domingo, 3 de setembro de 2017

Opinião: Corações de Pedra, de Simon Scarrow



Corações de Pedra
de 
 
Edição/reimpressão: 2017
Páginas: 417
Editor: Edições Saída de Emergência
  





Sinopse: 
1938: Três jovens vivem um verão perfeito na ilha grega de Lefkas, isolados dos problemas políticos que fervilham na Europa. Peter, de visita da Alemanha enquanto o pai lidera uma expedição arqueológica, desenvolveu uma forte amizade com Andreas e Eleni.
À medida que o mundo resvala para a tragédia e Peter é forçado a partir, os amigos juram encontrar-se de novo. 1943: Andreas e Eleni juntaram-se às forças da resistência contra a invasão alemã. Peter regressa - agora um oficial inimigo e espião perigoso. Uma amizade formada em paz irá transformar-se numa batalha desesperada entre inimigos dispostos a sacrificar tudo pelos países que amam…
 

Rating: 2/5
Comentário: Ninguém gosta de escrever opiniões sobre livros que não gostou tanto. Eu não sou diferente e por isso demorei alguns dias a trazer a opinião a "Corações de Pedra", de Simon Scarrow. Não que o livro seja mau, mas ia com expectativas completamente diferentes, especialmente insinuadas pela sinopse, e que foram completamente defraudadas.
No que respeita à trama, efectivamente temos um enquadramento e contexto histórico centrado na II Guerra Mundial, num país ocupado pelos países do Eixo. Gosto sempre destas análises de realidade ficcionadas à luz da História, e que demonstrem outros lados deste conflito bélico a nível mundial. A perspectiva da ocupação da Grécia foi bastante interessante, especialmente quando enquadrada com o contexto político local da altura, dando uma luz a um momento histórico para além da visão mais generalista.
Gostei também da abordagem do processo inicial de resistência por parte do exército grego, assim como das descrições a bordo de um submarino de guerra, que criaram momentos de acção bélicos cativantes para a atenção do leitor. Acho que existe todo um imaginário associado a lugares menos alcançáveis, nos quais se encaixaria um submarino. Acaba por ser uma visita guiada, ilustrada por momentos de actuação ao minuto.
O problema é que este plano narrativo estende-se para além do agradável e acabamos com uma série de momentos quotidianos de vida militar, seja ela resultante do pleno exercício do exército ou das forças de resistência no exterior. Tanta análise das forças militares poderia ser interessante, não fosse o facto de não ser essa a temática do livro, pelo menos em teoria.
É precisamente esse o meu problema com este livro. Há uma série de planos de acção que são referidos e inseridos na construção do livro mas que depois se perdem no panorama geral. Começamos com saltos temporais que não beneficiam em nada o enredo principal, e que poderia ter brilhado muito mais com a retirada desse plano mais moderno, que foi uma alavanca para a narração da história da História, mas que poderia ter sido conduzida tem a utilizar.
Seguidamente, a inserção de um suposto mistério que surge como insinuação nas primeiras páginas e só retorna muito posteriormente, só causa também, na minha opinião, ruído para a mente do leitor. Até porque ele não é senão um pretexto para facilitar a resolução de uma parte da trama mesmo nas últimas páginas.
Por outro lado, dou a mão à palmatória com a abordagem dos processos de resistência das populações locais, embora esta se baseasse somente numa forma de fundamentar o concretizar de alguns momentos para a narrativa principal, em vez de efectivamente valorizar as personagens apresentadas como pano de fundo.
Por fim, fiquei desiludida com a ligeireza com que foi tratada a dita amizade das três personagens, especialmente atendendo ao conflito de se nutrir sentimentos de amizade e confiança por alguém que num período temporal diferente se encontraria do outro lado da barricada. Esperava momentos de constrição e dúvida, de tentativa de racionalização de parte a parte para facilitar a compreensão do que ao seu olhar seria incompreensível. Isto deve-se ao ter achado desde o início que as relações interpessoais fossem bastante trabalhadas e este fosse um livro sobre pessoas e as suas histórias, e acabei por receber um livro de momentos de acção encadeados e com saltos geográficos algo constantes.
No fundo, a sensação premente que tive ao longo da narrativa - e que não faço ideia se será verídica ou não - foi que o autor tinha um final definido em mente e queria lá chegar, não sabendo algumas vezes como conduzir o processo e perdendo-se a meio. Mas também talvez se deva a ter tido as minhas expectativas defraudadas e ao não me ter conseguido adaptar à narrativa.
Ainda assim, se quiserem um livro com conteúdo militar (mas não exageradamente), forças de resistência, forças invasoras, histórias de passados distantes, pessoas interligadas por laços de afecto e antepassados, então dêem-lhe uma hipótese e contem-me depois qual a vossa reacção ao mesmo. Acredito que ainda poderão eventualmente sair-se surpreendidos, desde que não leiam a sinopse de todo para não vos estragar a experiência de leitura, como a mim.


 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Opinião: O Professor de Quéops, de Albert Salvadó



O Professor de Quéops
de 
 
Edição/reimpressão: 2003
Páginas: 203
Editor: Terramar
  





Sinopse: 
Eis uma história da época do faraó Sneferu e da rainha Heteferes, pais do futuro faraó Quéops (ou Khufu), que mandará construir a mais impressionante das pirâmides do Egipto. Mas trata-se também da história de Sedum, escravo que se tornará professor de Quéops. Ora foi precisamente com esta obra que Albert Salvadó - agora revelado ao público português - venceu o II Prémio Néstor Luján de Romance Histórico, em 1998.
Albert Salvadó demonstra ser senhor de uma notável capacidade efabuladora, sem nunca perder de vista a consistência de uma sólida infra-estrutura histórica. E, no entanto, este seu romance põe a nu toda uma trama narrativa, engenhosamente arquitectada, em que se sucedem os episódios dominados pela intriga e a conspiração, pelo amor e a paixão, pelo mistério e a aventura, e também pelo assassínio.

Rating: 3/5
Comentário: Albert Salvadó foi o único autor de Andorra que encontrei traduzido para o projecto "World Book Tour" e foi portanto a minha escolha para o mês de Maio.
Das várias escolhas disponíveis, optei por ler um livro ligeiro e pequenino, até porque foi um mês de mudanças a nível pessoal, e com pouco tempo para enveredar em leituras mais complicadas.
A expectativa cumpriu-se e o autor manteve um estilo ligeiro e corriqueiro numa história contada em jeito de conto e com bastante fluidez assim como rapidez narrativa. A sensação geral coincidiu mesmo com essa nuance, e não pude deixar de ler esta história com um enredo com um estilo narrativo semelhante ao aplicado quando contamos histórias a crianças. Ao longo das páginas vamos acompanhando a vida de Sedum, desde o seu nascimento até à sua morte, com vários saltos temporais e pouca profundidade e envolvimento emocional. Este personagem passará por várias etapas e desafios na sua vida, mediante o contacto que estabelece com diversas pessoas, algumas representando obstáculos à sua sobrevivência pacifica e bem intencionada, tão por si almejada. É uma típica história de triunfo da inteligência e bondade sobre a astúcia e ganância, com uma passagem de moral mais ou menos intencionada e transmitida tal e qual num cenário de fábula, com um herói sofredor e vitimizado pelo acaso, cuja sorte varia consoante as pessoas com que se cruza.
Naturalmente, passando-se no Antigo Egipto, não deixamos de ter contextualização social e comportamental que facilita a compreensão da realidade das personagens e o seguimento das suas histórias. Ainda assim, passam quase que despercebidas, de tal forma que retirando pequenos elementos, esta mesma história quase que poderia ter-se passado em qualquer contexto histórico.
Não será certamente um livro que me ficará na memória, mas não posso deixar de dizer que me diverti a lê-lo, nem que seja como elemento de descompressão (especialmente porque o comecei e terminei numa tarde em que estava extremamente cansada e a necessitar de desligar o cérebro da realidade por umas horas).

Sobre o autor: "Albert Salvadó (Andorra-a-Velha, 1 de fevereiro de 1951) é um escritor andorrano. Estudou engenharia industrial e escreveu contos infantis, ensaios e novelas.
Destaque para suas novelas históricas, onde mistura realidade, ficção e mistério. Suas obras foram publicadas em vários idiomas (catalão, castelhano, francês, português, grego, tcheco e outros) e ganhou numerosos prêmios. Entre eles: Prêmio Carlemany, Prêmio Fiter i Rossel do Círculo das Artes e das Letras, duas vezes o Prêmio Néstor Luján de novela histórica.", in Wikipedia

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Opinião: A Educação de Eleanor, de Gail Honeyman



A Educação de Eleanor
de 
 
Edição/reimpressão: 2017
Páginas: 328
Editor: Porto Editora
  





Sinopse: 
Eleanor Oliphant tem uma vida perfeitamente normal – ou assim quer acreditar. É uma mulher algo excêntrica e pouco dotada na arte da interação social, cuja vida solitária gira à volta de trabalho, vodca, refeições pré-cozinhadas e conversas telefónicas semanais com a mãe.

Porém, a rotina que tanto preza fica virada do avesso quando conhece Raymond – o técnico de informática do escritório onde trabalha, um homem trapalhão e com uma grande falta de maneiras – e ambos socorrem Sammy, um senhor de idade que perdeu os sentidos no meio da rua. A amizade entre os três acaba por trazer mais pessoas à vida de Eleanor e alargar os seus horizontes. E, com a ajuda de Raymond, ela começa a enfrentar a verdade que manteve escondida de si própria, sobre a sua vida e o seu passado, num processo penoso mas que lhe permitirá por fim abrir o coração.

Rating: 4/5
Comentário: Gail Honeyman esteve nas bocas do mundo no ano passado com o lançamento do livro "Eleanor Oliphant is Just Fine", agora editado em Portugal pela Porto Editora. Confesso que não percebia tantos galanteios ao livro, especialmente porque a sinopse me parecia repetida de uma história já muitas vezes contada. A inserção no enredo foi agradável, mas ainda assim não dispunha de uma enormidade ou genialidade que me fizesse ganhar toda essa afeição à narrativa. Até que me apercebi já presa e com desejo de que Eleanor ficasse, de facto, "just fine" (bem).
Ensinaram-me as aulas de sociologia no secundário a importância da convivência e dos nossos elementos de referência para a formação da nossa personalidade enquanto ser social. Por esse motivo, acompanhar a Eleanor foi um exercício premeditável mas ainda assim com capacidade de criar uma empatia enorme com esta mulher.
Sabendo de antemão que muitas das suas reacções se devem de facto à ineficiência das suas relações sociais, algumas interlocuções com o mundo dito exterior não deixam de ser algo cómicas. É impossível não nos rirmos de alguns dos devaneios desta mulher, sem no entanto evitar que depois surja algum remorso de culpa, por nos lembrarmos enquanto leitores como é que esta mulher chegou a este estado propenso a fragilidades e alguma incompreensão por parte do mundo exterior.
Mas é também no seguimento da narrativa que vamos descobrindo que Eleanor é muito mais do que uma mulher só, que a personagem que está montada e a sustenta há muitos anos é tão frágil como as dores internas que carrega consigo, e que estamos presente uma mulher com uma enorme necessidade de amor, embora nem esta o saiba.
É através das pequenas surpresas que um momento inesperado trará, entrecruzadas numa cadeia de encadeamentos improváveis mas com enorme significado, que Eleanor se lembrará da importância do calor das relações humanas e do quanto este pode ser reconfortante.
É também a partir deste ponto que vamos tendo acesso à mulher por detrás da persona, e que o discurso narrativo também sofre a sua transformação, quase como se toda a análise prévia servisse como enorme introdução a este momento de desenvolvimento. A partir daqui é impossível desligar-nos desta personagem e desejar-lhe o melhor com todas as nossas forças, mesmo que esta não seja sempre a companhia mais agradável. E são os pequenos actos de bondade de estranhos, que a acolhem como um elemento pertencente ao  seu ciclo de relações que acabam de certa forma por fazer brilhar, por contraste, toda a realidade eminente a destruturar-se e uma representação construida num castelo de cartas a ruir.
A dor da personagem é pulsante, estamos com ela e vivemos com ela os momentos de encontro e confronto entre a realidade e o mundo por si idealizado.  É também neste momento que se dá uma pequena reviravolta, a qual não vou relatar para não vos estragar a surpresa. Até porque esse é o elemento-chave de todo o processo de construção desta personagem: o poder de submissão que os relacionamentos tóxicos podem causar no ser humano. A forma como este fio narrativo é conduzido, de forma sub-reptícia mas sempre constante, levantou-me algumas questões ao longo da narrativa e não foram poucas as vezes que desejei que ela se libertasse. Só não tinha noção de quão grande era a prisão de Eleanor.
Por todos estes momentos, "A Educação de Eleanor" revelou-se um livro mais surpreendente do que inicialmente esperava, sem quaisquer pretensões ou moralismos, mas com uma história muito humana, e cheia de esperança.


 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Opinião: O Grito do Corvo, de Sandra Carvalho



 
O Grito do Corvo
de Sandra Carvalho
 
Edição/reimpressão: 2017
Páginas: 256
Editor: Editorial Presença
  




Sinopse: 
Os piratas do Rouxinol veem-se cada vez mais longe de saquear o ouro da galé castelhana Niña del Mar devido aos estragos causados pela violenta tempestade que se abateu sobre o barinel. A descoberta da identidade de Leonor faz com que Corvo queira regressar de imediato aos Açores, para entregá-la à guarda do pai. Porém, a tripulação discorda e o caos instala-se a bordo. O que Leonor mais deseja é lutar ao lado dos companheiros e recuperar a confiança de Corvo. No entanto, Tomás Rebelo continua a precisar dela para alcançar o propósito funesto que o levou a assenhorear-se de Águas Santas. Conseguirá Leonor chegar incólume à misteriosa ilha das Flores, conhecer o Açor e abraçar a irmã, ou acabará abandonada por Corvo, à mercê dos caprichos do abominável Tomás Rebelo?

Rating: 4/5
Comentário: Fiquei super contente quando soube que o volume final da trilogia "Crónicas da Terra e do Mar" seria publicado em plena época da Feira do Livro de Lisboa. O segundo volume tinha saído em Abril e despertado a curiosidade dos leitores e leitoras para o desfecho que se avizinhava. De facto, as últimas páginas do volume anterior deixaram uma série de sequências narrativas em aberto e com a promessa de ser exploradas, e foram estas as que mais captaram a minha atenção desde as primeiras páginas.
Desvendo o segredo que as encobertou durante grande parte da narrativa Leo e Guida vêem-se expostas a novos desafios e aventuras, junto aos companheiros de sempre, mas com outra visão sobre o seu posicionamento a bordo. A promessa de aventura não foi esquecida e a autora contemplou os leitores com mais cenas agitadas e perfeitamente enquadradas no enquadramento prévio. Guida mostra-se preocupada com a amiga, Leo mostra-se continuadamente guerreira e corajosa (em todas as frentes) e o mundo místico ganha força novamente e debruça-se sobre vários acontecimentos mais ou menos improváveis.
Não posso dizer que tenha ficado excepcionalmente surpreendida com este último volume (com a excepção de um ou outro momento), mas correspondeu totalmente às minhas expectativas e ao desfecho quem julgo, muitos leitores também esperavam.
Tendo esta trilogia sido a minha estreia com a autora, não tenho como pautar notas comparativas perante os os seus outros trabalhos, mas posso confessar-me agradavemente surpreendida. Com uma linguagem corrente, mas o mais adequada possível ao tempo histórico mas também ao público-alvo, Sandra Carvalho traz-nos diálogos vívidos, cenas descritas com classe e pormenor quando este é necessário, uma teia de enredos perfeitamente encadeados e todos com o seu desfecho merecido.
Confesso que esperava algo mais quanto à questão do Tomás Rebelo, que me pareceu facilmente resolvida perante tamanhas patranhas já por si executadas. Ainda assim, a forma como esse momento foi desenvolvido foi também credível, permitindo dar continuidade à história onde esta ainda tinha o que explorar.
Os Açores, finalmente alcançados, trouxeram a paisagem verde e o rebuliço de uma comunidade local próspera e capaz, conduzida por prescritos e piratas que a tornaram no paraíso almejado por muitos. As descrições, ainda que breves, permitiram que mesmo os que nunca pisaram terrenos vulcânicos e areias sedimentares pudessem sentir-se próximos das paisagens já vistas em postais e fotografias.
Por outro lado, a evolução das personagens perfez uma condução suave que permitiu o desenvencilhar de vários nós e a colocação de sementinhas para novas aventuras. A verdade é que, não sabendo se outra história neste universo pode ou não estar a caminho, a intenção da autora não passou certamente despercebida aos seus mais fiéis fãs, que estão tão ou mais curiosos do que eu.
O que também não passou despercebido foi a mensagem preliminar de cada uma das capas, assim como dos títulos selecionados, todos com muita intenção, e bastará que percam alguns segundos a analisá-las, que depois de terminarem a história concordarão comigo!
Foi um livro que me deu imenso prazer ler, tanto que o terminei em dois dias. É leitura perfeita para o verão: fresca, leve, desconstraída e enredo envolvente, totalmente apropriada para a praia ou jardim.
Fiquei agradavelmente surpreendida com o trabalho da autora, e vou estar atenta aos próximos trabalhos da mesma.
Resta-me somente agradecer à Sandra Carvalho e à Editorial Presença o carinho com que este volume foi enviado e esperar que o mesmo chegue a muitos leitores e leitoras este Verão!

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Opinião: Viajante à Luz da Lua, de Antal Szerb



 
Viajante à Luz da Lua
de 
 
Edição/reimpressão: 2017
Páginas: 272
Editor: Guerra e Paz
  




Sinopse: 
Mihály, um homem de negócios de Budapeste, vai passar a lua-de-mel em Itália com a mulher, Erzsi. Os problemas começam na primeira paragem, Veneza, mas é em Ravena que um antigo amigo de Mihály perturba o casal com histórias do passado. Ao perder o comboio para Roma, Mihály foge da mulher e vagueia pelo país, numa viagem de autodescoberta. Dividido entre o desejo e o dever, o que quer e o que os outros esperam de si, a boémia da adolescência e as responsabilidades de adulto, Mihály reencontra os seus fantasmas e questiona o sentido da vida.
Amor e morte cruzam-se neste romance trágico cómico de 1937, uma obra-prima do húngaro Antal Szerb, traduzida em diversos países, e que chega finalmente a Portugal.
 
Rating: 3,5/5
Comentário: Antal Szerb nasceu em 1901 em Budapeste, filho de pais judeus, e foi morto num campo de concentração em 1945. Tinha 43 anos, e contabilizava entre os seus feitos a nomeação como Presidente da Academia Literária Húngara e vários romances publicados, para além de ter ganho duas vezes o prémio Baumgarte. "Viajante à Luz da Lua" foi publicado em 1937. 
Fiz esta breve introdução com a intenção de enquadrar esta obra, já que nada nela faz enunciar a época em que se insere. Esta é uma obra pessoal, de consciência, de análise dos sentimentos que nos regem e dos valores e sonhos que nos movem. É uma reflexão sublime sobre a importância da lealdade, da responsabilidade perante os nossos pares, sobre o quando o nosso passado e as nossas experiências nos definem ou influenciam. 
Mihály é um adolescente no corpo de um homem adulto, que se rege pela vivência de juventude perdida para reger as suas decisões. É também, embora não surja directamente escancarado no texto, alguém que sofre de depressão e que lida com períodos de incapacidade atrozes que o submetem ao seu mundo demonizado e introspectivo. É esta a personagem que nos guia por estas páginas numa viagem que não passa tanto pela Itália real como pela da sua percepção sensorial. O encontro com personagens e elementos do seu passado são não menos do que projecções que secundam o seu trajecto psicológico e íntimo do encontro do ser entre a persona que povoa e se representa nestas páginas para o mundo exterior e aquela que habita o seu íntimo. 
O desaforo de lhe ser desconhecido o desfecho de algumas personagens que o acompanharam durante um período particularmente prolífero da sua vida, e a forma como ele reflecte essa angústia e acontecimentos nas decisões mais ou menos impulsivas que vai tomando. 
Não é sempre fácil acompanhar a viagem mental de Mihály ou compreender (ou querer conviver) com as suas escolhas, e alguns comportamentos poderiam ser incompreensíveis se não nos recordássemos de se tratar de uma narrativa de época. Ainda assim, as nuances nem sempre claras do seu intento que surgem por meias palavras e subterfúgios, os dilemas que povoam a sua mente e não declarados senão no momento que a personagem ocorre tornar oportuno, acaba por tornar esta viagem um enigma a ser desvendado. 
Julgo ser a minha estreia com a literatura húngara e futuramente gostaria de ingressar em leituras de outros autores locais, possivelmente com uma maior reflexão sobre o contexto sociocultural do país.                                  

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.