustenta há muitos anos é tão frágil como as dores internas que carrega consigo, e que estamos presente uma mulher com uma enorme necessidade de amor, embora nem esta o saiba.
É através das pequenas surpresas que um momento inesperado trará, entrecruzadas numa cadeia de encadeamentos improváveis mas com enorme significado, que Eleanor se lembrará da importância do calor das relações humanas e do quanto este pode ser reconfortante.
É também a partir deste ponto que vamos tendo acesso à mulher por detrás da persona, e que o discurso narrativo também sofre a sua transformação, quase como se toda a análise prévia servisse como enorme introdução a este momento de desenvolvimento. A partir daqui é impossível desligar-nos desta personagem e desejar-lhe o melhor com todas as nossas forças, mesmo que esta não seja sempre a companhia mais agradável. E são os pequenos actos de bondade de estranhos, que a acolhem como um elemento pertencente ao  seu ciclo de relações que acabam de certa forma por fazer brilhar, por contraste, toda a realidade eminente a destruturar-se e uma representação construida num castelo de cartas a ruir.
A dor da personagem é pulsante, estamos com ela e vivemos com ela os momentos de encontro e confronto entre a realidade e o mundo por si idealizado.  É também neste momento que se dá uma pequena reviravolta, a qual não vou relatar para não vos estragar a surpresa. Até porque esse é o elemento-chave de todo o processo de construção desta personagem: o poder de submissão que os relacionamentos tóxicos podem causar no ser humano. A forma como este fio narrativo é conduzido, de forma sub-reptícia mas sempre constante, levantou-me algumas questões ao longo da narrativa e não foram poucas as vezes que desejei que ela se libertasse. Só não tinha noção de quão grande era a prisão de Eleanor.
Por todos estes momentos, "A Educação de Eleanor" revelou-se um livro mais surpreendente do que inicialmente esperava, sem quaisquer pretensões ou moralismos, mas com uma história muito humana, e cheia de esperança.


 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.