terça-feira, 15 de março de 2011

A Rapariga que Roubava Livros, de Markus Zusak

Edição/reimpressão: 2008
Páginas: 236
Editor: Editorial Presença
 
"Quando a morte nos conta uma história temos todo o interesse em escutá-la. Assumindo o papel de narrador em A Rapariga Que Roubava Livros, vamos ao seu encontro na Alemanha, por ocasião da segunda guerra mundial, onde ela tem uma função muito activa na recolha de almas vítimas do conflito. E é por esta altura que se cruza pela segunda vez com Liesel, uma menina de nove anos de idade, entregue para adopção, que já tinha passado pelos olhos da morte no funeral do seu pequeno irmão. Foi aí que Liesel roubou o seu primeiro livro, o primeiro de muitos pelos quais se apaixonará e que a ajudarão a superar as dificuldades da vida, dando um sentido à sua existência. Quando o roubou, ainda não sabia ler, será com a ajuda do seu pai, um perfeito intérprete de acordeão que passará a saber percorrer o caminho das letras, exorcizando fantasmas do passado. Ao longo dos anos, Liesel continuará a dedicar-se à prática de roubar livros e a encontrar-se com a morte, que irá sempre utilizar um registo pouco sentimental embora humano e poético, atraindo a atenção de quem a lê para cada frase, cada sentido, cada palavra. Um livro soberbo que prima pela originalidade e que nos devolve um outro olhar sobre os dias da guerra no coração da Alemanha e acima de tudo pelo amor à literatura."

Este livro é uma lufada de ar fresco. E certamente considero-o genial porque me fez sorrir levianamente no autocarro, rir e chorar. é um livro para quem amou e odiou O Diário de Anne Frank.
Sim, também relata a história de uma adolescente que teve de lidar com a Alemanha Nazi e tudo o que ela arrastou consigo; sim, também considera todas as suas crises adolescentes (a importância do certo e errado, a complexidade das emoções, os temores infantis, os devaneios febris e os sonhos inalcançáveis) e sim, também se aborda, ainda que de uma forma bastante medida e com sensibilidade, a problemática do Holocausto, dos judeus escondidos e dos pobres desgraçados que foram apanhados.
Mas no meio disto tudo, é um relato ficcional e consciente por parte do autor, com uma maior perspectiva e diferenciação temporal, que inclui momentos únicos e agridoce, que nos prendem até à última página.
Depois, não há tão genial numa leitura corrente como uma personificação da Morte, atarantada com os seus próprios fantasmas e por vezes incomodada com o trabalho que lhe compete. E à qual é incumbida a narrativa.
Para além disso, encontrar uma personagem cujo anseio pelas palavras, pelo conhecimento e pelos livros a faz querer mais que tudo compreender o que elas compõem é um retornar à infância, já que eu própria ficava frustrada com 5/6 anos, antes de ir para a primária, por não perceber nada dessas conjunções de caracteres que compõem o mundo escrito.
Confesso que nas primeiras páginas achei o discurso algo incoerente e fiquei um bocado desconfiada mas ao fim do primeiro capítulo já estava rendida. É dos livros que gostei mais de ler em 2011, até agora.

domingo, 13 de março de 2011

Vinho Mágico, de Joanne Harris


Edição/reimpressão: 2000
Páginas: 296
Editor: Edições Asa

 Quando aos 14 anos finalizei Chocolate de Joanne Harris, fiquei a gostar bastante do estilo literário dela, o que me levou a adquirir uma série de outros livros da sua autoria. Com os tempos vi-me a cansada do crescente lado negro que ela foi adicionando a cada obra, assim como de uma certa repetição narrativa. No entanto há pelo menos 4 livros que continuo a gostar bastante, e os quais releio de tempos a tempos. Um deles é Vinho Mágico.


Apesar de algo irreverente, a história deste livro é contado por uma garrafa de “Fleurie 1962”, uma garrafa de vinho com sabor a amora. Todos os acontecimentos desenrolam-se em volta de Jay Mackintosh, um escritor de sucesso com apenas um livro publicado. Esse mesmo livro retratava acontecimentos dos verões da sua infância, onde Jay conhecera um senhor invulgar que o levara a descobrir novas filosofias de vida e novas maneiras de combater o inevitável. No entanto, esse senhor desaparece um dia sem deixar rasto. Na tentativa de recriar o sonho de infância de que nunca desistiu, Jay parte para uma pequena aldeia, Lansquenet, onde conhece Marise; uma viúva que vive sozinha com a filha muda e esconde um grande segredo. A sua estadia em Lansquenet será sempre repleta de memórias e da “assombração” de Joseph Cox, o seu velho amigo. Na falhada tentativa de obter um retiro para escrever um novo livro brilhante, Jay Mackintosh, acompanhado de uma mochila, uma máquina de escrever e dos “Especiais” (vinhos feitos com fruta pelo seu amigo de infância) vai acabar por perceber que Marise não é apenas uma mulher reservada e que nem sempre a sociedade e as pessoas são tão justas e dignas como se dizem ser.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Amanhã será outro dia

Edição/reimpressão: 2010
Páginas: 484
Editor: Livros d'Hoje

"Os bombistas suicidas são fáceis de detectar. Evidenciam todos os sinais característicos. Sobretudo, por estarem nervosos. Para qualquer deles, é sempre a primeira vez.Existem doze pormenores a que convém estar atento. Jamais alguém que integre as forças da autoridade poderá esquecê-los.Cidade de Nova Iorque. O metropolitano, duas da manhã. Jack Reacher observa os companheiros de viagem. Quatro não levantam suspeitas. Já o quinto, não.O comboio trava para entrar na Grand Central Station. Irá Reacher intervir, e salvar vidas? Ou ter-se-á enganado? E essa intervenção custará vidas - inclusive a do próprio?"

Bem, tenho a dizer que este é definitivamente um livro de acção. Mas se esperam alguma movimentação orientada como o filme Speed, que basicamente ocorre num único local, estão completamente enganados. A movimentação do metro é apenas o momento inicial de uma trama bastante movimentada, às vezes previsível, outras nem tanto. A conjugação de uma personagem principal que foge às tipologias habituais do herói e que por isso consegue por vezes ser mais entusiasmante que o esperado são um dos pontos fortes. Assim como as constantes reviravoltas que nos fazem ficar agarrados até à última página.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Bons Augúrios, de Terry Pratchett e Neil Gaiman


Edição/reimpressão: 2004
Páginas: 380
Editor: Editorial Presença


"Este é o livro mais divertido alguma vez escrito sobre o Armagedão. Não vale a pena reler esta última frase, caro leitor, foi mesmo isso que se quis dizer. «Mas como é que um livro sobre o fim do mundo pode, de algum modo, ser cómico?» Ora aí é que está, caríssimo leitor, a explicação é óbvia – esta obra foi escrita por dois dos mais geniais autores de fantasy da actualidade. Ao sabor das suas endiabradas penas, até o mais inverosímil pode assumir a aparência de algo plausível! Neil Gaiman e Terry Pratchett criaram um texto que, ao fundir a fantasia e a comédia, resulta absolutamente jocoso, satírico inventivo e cheio de sabedoria. Desde o início dos tempos que Ele (Deus, o Diabo ou ambos em co–autoria conspiratória) haviam planeado o Armagedão, a Derradeira Batalha entre o Bem e o Mal, o fim do mundo tal como o conhecemos. E havia séculos que os demónios (e os anjos?) trabalhavam nesse sentido. Era chegada a hora! Faziam–se agora os últimos preparativos e tudo se ajustava para a hecatombe final. Mas os desígnios de Deus (e do Diabo?) são, como se sabe, insondáveis e, vá–se lá saber porquê, uma pequena distracção, uma simples troca de bebés, coloca o recém–nascido Anticristo na família errada e voilà! tudo corre mal! Por serem todos grandes apreciadores dos prazeres terrenos, os representantes do Céu e do Inferno, os Quatro Cavaleiros (leia–se Motoqueiros) do Apocalipse e o próprio Anticristo decidem, pasme–se, tomar as rédeas dos acontecimentos e sabotar o Armagedão! O resultado já o leitor pode imaginar – uma leitura deliciosa que nos leva às lágrimas através de um riso de proporções apocalípticas. Diabolicamente hilariante."
Bem, este é um livro que tinha as premissas certas para ser um espectacular exemplar de entretenhimento. No entanto, a meu ver, conseguiu descanbar de tal maneira que perdi o interesse a meio. Os autores têm um sentido de humor acertado na narrativa que flui com ligeireza, com a excepção da precariedade do excesso de entusiasmo colocado nas notas de rodapé e que soam a comediantes sem piadas a forçarem-se a arrancar um sorriso amarelo a uma plateia mal encarada.

Se é iniciado de uma forma bastante peculiar e aliciante, em que em parte se confunde, através das personagens dos dois principais emissários, tanto do Céu como do Inferno, o que afinal é o Bom e o Mau, o Certo e o Errado, através dos seus comportamentos mas também da relação entre ambos que mais parece de amigos de longa data do que arquinimigos; o momento que devia ser crucial foi aquele a partir do qual a história deixou de me empolgar.

Com uma linha de acção tão simples, acho que teria sido benéfico para a narrativa cortar a actuação de uns 5 ou 6 personagens que vieram apenas criar ruído e a desviar a atenção do momento crucial do livro. Assim sendo, tornou-se simplesmente uma ideia perdida. Com muita pena minha.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Expresso de Cantão, de Giuliano da Empoli



Edição/reimpressão: 2009
Páginas: 288
Editor: Bertrand Editora

"1503: Giovanni da Empoli, um jovem mercador florentino, embarca nos navios que conduzem pela primeira vez o grande Afonso de Albuquerque ao continente indiano.
Trata-se do início de uma aventura que haveria de durar quinze anos, durante os quais Giovanni da Empoli participaria nos eventos mais importantes da sua época e conheceria os seus protagonistas: de Savonarola a Magalhães, de Maquiavel a Leão X.

2008: Giuliano da Empoli, descendente do mercador florentino, decide seguir o trilho do seu ousado antepassado.

Numa altura em que o baricentro do mundo começa a deslocar-se novamente para o Oriente, o autor oferece-nos um relato de viagens encantador que descreve duas fases cruciais da globalização através do olhar de dois testemunhos ligados por um fio invisível que percorre cinco séculos de História."

Para quem gosta de história, da possibilidade de sonhar, comparar realidades temporais numa mesma dinâmica territorial e conhecer novas perspectivas culturais, e para quem tem curiosidade e fome de conhecimento do mundo global, Expresso de Cantão é o livro indicado.
Ainda que o prólogo e os dois primeiros capítulos se tornem por vezes aborrecidos, a verdadeira narrativa da viagem dos dois Empoli é completamente viciante. Não é um livro para consumo imediato, apelando mais a reflexões sobre as diferentes realidades territoriais e culturais que se vão descobrindo, os movimentos de vanguarda, os pensamentos de novas personagens implicadas no funcionamento do seu país natal ou de coração, os pequenos rasgos de revolta de pessoas não acomodadas com aquilo que a história anteriormente lhes ditou. Para quem gosta ou para quem nunca conheceu nenhum país asiático, é um rasgo de clarividência, em muitas formas.
Historicamente, apesar de ter perfeita noção de que os livros de história do ensino obrigatório são muito simplistas, acho que nunca mais vou olhar para Afonso de Albuquerque da mesma forma.
Recomendo vivamente, embora seja preciso interesse e alguma concentração.