Comentário: "Um Mundo de Estranhos" foi a leitura de Fevereiro para o projecto
World Book Tour, que neste mês contemplou autores da África do Sul. Tendo sido escrito durante os primeiros anos do
apartheid, o mesmo esteve proibido no país em causa durante 12 anos.
Apanhando uma época tão preponderante na época de um país, seria impossível suplantar a temática da segregação racial, pelo que a autora esforçou-se por apresentar uma crítica social acutilante mas não centrada na temática de uma forma óbvia.
Toby é um
dandy, e comporta-se como tal, sendo despretensioso, despreocupado e capaz de se insinuar com facilidade em qualquer ambiente que lhe traga algum retorno que se prenda com a satisfação imediata. Age como alguém sem ligações com compromissos que não os meramente profissionais, muito em parte porque não quer ver-se restricto pelas convenções sociais que lhe são impostas moralmente e legalmente, mas também não pretende envolver-se na sua resolução, fugindo das expectactivas e esforços familiares e de estranhos para que se encaixe num grupo ou caracterização social. É nesse estado de espírito que acaba por se encontrar entre duas realidades, a do mundo elitista e caucasiano e os bairros sociais dos negros.
Parte de si encaixa em ambos, um na procura do conforto, outro no encontro intelectual e de sociabilidade, sendo que a sua consciência, ainda que pretensamente indiferente constantemente evidencia a diferença e a incapacidade de mesclar ambos universos.
A sua perspectiva acaba por trazer uma análise pessoal centrada nas crónicas de bons costumes, negligenciando uma análise mais externa do contexto social em que o enredo se insere, ficando este relatado pelo assinalar esporádico de certos momentos através de personagens externas. Pela sua despreocupação em considerar as suas acções, o leitor por vezes quase que se esquece do nível de perigo e insegurança em que se colocava esta personagem, uma vez que vencendo as convenções pela sua desconsideração, a personagem principal age como se elas não existissem, tendo de se confrontar com a realidade dos factos perante certas ocasiões que o relembram que lá porque este se posiciona numa abstenção forçada de consciencialização moral, o mundo continua a girar e as suas contristações estarão sempre presentes para o desafiar.
Atendendo a que o livro acompanha o quotidiano de um homem cujas preocupações diárias passam pelos eventos sociais a frequentar, não foi uma leitura tão profunda ou impactante quanto esperava. No entanto, o seu estilo é bastante refinado e dá um prazer enorme em ler, sendo que o segredo desta leitura reside em ler as entrelinhas e tudo o que não é dito.
Sobre o autor: "Prémio Nobel da Literatura 1991.
Escritora sul-africana, Nadine Gordimer nasceu a 20 de Novembro de 1923
em Springs, uma cidade mineira dos arredores de Joanesburgo. Filha de um
joalheiro judeu, vindo da Letónia e de uma cidadã britânica, obcecada
pela saúde da filha, estudou numa escola de orientação cristã.
Geralmente confinada em casa pelos cuidados da mãe, escreveu o seu
primeiro conto com apenas nove anos de idade e, continuando o seu
esforço literário, viu
Come Again Tomorrow, merecer publicação na
secção infantil da revista Forum cinco anos depois.
Matriculando-se na Universidade de Witwaterstrand, acabou por desistir
dos seus estudos ao fim de um ano, preferindo a escrita. Assim, em 1949
publicou o seu primeiro livro, uma colectânea de contos intitulada Face
To Face, e que revelavam as suas preocupações quanto à segregação racial
na sociedade sul-africana.
[...]
Continuando a explorar o tema dos direitos da maioria negra, Gordimer publicou
The Conservationist (1974),
romance em que propõe um contraste entre o mundo tradicional Zulu e o
devastador fluxo de industrialização conduzido pela etnia europeia.
The House Gun (1998) gira em torno do julgamento de um arquitecto, Duncan, que é acusado de ter assassinado o seu amigo Carl Jesperson. [...] Nadime Gordimer foi galardoada com o Prémio Nobel da Literatura em 1991.
Faleceu a 13 de julho de 2014, com 90 anos, na sua casa de Joanesburgo". Fonte:
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