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terça-feira, 6 de novembro de 2018

Opinião: Os Provocadores de Naufrágios, de João Azambuja



Os Provocadores de Naufrágios
João Nuno Azambuja
 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas 304
Editor: Guerra e Paz
  




 
Sinopse: 
Baseada em factos reais, esta é a história de Klaus Kittel, um alemão portuense que combateu na Segunda Guerra Mundial. Um homem mergulhado numa época de pesadelo, de guerra, morte e ditaduras. Uma Europa destroçada, de onde surge uma história improvável, mas verdadeira, feita de viagens e fintas ao destino.
Kittel foi sempre perseguido pela crueldade humana. Em criança, expulsaram-no de Portugal. Em adulto, viveu os bombardeamentos aliados e fugiu ao Exército Vermelho. Passou pela grande depressão, assistiu à ascensão de Hitler e discursou para a elite do Partido Nazi. Depois da guerra, é preso. Sobrevive aos campos de prisioneiros, onde milhares de homens encontraram a morte. Mas consegue fugir, com o que talvez seja uma misteriosa ajuda de Álvaro Cunhal.
Foi escravo, soldado, marido. Um romance escrito pela pena de uma das mais promissoras vozes das Letras portuguesas, vencedora do Prémio Literário UCCLA, sobre a qual disse o poeta Fernando Pinto do Amaral ser «capaz de exprimir um intenso sentido de revolta em face do mundo contemporâneo»..

Rating: 3.5/5
Comentário: Hoje em dia já me começo a questionar se o interesse crescente da sociedade do séc. XXI perante a 2ª Guerra Mundial se prende com a necessidade de conhecimento e reconhecimento do nível de maldade até onde as pessoas podem ir ou se é puro voyeurismo da desgraça alheia e degradação do ser humano. Julgo que inadvertidamente acabámos por cair num meio termo, e daí a crescente no mundo literário de ficção e não ficção sobre a temática, que nunca passa de "moda", mas que peca por incidir precisamente nas mesmas análises, nos mesmos níveis de desgraça e calamidade, sem aprofundar ou obedecer minimamente a um espírito crítico que vá para além da emissão de um juízo de valor ou outro, já muito pobre e gasto.
Nesse sentido, obrigo-me a ter um olhar mais crítico e a realizar uma selecção mais cuidada sobre o que pretendo ler sobre este período (embora, e mea culpa me confesso, ainda me deixe resvalar na outra direcção quando um romance ou outro me puxam pela sinopse). Acima de tudo, o que procuro são abordagens diferentes, leituras diferentes, e uma leitura da realidade segundo uma manta de retalhos mais vasta.
Em seguimento dessa análise, "Os Provocadores de Naufrágios" pareciam-me uma leitura indicada.
Ao fim ao cabo, não é todos os dias que enveredamos na história de um alemão que ingressa na guerra sem necessidade e por sentido patriótico, patriotismo esse acerbado pelas raízes saudosistas e familiares de uma história não vivida. O que em última instância nem é assim tão verdade, já que para todos os efeitos, Klaus Kittel cresceu e viveu em Portugal, sendo mais português do que alguma vez foi alemão, mas é arrastado por força das circunstâncias para um momento em que não é considerado pelos seus pares nem uma coisa nem outra: nem tão português que seja bem-vindo nos seus circuitos familiares enquanto a nação que lhe deu origem ocupa lentamente toda a Europa, nem tão alemão que se reveja em funcionalismos culturais criados por um povo longe do qual sempre viveu.
Este livro é escrito em jeito de reconto memorial, com alternâncias entre um período em que Klaus se encontra como prisioneiro de guerra na Alemanha e posteriormente em França, com momentos episódicos da sua vida, e que compõem o seu tecido cronológico. É acima de tudo o relato de uma vivência de um homem real, com inspiração em pedaços de uma memória relatada em diário, e imaginados por João Azambuja de forma a compor todo o seu historial.
Daí advém a aplicação de vários provérbios populares, de uma sensatez e ligação às raízes muito portuguesa e também de um certo distanciamento - quase observacional e não vivencial - na descrição de momentos que seriam muito difíceis de superar e observar. Não há de facto um reforço empático ao nível das emoções, porque toda a narrativa é tida como um relato algo distanciado, mas torna-se um troféu quase que corriqueiro e esperado de um homem em final de vida, que não se sente vítima do que viveu e aceita-o em pleno como um momento da sua História. É uma abordagem peculiar e original de um relato que poderia ser algo polémico, mas também muito humana e sensível, atenta aos detalhes e à representação do ser humano no seu todo.
Não me senti comovida, porque não é esse o sentimento que o livro incute, mas fui agradavelmente surpreendida pela narrativa. "Os Provocadores de Naufrágios" revelou-se uma leitura peculiar mas que me deu bastante prazer.



Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Opinião: O Silêncio da Chuva de Verão, de Dinah Jefferies



O Silêncio da Chuva de Verão
Dinah Jefferies
 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas 352
Editor: Topseller
  




 
Sinopse: 
Rajputana, Índia, 1930. Desde a morte do marido que a jovem inglesa Eliza vive para a fotografia. Determinada a estabelecer o seu nome, ela aceita um convite do governo britânico para retratar a vida da família real indiana no Estado de Juraipore, de forma a enaltecer a influência da Coroa Britânica.
No palácio real, Eliza conhece Jayant, irmão mais novo do marajá, que a leva a conhecer uma terra marcada por contrastes: de um lado, paisagens de beleza incomparável e uma cultura rica e vibrante, e do outro, a mais devastadora das misérias.
Durante a viagem, Eliza desperta Jayant para a pobreza do povo indiano, ao mesmo tempo que ele lhe mostra a face negra do domínio britânico na Índia. Até que, numa revelação quase kármica, os dois descobrem que estão profundamente ligados e apaixonam-se.
Mas com a família real e os britânicos a oporem-se à sua relação, conseguirão Eliza e Jayant libertar-se das obrigações e cumprir o seu destino?
Uma história sobre um amor genuíno que enfrentará o peso dos costumes e da tradição no coração da Índia colonial.
Primeiras páginas aqui.

Rating: 3.5/5
Comentário: Sempre tive uma paixão enorme pela História e pelo Mundo em geral e dou por mim muitas vezes a ler ficção e relatos que abordem as vivências dos países colonizados e das contradições e contrastes entre ocupantes e ocupados. As sensibilidades culturais, as nuances narrativas e as ópticas de abordagem aos mesmos problemas, assim como a capacidade de envolvimento de pessoas de diferentes realidades mas com os mesmos valores e emoções é sempre uma descoberta e uma aprendizagem imensa. É especialmente por gostar de História que também tenho ciente que muitas vezes só surge uma compreensão de momentos e factos quando todas as versões são analisadas, porque as versões que perduram no tempo são sempre as dos vencedores ou dos mais hábeis a comunicar.
Estes foram alguns dos factores que me fizeram escolher "O Silêncio da Chuva de Verão". Já conhecia a autora desde "A Mulher do Plantador de Chá", e embora tenha sentido falta de um maior relato da vivência local do país onde passava a narrativa (naquele caso, o Ceilão) quis dar uma nova oportunidade à autora.
De facto, neste livro a Índia é também uma personagem por si, e ganha o destaque devido, onde não lhe falham as crenças e as idiossincrasias de um país que quer crescer mas também se vê subjugado a uma potência imperial que se julga e actua como superior. É um relato com cheiros, cor, magia e sons, misticismo e debates político-sociais, com apresentações dos dois lados da mesma moeda e das diferenças que uma coexistência forçada podem trazer.
Quanto ao enredo principal, não há como negar que se trata de um romance feito para deliciar e entreter os leitores, com toques certeiros entre mistério e paixão, descrições e momentos intensos, e que trazem uma história completa que balança obrigações familiares com vontades pessoais, necessidade de auto crescimento com obstáculos estruturais, tentativas de superação e compreensão do papel do Ser Humano no ecossistema global que gere as ligações entre Homem, Natureza, País e Crença.
Dinah traz-nos personagens interessantes, com profundidade q.b., que se completam através do meio em que vivem e no qual interagem, que as incorporam de maior significado.
Ainda assim, há espaço para o seu desenvolvimento de forma a que não representem só modelos societais, mas que se governem por personalidades individualizadas. Faltou espaço de crescimento de algumas, especialmente num ambiente rico como o do palácio, o qual não foi explorado devidamente. Mesmo a Índia, que se assume quase como um ser de vontade e força maior, é descrita e enunciada frequentemente, embora só seja explorada de forma ligeira com pequenas explorações pontuais por parte das personagens.
Um dos momentos mais idílicos que consta neste romance é precisamente o período da Monção, para o qual é despertado constantemente o interesse do leitor e das personagens e quando chega em pleno, ocupa espaço de narrativa que lhe é adequado. Faltava uma maior força das descrições para que a sua punjança fosse mais certeira, mas permitiu uma conjugação enternecedora e de desfecho.
Dinah Jefferies gosta de viajar pela Ásia e de abordar vários países que lhe falem ao coração. Sinto que a autor nos quer colocar a suspirar por aquele canto do Globo e que mesmo com algumas falácias pelo meio, vai conseguindo cativar o leitor para as paisagens, a vivência e os olhares que, não sendo seus, passam a brilhar também no seu imaginário.



Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Passatempo: Nix- Fantasmas do Passado, de Nathan Hill


Com a colaboração da Editorial Presença, temos para oferecer um dos exemplares do livro "NIX - Fantasmas do Passado", de Nathan Hill. 

Este foi um dos livros mais falados no mundo literário dos Estados Unidos e chegou a Portugal em Maio. Para se habilitarem a ganhar um exemplar, basta que preencham o formulário em baixo com os dados solicitados. 

Sinopse: Estamos em 2011. Há décadas que Samuel Andresen, professor universitário e escritor falhado, não vê Faye, sua mãe. Mas eis que ela reaparece, depois de ter cometido um crime que não só captou a atenção dos media mas que veio incendiar um país politicamente dividido. Faye é descrita como uma hippie radical com um passado sórdido. 

Contudo, tanto quanto Samuel sabe, Faye era uma rapariga comum que casou com o namorado do seu tempo do liceu. Que versão da sua mãe será a verdadeira? Mas duas coisas são evidentes: ela enfrenta acusações graves e precisa da ajuda de Samuel. 

Para a salvar, ele terá de embarcar na sua própria viagem, à descoberta de segredos há muito enterrados sobre a mulher que ele julgava conhecer - segredos que se arrastam ao longo de gerações e que têm origem na Noruega. À medida que empreende essa viagem, Samuel irá confrontar não só as perdas de Faye, mas também o seu próprio amor perdido, e irá reaprender tudo o que julgava saber sobre a mãe e sobre si próprio.

Desde o Midwest suburbano até à cidade de Nova Iorque e aos motins de 1968 que abalaram Chicago e outras cidades norte-americanas, Nix - Fantasmas do Passado explora - com um humor subtil e uma grande sensibilidade - a resiliência do amor, mesmo num tempo de mudanças radicais.

Bestseller do New York Times, vencedor do Los Angeles Times Book Prize para primeira obra de ficção e Finalista do National Book Critics Circle Award. Considerado o LIVRO DO ANO pelos principais meios de comunicação social internacionais. Meryl Streep e J.J. Abrams associam-se à Warner Bros TV na produção de uma série de TV baseada neste livro.

Primeiras Páginas aqui.

Regras do passatempo
1) O passatempo decorre até às 23h59 do dia 30 de julho de 2018.
2) Todos os dados solicitados (incluindo Nick de Seguidor) devem ser devidamente preenchidos e completos.
3) Só será aceite uma participação por pessoa.
4) O passatempo abrange todo o território português (Portugal Continental e Ilhas).
5) O/A vencedor/a será sorteado de forma aleatória (random.org), sendo o resultado anunciado na página do blog e o contacto efectuado por e-mail.
6) O Encruzilhadas Literárias e/ou a Editora não se responsabilizam pelo extravio ou danos causados pelos CTT nas encomendas enviadas.
7) Todos os dados pessoais guardados, para efeitos de passatempo, serão eliminados após entrega do prémio ao vencedor ou vencedora.




«Estas e outras novidades no site da Editorial Presença aqui» 

terça-feira, 27 de junho de 2017

Opinião: Imaculada, de Paula Lobato Faria



Imaculada
de Paula Lobato Faria
 
Edição/reimpressão: 2017
Páginas: 312
Editor: Clube do Autor
  



Sinopse: 
Esta é uma história inspirada em acontecimentos reais em que a dualidade de ser e de parecer, da lealdade e da traição, do amor e da obrigação nos leva a caminhos imprevisíveis.

Portugal, 1956
Tempo da ditadura de Salazar, da censura e da PIDE. Numa família da alta burguesia, no interior do país, o lema "Deus, Pátria e Família" é sagrado. Mas a vida estremece quando na casa dos Correia bate à porta o amor e o desejo de liberdade.

«Apenas um por cento é baseado em memórias e todo o resto na imaginação, mas muitos leitores vão aqui identificar pessoas que conheceram durante a vida, pois os personagens desta trama são gente comum, de carne e osso», avança a autora nas primeiras páginas do romance.
Booktrailer:  https://www.facebook.com/clubedoautor/videos/1359235020779654/

Rating: 3,5/5
Comentário: Parece algo improvável para uma geração que nasceu depois do período do Estado Novo, por muito que este lhe seja descrito, a constatação da ignorância feminina, crescida e educada para existir somente numa bolha de moralidade e bons costumes. No entanto, a vivência pessoal com uma mãe educada pelos avós, cuja correspondência de costumes não se afastam muito dos rectratados aqui neste livro, fez com que a aproximação da ficção à realidade fosse bastante persuasiva.
Cristiana é sem dúvida uma jovem mulher, rodeada das expectativas da família, da sociedade, e de uma vivência já determinada antes dela poder expressar intenções e/ou sentimentos. É também o confronto entre os seus desejos mais íntimos e as possibilidades que lhe são negadas, o retracto de época em meio rural e portanto ainda mais fechado que os locais cosmopolitas, que torna este livro uma leitura de análise e interesse sobre um período da nossa História tão recente, e que ainda assim já há quem o faça por esquecer.
Esse foi sem dúvida o aspecto que mais me atraiu neste livro. A apresentação dos valores sociais e pessoais mediante variados momentos e situações, nas nuances e testemunhos entrelaçados que, ainda que não preponderantes, não deixam de estar presentes para um olhar mais atento. São um ponto forte, uma crítica velada, mas acima de tudo uma análise clara de um momento da nossa vivência enquanto portugueses.
É inevitável não ver a cultura de elevação ao elemento masculino, onde mães, noivas e mulheres em geral consideram os homens que as rodeiam como seres de plenitude, fechando os olhos a falhas e a pecados. Elas, que muitas vezes são as primeiras a apontarem defeitos a si e a outras, num julgamento constante pela elevação moral.
O estilhaçar da moldura perfeita foi conseguido de uma forma delicada mas acutilante, batendo nas articulações certas e revelando ponto a ponto as fragilidades de uma construção societal corrompida por um sistema político, por uma energia de controlo entre pares, e uma presença acérrima dos valores católicos.
Quanto ao romance em si, a Cristiana não é de facto  uma personagem fácil de encarar, mesmo que entendendo a proveniencia da sua ingenuidade. Mas é sentida a sua compreensão do mundo e o abrir de amplitudes que lhe chega com o avançar da trama.
 Quanto ao galã, surge como o sedutor acalorado, com uma preserverança e constituição indutora de novos pensamentos, mais modernos, democráticos, vanguardistas e justos; ao fim ao cabo, a chave de Cristinana para um mundo novo. A exploração do romance ter-me-ia sido mais interessante se o casal não tivesse tido um encantamento quase que platónico e instantãneo (ou não fosse eu pouco crédula nestes ditames do amor) e todo o seu diálogo demasiado romantizado e irrealista para mim. Julgo que tivessem eles travado conhecimento mais prolongado, ou pudessemos ter assistido a mais momentos de convivência que este romance poderia ter sido mais estruturado.
Por fim, não sei se esta era ou não a intenção da autora, mas o fim deixa indícios de que poderá existir uma continuação, e a ser verdade, estou bastante curiosa para saber o desfecho destas personagens, numa sociedade pós-25 de Abril, e com novos desafios e exigências.
Apesar dessa situação, gostei bastante do enredo, vi-me envolvida até à última página e terminei-o em dois dias. Fica a sugestão para uma leitura de verão.

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Opinião: O Ano da Dançarina, de Carla M. Soares


 
O Ano da Dançarina
de Carla M. Soares
 
Edição/reimpressão: 2017
Páginas:392
Editor: Marcador
  





Sinopse: 
No ano de 1918, o jovem médico tenente Nicolau Lopes Moreira regressa da Frente francesa, ferido e traumatizado, para o seio de uma família burguesa de posses e para um país marcado pelo esforço de guerra, pela eleição de Sidónio Pais e pela pobreza e agitação social e política.

No regresso, Nicolau vê-se confrontado com uma antiga relação com Rosalinda, dançarina e amante de senhores endinheirados, e com as peculiaridades de uma família progressista.

Enquanto a Guerra se precipita para o fim e, em Lisboa, se vive a aflição da epidemia e da difícil situação política, a família experimenta o medo e perda, e Nicolau conhece um amor inesperado enquanto trava as suas próprias batalhas contra a doença e os próprios fantasmas.

O Ano da Dançarina é um romance de grande fôlego, histórico, empolgante e profundo, sobre a superação pessoal e uma saga familiar num tempo de grande mudança e turbulência em Portugal.

Rating: 4,5/5
Comentário: Confesso-vos que nem sei bem como começar esta opinião ao mais recente livro de Carla M. Soares, pelo que optei por ir buscar o comentário que escrevi no goodreads mal terminei uma leitura, desenfreada, que me deixou algumas noites de insónias:
"Apesar de ter gostado de vários livros da autora, este foi de facto o que me encheu as medidas e ao qual me rendi. E nem me refiro já ao estilo de narrativa, sempre cuidado e um pouco lírico, com muito embalo e mestria na composição de uma história. Rendi-me porque tenho um fraco por histórias familiares, porque me apaixonei por todas as personagens cuja comparência me soube sempre a pouco na impossibilidade de as desnudar a todas numa história centrada essencialmente num único irmão, porque Lisboa se viveu e respirou nestas páginas e ainda hoje, tantos meses depois de ler um dos primeiros esboços, vários momentos me ecoam na mente quando passo pelos ditos locais. Preencheu-me e deixou-me um pouco vazia também, já com saudades, e um dos que irei estimar e reler de tempos a tempos. a opinião completa sairá em breve no blogue."
Partindo deste ponto, volto a reafirmar que este foi o livro que me rendeu totalmente à escrita da Carla. Já tinha gostado bastante dos anteriores, mais pelo estilo literário do que pelas histórias, que ainda que bem construídas e delineadas contextualmente, me faziam ficar sempre aquém, devido à centralização em casais que nunca me convenceram por completo e a desejar desvendar outras secundárias, com pouco tempo de antena. 
Em o "Ano da Dançarina", para além de um trocadilho genialmente inserido que só descobrirão a meio, todas as personagens têm a oportunidade de brilhar, sobrepondo as fraquezas de umas pela força narrativa eminente de outras. 
A família Lopes Moreira representa um núcleo filial cheio de  laços de fraternidade e carinho, construção colectiva e muitas ramificações de força e sonhos, que poderemos acompanhar com mais detalhe ao longo de quase 400 páginas. Todos, até os mais novos (mesmo que este apareçam em terceiro plano) demonstram ser personagens construídas com personalidade individual, e conquando o leitor se digne a olhar para um por si só, poderá retirar daqui uma experiência de leitura estupenda. 
Um dos factores que achei mais interessantes foi o início desta narrativa, conseguido quase que a media res, dando-nos conta de uma vida já passada, com repercussões presentes, e todo um historial familiar que daria um livro extraordinário por si só. A vida da mãe e do padrasto no Brasil, a vivência societal das duas realidades do atlântico, a I Guerra Mundial e a vivência dos soldados em França junto às trincheiras, todos conjuntos narrativos cheios de nuances que constituiram um puzzle de retalhos unido com primor e muita destreza construtiva. 
Tenho também a dizer quem embora tenha lido esta história ainda em versão experimental, quase meio ano antes do seu lançamento, vi-me completamente embrenhada na narrativa de tal forma que o li em dois dias, com madrugadas pelo meio, e ainda me deixei tocar mais pela narrativa, agora somente na posição de leitora sem qualquer tipo de responsabilidade. Senti-me surpreendida e tocada pela narrativa, de coração cheio com tantas personagens deliciosas de descobrir e plenamente satisfeita com a experiência. 
Como dizia no início, em "O Ano da Dançarina" reúnem-se todas as condições para assumir uma leitura como uma das minhas preferidas:  para além da continuidade da escrita brilhante, segue-se uma contextualiação histórica acertiva e detalhada (e com muita aprendizagem não impositiva pelo meio), uma coerência descritiva e de acontecimentos sucedâneos e personagens que falam connosco e são partes de nós. 
E por falar em personagens, ainda que a nossa perspectiva se centre em Nicolau, é impossível não validar a presença de várias figuras femininas de presença forte, cada uma à sua maneira, e todas senhoras do seu querer e vontade. É um livro que não as exalta por si só, mas que reforça o valor de sonhar alto e de procurarmos corresponder às nossas expectativas, sem olhar a terceiros e sem inibições externas. Não há falta de fibra a nenhuma delas, e a integridade de actuação de todas, em conjunto com os irmãos, demonstra os valores fortes sobre os quais assentou a educação e evolução desta estepe familiar. 
O único momento que continua a não me render na totalidade passa pelo plano do romance, que embora eu já antevisse e até tivesse ficado contente pelo seu seguimento, me pareceu pouco sustentado. Mas esta análise prende-se mais com o meu pragmatismo pouco romantico que procura construção pela convivência e pelos momentos e que torce quase sempre o nariz a declarações de cariz sentimental, por mais sentidas que estas sejam.
À excepção disso, "O Ano da Dançarina" é uma história apaixonante, completa, capaz de nos agarrar de forma conpulsiva à narrativa e com uma série de detalhes aos quais iremos querer olhar com pormenor. Adorei, fiquei com estas personagens gravadas em mim, e que continuam a recorrer-me à memória de tempos a tempos, tendo entrado na lista dos meus livros preferidos. Parabéns Carla, espero o próximo!
 

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Opinião: Perdida, de Carina Rissi



Perdida
de Carina Rissi
 
Edição/reimpressão: 2016
Páginas: 352
Editor: Topseller
  
Leiam as primeiras páginas aqui. 


Resumo: E se o amor da sua vida apenas existisse no século XIX?
Perdida é uma história divertida, apaixonante e intensa, que vai querer devorar até à última página.
Sofia é uma jovem de 24 anos que vive numa grande cidade e está habituada à sua vida independente e moderna. Divertida, mas solitária, Sofia não acredita no amor, convencida de que os únicos romances da sua vida são aqueles que os livros lhe proporcionam.
Porém, após comprar um telemóvel novo, algo misterioso acontece e Sofia descobre que está perdida no século XIX, sem saber como ou se poderá voltar para sua casa, para o «seu» século. Enquanto tenta encontrar uma solução, é acolhida pela família Clarke, à qual, à medida que os dias passam, se afeiçoa cada vez mais.
Com a ajuda do prestável e lindo Ian Clarke, Sofia embarca numa busca frenética e acaba por encontrar pistas que talvez a ajudem a regressar à sua vida.
O que ela não sabe é que o seu coração tem outros planos, e que a ideia de deixar o século XIX pode vir a tornar-se angustiante?
Aviso aos leitores: Este romance pode afetar gravemente a sua perceção pessimista da realidade. Provoca gargalhadas e a vontade imparável de mais e mais. Os seus personagens são como os filhos: quanto mais disparates fazem, mais gostamos deles. Cuidado com os corações: podem começar a sentir estranhas vontades incontroláveis. - See more at: http://marcador.com.pt/conteudo/309-a-felicidade-e-um-cha-contigo#sthash.g2jMvJ7t.dpuf
Aviso aos leitores: Este romance pode afetar gravemente a sua perceção pessimista da realidade. Provoca gargalhadas e a vontade imparável de mais e mais. Os seus personagens são como os filhos: quanto mais disparates fazem, mais gostamos deles. Cuidado com os corações: podem começar a sentir estranhas vontades incontroláveis. - See more at: http://marcador.com.pt/conteudo/309-a-felicidade-e-um-cha-contigo#sthash.g2jMvJ7t.dpuf

Rating: 3/5

Comentário: Carina Rissi é uma autora brasileira que se estreia agora em Portugal com "Perdida", pela mão da Topseller. Em primeiro lugar, desde o pequeno vídeo de apresentação do livro à pequena nota introdutória que ela dedicou aos leitores portugueses, tenho de ressalvar a simpatia da autora. Não é todos os dias que nos deparamos com estes pequenos gestos de atenção, mesmo que seja para nos convencer a comprar e ler um livro. Já sobre o exemplar em causa, "Perdida" unia todos os factores para me agarrarem à narrativa e não me enganei, o livro acabou por se tornar um agradável "guilty pleasure".
Adoro narrativas que envolvam viagens no tempo e as mesclas temporais entre passado/presente, e por vezes futuro também. Por esse motivo fiquei empolgada com a premissa que a sinopse nos trazia. A construção para o universo alternativo foi apressada, mas os poucos elementos fornecidos nas primeiras páginas tornaram-se suficientes para compreender a realidade de onde provinha uma personagem como Sofia e compreender melhor a sua estrutura, uma vez que a passagem para outro elemento temporal só sairia mais beneficiada quando avaliadas as transformações de realidade, expectativas e necessidades desta personagem, juntando às alternações de época e elementos caracterizadores disponíveis.
Já a transposição para o mundo alternativo foi entusiasmante,embora parca para mim. A História é um dos meus grandes interesses, e como tal precisava de mais alguns elementos temporais, que não proviessem somente da crónica de costumes. Naturalmente não era objectivo do livro narrar exaustivamente elementos da História do Brasil mas umas referências aqui e ali teriam sido bem-vindas. Não digo que não as haja de todo, mas são muito discretas.
Sofia é uma personagem sem papas na língua, cuja caricatura é pojada de humor (especialmente se atendermos como é tida como recatada numa época e extremamente ousada na outra), embora pudesse ter mais um elemento ou outro que tornasse a sua personalidade mais tridimensional (especialmente por serem realizadas referências sobre a sua vida pessoal que poderiam ou ter sido exploradas, ou expostas na sua personalidade). Já Ian Clarke é o cavaleiro galante, típico destes enredos, mas nem por isso menos enternecedor.
Valem também as personagens secundárias que trazem uma narrativa mais multidimensional, com apontamentos de ironia e humor, para além de uma enorme panóplia de costumes sociais que daria para explorar só por si.
"Perdida" é aquele livro ligeiro, divertido, atrevido mas delicioso de ler num final de dia complicado e um bom remédio para o stress. Foi uma leitura bem agradável e bastante boa dentro do género.
Julgo que poderia ter evitado o excesso de cliché da última parte do livro, em que um excesso de dramatismo retirou o prazer ligeiro que o acompanhou até então, mas encaro-o como um mal menor.
Para os e as fãs do género, este é o primeiro livro de uma trilogia, que eventualmente poderá vir a ser publicada na totalidade em Portugal, pelo que podem ficar descansados/as que a narrativa da Sofia e do Ian não termina por aqui. No entanto, não há propriamente uma necessidade de os continuar, porque o final deste livro nos traz um fecho da narrativa contada. Julgo que para mim a história destes dois personagens termina por aqui, mas não percam a oportunidade de os conhecer.

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projecto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Opinião: O Cavalheiro Inglês, de Carla M. Soares

O Cavalheiro Inglês
de Carla M. Soares 

Edição/reimpressão: 2014
Páginas: 400
Editora: Marcador 





Resumo: 
PORTUGAL. 1892. Na sequência do Ultimato inglês e da crise económica na Europa e em Portugal, os governos sucedem-se, os grupos republicanos e anarquistas crescem em número e importância e em Portugal já se vislumbra a decadência da nobreza e o fim da monarquia.

Os ingleses que permanecem em Portugal não são amados.
O visconde Silva Andrade está falido, em resultado de maus investimentos em África e no Brasil, e necessita com urgência de casar a sua filha, para garantir o investimento na sua fábrica.
Uma história empolgante que nos transporta para Portugal na transição do século XIX para o século XX numa descrição recheada de momentos históricos e encadeada com as emoções e a vida de uma família orgulhosamente portuguesa.

NO SEIO DE UMA FAMÍLIA, HÁ CORAÇÕES QUE SE AGITAM ENTRE O CURSO DA HISTÓRIA E O IRRESISTÍVEL PERFUME DOS LIVROS.

Rating: 4/5 

Opinião: Por vezes, entre uma leitura e a opinião, gosto de deixar passar alguns dias de forma a que o livro e a estória possa assentar. "Um Cavalheiro Inglês" foi como uma sobremesa pronta a ser degustada por vários dias, o que não me deixou de todo espantada, ou não estivessemos a falar de um livro de Carla M. Soares.
Conheço a Carla do mundo virtual e já tivemos a oportunidade de nos cruzar na Feira do Livro de Lisboa no ano passado. Da Carla li também o seu romance de estreia - "Alma Rebelde" e fui leitora beta de 2ª fase de um romance ainda não publicado. De todas as vezes, e de acompanhar o que a autora também escreve no seu blog pessoal, sempre tive a certeza que teria prazer em ler este livro. No que diz respeito a construções linguísticas, trejeitos e construções frásicas, a Carla fá-lo de uma forma sempre bonita, fluída, com um certo lirismo português mas com uma óptica moderna. É uma autora que escreve bem, à mão cheia, e que dá gosto de ler, qualquer coisa que escreva. É claro que só esse factor não justifica o apego a um determinado conteúdo, mas já lá vou.
Quando soube do lançamento de "O Cavalheiro Inglês", fui prestar mais atenção à sinopse e deixei-me render assim que vi a capa (tão bonita!). Era um livro que queria muito, e de tanto o desejar, por pouco não acabei com 3 exemplares em casa! Desde já, tenho de agradecer à Marcador, que nos fez chegar um exemplar com dedicatória, o que só torna o livro que aqui tenho ainda mais especial. Posto isto, todos estes factores só adicionaram uma responsabilidade acrescida, porque quer gostasse ou não do conteúdo, e ainda que seguindo o que habitualmente faço em todas as opiniões apresentadas no Encruzilhadas Literárias, senti que teria de ser ainda mais fundamentada ao apresentar os meus pontos de vista.
De todos os livros da Carla, tenho a dizer que este é o meu preferido de todos. Desde adolescente que o romance histórico/ romance de época foi o meu género literário preferido, e aquele em que me sinto mais em casa. Sabê-lo passado em Portugal só adocicou ainda mais a narrativa e deixou-me bastante feliz. De facto, todas as contextualizações e introduções históricas estão bem apresentadas, como pedaços que se vão desvendando a cada afastar do pano. Todos os dados foram inseridos com delicadeza e tacto, recobrando o enredo principal de pormenores mas sem enfastiar o leitor ou tornar pesado um enredo que não estava para sê-lo. A coloquialidade do discurso que tanto estranhei no Alma Rebelde já achei mais trabalhada e até bastante adequada neste volume, especialmente porque soube atribuir um toque de modernidade sem que este se superasse à narrativa principal.
O desenrolar da narrativa é feito com enlevo, várias surpresas num contexto que se julgará expectável, com nuances do séc. XXI e o desvendar de diversos tabus. Fiquei surpreendida em algumas passagens e fez-me querer lê-lo em todos os momentos livres que encontrei. Deixei-me encantar por uma composição que tinha tudo para ser simples, mas com uma série de interdependências que tornaram o enredo inicial um pouco mais complexo do que o esperado, revelando escolhas inteligentes por parte da autora.
As personagens são ricas de pormenores e cativaram-me por serem fortes, mas se calhar não tão imprevíveis como a autora julgou que elas seriam. São também simultaneamente o ponto fraco do livro. Acompanhando alguém que se expressou sobre este livro nos últimos tempos, apesar dessa composição e de personagens por vezes detestáveis, o livro é globalmente interessante e de boa qualidade. Penso também que por vezes o desejo da autora era de que elas fossem de facto aquilo que prometiam mas, e mesmo que o verbalizassem através de vários diálogos, existia uma apresentação real da sua composição interior que de facto não se adequava.
Sofia é a menina mimada que a ama descreve, cheia de boas intenções morais mas pouca prática e desejos vãos de quem cresceu sendo solicitamente correcta mas sem dar uso a uma maior liberdade. É inconsequente, apaixonada, infantil, mandona e muito imatura mas com o coração no lugar. Já Robert é um anti-herói irritante e até a certo ponto detestável, que não olha a meios para obter o que pretende e julga-se acima de consequências nefastas (o que por vezes o equiparou a um certo duque). Todas as personagens secundárias foram úteis pois não serviram apenas de meros espetadores para o enredo principal e atribuiram-lhe outra dinâmica. Ainda assim, o destaque dado a algumas seria merecidamente tratado noutro contexto.
De todas, adorei a Betsy (da qual gostava que tivesse um livro totalmente dedicado a si), que acabou ser a caracterização de mulher que se esperava ver reflectida em Sofia e que acabou por não acontecer.
Todos os dramas mais negros também foram passados algo levianamente, e atendendo a que foram abordados de uma forma algo mais superficial, esperava que o efeito de conclusão ou análise sobre estes fosse mais acerrado.
 Ainda assim, é um livro extremamente bonito, que adorei e pretendo reler, e que denota a evolução da Carla enquanto autora - o que só me faz ansiar pelos próximos livros!
 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

domingo, 11 de maio de 2014

Opinião: A Guerra do Salavisa, de J. F. Matias

                                                 

 A Guerra do Salavisa
de J. F. Matias

Edição/reimpressão: 2014
Páginas: 268
Editora: Marcador 




Resumo: 
Na alvorada do século XX, Joaquim Salavisa é um adolescente valente, boémio, engenhoso e pinga-amor, sem qualquer inclinação para os estudos, e que se desdobra em brincadeiras e partidas por toda a Lisboa. Aos dezanove anos, um incidente rocambolesco, idêntico a tantos outros em que era useiro e vezeiro, corre mal e leva-o à prisão. Filho de boas famílias, o seu pai, para o safar do cárcere, alista-o no Corpo Expedicionário Português com destino à Flandres. Pensando livrá-lo depois através dos bons ofícios de um primo responsável pela mobilização. A mãe, porém, trata de que aconteça precisamente o contrário, na esperança de que a Grande Guerra faça o filho ganhar juízo e o torne um homem.

No epicentro de uma guerra, mas remetido para uma frente estabilizada, calma demais para o seu feitio, trava contacto com um francês e um alemão enquanto se dedica a caçar tordos numa terra de ninguém. À conta da fanfarrice de um deles, desencadeiam uma fuzilaria tremenda entre trincheiras que quase os mata. Refugiados num bosque, tornam-se amigos e entreajudam-se no regresso à segurança das respectivas linhas.

Muitos anos depois, o neto tem a sorte de poder aplicar na boémia e nos prazeres da vida a mesma dose de rebeldia e extroversão do avô. Entre memórias e heranças que o avô deixara para trás, percorre um caminho intricado que o fará erguer uma verdadeira ponte entre gerações.

Rating: 3/5 

Opinião: "A Guerra do Salavisa" leva-nos para um Portugal de época a sofrer transformações reestruturantes da sociedade portuguesa, contextualizando o crescimento espontâneo e estouvado de um menino, no início do livro já rapaz (mas ainda com a cabeça na lua típica dos que não se preocupam porque não têm essa obrigação). O fim da Monarquia, a instauração da I República são os cenários de fundo com os quais convivemos muito brevemente, apenas para contextualizar o desenvolvimento de carácter de Joaquim Salavisa, amado pelo pai que certamente revê no filhos os sonhos cumpridos/ por cumprir de uma juventude desgarrada, e preocupação de uma mãe, que quer educar um fruto da sua linha hereditária para ser um homem, consciente, sensato e pelo menos, com algum nível de decência.
A ida para a Grande Guerra quase passa despercebida, naquela frente de batalha que de batalha não tem nada, e que leva, tal como a sinopse indica, ao levantar de um acontecimento que criará laços de amizade entre Quim, Jean-Paul e Fritz. Esta parte do livro para mim foi a mais deliciosa. A relação entre os três, ainda que bastante breve, mostrou o quanto as barreiras e as composições das ideologias políticas escondem por vezes jovens resgatados para momentos com os quais não se identificam, e que no fundo, não fossem barreiras criadas por terceiros, os seus sonhos e interesses seriam os mesmos. Basta para isso ver a complexa família de Jean-Paul, que tanto atravessa um lado da barreira como se encontra da outra, e que em parte retractou a história de muitos outros na I Guerra Mundial.
Essas passagens são muito rápidas, trazendo Quim para outra nova realidade, onde cruzará caminho com diversas personagens, ocupando lugares distintos na Guerra a decorrer, e que finalmente trarão alguma luz e sensatez a este rapaz que se preocupa consigo e não com os problemas do mundo.
Quando a sinopse descreve a ponte de gerações, esperava que ela de facto tivesse ocorrido, e sinto que poderia ter sido melhor trabalhado. Senti que a passagem de avô para neto não só foi brusca como criou uma narrativa totalmente independente e confesso que me senti um pouco enganada, especialmente porque estava a gostar do desenvolvimento do enredo inicial.
A estória do neto é completamente diferente da levantada ao seu avô. Também boémia e cheia de ajudas, para permitir a existência de bons vivants que só se preocupam com o umbigo e as boas ofertas gastronómicas e culturais de uma vida com regalias, não senti evolução nesta personagem. Paradoxalmente, esta segunda parte apresenta por vezes breves rasgos mais filosóficos que puxam a um lado mais maduro da narrativa, ainda que nem sempre bem conseguidos. Até certa medida gostei de Marcel (seu amigo) e do criaram em sua volta, mas o enfoque acabou por se tornar um pouco forçado e cansativo em algumas partes. É já a última parte, que passa quase que ligeira e despercebida que me fez gostar mais do livro novamente, com a mistura dos vários mundos e a miscelânea de acontecidos resultantes da composição da vida de várias personagens numa única tela, onde o passado e o futuro se misturaram ao ponto de surgirem como uma única época.
O estilo literário do autor salvou este livro quando à criação de empatia com o leitor. Da minha parte, uma personagem corriqueira armada em Dandy que tem tudo o que cai do céu em cinco segundos não seria uma composição de que fosse gostar. Tantas cunhas e boa vida, facilidades que nem repara e sobre as quais não reflecte ou agradece soam-se aos chico-espertos que tudo querem e conseguem. No entanto, o estilo leve de J. F. Matias, solucionado numa mistura de brincadeira e tom irónico a um rectacto-tipo de uma sociedade portuguesa em estilo saudosista (e que infelizmente, em muitos casos correspondeu à realidade), acabam por criar uma ligação com o leitor que ainda que não se reveja nela conhece o seu país, o que inevitavelmente nos aproxima da estória que estamos a ler e, em parte, nos leva a desculpar os Salavisas, toda a sua linhagem, pelos defeitos de carácter que julgamos corrigidos neste narrador que reconta tempos idos.
E falando em Salavisa e para terminar esta opinião, este título surge então como uma analogia um pouco mais vasta aos acontecimentos bélicos decorridos entre 1914 e 1918, passando antes a ser resultado do conflito da emancipação e da entrada na idade adulta, da compreensão do mundo por estes avô e neto, e da consciência da importância de estar vivo e de fazê-lo com dignidade.


Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.