terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Opinião: Eu, Earl e a tal Miúda, de Jesse Andrews




Eu, o Earl e a tal Miúda
de Jesse Andrews
 
Edição/reimpressão: 2015 
Páginas: 304
Editor: Topseller
  



Resumo: 

O mais divertido livro sobre a morte que os jovens alguma vez vão ler.
Esta é a história criativa e comovente de Greg, um finalista do secundário cujo único objetivo é manter-se completamente anónimo e evitar quaisquer relações profundas.
Para ele, essa é a melhor estratégia de sobrevivência no verdadeiro campo de minas social que é a vida de um adolescente. Juntamente com Earl, Greg faz curtas-metragens parodiando filmes clássicos, o que os torna mais colegas de trabalho do que propriamente amigos.
Tudo corria bem até ao dia em que a mãe de Greg insiste com ele para passar algum tempo com Rachel, uma miúda da sua turma que acabou de ser diagnosticada com cancro. Lentamente, Greg descobre que um pouco de amizade não faz mal a ninguém.
Tão tocante quanto divertido, o livro de estreia de Jesse Andrews inspirou o filme aplaudido pela crítica e duplamente premiado no prestigiado Festival de Cinema de Sundance 2015. Uma história capaz de partir o coração sem roubar uma só gargalhada.

Rating: 2/5

Comentário: Eu, Earl e a Tal Miúda é aquele livro de que todos já ouvimos falar, que despertou mais ou menos interesse, e que a adaptação cinematográfica e um trailer bem conseguido acaba por despertar um enorme interesse sobre si.
Este foi pelo menos o meu percurso com este livro, que me despertou muitas expectativas, embora me tenha acabado por deixar algo desiliudida.
Quando dizem que este não é um livro sobre cancro, não o é mesmo, pelo que se esperam uma abordagem à lá "A Culpa é das Estrelas", talvez não seja uma boa aposta. Foi mesmo pela procura desse cunho original e da abordagem não focada mas que não ignora a doença que me fui aproximando deste livro. Ao fim ao cabo, é também o que a sinopse nos vende. Esta é certamente garantida pelas páginas da obra, embora com até alguma negligência. Rachel tem cancro, mas podia ter hepatite, esperar um transplante de coração ou até mudar-se para o Alasca. O que fica patente em todos os momentos é que esta se encontra a passar por uma fase fragilizada e que o seu desaparecimento do universo ao qual temos acesso acontecerá a qualquer instante. No entanto, ela quase que nunca está efetivamente presente, vivendo de referências de personagens secundárias que a transportam para o assunto principal e que ajudam a construir um puzzle, ainda que tangente, que abarque este lado da narrativa.
Greg e Earl são personagens peculiares também, muito adolescentes mas também caricaturas exageradas (embora não menos reais por isso), mas que infelizmente se esforçam tanto por fugir aos clichês e para serem modernos, que tendem a recair nas abordagens habituais do que é uma visão da adolescência por vezes um pouco rude, numa tentativa vã de se aproximar à realidade de uma forma bonacheirona e/ou diferente.
Ter o Greg como personagem principal trouxe um lado genuíno, onde sobressai o egocentrismo, a auto-depreciação constante e a desilusão com a vida como características típicas da adolescência, mas também uma série de mecanismos de defesa que reforçaram a necessidade constante de indiferença e de proteção com o mundo em geral e com o que pode causar mágoa. As suas diligências e a própria relação tanto com Earl como com Rachel são sinónimos deste comportamento.
No entanto, e na igual medida em que por vezes compreensão e paciência não chegam para lidar com jovens mais intensos, estar na mente deste personagem acabou por se tornar cansativo, aborrecido e irritante em igual medida, não existindo hipótese de fuga para o leitor. Os comentários depreciativos constantes sobre si e sobre o mundo deixam de ter piada após terem sido emitidos pelas quarta ou quinta vez, reforçando só a necessidade de despertar a atenção a este miúdo de que há mundo para lá dele mesmo e que a vida não acaba na escola ou em todas as situações que este considera embaraçosas ou potencialmente esmagadoras do equilíbrio de sobrevivência por si criado. E atendendo que todos os jovens passam por isto, acho que o ponto de discórdia passa pelo facto deste rapaz ter estado constantemente com um discurso demasiado irascível neste aspecto (a título de exemplo, enunciava a torto e a direito querer dar um murro na sua cara - que ele achava totalmente merecedor - por dá cá aquela palha). No meio disto tudo, não deixa de ser uma personagem algo plana e sem todas as nuances que poderiam ter tornado este livro muito bom. Do livro todo, destaco Earl, que poderia ter sido a personagem se melhor limado, com menos placidez no que respeita aos seus diálogos e postura, atendendo a todas as intervenções certeiras que fez.
Por outro lado, julgo que é válido referir que por vezes o simbolismo tem maior impacto e pode ser transformador. Esperava corroborar esta afirmação já perto do fim do livro, atendendo a uma iniciativa conjunta do Earl e do Greg, mas até essa ficou propositadamente distorcida (e embora percebendo a intenção do autor, tanto neste momento como ao longo de todo o livro, não consegui retirar prazer dessa sensação frustrada).
Por fim, julgo ser importante referir que o cunho da originalidade também se demonstrou pela forma de condução da narrativa, com várias nuances onde se incluía a escrita em versão de guião, e o livro em si, como se percebe pelas últimas páginas (embora essa descoberta só tenha tornado a leitura anterior um processo um pouco mais desgastante, irrealista e frustrante).
Embora conseguindo perceber o sucesso que está por detrás do livro, pela junção de vários componentes que até acabam por resultar no conjunto, Eu, Earl e a Tal Miúda acabou por não se revelar como o meu tipo de livros.

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Vencedores dos últimos passatempos!

Boa noite Encruzilhados/as!,

Como sabem, andamos a meio gás, pelo que os resultados dos nosso últimos passatempos só agora estão a vir à luz do dia.



Em sorteio no blog durante o mês passado tivemos 3 livros. "Hora Solene" de Nuno Nepomuceno é o fim da trilogia Freelancer e um livro que será certamente muito acarinhado pelos fãs do autor. Este exemplar já tem casa e será enviado para Celina Rodrigues, do Bombarral!



Com a Penguin Random House Portugal, tivemos em sorteio dois livros, "Pura Coincidência" de Renée Knight (Suma de Letras Portugal) e o caderno interativo "Vira a Página - Actividades para te livrares do teu Ex", de Rebecca Béltran (Arena PT). A grande vencedora foi Maria Martinho, de Caneças!

Aos que ainda não conseguiram desta vez, não desanimem. Podemos ter mais passatempos em breve!

Boas leituras (e toca a juntar estas sugestões às compras de Natal)!

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Opinião: Um Desejo por uma Estrela, Trisha Ashley



Um Desejo por uma Estrela
de Trisha Ashley
 
Edição/reimpressão: 2015 
Páginas: 468
Editor: Quinta Essência
  




Resumo: 
A vida de Cally, mãe solteira, gira em torno da filha Stella. Já se conformou com o facto de que o único romance que vai viver é o das comédias românticas a que assiste. Com o trabalho que a mantém bastante ocupada, e com a filha, não tem tempo para sequer pensar sobre o amor. Mas a vida torna-se bastante difícil quando Stella adoece. Tentar conciliar o seu trabalho como escritora de receitas com o ter cuidar de Stella é muito desgastante e, quando Cally conhece o belo pasteleiro Jago, a última coisa que quer é apaixonar-se, especialmente depois de ter ficado bastante escaldada com um Príncipe Encantado do seu passado. Conseguirá o descontraído e charmoso Jago abrir o coração gelado de Cally e ajudá-la a encontrar o verdadeiro amor?
Rating: 3/5

Comentário: A primeira vez que Trisha Ashley me passou pelas mãos, também foi na altura do Natal. "Noite de Reis" é dos livros de época natalícia mais enternecedores que já li até hoje e transpira o espírito da quadra por todas as páginas. Foi nessa busca por um momento de descontração aconchegante, festivo, docinho e bem recheado de momentos quentinhos que procurei por "Um Desejo por uma Estrela".
Este livro começa precisamente na quadra natalícia e julguei que fosse continuar nesse registo mas, e desculpem-me o pequeno spoiler,  foi e veio com tanta rapidez que quase que nem dei por ela. Fiquei um bocadinho contrita mas decidi dar-lhe uma oportunidade. Cally e Jago são sem dúvidas personagens simpáticas, daquelas a quem desejamos o melhor - não só porque a vida possa estar a ser ingrata com algum mas porque pessoas boas merecem coisas boas. A forma como estes se entrecruzam também tem a sua piada e construção da sua relação faz-se de forma natural e sem preâmbulos de paixões assolapadas, ganhando aqui pela originalidade. Faltava no entanto um desenvolvimento de personagens menos arrastado, porque algumas situações tornaram-se inverosímeis e até totalmente despropositadas, fazendo que a relação perdesse credibilidade durante a leitura e que o seu desfecho se tornasse desinteressante. Os clichês e as coincidências excessivas também trouxeram algum cansaço, pelo que poderiam ter sido melhor lapidados.
Outro dos pontos fortes de Trisha são as personagens secundárias, sempre múltiplas, sempre com acrescentos únicos para o enredo principal, numa colorida manta de retalhos que traz magia e (bem dito truque) distrai os/as leitores/as das falhas da narrativa principal. Há personagens deliciosas, desde o responsável religioso local, à senhora de idade que vive na casa de repouso. Todos são únicos e os rasgos de história e das suas estórias que acabam por brilham vários pontos da narrativa trazem um novo alento.
No entanto, o livro foi pautado por diálogos por vezes desenxabidos e forçados, que nada atribuíam ao enredo. A repetição constante também me começou a maçar a determinada altura. Já não podia mais ouvir falar de macarrons, e crouquembouches, que página sim página não eram referidos umas quatro ou cinco vezes.
Relativamente à gastronomia, ela está presente, mas não brilha nada apesar de ser constantemente falada. Parece um paradoxo mas não é. Os romances que geralmente abordam estas temáticas não devem tornar-se livros de culinária mas é importante que o amor pelos alimentos acabe por passar para o/a leitor/a e não sinto que tenha sido conseguido neste caso.
Ainda assim, a vila onde se localiza maioritariamente o enredo é deliciosa e cheia de peculiaridades, a Stella uma miúda amorosa (com muitas respostas e diálogos que nunca seriam atribuídos a uma miúda de 3 anos, mas ainda assim um doce) e todo o envolvimento da aldeia um doce para ser servido de bandeja no Natal.
E o Natal regressa à localidade!: aí sim, finalmente, vive-se o espírito de convívio, paz e união necessários para esta quadra. Feliz Natal a todos e a todas!

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Opinião: O Homem que Mordeu o Cão - Os Clássicos, de Nuno Markl


O Homem que Mordeu o Cão - Os Clássicos
de Nuno Markl
 
Edição/reimpressão: 2015 
Páginas: 334
Editor: Objetiva
  



Resumo: 
O Homem que Mordeu o Cão – Os Clássicos" é uma compilação das melhores histórias alguma vez publicadas em livro e de alguns textos inéditos.
O primeiro livro do Homem que Mordeu o Cão, publicado em 2002, já vendeu 160 mil exemplares. A rubrica da rádio comercial "O Homem que Mordeu o Cão" está no ar desde 1997 e tem uma legião de fãs incondicional e muito atenta.

Rating: 3/5

Comentário: Nos últimos dois anos, passei a acompanhar mais de perto o trabalho de Nuno Markl, devido ao programa matinal da Rádio Comercial. Acho-o com pinta, e com sentido de humor (especialmente quando não é forçado e tenta ser forçosamente engraçado), pelo que o programa no todo, e as crónicas do Homem Que Mordeu o Cão são um bálsamo (pelo menos) semanal para descontrair e aliviar o stress. Esta compilação corresponde às estórias mais mirabolantes, divertidas, insanas, caóticas, irreais e incompreensíveis que já passaram pel' O Homem Que Mordeu o Cão. Na verdade, e porque são registos do que nos é apresentado na rádio diariamente, é fácil ouvir a voz do Markl em todos os relatos, com as entoações acertadas, as cadências nos sítios certos, o que só torna tudo isto mais vívido quando as lemos. Quanto às crónicas escolhidas, não sei se serão as melhores para integrar os clássicos, até porque do bizarro vive a Internet diariamente e já não nos espantamos facilmente. Serviram para entreter de qualquer forma e enquadraram bem as várias categorias criadas. Os desbloqueadores de conversa são os que menos me fazem sentido, pelo que acho-os dispensáveis, mas pelo menos serviu-me como uma leitura noturna para descomprimir e curar uma noite de insónias.

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Opinião: Pura Coincidência, de Renee Knight



Pura Coincidência
de Renee Knight
 
Edição/reimpressão: 2015 
Páginas: 304
Editor: Suma de Letras 
  



Resumo: 
E se de repente se apercebesse de que é o protagonista do aterrador romance que está a ler? Catherine tem uma boa vida: goza de grande sucesso na profissão, é casada e tem um filho. Certa noite, encontra na sua mesa de cabeceira um livro com o título "O perfeito desconhecido". Não sabe como terá ido parar ao seu quarto ou quem o terá ali posto. Ainda assim, começa a lê-lo e rapidamente fica agarrada à história de suspense. Até que, depois ler várias páginas, chega a uma conclusão aterradora.
O perfeito desconhecido recria vividamente, sem esquecer o mais ínfimo detalhe, o fatídico dia em que Catherine ficou prisioneira de um segredo terrível. Um segredo que só mais uma pessoa conhecia. E essa pessoa está morta.

Rating: 3/5

Comentário: Não tenho por hábito ler muitos thrillers, talvez porque geralmente não me causam o grau de ansiedade e expectativa que as adaptações cinematográficas do género me costumam provocar. No entanto, gosto sempre de dar chance a novos autores e novas autoras, assim como deixar-me render por um género que nem sempre exploro da melhor forma. Basta a dose certa de personagens marcantes, mistério e a boa condução da acção para garantir que vou querer lê-lo até ao fim (especialmente se não desvendar o segredo do enredo antes).
Pura Coincidência é daqueles livros com uma sinopse intrigante que nos faz questionar o que é que virá na próxima página. A ideia de que podemos pegar num livro e um flash de reconhecimento passar por nós, indicando que conhecemos a vida a ser descrita - exactamente por ser a nossa - é particularmente estranho e peculiar, para além de algo arrepiante. Por esse motivo, não pude ignorar o pânico de Catherine, especialmente atendendo a que esta ainda carrega um segredo adicional, mas que continua incógnito para o leitor quase até ao fim.
O livro é narrado sob duas perspetivas, uma na voz da Catherine, tão presente e límpida que nos sentimos perto do seu drama e receios. A segunda voz é misteriosa, carregada de crueza e ódio, malvadez e avareza, desconhecida e pouco palpável, até se ir tornando corpórea à medida que a trama avança.
Essa dualidade de perspetivas ajudou a criar expectativas e dúvidas durante a leitura, nunca ficando muito claro sobre o que estava a ser discutido, mas principalmente quem estaria a dizer a verdade. É caso para assegurar que, em última instância, cada história pode ter mais do que uma versão...
Este acaba por ser um livro de redenção e de descoberta, de pazes com o passado e de libertação, de revelações sombrias e de reinvenção do ser humano, sob as suas diversas camadas.
Catherine acaba por ser uma mulher complicada, que não conseguimos perceber nem nos sentir a si ligados em nenhuma ocasião, especialmente porque apesar do sentimento de pânico por si sentido ser latente, os segredos que ela esconde do marido também ao leitor e à leitora são vedados, pelo que o olhar desconfiado nunca abandona a sua narrativa, ainda que um certo traço de compaixão, ou não fosse perceptível o sentido de desespero que dela emana. A sua relação com o marido e o filho é um pouco errática, confusa e não muito honesta, para ser franca, mas o mesmo se procede no sentido oposto.
Já o autor da segunda voz é ainda mais complexo, desconcertante e desconfortável de conviver de perto, pelo que não existe um momento em que como leitores e leitoras, nos sintamos perfeitamente confortáveis na presença de nenhum deles.
O desfecho deste enredo revela-nos o habitual volte face neste tipo de género literário, ainda que nunca me passou pela cabeça que o desenrolar dos acontecimentos tendessem naquela direção. Foi uma autêntica surpresa, e desta vez certamente não suspeitei de nada. Cumpre os requisitos de um livro do género, ainda que apesar de tudo não me tenha conseguido cativar a fundo (provavelmente devido a essa ausência de conexão com as personagens).

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.