sexta-feira, 14 de março de 2014

Opinião: O Ano Em Que Me Apaixonei por Todas, de Use Lahoz





O Ano em que me Apaixonei por Todas
 de Use Lahoz

Edição/reimpressão: 2014
Páginas: 304 (as primeiras 30 podem ser consultadas aqui)
Editora: Top Seller 

Resumo:
Uma homenagem à vida, ao amor e à amizade.
Sylvain, um jovem parisiense que está a caminho dos trinta, sofre de um caso grave de síndrome de Peter Pan: recusa-se a entrar na idade adulta. Embora possua inúmeras virtudes - é perspicaz, simpático, inteligente e versado em várias línguas - tem também muitos defeitos: é incapaz de seguir em frente quando se trata de amor.
A ideia de crescer assusta-o de morte, o que o leva a aceitar um trabalho mal remunerado em Madrid, para estar mais perto de Heike, a antiga namorada que ele não consegue esquecer. Sylvain traz consigo um plano para reconquistar Heike, mas, entre tantas outras pessoas incríveis com quem se cruza, alguém muito especial irá levá-lo a fazer uma escolha.
E quando descobre acidentalmente um manuscrito que contém toda a saga da família do seu vizinho Metodio Fournier, revela-se diante dos seus olhos uma história maravilhosa e excitante, cheia de estranhas coincidências, que muda para sempre a sua visão do amor e do mundo. No final desse ano inesquecível em Madrid, Sylvain regressará a casa, onde abraçará o seu destino.
Uma história sobre as atribulações e os desafios das relações.
Uma ode à beleza da vida, ao amor e à amizade.

 Rating: 3,5/5 

Opinião: Não sei se têm muito contacto com a cultura espanhola contemporânea (através de filmes, séries, programas de TV ou até mesmo da literatura) mas à semelhança daquelas nuances que notamos em produções britânicas ou francesas e que são facilmente identificáveis, este livro tem uma essência espanhola muito plena que é sentida desde a primeira página.
Começo esta opinião com esta reflexão porque acho que alguns leitores podem estranhar as primeiras páginas, quando não habituados ao estilo de narrativa, mas principalmente à presença do autor no livro, que talvez erradamente (porque esta é a minha estreia com ele, pelo que não tenho elemento comparativo) me parece ser muito presente. Por esse mesmo motivo, as primeiras páginas não me prenderam imediatamente. De facto, numa primeira análise, o meu objectivo era lê-lo e terminá-lo rapidamente porque Sylvain não tinha sido capaz de cativar a minha atenção. Até que se fez o clique, e terminei o livro numa única noite (e a perda de horas de sono não veio certamente por obrigação).
É verdade que a apresentação da narrativa por Sylvain transforma-a em algo morno, desconectado da realidade, com alusões que pouco dizem ao leitor, mas muito provavelmente por causa do seu sindroma de Peter Pan, como enunciado na sinopse. Os primeiros acontecimentos são algo desconexos, e vamo-nos apercebendo deles com as mudanças de cenário, com as alterações de personagens, sempre intercalados com pensamentos e reflexões de maior teor sobre as lembranças de momentos mais felizes e da fugidia Heike. Acompanham-me até aqui? Então continuem porque é a partir deste momento que o livro realmente passa a valer a pena (e merece ser lido só por isso!).
O encontro do manuscrito de Metodio traz a dinâmica em falta, o enlevo que nos embala e faz querer saber mais sobre aquelas personagens, e foi o que realmente me entusiasmou. Este encontro inusitado e não autorizado com a intimidade de alguém dotou de particulariedades a narrativa, especialmente ao abranger tantas personagens, ainda que fosse uma versão isolada de uma única personagem, devastando as suas memórias e carregando-as para o presente. Aliás, confesso que quando li as últimas frases desses excertos intercalados com a restante narrativa dei por mim a folhear rapidamente o livro à procura de mais. E se eu fiquei absorta por esta passagem dos anos por detrás do balcão de uma pastelaria por onde passaram várias gerações, também Sylvain se enternece e passa a reflectir de outra forma sobre si próprio, tornando até a sua vivência pessoal mais dinâmica, mais nítida aos nossos olhos e concreta também. A infância surge contada com clareza, a relação com a sua mãe é exposta e finalmente começamos a conhecer todas as personagens que o rodeiam, inclusive Heike (e não a versão saudosista que a personagem guarda para si). Para além disso, a relação com os vizinhos desperta outros segmentos do enredo que a tornaram tão mais interessante que a partir desse momento não fui capaz de largar o livro até o terminar. As personagens tornaram-se reais, as relações entre si desenvolveram-se em cadeia e acima de tudo, continuou a sentir-se a essência madrilena (com a descrição de lugares, de ofertas culturais, de tendências modernistas) que vincaram a diferença deste livro relativamente a tantos outros. Desta forma, percebe-se porque é que o livro já foi alvo de premiações: a estória é de facto banal, mas a sua composição narrativa é original e fora do comum.
O final é enternecedor e preenche-nos: ficou o gosto de querer mais, ainda que com a sensação que chegou no momento certo. E se não era muito fã do nome deste livro, aquele parágrafo final com um efeito de quebra-barreiras e de preconceitos calou-me. Foi sem dúvida interessante, surpreendeu-me e hei-de voltar a ele um dia certamente.

Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas e bookcrossing, a Cláudia ainda consegue estudar e fazer o seu mestrado enquanto lê nos transportes públicos. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado é tão fácil encontrá-la numa biblioteca como na Rota Jovem em Cascais. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quarta-feira, 12 de março de 2014

domingo, 9 de março de 2014

Vencedora: Passatempo Dia Internacional da Mulher

Boa tarde!

Ainda na comemoração do Dia Internacional da Mulher, aqui saem os resultados de mais um passatempo! Para os senhores distraídos, nós tínhamos dito que este passatempo era exclusivamente para as leitoras (apenas e somente no feminino)! Não se sintam discriminados porque, tal como prometemos, para o mês que vem surgirá um exclusivamente para vocês.

Sem mais demora, a vencedora deste passatempo foi a Norma Pita, de Chaves. Parabéns! 



Aos restantes, está ainda a decorrer o passatempo da Editorial Presença até dia 16, por isso apressem-se a concorrer para ganhar o exemplar de "Half Bad - Entre o Bem e o Mal" de Sally Green. É só carregar na faixa do lado direito.

sábado, 8 de março de 2014

Passatempo Especial Dia Internacional da Mulher

Caras Encruzilhadas,

Não quisemos deixar passar o dia de hoje em branco, e por isso aqui deixamo um miminho surpresa, relâmpago e que só estará disponível até à meia noite de hoje!

Fomos rebuscar as nossas estantes à procura de um livro para sorteio, e deparámo-nos com os dois primeiros volumes da trilogia "O Diário de Bridget Jones". Quem é que não conhece os filmes da rapariga com roupa interior à avó ou sopa azul para o jantar? De facto, esta é uma personagem feminina hilariante, e como tal, achámos que merecia destaque no dia de hoje. 


 Afinal, no meio de tanto desastre foi preserverante e encontrou o que procurava! O passatempo de hoje está reservado exclusivamente ao sexo feminino mas os senhores que não desesperem. Vamos ter no futuro um passatempo dedicado a si! Aqui primamos pela igualdade de género e não queremos discussões ;)

Vamos lá então às regras:
 Regras do Passatempo
1) O passatempo decorre até às 23h59 do dia 8 de Março de 2014.
2) Todos os dados solicitados (incluindo Nick de Seguidor) devem ser devidamente preenchidos e completos.
3) Só serão aceites uma participação por pessoa e morada, em todo o território português (Portugal Continental e Ilhas).
4) O/A vencedor/a será sorteado de forma aleatória (random.org), sendo o resultado anunciado na página do blog e o contacto efectuado por e-mail.
5) O Encruzilhadas Literárias não se responsabiliza pelo extravio ou danos causados pelos CTT nas encomendas enviadas.
6) Apenas mulheres poderão participar! :)


 

sexta-feira, 7 de março de 2014

Opinião: O Jogo de Ripper, de Isabel Allende





O Jogo de Ripper
 de Isabel Allende

Edição/reimpressão: 2014
Páginas: 400

Resumo:
Indiana e Amanda Jackson sempre se apoiaram uma à outra. No entanto, mãe e filha não poderiam ser mais diferentes. Indiana, uma bela terapeuta holística, valoriza a bondade e a liberdade de espírito. Há muito divorciada do pai de Amanda, resiste a comprometer-se em definitivo com qualquer um dos homens que a deseja: Alan, membro de uma família da elite de São Francisco, e Ryan, um enigmático ex-navy seal marcado pelos horrores da guerra.
Enquanto a mãe vê sempre o melhor nas pessoas, Amanda sente-se fascinada pelo lado obscuro da natureza humana. Brilhante e introvertida, a jovem é uma investigadora nata, viciada em livros policiais e em Ripper, um jogo de mistério online em que ela participa com outros adolescentes espalhados pelo mundo e com o avô, com quem mantém uma relação de estreita cumplicidade.
Quando uma série de crimes ocorre em São Francisco, os membros de Ripper encontram terreno para saírem das investigações virtuais, descobrindo, bem antes da polícia, a existência de uma ligação entre os crimes. No momento em que Indiana desaparece, o caso torna-se pessoal, e Amanda tentará deslindar o mistério antes que seja demasiado tarde.

 Rating: 3,8/5 

Opinião: Antes de comentar este livro, tenho de deixar o meu agradecimento à Porto Editora e dizer-vos o quanto tinha saudades de ler e sentir as texturas estruturais da escrita de Isabel Allende. Aqui há uns anos li no "A Soma dos Dias" que a autora tem uma superstição, e se não começar a escrever num dia específico, nesse ano não nascerá um livro. Calculo que a inspiração lhe tenha faltado em alguns 8 de Janeiro, e como tal fico feliz por finalmente ver mais uma obra desta autora chegar à luz do dia. Já agora,e ao verificar a nota dos agradecimentos, fiquei também a saber que a ideia deste livro resultou de uma ideia frustrada de escrever um policial a quatro mãos com o marido, o que justifica a originalidade do enredo e o seu registo tão pouco habitual, mas nem por isso menos surpreendente.

O meu contacto com o estilo riquíssimo de Allende remonta aos meus 14 anos, quando peguei pela primeira vez em "O Reino do Dragão de Ouro". Adorei aquela história juvenil e tão bem escrita e as aventuras de Alex, pelo que não foi difícil ficar a conhecer as restantes obras da autora, passando pela acção de Diego em  "Zorro" ou pela magia de Paula na "A Casa dos Espíritos". Em todos estes, assim como nos restantes, sentiu-se sempre a peculiaridade das personagens, a sua presença de um lado místico, o papel demarcado de cada um e as suas posições filosóficas com as transformações da vida.

Em "O Jogo de Ripper", nenhuma destas constantes fica a faltar, e se assim o fosse iria estranhar. De facto, e sendo tão céptica, gosto bastante desta presença do misticismo que Allende sempre impute aos seus livros, na lógica de valorização dos seres humanos, das suas relações com terceiros e do alcance da sua paz interior. Mas este não é sem dúvida um livro espiritualista ou com pouca acção, pelo que deixemos este lado de parte para prosseguirmos ao que interessa.

Desde as primeiras páginas que sabemos que este será um livro diferente. O constrangedor cenário que nos dá as boas-vindas a esta narrativa diz-nos que vamos avançar às apalpadelas num mundo desconhecido, mas que temos prazer em desvendar. Cada personagem é apresentada a par e passo, assim como as suas relações e vivências, o que permite que fiquemos a conhecer todos os dados disponíveis antes de nos tornar-nos em mais uma peça do jogo. Acredito que esse registo se tenha estendido um pouco para além do ideal ao início, mas mais tarde acabei por dar razão à escolha da autora, tendo servido para unir todas as pontas soltas deste mistério.

Mais uma vez a autora pega em personagens adolescentes (embora sem dúvida Amanda seja mimada e com comportamentos muito pouco adaptados à sua idade), ainda que esse não seja o seu enfoque principal, pelo que não senti um verdadeiro retracto da juventude nestas páginas. Ainda assim, Amanda e os seus colegas de Ripper deambulam entre uma vertente mais adulta e mais infantil, cheia de regras e secretismo, mas também lógica e sensatez, que nos faz querer seguir as suas aventuras.

No que refere aos adultos, Indiana é sem dúvida a personagem mais "Allendesca" e por isso tão acarinhada por todos, tanto personagens como leitores. É uma criança numa pele de mulher, vivendo de certa forma num mundo muito próprio, e daí a sua representação resultar sempre das explicações e vozes de terceiros. Poucas vezes surge como personagem principal, mas nunca abandona a trama por um minuto. Todos os amigos, clientes, admiradores e amantes que a seguem são personagens secundárias que se encaixam no seu universo, e desenvolvem uma componente multicor causada por este ser flutuante e cheio de boas intenções, que paira um pouco pela vida de todas elas.

Ainda assim, de quem gostei mais (também talvez por ser dos mais presentes e reais) foi de Blake, avô de Amanda, com o qual ainda gargalhei umas vezes. É uma personagem fácil de criar afeição, pragmática e que nos apresenta muitas das explicações que precisamos para continuar a narrativa.

Quanto aos grandes crimes e ao mistério que é revelado na sinopse, acho que é necessário que se mentalizem que este livro não é realmente um policial, ou um thriller, e como tal, mesmo com o toque de mistério e cenas algo macabras, a escrita da autora tornam-nas parte de uma história maior onde quem se destaca são as personagens. Ainda assim, criou um ou outro momento de maior tensão, especialmente perto do fim. Devo dizer que a determinada altura (e ainda a meio do livro) acabei por achar o desvendar algo previsível, depois fui baralhada por uma reviravolta, mas no fim acabou por se confirmar o que suspeitei. No entanto, não me senti em algum momento defraudada, dado que a conjugação dos factores que levaram a essa descoberta, tornaram o livro bastante empolgante.

Outro ponto a ressalvar é que de facto, e talvez porque já li vários livros dela, inclusive aqueles de índole mais biográfica, eu senti sempre a presença de Isabel Allende nesta narrativa, tal e qual uma personagem ausente de corpo, mas presente de espírito, que nos guiou por ideias filosóficas, pensamentos críticos, opiniões divagantes muito suas sobre determinados aspectos da condição humana  e uma linguagem muito humana e universal. Gosto que assim seja, já que um livro dela nunca seria igual de outra forma.

Por fim, e um dos motivos pelo qual não consigo dar o 4, existem alguns factores irrealistas, que na conjugação do enredo acabaram por passar despercebidos, mas que num livro que se tenta aproximar da vida real, acaba por criar uma dicotomia estranha. Só para dar um exemplo, que polícia partilha pormenores das suas investigações com a filha?

De resto, para todos os fãs da autora e para os que ainda se vão tornar, este é um livro a não perder.

Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas e bookcrossing, a Cláudia ainda consegue estudar e fazer o seu mestrado enquanto lê nos transportes públicos. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado é tão fácil encontrá-la numa biblioteca como na Rota Jovem em Cascais. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.