Comentário: O tempo é e tem sido desde sempre um dos grandes mistérios da vida. Procuramos conhecer o passado e sonhar com o futuro, aprender com os que já viveram e conjunturar sobre as inovações que nos trarão os homens e mulheres de amanhã. A literatura nunca se esqueceu desta caixa de pandora, e a imortalização de "A Máquina do Tempo" de H. G. Wells é um exemplo disso, marcando toda uma corrente literária que tem vindo a explorar a temática sob as mais diversas formas. Claire North seguiu a tendência e trouxe-nos uma abordagem diferenciada à ideia da viagem no tempo. Harry August não se movimenta no espaço temporal segundo a sua vontade, mas num ritmo cíclico marcado por uma mesma origem e vivência, se assim por si determinada (pelo menos esta última, uma vez que a sua âncora é precisamente o acto do seu nascimento).
A sinopse já me tinha deixado curiosa por diversas vezes, pelo que fiquei entusiasmada com a publicação deste livro em Portugal. E não estava à espera de gostar tanto, mas acabei agradavelmente surpreendida.
O tempo está no centro da acção deste livro, mas o enredo vai muito além disso e centra-se principalmente na vida (ou vidas) de Harry August. É portanto um livro para apreciadores e contadores de histórias, centrando-se no percurso existencial desta personagem, que se revela bastante rica, complexa, humana e com uma sensibilidade especial, limada ao longo de todas as vidas derivadas da sua experiência.
Nascimento na década de 1920 e tendo uma esperança média de vida que invariavelmente garante a sua morte por volta de 1990, a personagem acaba por se inserir num contexto histórico bastante interessante, juntando elementos de ficção histórica com ficção científica, de uma forma bastante equilibrada e envolvente, que transforma um movimento cíclico num percurso mais interessante para o leitor.
Tratando-se de uma narrativa assente numa perpectiva singular, a estrutura do livro acaba por facilitar uma maior dinâmica, ao não nos ser apresentada uma versão linear da sua existência, intercalando acontecimentos e "vidas" consoante os assuntos de relevo a apontar, que se fundamentam com uma estrutura narrativa de base, que acompanha a acção principal, que acabará por ganhar uma maior força a partir do meio do livro.
Gostei especialmente da confluência de pequenas observações e elementos para a construção do puzzle final, para além dos registos filosóficos e de reflexão sobre as viagens do tempo e as suas implicações para a estrutura temporal. Por vezes, e ainda que seja um livro muito diferente dos que irei mencionar, senti alguns elementos que me relembraram de "O Mundo de Sofia" e "A Mulher do Viajante do Tempo". Acho que tem um pouco do espírito de ambos se atentarmos às análises frequentes sobre a representação e consequências destas viagens num sentido mais vasto (dando azo a pequenos momentos quase que filosóficos), mas também pela influência que várias personagens catalisadoras acabam por ter na construção da trama final e na "colagem" deste personagem de forma a que a sua identidade não se perca. A abordagem desta personagem ao passar do tempo é também bastante interessante, especialmente porque, se o leitor assim quiser e estiver com alguma atenção, conseguirá detectar pequenas reflexões que se adaptam ao nosso presente, acelerado, repentino e corrido, que por vezes não nos deixa com muito espaço para aproveitar experiências, consolidá-las e torná-las parte de nós.
Não obstante, em "As Primeiras Quinze Vidas de Harry August" contamos também com uma trama de mistério e acção, um exercício que pede para ser desvendado e que nos leva para um plano para além do conto do passado, puxando o leitor para o centro da movimentação e criando desejo de atingir o desfecho.
Acabou por ser uma abordagem diferente do que esperava, mas bastante completa, pormenorizada, e com poder de envolver o leitor na história de um homem que foi quinze diferentes e um só ao longo de 400 páginas.

Cláudia
Sobre a autora:
Maratonista
de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o
Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do
voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.