segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A saga de ler nos transportes públicos.

Quem nos segue já há algum tempo, sabe que as minhas maratonas de leitura decorrem habitualmente a bordo de algum transporte público, nas muitas e constantes deslocações que me vejo obrigada a fazer no dia a dia. O que ninguém sabe é que é em parte por causa dos transportes públicos que eu comecei a ler.
Na verdade, hoje em dia é um hábito mantido por falta de tempo em outras horas do meu dia. No entanto, com 7 anos de idade, o desejo tinha um motivo diferente. 

Os livros sempre chamaram por mim, tal como continuam a fazê-lo na actualidade. A minha mãe diz que eu antes de aprender, chorava no alto dos meus cinco anos por não conseguir sozinha descobrir as histórias maravilhosas por detrás da conjunção de consoantes e vogais, e que nem sempre tinham paciência para mas ler. Depois, já na escola primária, aprendi em dois meses o que muitos demoram a conseguir durante um ano inteiro, tal a minha ânsia.

O que é que isso tem a ver com transportes? Nada directamente, mas foi um comboio que me fez procurar por livros com menos desenhos e com ares de "mais crescida". Das poucas vezes que me vi obrigada em deslocar-me para o trabalho da minha mãe, ela levava sempre um livro com ela. Quando olhava em redor, uma outros viajantes faziam o mesmo e iam sempre compenetrados nas leituras. Para mim, ler naquela altura passava pela assertividade de me assumir como alguém mais adulto e bem comportado, e de querer ser igual a todas aquelas pessoas bem arranjadas e com portes que achava altivos e seguros. Por esse motivo, comecei a arrastar o primeiro livro de "Os Cinco" comigo, e apesar de ter demorado um ano para completá-lo, fiquei fascinada com as possibilidades de novos livros. Por esse motivo, nunca mais parei.

Ler nos transportes é algo que passei a fazer assiduamente, a partir do momento em que anos mais tarde retornei ao mundo autónomo dos transportes públicos. O que certamente já me trouxe uma série de situações caricatas e típicas de um amante de livros, e que julgo que todos se poderão facilmente identificar.

Em primeiro lugar, há que descortinar que circulo por vários modos de transporte, sendo que uns facilitam mais a leitura que outros. Não que isso me impeça. Não é a primeira vez que perco um autocarro porque estou tão embrenhada no livro sentada na paragem que nem dou por ele passar. É aliás, nos autocarros, que evito ler de todo, a não ser que o destino seja o terminal, ou já sei que o resultado não será muito proveitoso. Ou estou sempre com medo de perder a paragem de saída, ou arrisco-me a que isso mesmo aconteça. E tenha de pagar a multa posterior.
Nunca aconteceu porque os motoristas sempre se mostraram afáveis, mas se puder evitar uma crise, fá-lo-ei.


Depois, por outro lado, o metro é aquele modo de transporte onde raramente se espera ver pessoas a ler. Errado. Não é nada raro entrar numa carruagem e ter imensas pessoas a lerem espalhadas por todo o lado: sentadas, de pé, junto das portas, a segurarem-se, a não segurarem-se...Ou a sairem de uma carruagem e continuarem a subir as escadas para a saída sem largarem o livro. Eu própria já o fiz uma vez ou duas. E pode ser complicado mas quando estamos muito embrenhados não é a necessidade de sair num determinado sítio que nos faz parar. Por vezes, já fui pela linha que dá pelo caminho mais longo só para prolongar a minha leitura mais uns 10 minutos.

No fundo, ter uma vida demasiado ocupada exige-nos algumas soluções inteligentes, onde possamos aproveitar o nosso tempo de forma inteligente, e não deixar para trás os pequenos prazeres do dia a dia.

Mas voltando a situações caricatas, quantas vezes é que se cruzaram com alguém a ler algum livro que vocês querem muito ler (e querem perguntar a opinião da pessoa) ou que já leram (e lhe querem dar o vosso incentivo)? Eu passo por isso várias vezes e até há pouco tempo tinha receio de incomodar as pessoas. Claro que se elas vão muito concentradas, não vou importuná-las, mas aqui há uns tempos comecei a fazê-lo. Pelo menos se o livro me interessa muito e estou curiosa para saber se vale a pena adquiri-lo. E até hoje as pessoas com quem me cruzei e o fiz acharam piada e na maioria das vezes acabámos por falar durante mais uns 5 minutos sobre livros e outras questões. E passo a vida a divulgar os grupos de trocas onde estou, o que já trouxe muito mais pessoas para os grupos (e tornei algumas viciadas!).

Depois, uma nova tendência são os rapazes. Não falo de homens a ler porque isso sempre foi habitual. Mas adolescentes a ler, por vezes até romances tipicamente definidos como tendo como público-alvo as mulheres, começam a ser vistos espalhados um pouco por todo o lado. É bastante interessante e revigorante também. Parece que se perdeu uma certa vergonha e estereótipo sobre leituras, que agora se fazem cada vez mais fora de quatro paredes.

 

 Por outro lado, ainda acaba por ser mais giro quando vamos a ler o volume de uma saga e alguém à nossa frente/sentado ao lado a ler exactamente a mesma saga, às vezes um antes outras um depois. Ou um livro que acabou de sair e encontramos mais alguém a lê-lo, e o desejo perguntar "Em que parte é que vais??".

Eu já passei por todas estas situações e mais alguma, que vocês nem poderão imaginar. Partilhar o vício pelos livros é bom, seja lá onde for. E ainda mais quando estamos perante uma convenção não declarada de pessoas que também gostam de ler. Os transportes públicos provaram-nos isso. E provarão durante o resto da semana que aí começa.

Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas e bookcrossing, a Cláudia ainda consegue estudar e fazer o seu mestrado enquanto lê nos transportes públicos. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado é tão fácil encontrá-la numa biblioteca como na Rota Jovem em Cascais. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

Opinião: Maze Runner: Correr ou Morrer, de James Dashner

Resumo:
Quando desperta, não sabe onde se encontra. Sons metálicos, a trepidação, um frio intenso. Sabe que o seu nome é Thomas, mas é tudo. Quando a caixa onde está para bruscamente e uma luz surge do teto que se abre, Thomas percebe que está num elevador e chegou a uma superfície desconhecida. Caras e vozes de rapazes, jovens adolescentes como ele, rodeiam-no, falando entre si. Puxam-no para fora e dão-lhe as boas vindas à Clareira. Mas no fim do seu primeiro dia naquele lugar, acontece algo inesperado - a chegada da primeira e única rapariga, Teresa. E ela traz uma mensagem que mudará todas as regras do jogo. (Podem ler um excerto aqui no site da editora, para verem o livro no site da Editora podem clicar na capa ou aqui.)

Rating: 5/5

Comentário:
Sou uma aficionada da ficção-cientifica e por isso quando a moda das distopias pegou tive de me controlar para não berrar de alegria. É um género completamente fascinante para mim pois acho incrível aquilo que os escritores conseguem fazer com estes mundos distópicos. Depois de distopias como Os Jogos da Fome, União, Delirium e Divergente confesso que não sabia ao certo o que esperar de novo, no entanto as críticas à saga Maze Runner tinham sido bastante positivas, o que me deixou curiosa.
Quando finalmente peguei no livro para ler fui imediatamente transportada para o meio da acção. Tal como o resumo diz, Thomas acorda num elevador e não se recorda de nada - é nesse exacto ponto que começa a nossa narrativa.
As perguntas assaltam-nos portanto logo nos primeiros parágrafos: O que se passou para Thomas ir parar ao elevador? Quem é Thomas? Porque não se lembra de nada? Quando o elevador finalmente pára e abre as suas portas em vez de respostas encontramos mais perguntas: O que é a Clareira? Quem são estes rapazes? O que se está a passar?
Depois de distopias nas quais vamos conhecendo a realidade lentamente a partir de um herói que já a habita há muito, é interessante encontrar um herói que simplesmente está tão perdido quanto nós. Thomas está a ver tudo na Clareira pela primeira vez ao mesmo tempo que nos deparamos com ela, tudo o que o surpreende nos surpreende também e o que ele não percebe, para nós é tão ou mais confuso. O truque acaba por ser fazer-nos sentir tão irritados e perdidos quanto o Thomas e cativar-nos a tentar descobrir mais, visto que a informação vai sendo lentamente libertada.
Isto contribui para um crescendo fantástico de interesse por parte do leitor na história. O próprio tema do labirinto e de solucionar o labirinto invoca algo místico dentro de cada um de nós. Lembro-me de ser pequena e ir ao Monsanto e correr para o labirinto no meio do parque para "achar a saída". Porque os labirintos serem para isso mesmo, para uma pessoa "achar a saída", creio que acabam por ser uma metáfora para a própria busca humana de algo que não sabe o que é para além de uma saída.
E a saída é que os rapazes da clareira procuram, é a saída que Thomas procura e o próprio leitor dá por si também em busca da saída do labirinto. Que labirinto é esse? Só lendo é que o descobrirão!
Quanto à personagem de Thomas posso dizer que é um rapaz normal e esperto e que calça o 45. Facto a que achei imensa piada pois calça o mesmo número que o meu irmão, algo cada vez mais comum mas raramente referido.  Posso também dizer que gostei da instintividade de Thomas e da maneira como ele lidou com algumas das situações que lhe foram apresentadas.
O facto de estarmos a descobrir este novo mundo ao mesmo tempo que ele ajuda a criar uma certa cumplicidade com a personagem. Thomas acaba por se tornar nosso amigo enquanto descobrimos o mundo de Maze Runner.
Este é um livro que fala também de quebra cabeças, amizades e de como as pessoas se adaptam à realidade que as rodeia. Um autêntico contemporâneo da saga Os Jogos da Fome.
Com batalhas sangrentas e reviravoltas inesperadas Maze Runner: Correr ou Morrer acabou de entrar na minha lista de distopias favoritas e é uma saga que tenho o maior interesse em seguir.

  • Este livro faz parte de uma trilogia;
  • Esta trilogia já foi toda publicada em inglês sendo os títulos dos seguintes volumes The Scorch Trials e The Death Cure;
  • Este ano o autor publicou uma prequela chamada "The Kill Order" (e que me parece ser bastante spoiler da série);
  • O IMDB acusa que sairá um filme do livro algures em 2013 mas não dá muitos detalhes em relação ao mesmo.



Ki
(Catarina)
Sobre a autora:

Bibliófila assumida e escritora de domingo. Gosta de livros e tudo o que esteja relacionado com eles, tem a mania que tem opiniões sobre livros e gosta de as expor no seu blog conjunto Encruzilhadas Literárias, tem também uma conta no GoodReads e é das melhores coisas que já lhe aconteceu.

domingo, 23 de setembro de 2012

Destaque: O Tempo dos Milagres, de Karen Thompson Walker

O Tempo dos Milagres
Karen Thompson Walker
Páginas: 256
PVP: 15,90 €
Lançamento: Setembro de 2012

SINOPSE:
Nunca é aquilo que receamos que acaba por acontecer. As verdadeiras catástrofes são sempre diferentes – inimagináveis, inesperadas, desconhecidas… E se o nosso dia de 24 horas se tornasse mais longo, primeiro em minutos, depois em horas, até o dia se tornar noite e a noite se tornar dia? Que efeito teria este abrandamento no mundo? Nas aves do céu, nas baleias do mar, nos astronautas do espaço e numa rapariga de onze anos, a braços com as mudanças emocionais da sua própria vida? Uma manhã, Julia e os pais acordam na sua casa nos subúrbios da Califórnia e descobrem, juntamente com o resto do mundo, que o movimento de rotação da Terra está a abrandar visivelmente. A enormidade deste facto está quase para além da compreensão. E, no entanto, ainda que o mundo esteja, na realidade, a aproximar-se do fim, como afirmam alguns, a vida do dia a dia tem de continuar. Julia, que enfrenta a solidão e o desespero de uma adolescência difícil, testemunha o impacto deste fenómeno no mundo, na comunidade, em si própria e na sua família.

Book Trailer (com legendas em português)

LeYa no Rossio

Conforme vos dissemos ontem no facebook, o Encruzilhadas andou pelo Festival Literário "LeYa no Rossio". Este Festival Literário é a primeira edição de um evento que se pretende que seja anual. E, este ano, está integrado no fim-de-semana de arranque do "Ano do Brasil em Portugal", e por isso, a LeYa decidiu juntar no Rossio diversos autores dos dois países.
"O evento, de entrada livre, inclui um programa de mesas redondas, tertúlias, concertos, actividades infantis e várias performances de poesia e teatro de rua, para além de uma Feira do livro de Portugal e do Brasil, tendo sempre a literatura e a arte dos dois países como pano de fundo." (retirado do site vamossair.com.)
O Encruzilhadas chegou ao festival por volta das 16:30 mesmo a tempo de apanhar as danças brasileiras dos índios e das baianas. Quando entramos, vindas dos Restauradores encontramos imediatamente as zonas de declamação e as bancas de venda de livros, que podem ver nas imagens abaixo:


Demos uma volta alongada pelo recinto, vendo os livros e as diversas tendas e ainda participamos no conto colaborativo entre Portugal e o Brasil. Como dissemos no início do artigo entramos no espaço a tempo de ver as baianas entrar em palco, o que deixou a Catarina (Ki) bastante contente porque ela adora baianas.


Andando pelas diversas bancas e foi com alegria que encontramos descontos até 40% em alguns livros da LeYa. Além do mais os lemas da LeYa estavam espalhados pelas bancas identificando cada área (romance, infantil-juvenial, etc).
No geral achamos que o evento foi muito bem planeado e um sucesso, pelo menos tendo em conta a quantidade de pessoas que andava pelo Rossio a ver os espectáculos e as bancas.




Além destas actividades diurnas, o LeYa no Rossio tinha também vários concertos, com músicos brasileiros e portugueses, no seu pólo do Terreno do Paço. Hoje, domingo, é o último dia da primeira edição deste festival mas não se preocupem que ainda há muito para ver. Podem consultar a programação completa aqui. 
O Encruzilhadas agradece o convite e a iniciativa da LeYa e espera que esta iniciativa tenha sido um sucesso que se repita por muitos anos.

sábado, 22 de setembro de 2012

Antigo cinema vira livraria!

Depois do nosso artigo sobre a igreja que virou livraria chega-nos agora outra história que apesar de igual tem um twist diferente. Em vez de ser uma igreja esta livraria era uma antiga sala de cinema.
Localizada em Buenos Aires, esta livraria foi projectada pelo arquitecto Fernando Manzone, que trabalha para a editora e livraria brasileira El Ateneo. Tentando manter as fachadas originais e até a própria disposição do cinema, esta livraria inclui um café na área do palco, cantos de leitura nos camarotes e balcões repletos de estantes.
Aberto como cinema em 1919 e reaberta como livraria em 2000, este espaço tornou-se numa das livrarias mais movimentadas do mundo com mais de um milhão de visitas por ano e com vendas que ascendem os 7.000.000 livros por ano.
Deixamos-vos com mais fotos do espaço para que possam apreciar melhor esta livraria.




Ki
(Catarina)
Sobre a autora:

Bibliófila assumida e escritora de domingo. Gosta de livros e tudo o que esteja relacionado com eles, tem a mania que tem opiniões sobre livros e gosta de as expor no seu blog conjunto Encruzilhadas Literárias, tem também uma conta no GoodReads e é das melhores coisas que já lhe aconteceu.