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segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Review: Estoril, by Dejan Tiago-Stankovic


Estoril
by Dejan Tiago-Stankovic

Edition: 2018
Pages: 352
Publisher: Head of Zeus, Apollo






Summary:
Set in a luxurious grand hotel just outside Lisbon, at the height of the Second World War, Estoril is a delightful and poignant novel about exile, divided loyalties, fear and survival. The hotel's guests include spies, fallen kings, refugees from the Balkans, Nazis, American diplomats and stateless Jews. The Portuguese secret police broodingly observe the visitors, terrified that their country's neutrality will be compromised. The novel seamlessly fuses the stories of its invented characters with appearances by historical figures like the ex-King Carol of Romania, the great Polish pianist Jan Paderewski, the British agent Ian Fleming, the Russian chess grandmaster Alexander Alekhine and the French writer and flyer Antoine de St Exupery, who forms a poignant friendship with a young Jewish boy living alone in the hotel.

Rating: 3/5

Review: 
I received an online copy of this book through NetGalley in exchange of a honest review.
Being a portuguese girl, and knowing Estoril quite well, I've found  the synopsis of this book quite curious. It isn't true that foreigners don't write about another countries, especially when considering crucial times at History. And I think it's always interesting to look at our own culture and History when described by outsiders. 
I didn't know the author until I came across his book. And I must confess one of the reasons I wanted to read it was the willing to find out what made this man write about a country that wasn't his, or even closer to his own nation.
Of course everybody knows there isn't any ulterior motives here, every writer wants to tell amazing stories and Estoril by 1940 was certainly one of the places to be or to write about.
Palacio Hotel started to be somehow so important in the plot that gained its own presence as a character. The lives of refugees, hotel' workers and the Hotel's Director were well described and could get any reader to be present there.
I also can tell you a interesting fact. I've started reading the book on the train. There is an excerpt on which the hotel is described, as well as how to get there. When I finished reading that segment, I looked up and my train was passing by Estoril, so I could look at the description as some recited on my mind or as augmented reality.
After some initial presentations and explanations about the context, we quickly started following the life of a man, a double agent, who stole the first role until then occupied by the hotel. While his character was well characterized, and I discovered later on the agent existed on real life, I didn't find him as interesting as the beginning of the book was promising. Even more because we lost a bit the narrative's continuity given until then to the Hotel and its habitants.
So I felt quite disappointed until I discovered the man was real (there are some illustrative photos on the book that show the reader who and how he was).
Even so, I couldn't get over the fact I found the speech related to this character a bit rusty and not quite interesting. What I really liked was the network created around him, that hid his flaws and made him shine. The other stories, real stories (some because they really happened at the time, other's because they were representative of the lives of many refugees from World War II who stayed in Portugal until being able to fly somewhere else, mostly USA), showed the reader what was the life in Cascais/ Lisbon during the World War II and also, how Portuguese government managed all operations that could compromise the country's neutrality. The agent from PVDE wasn't supposed to be funny, but I could get the characterization hints that made him a truly Portuguese, and we must know how to laugh about ourselves, so I've found some excerpts quite humoristic. I'm afraid they will not be so obvious for a non Portuguese reader.
It was also interesting to imagine and learn more about the lives of double agents, their tricks to communicate, the anxious of not knowing if they would be alive the next day and the pending threat in case of the slightest slip that would compromise their mission.
Mainly, I had fun reading this book, specifically recognising it's flaws but embracing them and accepting this as the story of a man, told by another man, and representing the stories of many others that contributed for their countries during the Great War. And the story of an Hotel, a temporary place, a workplace and a home - a refuge for all that ran from their fears and looked for the slightest hint of hope when the darkest time came.





Cláudia
About the author:
 
Addicted to the library Claudia loves to read on the move and we can usualy find her sitting in a train or bus reading while commuting to and from work. But don't be fooled she is also keeping an eye on the landscape and all around her. She is an avid defender of sustainability and volunteering and it's as easy to find her starting a new project as it is to find her chatting with her friends. She is a dreamer and loves good stories so she keeps looking for them in her personal life.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Opinião: A Amante do Governador, José Rodrigues dos Santos



 
A Amante do Governador
José Rodrigues dos Santos
 
Edição/reimpressão: 2019
Páginas: 720
Editor: Gradiva





Sinopse: Depois de atacarem Pearl Harbor e invadirem Hong Kong, os japoneses cercam Macau. Com o inimigo às portas, o novo governador, Artur Teixeira, tem de enfrentar a maior ameaça ao império português durante a Segunda Guerra Mundial. Diante dele está o coronel Sawa, o violento chefe do Kempeitai, que ameaça invadir a colónia portuguesa na China. Para salvar Macau, o governador conta apenas com o seu engenho - e a ajuda de um punhado de homens e mulheres, incluindo a própria concubina do coronel Sawa, a chinesa Lian hua. Tudo se complica, no entanto, quando se apaixona por ela.

Amor e guerra no choque de impérios
A Macau dos juncos e das sampanas, dos casinos e do ópio, do Leal Senado e da Praia Grande, do Fat Siu Lao, do Grémio Militar e do Clube de Macau, do Porto Interior e da Porta do Cerco, dos riquexós, dos contrabandistas chineses e das dançarinas russas, do mahjong e da corrupção, do patois, das canções de Art Carneiro e dos jogos de hóquei na Caixa Escolar.
E dos refugiados, dos bombardeamentos e da fome.
Baseado em acontecimentos verídicos, A Amante do Governador resgata os dias de Macau sob cerco japonês e mostra como Portugal manteve a única bandeira ocidental hasteada no Extremo Oriente durante toda a Segunda Guerra Mundial.
O grande romance português está de volta com a assinatura de José Rodrigues dos Santos, o mestre das nossas letras.

Rating: 3,75/5
Comentário: Quem já nos acompanha há uns tempos, sabe que era impensável que pegasse num livro de José Rodrigues dos Santos para ler. Não por preconceito, mas porque as minhas experiências anteriores de leitura deste autor decretaram claramente que não ia ser um casamento bem sucedido. Sempre achei os seus discursos insípidos e as personagens um pouco ocas, assim como uma construção pouco bem sucedida.
Acontece que a sinopse de "A Amante do Governador" despertou a minha curiosidade. Um dos motivos prendeu-se com o facto de questões profissionais me terem levado a analisar alguns detalhes de Macau, especialmente na época em que se passa o romance. Nesse sentido, o reconhecimento de referências com as quais já me tinha encontrado foi extremamente agradável, especialmente porque pude ver alguns assuntos desenvolvidos.
O ponto forte deste livro é, naturalmente, a investigação histórica e factual que o suporta, e que permite uma construção rica da trama. É essa que sobressai e constituiu foco de maior prazer. A gestão diplomática exercida pelo Governo de Macau durante o período da 2ª  Guerra Mundial, num equilíbrio precário entre neutralidade, necessidade básica, manutenção de soberania e necessidade de satisfazer os japoneses. A necessidade de assegurar alimentação a milhares de pessoas, numa cidade que há muito havia ultrapassado os limites da subsistência e que continuava a receber refugiados provenientes da China e de Hong Kong, demonstrou uma vontade férrea e estratégica por parte do governador Artur Teixeira (que é, de resto, uma personalidade real e responsável pela gestão do governo de Macau nesta altura).
As jogadas de mestre, as tiradas de xadrez e a preparação para qualquer eventualidade, tornaram o livro empolgante e aguçaram a curiosidade (tanto que entretanto já visitei o Museu do Centro Científico e Cultural de Macau) sobre Macau durante este período.
Algumas personagens são necessariamente ficcionadas e pouco desenvolvidas, para minha pena, já que compunham um leque mais diversificado para a trama. Até porque o livro é extenso e embora cumpra o propósito de estabelecer um quadro de época, torna-se exaustivo para figurar ideias já bastante expressas e por vezes repetitivo.
O título é desnecessário e enganador, até porque a amante não ocupa espaço nenhum na trama principal e aparece fugazmente no último segmento do livro, sem qualquer impacto de maior (até porque parece ter sido ali enfiada grosseiramente e com o único propósito de justificar o tema).
Em suma, parabenizo o autor pela investigação exaustiva e pela contextualização massiva de uma parte da nossa História que é mais desconhecida. No entanto, não fico rendida, porque a minha impressão inicial mantém-se: os diálogos são secos, as personagens pouco aprofundadas e as ideias repetidas constantemente. Vale-lhe a parte histórica e a justificação do interesse pessoal. Tão cedo não retorno.



Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Opinião: Uma Estranheza em Mim, de Orhan Pamuk


 
Uma Estranheza em Mim
de 
 
Edição/reimpressão: 2016
Páginas: 640
Editor: Editorial Presença
  



Sinopse: 
O novo romance de Orhan Pamuk combina uma história de amor marcante com um retrato muito pessoal de Istambul e das profundas mudanças aí ocorridas entre 1969 e 2012.

Mevlut viu-a apenas uma vez e foi o suficiente para se apaixonar. Após 3 anos de cartas enviadas em segredo, decidem fugir. A escuridão da noite auxilia a fuga mas a luz de um relâmpago revela um engano terrível que os marcará para sempre.

Chegados a Istambul, Mevlut decide aceitar o seu destino seguindo os passos do pai. Todas as noites vende boza, uma bebida tradicional turca, esperando um dia enriquecer. Durante 4 décadas acompanhamos Mevlut pelas ruas de Istambul, o seu olhar face às alterações que ocorrem e as diferentes pessoas com quem se cruza.

Uma Estranheza em Mim, do autor Prémio Nobel da Literatura, foi candidato ao Man International Book Prize 2016.  Excerto
 
Rating: 3,5/5
Comentário:  "Uma Estranheza em Mim" foi a minha estreia com Orhan Pamuk. Deixei-me inicialmente ser envolvida pelo título, tão peculiar, e depois pela sinopse. Quem nos segue há uns tempos já sabe que é fácil deixar-me seduzir por sagas familiares, especialmente quando passadas em países diferentes dos que habitualmente aparecem retractados.
Pamuk traz-nos a transformação de um mundo visto pelo olhar de homem simples ao longo de três gerações, enquanto que simultaneamente nos arrasta pela transformação estrutural que sofre Istambul - a cidade, mas que também se torna em Istambul - a personagem, ao longo de quatro décadas.
Melut é um rapaz simples, sonhador, mas também muitas inconstâncias, que parte para Istambul com o pai, de forma a dar seguimento ao negócio familiar de venda ambulante de Boza, que lhes permite sustentar a família que se mantém na aldeia natal.
É a partir deste momento que se denotam os contrastes, da vivência de uma aldeia para a cidade, da cidade em si e das suas diversas regiões, dos actores que nela residem e que determinam o seu comportamento e desenvolvimento.
O enredo é transmitido paralelamente na primeira pessoa, mas também como sendo uma crónica, um relato documental do que foi a vida desta família. Todas as personagens que a determinada altura assumem o papel de narrador interpelam directamente quem as lê, rompendo a quarta dimensão. É um elemento original, que contrasta com os romances do género, trazendo-nos a verdadeira essência de uma família: a mesma história, várias versões, atropelos na narrativa, várias versões, segredos e intrigas.
Alguns dos dilemas existenciais destas personagens acompanham-nos desde a primeira à última página, ao longo de todos os anos da sua existência. São instâncias que fazem parte da sua personalidade e definem o ADN que lhes dá voz. Sem estas problemáticas, o que cada uma representa e as suas relações interpessoais não seriam as mesmas. Há os direitos de propriedade de um terreno, há umas cartas direccionadas a uma irmã (que poderia ou não ser a destinatária original), há o futuro dos vendedores de rua, do ser um bom muçulmano e/ou um bom turco, de respeitar a moral e a ordem familiar, do que é estar vivo e ter uma certa estranheza em nós.
Como já tive oportunidade de referir, a cidade de Istambul ganha um destaque bastante relevante, ao ponto de por vezes não se entender bem se lemos uma história que se passa pela cidade ou se vemos a história da cidade a ser representada pelos que vivem nela. As alterações dos bairros, os movimentos sociais que as impulsionaram, a ida e vinda de grupos minoritários à medida que as relações diplomáticas do país se vão alterando, a diminuição do espaço de vivência da rua como era, a proliferação exótica dos vendedores de boza tradicionais, são todas marcas da mesma moeda, que realçam o fervilhar que conduz esta narrativa.
Foi uma história em que gostei de emergir e descobrir aos poucos, já que o facto de não se evidenciar realmente uma parte dos elementos neste cenário complexo e diversificado, por vezes dificultou a criar uma conexão mais próxima durante a leitura.
Ainda assim, foi uma estreia brilhante com este autor, e já tenho mais uns três na calha para dar continuidade a esta exploração de Istambul perante o olhar acutilante e a consciência moral de Orhan Pamuk.



                                          Foto: Editorial Presença



 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

domingo, 3 de setembro de 2017

Opinião: Corações de Pedra, de Simon Scarrow



Corações de Pedra
de 
 
Edição/reimpressão: 2017
Páginas: 417
Editor: Edições Saída de Emergência
  





Sinopse: 
1938: Três jovens vivem um verão perfeito na ilha grega de Lefkas, isolados dos problemas políticos que fervilham na Europa. Peter, de visita da Alemanha enquanto o pai lidera uma expedição arqueológica, desenvolveu uma forte amizade com Andreas e Eleni.
À medida que o mundo resvala para a tragédia e Peter é forçado a partir, os amigos juram encontrar-se de novo. 1943: Andreas e Eleni juntaram-se às forças da resistência contra a invasão alemã. Peter regressa - agora um oficial inimigo e espião perigoso. Uma amizade formada em paz irá transformar-se numa batalha desesperada entre inimigos dispostos a sacrificar tudo pelos países que amam…
 

Rating: 2/5
Comentário: Ninguém gosta de escrever opiniões sobre livros que não gostou tanto. Eu não sou diferente e por isso demorei alguns dias a trazer a opinião a "Corações de Pedra", de Simon Scarrow. Não que o livro seja mau, mas ia com expectativas completamente diferentes, especialmente insinuadas pela sinopse, e que foram completamente defraudadas.
No que respeita à trama, efectivamente temos um enquadramento e contexto histórico centrado na II Guerra Mundial, num país ocupado pelos países do Eixo. Gosto sempre destas análises de realidade ficcionadas à luz da História, e que demonstrem outros lados deste conflito bélico a nível mundial. A perspectiva da ocupação da Grécia foi bastante interessante, especialmente quando enquadrada com o contexto político local da altura, dando uma luz a um momento histórico para além da visão mais generalista.
Gostei também da abordagem do processo inicial de resistência por parte do exército grego, assim como das descrições a bordo de um submarino de guerra, que criaram momentos de acção bélicos cativantes para a atenção do leitor. Acho que existe todo um imaginário associado a lugares menos alcançáveis, nos quais se encaixaria um submarino. Acaba por ser uma visita guiada, ilustrada por momentos de actuação ao minuto.
O problema é que este plano narrativo estende-se para além do agradável e acabamos com uma série de momentos quotidianos de vida militar, seja ela resultante do pleno exercício do exército ou das forças de resistência no exterior. Tanta análise das forças militares poderia ser interessante, não fosse o facto de não ser essa a temática do livro, pelo menos em teoria.
É precisamente esse o meu problema com este livro. Há uma série de planos de acção que são referidos e inseridos na construção do livro mas que depois se perdem no panorama geral. Começamos com saltos temporais que não beneficiam em nada o enredo principal, e que poderia ter brilhado muito mais com a retirada desse plano mais moderno, que foi uma alavanca para a narração da história da História, mas que poderia ter sido conduzida tem a utilizar.
Seguidamente, a inserção de um suposto mistério que surge como insinuação nas primeiras páginas e só retorna muito posteriormente, só causa também, na minha opinião, ruído para a mente do leitor. Até porque ele não é senão um pretexto para facilitar a resolução de uma parte da trama mesmo nas últimas páginas.
Por outro lado, dou a mão à palmatória com a abordagem dos processos de resistência das populações locais, embora esta se baseasse somente numa forma de fundamentar o concretizar de alguns momentos para a narrativa principal, em vez de efectivamente valorizar as personagens apresentadas como pano de fundo.
Por fim, fiquei desiludida com a ligeireza com que foi tratada a dita amizade das três personagens, especialmente atendendo ao conflito de se nutrir sentimentos de amizade e confiança por alguém que num período temporal diferente se encontraria do outro lado da barricada. Esperava momentos de constrição e dúvida, de tentativa de racionalização de parte a parte para facilitar a compreensão do que ao seu olhar seria incompreensível. Isto deve-se ao ter achado desde o início que as relações interpessoais fossem bastante trabalhadas e este fosse um livro sobre pessoas e as suas histórias, e acabei por receber um livro de momentos de acção encadeados e com saltos geográficos algo constantes.
No fundo, a sensação premente que tive ao longo da narrativa - e que não faço ideia se será verídica ou não - foi que o autor tinha um final definido em mente e queria lá chegar, não sabendo algumas vezes como conduzir o processo e perdendo-se a meio. Mas também talvez se deva a ter tido as minhas expectativas defraudadas e ao não me ter conseguido adaptar à narrativa.
Ainda assim, se quiserem um livro com conteúdo militar (mas não exageradamente), forças de resistência, forças invasoras, histórias de passados distantes, pessoas interligadas por laços de afecto e antepassados, então dêem-lhe uma hipótese e contem-me depois qual a vossa reacção ao mesmo. Acredito que ainda poderão eventualmente sair-se surpreendidos, desde que não leiam a sinopse de todo para não vos estragar a experiência de leitura, como a mim.


 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

sábado, 1 de abril de 2017

Opinião: Os Filhos do Vento e do Mar, de Sandra Carvalho (Editorial Presença)


 

Filhos do Vento e do Mar
de Sandra Carvalho
 
Edição/reimpressão: 2017
Páginas: 328
Editor: Editorial Presença 
  





Resumo:
Forçadas a fugir de Águas Santas para escapar à fúria de Tomás Rebelo, Leonor e Guida chegam ao porto de Lisboa e confrontam-se com Corvo, o famoso pirata sobre o qual se contam tantas lendas. Horrorizada com a descoberta de que é filha de Diogo, o Açor, Leonor decide disfarçar-se de rapaz quando Corvo a obriga a embarcar no seu navio, protegendo-se assim dos impulsos masculinos. Inconformada com o seu destino, Leonor resolve fazer tudo para escapar aos piratas. Porém, com o passar do tempo, sente a herança do Açor a despertar dentro dela. O segredo que ensombra o passado de Corvo começa a inflamar a sua curiosidade, enquanto estabelece amizade com os homens que tanto temia. Conseguirá ela regressar a Águas Santas e desmascarar a perversidade de Tomás Rebelo, ou o apelo da liberdade e da aventura, conjugado com a vontade de conhecer o seu verdadeiro pai, tornar-se-á irresistível?

Rating: 4/5
Comentário: "Com os Filhos do Vento e do Mar", Sandra Carvalho chegou ao cerne da temática já enunciada para a trilogia sobre a descoberta dos Açores.
Foi um prazer retornar ao universo de Leonor e Guida, especialmente depois de as ter deixado há dois anos num momento crucial de mudança nas vidas das suas jovens. "O Olhar do Açor", o primeiro volume desta saga, foi uma leitura de descoberta (sendo o primeiro livro que da autora em causa) de um novo universo, e tenho para mim que, apesar de ser uma leitura da qual gostei bastante (podem ler a minha opinião aqui), constituiu um esforço de longo alcance, quase que à semelhança de uma prequela, para chegar ao início de "Filhos do Vento e do Mar". Proventura a autora já terá iniciado a redacção da série com uma narrativa em mente, que justifica  o processo narrativo até agora, mas talvez por causa do chamariz da sua promoção (a descoberta dos Açores) assim como uma capa que apelava desde início a mar e a aventura, lembro-me que passei a narrativa anterior a ansiar pelos "barcos". E é precisamente nesse ponto que a autora nos deixou no final do volume passado: numa chegada atribulada ao porto de Lisboa.
Para quem não leu ou já não tem muito presente a história do primeiro volume, não é fácil captaro rumo narrativo, embora possa se possa sentir alguma falta de sustento na compreensão das sequências motivacionais das personagens. Diria, no entanto, que sendo quase que paralela perante a trama inicial, com uma panóplia que personagens novas que preenchem as páginas e as emoções desta continuedade narrativa, não será o impedimento se quiserem saltar o primeiro livro (embora não o aconselhe) directamente para este.
A realidade aristocrática de "O Olhar do Açor" é substituída pelo pragmatismo e pela venturança de "Filhos do Vento e do Mar", onde as duas jovens que incutem o rumo ao enredo se vêem perante novos desafios e necessidades, que as obriga a repensar os seus valores, certezas e meios de sobrevivência. Naturalmente, e tratando-se de um enredo que se quer inserido num tempo histórico, os posicionamentos das personagens estão adaptados à época e pretendem dar voz a considerações consonantes. Como tal, nem sempre é fácil associar-nos à Leonor e gostar dela enquanto personagem, mas tal como as restantes com quem ela interage, existe um prazer em vê-la desabrochar e tornar-se mais real e menos caricatura. É ainda curioso que a realção entre ela e Guida seja repleta de dualidades e subterfúgios, onde a oscilação entre uma e outra contrabalança a postura do par perante o resto do Mundo, mesmo quando estão mais afastadas.
Quando ao novo leque de personagens, Corvo e a sua tripulação criam um conjunto vivo da vida em alto mar, cheio de prestações acutilantes, rápidas e de acção de continuidade, mas também descobertas, aventura, pujança e muita camaradagem de alto mar. O contraste de realidades assim como a constantação de que as necessidades sentidas poderão não ser colmatadas junto dos contextos que lhes são familiares trazem um confronto entre o passado e o presente, as atracções superficiais são substituídas por anseios mais profundos e o encadeamento da acção deixa tudo em aberto para o desfecho do terceiro livro, que se espera que chegue em breve!
A dinâmica do fantástico continua presente, mas desta vez não tão preponderante, e confesso que me atraiu mais esta dinâmica, aliando-se dons sobrenaturais às personagens e não brilhando na sua vez. 
Por fim, não posso deixar de mostrar entusiasmo por finalmente começarmos a desvendar o véu que cobre a vida de Açor, e começar a escortinar quem é o homem de quem todos falam mas com o qual ainda convivemos pouco.
Esperam-se mais aventuras para o próximo volume, sobre o qual estou bastante expectante, e ainda que várias pistas tenham já desvendado alguns dos acontecimentos que de certeza irão suceder-se, faltam ainda uma série de nós para unir toda a trama. Será que finalmente chegamos aos Açores? Espero que sim! Há um certo encontro familiar que vai agitar as águas marítimas por aqueles lados!
Em jeito de curiosidade, e depois de recordar o nome da trilogia, "Crónicas de Terra e Mar", cheguei à conclusão de que o primeiro volume se focou em Terra, o segundo no Mar, e que o terceiro será provavelmente uma mescla de ambos. E com esta conclusão termino esta opinião, em jeito de piscadela de olho.

Livro cedido pela Editorial Presença em troca de uma opinião honesta sobre a experiência de leitura. A editora não se responsabiliza nem detém qualquer influência no conteúdo apresentado na opinião.

«Estas e outras novidades no site da Editorial Presença aqui»
 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Opinião: A Coroa de Inverno, de Elizabeth Chadwick



A Coroa de InvernoElizabeth Chadwick    
 
Edição/reimpressão: 2016
Páginas 464
Editor: Topseller
  






Sinopse: 
Uma das mulheres mais poderosas da História. No ano de 1154, em Inglaterra, Leonor volta a assumir o papel de rainha, ao lado do seu novo e jovem marido Henrique II. Detentor de uma ganância imensa e sede de poder, o rei passa grande parte do tempo em viagem, a afastar rebeliões e a impor a sua vontade pelos territórios que ambiciona conquistar. A Leonor cabe a tarefa de conciliadora de Estado e de tutora da sua crescente prole de herdeiros. Mas Henrique nega-lhe a sua autoridade legítima ao afastá-la das decisões políticas e, simultaneamente, ao expor a sua amante, assim fomentando intrigas cortesãs. Os anos de reinado e matrimónio são tecidos de sentimentos cada vez mais ousados e ambíguos, ora de discórdia ora de tréguas, numa era sombria dominada pelos homens. Mas Leonor, mulher de força inabalável, ultrapassa os mais diversos e dolorosos ardis e não desiste de reclamar para si a excelência e o reconhecimento que merece.

Primeiras páginas aqui.

Rating: 4/5
Comentário: Sempre fui uma apaixonada por história, e cada vez mais me tem despertado a curiosidade pela História da Europa para além daquela que abordámos nas aulas durante o ensino regular. Leonor de Aquitânia foi uma das mais distintas rainhas da Europa e passa despercebida para a maioria dos portugueses. Com uma trilogia que conta com "A Coroa de Inverno" como segundo volume, Elizabeth Chadwick pretende dar-nos a descobrir a vida desta personalidade europeia, e desvendar o poder feminino em pleno séc. XII.
Não é todos os dias que se reinam dois países, mas Leonor de Aquitânia conseguiu-o, primeiro de França (abrangendo o primeiro livro da trilogia) e depois de Inglaterra, como mulher de Henrique II. É também conhecida como a mulher-chave que originou a dinastia Plantageneta, da qual tanto falamos quando abordamos a Guerra das Rosas.
Ao longo de quase 500 páginas, a autora faz valer a fibra de Leonor, mas também as fragilidades e inseguranças de qualquer ser humano na sua posição. Inteligente, acutilante e capaz de se antecipar aos acontecimentos, Leonor é retratada como uma mulher que não se verga, nem a um marido fraco pela carne e, talvez, com ambição desmedida. Talvez como já vem sendo hábito para muitas, e dividida entre a lealdade conjugal e a protecção da sua prole, esta rainha poderá ser vista pelos leitores muitas vezes em situações confrontais que colocariam o melhor mestre de xadrez numa situação complicada.
Não querendo revelar mais do enredo do que já fiz, gostava de confirmar que o discurso é fluído, com uma escrita que agarra os leitores e e cria, nos momentos certos, acção intrincada com mestria e angústia, sempre numa abordagem ficcional o mais aproximada possível à realidade. Para quem gosta de História e ainda não conhece esta mulher de mão cheia, não percam a oportunidade de a descobrir a fundo. Se tiver tanto sucesso de vendas como o volume anterior, suspeito que o próximo volume não demore muito a sair!

Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Opinião: Uma Mulher Respeitável, de Célia Correia Loureiro


Uma Mulher Respeitável,  
de Célia Correia Loureiro

Edição/reimpressão: 2016
Páginas: 320
Editor: Marcador






Resumo: No Portugal das guerras liberais e na irlanda ferida pela cólera, duas mulheres lutam para cumprir os seus sonhos e vingar as suas ofensas.

1831. Pouco depois de se casar, a sorte do conde de Cerveira sofre um revés. Uma série de infortúnios deixam-no à beira da ruína financeira, e não demora muito para que comece a desconfiar dos intentos da estranha de beleza intrigante que desposou. Perante a dúvida, decide enviar Leonor Sanches para um exílio temporário junto do tio, que ensina na prestigiada Trinity College, em Dublim. Conforme a epidemia de cólera vai ceifando as vidas de cristãos e anglicanos na Irlanda, também o coração de Leonor Sanches se oferece à tragédia.

1857. Cinquenta anos depois de perder o seu bem mais precioso para as tropas de Napoleão, Mariana Turner sente que está a um passo de descobrir toda a verdade sobre os acontecimentos de Março de 1809. Novas revelações apontam para que a condessa de Cerveira, encarcerada no Porto, seja a chave para resolver o mistério. Munida de uma determinação inabalável, tudo fará para conseguir deslindar o passado de Leonor Sanches - fidalga e anjo caído.

Uma Mulher Respeitável é o novo romance histórico da autora de A Filha do Barão.
 
Rating: 3,75/5

Comentário: Tenho acompanhado o percurso literário da Célia Loureiro há já algum tempo, embora "Uma Mulher Respeitável" tenha sido a minha estreia com a autora. Este livro segue a história originalmente trazida para os leitores em "A Filha do Barão", o que decerto pode tornar a leitura deste segundo volume mais rica, embora não impeça que seja lido como romance independente.
Conhecer os autores de um livro de antemão pode ser um desafio acrescido, mais não seja porque temos algumas expectativas sobre eles e porque há sempre elementos das suas personalidades que se derramam pelos trabalhos desenvolvidos (nem que seja pelo cuidado e pelo tratamento narrativo), pelo que criamos expectativas à luz da imagem que temos das pessoas (mesmo que possa ser um exercício incoerente e incorrecto).
Para mim, a Célia é uma mulher de alma antiga num corpo jovem, que se coaduna com uma narrativa que nos traz uma certa melancolia transfigurada em construções agridoce, mas ricas em pormenores, pensamentos, ilustrações de um quadro de época e de uma enorme humanidade.
Ainda assim, e talvez por já ter lido excertos de outras obras suas, ou mesmo desta (mediante frases que a autora ia partilhando aqui e ali online), faltou-me um certo arrebatamento mais premente que me fizesse sentir parte de uma narrativa dilacerante. Porque o enredo não deixa de o ser, de facto.
Escrito sobre forma de um mosaico temporal, em constantes analepses e saltos temporais, há uma manta de retalhos reconstruída passo a passo para decifrar um mistério, sob a forma de uma figura feminina, com várias facetas e momentos de descoberta.
A interação de todas as personagens, com discursos tidos como aproximados à época, transportam o leitor para o séc. XIX num ápice, numa pequena imensidão de momentos e histórias pessoais. No entanto, esta personagem principal, esta mulher respeitável, nunca deixa de brilhar em cada página, levando-nos a querer descobri-la um pouco mais.
Confesso que apesar de tudo, as revelações não me foram uma surpresa (com a excepção da última, de facto completamente inesperada), pelo que não consigo discernir se porque a construção do enredo o facilitou para o leitor porque não estar bem desenvolvido, se por acção propositada da autora para causar um maior choque com o final.
Há um certo deslumbramento definido pela crónica de costumes, pelas interacções de duas realidades culturais trazidas por Portugal e pela Irlanda, pelos segredos e mistérios de personagens secundárias, e pelas referências históricas que situam as acções num tempo e espaço real que contribuem para uma leitura bastante agradável e algo compulsiva.
Faltou-lhe talvez um momento final mais premente, ainda que exista outro livro que se deverá seguir a esta narrativa, uma vez que a dimensão do passado acaba por ficar bem resolvida e encerrada, esfumaçando a presente para um nível inferior.
Ainda assim, "Uma Mulher Respeitável" tem a vantagem de ser um livro bastante comercial, capaz de agradar a leitores de romance feminino e de ficção histórica, mas também de romances contemporâneos, pois a maior evidência, e o que realmente se destaca neste livro, são as reacções e as relações humanas, entre pares, e todos os sentimentos e consequências que cada uma delas acarreta. Terei de inverter o processo e procurar "A Filha do Barão" em breve! ;)
                                          

Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Opinião: O Rouxinol, de Kristin Hannah

 
O Rouxinol, de Kristin Hannah

Edição/reimpressão: 2016
Páginas: 504
Editor: Bertrand Editora







Resumo: Na tranquila vila de Carriveau, Vianne despede-se do marido, Antoine, que parte para a frente da batalha. Ela não acredita que os nazis vão invadir a França… mas é isso mesmo que fazem, em batalhões de soldados em marcha, em caravanas de camiões e tanques, em aviões que enchem os céus e largam as suas bombas por cima dos inocentes. Quando um capitão alemão reclama a casa de Vianne, ela e a filha passam a ter de viver com o inimigo, sob risco de virem a perder tudo o que têm. Sem comida, dinheiro ou esperança, e à medida que a escalada de perigo as cerca cada vez mais, é obrigada a tomar decisões impossíveis, uma atrás da outra, de forma a manter a família viva. Isabelle, a irmã de Vianne, é uma rebelde de dezoito anos, que procura um objetivo de vida com toda a paixão e ousadia da juventude.

Enquanto milhares de parisienses marcham para os horrores desconhecidos da guerra, ela conhece Gäetan, um partisan convicto de que a França é capaz de derrotar os nazis a partir do interior. Isabelle apaixona-se como só acontece aos jovens… perdidamente. Mas quando ele a trai, ela junta-se à Resistência e nunca olha para trás, arriscando vezes sem conta a própria vida para salvar a dos outros. Com coragem, graça e uma grande humanidade, a autora best-seller Kristin Hannah capta na perfeição o panorama épico da Segunda Guerra Mundial e faz incidir o seu foco numa parte íntima da história que raramente é vista: a guerra das mulheres.

O Rouxinol narra a história de duas irmãs separadas pelos anos e pela experiência, pelos ideais, pela paixão e pelas circunstâncias, cada uma seguindo o seu próprio caminho arriscado em busca da sobrevivência, do amor e da liberdade numa França ocupada pelos alemães e arrasada pela guerra. Um romance muito belo e comovente que celebra a resistência do espírito humano e em particular no feminino. Um romance de uma vida, para todos.

Rating: 5/5

Comentário: Foram precisos alguns dias para conseguir consertar e discernir uma opinião coerente e que expressasse correctamente o quanto este livro me tocou. Atrevo-me a dizer que é dos melhores, senão o melhor que li nos últimos dois anos, composto por uma narrativa extremamente bonita e melódica, mas não menos crua ou despejada de potência. "O Rouxinol" pode ser uma versão fantasiada pela imaginação, sustentando-se em factos históricos e elementos e datas precisas para construir uma narrativa. Mas é também um murro no estômago, uma lembrança constante que por mais que exploremos, por mais que nos informemos e procuremos nunca esquecer o período tão negro, obscuro, dilacerante a que correspondeu a II Guerra Mundial, ele existiu e tem de ser falado e explorado até mais não, para que não se repita, para que não possamos fechar os olhos às evidências do passado e para nunca mais negar que o ser humano tanto pode ser belo e generoso como cruel, monstruoso, e paradoxalmente inumano. Este livro foi uma memória constante sobre o que sabemos e o que ainda desconhecemos - e que provavelmente nunca chegaremos a saber - sobre este período: resultante da vergonha e de memórias escondidas, do ressentimento, da necessidade das testemunhas de primeira mão esquecerem muito do que vivenciaram e que vai bem além do Holocausto e da perseguição aos judeus. Neste livro de Kristin Hannah, é a visão de um país ocupado que nos inunda a mente ao longo de 500 páginas, mostrando-nos o que foi viver sob o jugo nazi, denunciar a derrota, e ainda ter de lidar com os simpatizantes do regime, que se mostraram anti-patriotas e pouco defensores do seu país, muitas vezes entusiastas das oportunidades perfeitas a agarrar, ou simplesmente com o sofrimento e a degradação alheia.
A componente temporal  dá-nos uma perspectiva vasta e complementar sobre o período de ocupação em França, desde a descida das tropas alemãs pelo país, até o momento final de libertação. No centro desse período, são registadas as transformações sociais, físicas, psicológicas e de morais sofridas pela população ocupada, que vê em cada cruz suástica um inimigo (ou uma oportunidade), camuflado numa massa de colunas humanas que vão devastando com a sua presença cada canto de França.
Kristin Hannah traz-nos duas personagens femininas fortes, mesmo nas suas inseguranças e fragilidades, e procura, pelo olhar de cada uma, trazer-nos as várias facetas deste país ocupado. Desde as senhas de racionamento, ao movimento de Resistência, às rotas de evacuação de pilotos perdidos, à ocupação forçada das propriedades francesas, deixando mulheres e crianças a lidar à sua maneira com um inimigo confrontado nas frentes pelos maridos, irmãos e filhos há muito deslocados para fora do país (e posteriormente presos em campos de concentração), este é um registo completo, que nos conta uma história vasta da devassidão que uma guerra pode trazer. É complementar, tem várias personagens fortes, complexas, singulares, que atribuem uma voz múltipla e testemunhos diversos a um livro único.
Não quero desvendar o enredo, nem a direcção que toma a narrativa, mas só posso dizer-vos que surpreende, agarra e arranca páginas umas atrás das outras para se colarem à vossa retina e reterem-se na vossa mente. Um livro a juntar à lista dos preferidos certamente!

Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Opinião: Jonathan Strange & o Sr. Norrell, de Susanna Clarke



Jonathan Strange & o Sr. Norrell
de  Susanna Clarke
 
Edição/reimpressão: 2015
Páginas: 736
Editor: Casa das Letras
  




Sinopse: 
Há séculos, quando a magia habitava Inglaterra, houve um mago que se distinguiu entre todos os outros. Chamou-se Rei Corvo, foi criado por fadas e, como nenhum outro, soube conjugar a sabedoria desses seres com a razão humana. Só que tudo se alterará a partir do momento em que um rei louco e alguns poetas mais arrojados fazem com que a Inglaterra deixe de acreditar na magia. O que acontecerá até meados do século xix, quando o solitário Senhor Norrell, de Hurtfew Abbey, que faz andar e falar as estátuas de catedral de York, acredita que poderá ajudar o governo de Sua Majestade na guerra contra Napoleão.
Já em Londres, Norrell encontrará Jonathan Strange, um jovem, rico e brilhante (mas também arrogante), que descobre por acaso que é um mago, tornando-se seu discípulo. Os feitos de ambos haverão de maravilhar a velha Inglaterra. Até ao momento, no entanto, em que a parceria, que parecia destinada ao sucesso, virará rivalidade. É que, fascinado pela figura sombria do Rei Corvo e atraído pela sua «insensata busca» por magias há muito esquecidas, Jonathan haverá de pôr em causa tudo o que Norrell mais estimava.
Jonathan Strange e o Sr. Norrell é, pois, um romance «elegante, mordaz e absolutamente arrebatador», envolvido em grande mistério e beleza, e que agarra o leitor até à última página.

Rating: 3,5/5
Comentário: Susanna Clarke levou anos até finalizar "Jonathan Strange & Mr Norrell. O que se compreende pelo tamanho e complexidade de história que ela construiu. Talvez por isso também tenha dado por mim a terminá-lo somente ao fim de alguns meses.
Ao finalizar este livro consegui perceber porque é já considerado um dos clássicos da literatura moderna. A autora não nos traz uma história mas um completo universo, com variantes paralelas, numa mescla constante entre o realismo mágico, o mundo espiritual e o fantasmagórico, sempre associado a alegorias, morais, valores, segredos e intrincadas diplomacias do que é viver num Reino Unido conservador, mas com acesso a um mundo mágico premente, em desuso e pouco explorado.  Nem o Mr Norrell nem Jomathan Strange (ou para ser honesta, qualquer uma das personagens) são gostáveis, mas a ligação entre entre ambos é o motor de ignição para uma trama minuciosa e, porque não dizer, algo vertiginosa.
A acção decorre também numa dimensão histórica, com elementos da História da Europa e do Mundo que constam em qualquer manual escolar, e por esse motivo, e pela forma como está escrito, denuncia uma realidade que não é a nossa mas que o parece.
Mais para mais, esta é uma das particularidades mais interessantes do romance, já que aliando a esse facto, a autora escreve o livro como se tratasse de uma crónica documental da vida destas personagens, apelando a uma veracidade que não existe mas que não nos convence.
É aliás, a existência de várias notas de rodapé (que por vezes ocupam metade das páginas, se prolonga para as seguintes, e contam notas paralelas), que ajudam a intrincar a teia que compõe este romance.
Quando aos elementos mágicos, eles têm algo de sinistro e macabro, assim como ameaçador. Esperaria que o Rei da Magia fosse um tipo diferente de vilão (se é que ele se enquadra bem no seu papel), mas a sua personagem ajuda a compor este mundo de brumas e incerteza, sendo também a ponte para se criarem as metáforas necessárias para chamar a atenção dos comuns mortais que, tudo o que advenha com facilidade traz custos (alguns elevados) que têm de ser bem medidos antes de qualquer tomada de decisão e iniciativa.
É uma leitura densa, as personagens não são simples, mas vale a pena o investimento.
As descrições são bastante reais, os detalhes explorados com vigor e a relação de cada peça do puzzle montada com a subtileza necessária para criar vários enlaces e nos demonstrar como seria o nosso mundo se nele existisse a magia do Sr. Norrell e do Jonathan Strange.



 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Opinião: Confissões de Catarina de Médicis, de G.W. Gortner


Confissões de Catarina de Médicis
de G.W. Gortner

Edição/reimpressão: 2015
Páginas: 400
Editor: Topseller





Resumo:  
Pela voz da própria Catarina de Médicis, C. W. Gortner relata-nos a extraordinária viagem de uma das mais amaldiçoadas, incompreendidas, mas também mais poderosas e controversas mulheres da História. Para uns ela foi uma rainha impiedosa que conduziu França através de uma era de violência sangrenta. Para outros foi uma salvadora apaixonada da monarquia francesa.
Última descendente legítima da ilustre linhagem dos Médicis, foi prometida ainda adolescente a Henrique, filho de Francisco I de França, e enviada de Itália para um reino desconhecido, onde foi ofuscada e humilhada pela poderosa amante do marido, Diana de Poitiers. Perseverante, Catarina lutou por criar o seu papel no reino que lhe pertencia por direito, com uma força e determinação inatas que a transformavam numa mulher notável. Além de uma forte personalidade, Catarina possuía ainda, segundo testemunhos, visões premonitórias, as quais, aliadas à orientação do clarividente Nostradamus, a ajudaram a traçar as linhas do seu destino e da sua família. Mas no seu 40.º aniversário, Catarina enviúva e é deixada sozinha, com seis filhos jovens, como regente de um reino dilacerado pela discórdia religiosa entre católicos e huguenotes e as ambições desmedidas de uma família traiçoeira de nobres, os Guise.
Confiando apenas na sua tenacidade, Catarina toma o poder para garantir o trono dos filhos. Mas para salvar França, ela terá de sacrificar os seus ideais, a sua reputação e os segredos mais profundos de um coração agrilhoado.
«Os fãs de Philippa Gregory vão devorar este livro.» - Booklist

Primeiras páginas aqui.
  
Rating: 4/5
Comentário: Catarina de Médicis é uma personalidade histórica que sempre me despertou curiosidade. Primeiro, pelo nome e impacto tão conhecido que a sua herança familiar causou um pouco por toda a Europa. Depois, pela diversas personificações em séries e filmes, que certamente lhe atribuiram uma humanização negada nos preâmbulos da História, mas ainda assim nem sempre muito verídica ou com verosimilhança suficiente para ser encarado como um quadro real e um desfecho digno para esta rainha francesa de origem italiana. 
Foi portanto com curiosidade que peguei no livro "Confissões de Catarina de Médicis", ainda que também com alguma relutância (por já me ter sentido defraudada com livros do género no passado...). 
Confesso que não fiquei nada desiludida! G. W. Gortner tem um estilo criterioso de introdução de elementos históricos e factuais, entrelaçando-os com suspiros ficcionais mas de extrema qualidade, não descurando um universo e outro numa ligeireza que revela práctica e enlevo. De facto, achei que fosse estranhar e até desgostar a apresentação do enredo através da primeira pessoa, num género de livro de memórias. No entanto, a voz de Catarina de Médicis é forte e o elemento principal, centrando em si o romance de tal forma que o leitor se abstém desse pormenor. Sem excesso de emoções, sem encenações recambolescas e com um enorme equilíbrio entre personagens e cenários, este é um livro incrivelmente bem escrito. 
A descrição de Catarina de Médicis foi ainda conseguida ao nível de abordagem, uma vez que visualizamos as suas várias facetas ao longo dos anos, desde a menina insegura à mulher destemida e batalhadora, mas também complexa e cheia de nuances como se espera a qualquer ser humano. Nesse sentido, subentende-se em diversos momentos o porquê de toda a fama que esta personalidade recolheu, assim como o motivo pelo qual ela foi adquirindo várias facetas junto da sociedade e o mundo que a recebeu à época, Porque no fundo, Catarina de Médicis é tudo o que dizem dela, mas também o que não dizem, é-o no todo e parcialmente, e a sua rede intercalada de contactos, tramas, aventuras, perdas e desesperos, filhos amados e traidores, amantes, inimigos e confidentes é enorme, repleta de momentos de descoberta, que cobrem uma recontagem esplêndida da estória e da história de uma mulher grande da História europeia.
Acho que passei a admirá-la e ao seu percurso, e pretendo ler outra informação de não-ficção sobre esta personalidade. 
G.W.Gortner sem dúvida surpreendeu-me com o seu rigor histórico e literário, e é um autor a acompanhar futuramente!





Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projecto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Opinião: Uma Fortuna Perigosa, de Ken Follett


Uma Fortuna Perigosa
de Ken Follett
 
Edição/reimpressão: 2015 
Páginas: 568 
Editor: Editorial Presença 
  





Resumo:
Inglaterra, 1866. O verão anuncia-se quente e, numa tarde de maio, um jovem morre afogado numa pedreira inundada de água. O incidente ocorre em Windfield School, uma escola frequentada por rapazes oriundos de classes abastadas, permanece encoberto em mistério conduzindo a uma trágica saga de amor, poder e vingança que envolve sucessivas gerações de uma família de banqueiros.

A história decorre entre a riqueza e a decadência de uma Inglaterra vitoriana, entre a City londrina e colónias distantes. O leitor acompanha a família Pilaster durante o período áureo do império britânico. Ken Follett inspirou-se num caso real de bancarrota ocorrido no século XIX para escrever este romance extraordinário.
Críticas de imprensa
«Um livro fascinante que prende o leitor da primeira à última página... pleno de emoção… grande rigor histórico... suspense permanente.»
Los Angeles Times

«Intrigas políticas e amorosas, assassínios a sangue-frio e crises financeiras… entretenimento genuíno!»
San Francisco Chronicle

«Um livro que deixa o leitor sem fôlego... verdadeiramente cativante.»
The New York Times

Rating: 4/5
Comentário: Há muito que Ken Follett se tornou um dos escritores da minha eleição. Com enredos de encher as medidas e encantar, o autor consegue transportar-nos para os mundos que recria com genialidade, atenção ao pormenor, capacidade de envolvência do leitor e acima de tudo, imaginação pura e com o toque de realismo que atribui aos momentos agridoce das suas estórias a essência da vida. E da ausência de contos de fadas plenos.
Em meses de tremenda ocupação profissional, o tempo e disponibilidade mental para ler andam em baixo. A aproximação a uma dita "ressaca literária" revelava-se a olhos vistos até que "Uma Fortuna Perigosa" me passou pela mão. Afinal, Ken Follett tem o dom de pegar no leitor mais letárgico e de fazê-lo envolver-se nas páginas de um mundo intricado de personagens sedutoras, enredos atrativos e sonhos, muitos sonhos refletidos em rostos e em estórias familiares a desvendar. Um dos grandes pontos fortes de Ken Follett é sem dúvida a sua capacidade de criar personagens com fundamento real, com aspirações e desejos, ambições e crueza, vontade de mudança e paixões, numa constante mistura acre e sedutora, que reforça a natureza cinzenta que alberga o bem e o mal, e que não caracteriza na totalidade ninguém.
Em "Uma Fortuna Perigos", deparei-me com um enredo espectacular, rico, cheio de intriga e de malhas de actuação, com esquemas e romance, crime e suspeita, ganância e poder misturados num único cenário digno de avaliar.
As personagens são como sempre o ponto forte deste livro. Acompanhando as várias gerações de uma família sem se perder pelos caminhos intricados dos saltos temporais, Ken Follet traz-nos uma coexistência de carácteres e vontades que decorrem ao longo de mais de 20 anos, sem que estes se tornem enfadonhos no livro. As diversas passagens temporais também foram assinaladas com classe, de forma que a progressão temporal ainda que registada, não é vista como um momento retorcido. Foram realizados os apanhados necessários para contextualizar o enredo sem repetir elementos temporais, fazendo com o que o avanço de várias décadas ao longo de 500 páginas fizesse sentido e não soasse apressado.
Ao nível do universo de composição, o autor traz-nos dois verdadeiros vilões como já não encontrava há muito! Não porque o seu nível de maldade ultrapasse o que poderia ser considerado minimamente aceitável, mas porque só o olhar atento e pouco pretensioso do leitor ou de uma personagem demasiado perspicaz para sua previdência são capazes de denotar.
Galanteadores, envolventes, dinamizadores e criadores de pólos de atração, estes lobos vestidos de cordeiro trouxeram um elemento-chave ao enredo capaz de manter o leitor agarrado a cada página com um certo fascínio, questionando-se quanto mais tempo uma certa dose de sorte se iria prolongar, querendo simultaneamente vê-los triunfar e falhar.
As restantes personagens secundárias são um doce. Lutadoras, destemidas, com coragem para enfrentar parentes e ambições possivelmente difíceis de alcançar, com a dose certa de força, charme e de ausência do que perder, vemo-las percorrer caminhos íngremes, frágeis, por vezes momentâneos em que só a preserverança e o apego aos valores morais com que foram educadas as tornam mais resilientes às peripécias da vida.
Adorei Hugh, até nos momentos em que algumas construções da sua personagem me pareceram algo forçadas só para atingir os momentos de exaltação certos. Ainda assim, foi uma daquelas personagens facilmente gostáveis, com humor e carisma, e pelas quais torcemos até ao fim. A sua evolução ao longo do livro, acompanhando o decorrer dos tempos e o crescimento do menino franzino e tranquina para um homem adulto de família é deliciosa de ler. As personagens femininas que o acompanham, desde a mãe continuadamente viúva à irmã dócil e fácil de agradar, passando por uma mulher interesseira e por um amor de adolescência são pontos fortes de contrabalanço num livro onde a presença masculina é dominante, ainda que não dominadora.
É um livro que cativa e prende a atenção exactamente pela essência extraordinária que cada uma das personagens transmite. É uma estória bem contada, envolvente e capaz de nos levar pelas mágicas mãos de Ken Follet ao Reino Unido do séc. XIX. Gostei muito e recomendo a leitura!
 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

sábado, 15 de novembro de 2014

Opinião: No Limiar da Eternidade, de Ken Follett



 No Limiar da Eternidade
de Ken Follett 

Edição/reimpressão: 2014
Páginas: 1024
Editora: Editorial Presença 





Resumo: 
Enquanto as decisões tomadas nos corredores do poder ameaçam extremar os antagonismos e originar uma guerra nuclear, as cinco famílias de diferentes nacionalidades que têm estado no centro desta trilogia O Século voltam a entrecruzar-se numa inesquecível narrativa de paixões e conflitos durante a Guerra Fria.

Quando Rebecca Hoffmann, uma professora que vive na Alemanha de Leste, descobre que anda a ser seguida pela polícia secreta, conclui que toda a sua vida é uma mentira. O seu irmão mais novo, Walli, entretanto, anseia por conseguir transpor o Muro de Berlim e ir para Londres, uma cidade onde uma nova vaga de bandas musicais está a contagiar as novas gerações. Nos Estados Unidos, Georges Jakes, um jovem advogado da administração Kennedy, é um ativo defensor do movimento dos Direitos Civis, tal como a jovem por quem está apaixonado, Verena, que colabora com Martin Luther King. Juntos partem de Washington num autocarro em direção ao Sul, numa arriscada viagem de protesto contra a discriminação racial. Na Rússia, a ativista Tania Dvornik escapa milagrosamente à prisão por distribuir um jornal ilegal. Enquanto estas arriscadas ações decorrem, o irmão, Dimka Dvornik, torna-se uma figura em ascensão no seio do Partido Comunista, no Kremlin.

Nesta saga empolgante que agora se conclui, Ken Follett conduz-nos, em No Limiar da Eternidade, através de um mundo que pensávamos conhecer, mas que agora nunca mais nos parecerá o mesmo.


 «Estas e outras novidades no site da Editorial Presença aqui»

Rating: 4/5 

Opinião: Finalizando este (grande) volume da trilogia "O Século" reasseguro o que já sabia: Ken Follett é um contador de estórias nato que merece (mesmo!) que lhe reconheçam o espectacular trabalho de investigação, de criação e de cruzamento de enredos, contextos, cenários históricos e muitas tramas que nos acompanharam ao longo de 100 anos de Histórica do mundo contemporâneo, ao abrigo de 5 famílias espalhadas pelo mundo ocidental.
Acompanhando todo o percurso de três gerações ao longo de tantos anos e tantas páginas, não poderia deixar de ficar um sentimento agridoce de sensação de "dever cumprido" por finalmente terminar esta história, mas simultaneamente fica a sensação de querer ver mais, de me ter apegado a personagens que agora continuam o seu percurso sem o olho do leitor.
À semelhança do "Inverno do Mundo", é a geração seguinte que ocupa o foco principal e continuo a sentir falta da voz mais presente dos pais e avós destas novas caras, e que por vezes até passaram bastante despercebidos neste livro. E embora compreendendo que é a ordem natural das coisas, e que o processo promove mesmo essa passagem de uns para outros, é como ir vendo os nossos personagens preferidos desaparecer, sem de facto o fazerem. Por outro lado, neste volume senti que o equilíbrio entre momentos históricos e ficcionais não foi tão bem conseguido, pelo que senti falta desse cuidado reflectido nos primeiros dois livros. O fim foi o esperado: imprevisível mas de certa maneira compreensível e fácil de aceitar. Não é o perfeito, senti ter algumas questões a responder sobre algumas personagens, mas ainda assim foi o único possível e não consigo sequer imaginar outra forma de o terminar.
De todas as novas personagens, gostei mais de Jake (embora tenha as minhas reticências com o destaque por vezes algo forçado que o autor lhe deu só para demonstrar a perspectiva inclusiva e o impacto da histórica dos EUA, que neste último volume é inegável) e dos gémeos Dimka e Tânia. Tão diferentes mas tão iguais, cada um afecto às suas convições e completamente perdidos no que respeitava à sua vida amorosa (ele talvez mais do que ela). Duas personagens do mesmo país, da mesma família e com vivências tão semelhantes conseguiram retirar uma visão com ópticas diferenciadas, o que foi interessante.
De uma forma diferente, diria que foi o mesmo que se passou com Lily, Alice e Wally, Rebeca e Carla e Werner: com um muro a dividi-los, a realidade de uma Alemanha de Leste e Ocidental é tão vincada que as duas versões da mesma história, da mesma moeda, não puderam ser ignoradas. Este é para mim um dos pontos fortes do livro: a oportunidade de explorar as versões esquecidas na histórica de quem as viveu por prismas diferentes e de quem não teve como evitar, retidos por imposições de potências externas à sua vida mas que dividiram famílias, destroçaram até à miséria outras e causaram inflexões nas memórias e estórias de milhares de pessoas ao longo de décadas. Gostava que este lado tivesse sido ainda mais explorado, em detrimento de uma visão mais "pop" e ficcional atribuída a algumas partes do livro, especialmente por causa do desequilíbrio já referido.
Ainda assim, esses pequenos momentos não estragaram a experiência desta leitura, e só a tornaram diferente do esperado. De qualquer forma, este era um desafio de gigantes (não fosse a alusão ao nome do primeiro volume) e como tal não posso deixar de levar esta trilogia comigo e com este desfecho, posso confirmar que Ken Follett me trouxe três dos meus livros preferidos até à atualidade. E tão cedo ninguém o destrona!
 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Passatempo: A Queda dos Gigantes, de Ken Follett



Surpresa de última hora!

Quem nos segue sabe que a Cláudia é fã a 200% da Trilogia "O Século" de Ken Follett e que podem ler os seus comentários à trilogia pelo nosso blog aqui e aqui. Como não podia deixar de ser a Cláudia andou a contar os dias para o lançamento do último volume da saga e heis que finalmente o tão aguardado dia chegou quase como um natal antecipado.

Hoje a Editorial Presença lançou o último volume da trilogia "O Século", "No Limiar da Eternidade" e por aqui tínhamos de assinalar a data. Assim sendo e com o apoio da Editorial Presença temos para oferecer um exemplar do primeiro livro da trilogia: "A Queda dos Gigantes".

Vejam as respostas aqui, aqui e aqui.

Regras do passatempo 
1) O passatempo decorre até às 23h59 do dia 30 de Setembro de 2014.
2) Todos os dados solicitados (incluindo Nick de Seguidor) devem ser devidamente preenchidos e completos.
3) Só serão aceites uma participação por pessoa e morada, em todo o território português (Portugal Continental e Ilhas). 
4) O/A vencedor/a será sorteado de forma aleatória (random.org), sendo o resultado anunciado na página do blog e o contacto efectuado por e-mail. 
5) O Encruzilhadas Literárias e a editora não se responsabilizam pelo extravio ou danos causados pelos CTT nas encomendas enviadas.




 «Estas e outras novidades no site da Editorial Presença aqui»

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Opinião: Inverno do Mundo, de Ken Follett



Inverno do Mundo
de Ken Follett

Edição/reimpressão: 2012
Páginas: 832
Editora: Editorial Presença 

Resumo:
Este volume vem dar continuação à extraordinária trilogia de Ken Follett, O Século, depois do êxito internacional alcançado pelo volume inaugural, A Queda dos Gigantes. A história recente do conturbado século XX continua a desenrolar-se como se diante dos nossos olhos, as figuras históricas e os acontecimentos reais evoluindo e decorrendo em simultâneo com as vidas da segunda geração das cinco famílias que já protagonizaram o primeiro volume, misturando-se num grandioso e colorido fresco em amplas pinceladas que, graças a uma rigorosa fundamentação e a um talento narrativo raro, se encaixam numa totalidade cheia de vida realismo. O Inverno do Mundo decorre entre a ascensão do nazismo e as suas dramáticas consequências até ao início da Guerra Fria.
Rating: 5/5 

Opinião: É-me sempre difícil começar a opinião destes livros do Ken Follett, porque sinceramente?, como é que se disseca uma obra tão complexa, intrínseca, rica em pormenores e em vivências, em estórias humanas e em redes de acontecimentos de causa-efeito com esta? Ainda sem ter lido o último volume da trilogia, posso assegurar que este autor acabou de produzir 3 dos livros com maior qualidade que já li até hoje, e que vão constar sempre na minha lista de preferidos. Depois de ter adorado profundamente A Queda dos Gigantes (e a sua capa, maravilhosa!), Inverno do Mundo não me desiludiu e fez-me sentir em casa, num mundo já em mutação, mas perto de personagens que aprendi a acarinhar no passado.
Como sabem, eu geralmente sou uma leitora múltipla, e gosto de ter vários livros a serem lidos simultâneamente. No entanto, com este não fui capaz e quis dedicar-me inteiramente a ele. Talvez por esse motivo tenha adiado tanto para lê-lo, ainda que o tenha na minha estante desde o Natal de 2012. No fundo, quando os livros são muito bons, damos por nós tanto a querer lê-los mais depressa como a prolongar uma leitura "prazerosa". Nunca deixa de ser conflituoso.
Em Inverno do Mundo voltam estas capas lindas (ainda que goste mais da referente ao primeiro livro da trilogia), no meu entender muito melhores do que a versão original, e que nos anunciam o retomar de um enredo encruzilhado que acompanha cinco famílias por cinco partes do mundo, desta vez em pelo período de ascensão do Partido Nazi e consequente deflagrar da II Guerra Mundial.
Iniciando-se em 1933, podemos acompanhar a prole de Gus e Rosa, Walter e Maud, Ethel e Bernie, Greg e Olga, Boy e Bea e tantos outras personagens secundárias que de alguma forma de cruzam nesta trama, e descobrir os posicionamentos sobre os acontecimentos de ordem mundial, as personalidades, as mágoas e obstáculos, os amores e a força de vontade, a humanidade de cada um. De facto, apesar de ser a continuação do anterior, e continuarmos a presenciar considerações das personagens do I volume, esta é a história dos seus descendentes, e é o seu ponto de vista que prevalece. Sendo natural que assim seja, senti por vezes uma certa nostalgia de não poder estar na "cabeça" de alguns personagens tão acarinhados na temporada anterior, e que neste livro surgem mais fugazmente, atendendo a que o enredo não é sobre eles, mas sobre o resultado das suas escolhas, e sobre uma descendência com os seus próprios valores, objectivos, sonhos e expectativas. Fiquei ligeiramente tristonha com o desfecho de alguns ou com o resultado do que se tornaram, mas faz parte da vida. As pessoas não são as mesmas aos 45 do que eram aos 15, e este é um ponto indubitavelmente em destaque na obra de Follett, ainda que inserido com a sua típica subtileza.
Ainda sobre as personagens, curiosamente são os filhos daqueles que menos me disseram no primeiro volume que aqui brilham e enchem as páginas. Adoro o Woody e o Chuck e o Lyod (todos personagens masculinas, bem sei, mas são os que estão em maioria desta vez), e numa segunda instância a Carla, ainda tão parecida com os pais mas com uma entidade própria que salta à vista desde muito longe. São todos simultâneamente heróis e anti-heróis, personagens com um leque de vivências que demonstra o quanto o ser humano não é só uma coisa, e que todos têm simultâneamente um fundo bom e mau, generoso e egoísta, supérfluo e maduro, pragmático e emocional. São seres humanos, são pessoas com as quais nos cruzaríamos na rua num outro tempo e com as quais nos poderíamos identificar.
Por falar em melancolia, e talvez por o autor ter nascido em 1949 (o que significa que os seus pais terão presenciado as consequências da II Guerra Mundial), senti por vezes um clima mais cinzento, mais depressivo, até mesmo cercando os momentos felizes durante o livro. Obviamente num clima potencialmente tenso e complicado da História Mundial, seria impossível obter uma formalização ligeira, mas acho que em A Queda dos Gigantes, quando as personagens tinham um momento feliz no meio do caos, conseguia senti-las efectivamente felizes. Neste caso, os momentos bons foram sempre meio agridoce, sem permitirem grande efusismo e representando uma pequena gota no meio do oceano. De facto, acho que se no volume anterior depois de todas as desgraças, em alguns casos algumas personagens acabaram mesmo felizes, ou pelo menos com a recompensa merecida, neste livro nunca ocorre nenhuma com essa totalidade (existindo sempre uma fatalidade a enegrecer o horizonte).
Ainda assim, nada disso estraga o enredo, deixando apenas um desejo de que as coisas corram melhor em No Limiar da Eternidade e que depois de tantos desencontros e desgraças, de tanta dor causada por terceiros e pelas inibições auto-impostas, todos possam ter uma conclusão mais justa.
Por outro lado, e tal como já tinha descrito no volume anterior, sente-se o esforço e dedicação perante o pormenor do plano histórico da ação.
Apesar de existirem vários elementos judeus neste livro, gostei que por uma vez não se retractasse a questão dos campos de concentração em primeiro plano, não porque não são importantes ou porque não devam ser lembrados (devem sempre, para que não haja quem possa negar a sua ocorrência, como já se começa a ver por aí..), mas porque o autor se centrou na vida de várias famílias, em representação dos que não foram um alvo a abater pelos regimes fascistas numa primeira instância, mas que sofreram na pele os horrores de um governo com o qual não se identificavam e sobre uma guerra na qual não queriam participar, e que nem por isso estavam mais a salvo que os restantes.
Ainda assim, e perante o modelo anterior, passámos mais tempo com as personagens e com as suas vivências familiares do que em análises dos variados momentos históricos, também porque as personagens anteriores se encontravam maioritariamente ligadas à política e aos corpos diplomáticos, o que já não acontece com tanta preponderância neste volume. Faltava se calhar um maior destaque às transformações da sociedade do pós- I Guerra, de forma a dar continuidade à análise sócio-económica e político-geográfica iniciada no seu antecessor.
Ken Follett, se eu ainda não soubesse, diria que acabaste de te tornar num dos meus autores preferidos.

E como dizia hoje de manhã no Facebook, façam uma série desta trilogia!
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Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.