quarta-feira, 2 de maio de 2018

Porto Editora na Feira do Livro: Primeiras Novidades

 Os 20 anos do Nobel de Saramago, lançamentos de livros, atividades para toda a família e workshops são alguns dos destaques do espaço Autores Que Nos Unem


  
O Grupo Porto Editora volta a marcar presença em mais uma edição da Feira do Livro de Lisboa que, este ano, decorre de 25 de maio a 13 de junho, no Parque Eduardo VII.

 A preparação decorre há vários meses e são muitos os autores convidados para este encontro anual com os leitores, sob o mote Autores Que Nos Unem . Lançamentos, sessões de autógrafos, atividades para crianças, tertúlias, showcookings , workshops e várias outras ações vão, tal como nas edições anteriores, levar milhares de leitores ao espaço Autores Que Nos Unem para conhecer os seus escritores portugueses e estrangeiros de eleição e celebrar o livro e a leitura.

 A programação será divulgada ao longo das próximas semanas através do site www.autoresquenosunem.pt , redes sociais e outros meios.

 Para celebrar os 20 anos da atribuição do Nobel da Literatura a José Saramago , o espaço Autores que nos Unem vai ser palco de várias iniciativas e terá um pavilhão especial dedicado ao autor e à sua obra.

 Os leitores que visitarem o espaço Autores Que Nos Unem vão encontrar vários escritores portugueses, entre eles os que estão agora a lançar os seus livros mais recentes: Mário de Carvalho ( Burgueses somos nós todos ou ainda menos ), Richard Zimler ( Maria e Danilo e o Mágico Perdido ) e Jacinto Lucas Pires ( A gargalhada de Augusto Reis ) são alguns dos exemplos. Os visitantes vão também poder conhecer as novas obras e coleções da renovada Sextante Editora , que surgirá já este mês para uma nova década de bons livros. 

 No dia 4 de junho, o mestre espiritual brasileiro, Sri Prem Baba , estará na Feira para lançar Propósito e, a 13 de junho, será apresentada a obra António Variações: Entre Braga e Nova Iorque , assinada por Manuela Gonzaga .

Outras inicitivas:
  • Revisitação ao Caderno Diário da Memória com Mário Augusto (26 de maio e 2 de junho);
  • Sessão prática de Shinrin-Yoku (banhos de floresta), orientada por Alex Gesse, guia certificado da Shinrin Yoku Portugal (27 de maio);
  • Sérgio Godinho , José Riço Direitinho e Filipa Melo falam sobre Sexo na literatura , com destaque para as suas obras recentes dos autores (31 de maio);
  • Passeio noturno pela Lisboa desconhecida e insólita , guiado pelo autor, Anísio Franco (1 de junho);
  • O Poder dos seus gestos , workshop com a autora, Irina Golovanova (2 de junho);
  • Descãoplicar , ação pet friendly com o autor, Pedro Emanuel Paiva (10 de junho);
  • Evocação a Aquilino Ribeiro, com o lançamento de uma nova edição de Cinco Réis de Gente (10 de junho);
  • Sessões infantis com Luísa Ducla Soares (27 de maio e 2 de junho) e Álvaro Magalhães (3 de junho).

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Opinião: Reino de Feras, de Gin Phillips



Reino de Feras
de Gin Phillips

 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas: 272
Editor: Suma de Letras Portugal
  


Sinopse: 
Lincoln é um bom menino. Aos quatro anos, é curioso, inteligente e bem-comportado. Lincoln faz o que a mãe diz e sabe quais são as regras.
«As regras hoje são diferentes. As regras são que temos de nos esconder e não deixar que o homem da pistola nos encontre.»
Quando um dia comum no Jardim Zoológico se transforma num pesadelo, Joan fica presa com o seu querido filho. tem de reunir todas as suas forças, encontrar a coragem oculta e proteger Lincoln a todo o custo – mesmo que isso signifique cruzar a linha entre o certo e o errado, entre a humanidade e o instinto animal.
É uma linha que nenhum de nós jamais sonharia cruzar.
Mas, por vezes, as regras são diferentes.
Um passeio de emoção magistral e uma exploração da maternidade em si – desde os ternos momentos de graça até ao poder selvagem. Reino de Feras questiona onde se encontra o limite entre o instinto animal para sobreviver e o dever humano de proteger os outros. Por quem deve uma mãe arriscar a sua vida?

Rating: 3/5
Comentário: Este livro é daqueles que têm como função dividir águas e grupos, com muitas opiniões diversificadas, o que para um primeiro romance para adultos (a autora é maioritariamente conhecida pelos seus livros infantis) é o melhor chamariz possível.
Depois de ter tido a oportunidade de o discutir com leitoras bem mais rápidas do que eu, tive curiosidade de saber o que esta leitura faria por mim, mesmo sabendo de antemão um ou outro pormenor.
Como enuncia a sinopse, Joan encontra-se no Jardim Zoológico com o seu filho Lincoln, quando se depara com o inesperado e se vê obrigada a esconder-se para proteger a sua vida e a do seu filho.
Com a infeliz frequência com que se vão sucedendo casos de tiroteios e sequestro pelos Estados Unidos, Gin Phillips poderia dar-nos uma visão resultante de uma fórmula que continua a ser frequente mas ainda assim aterradora. No entanto, vai mais longe e enuncia-nos uma caçada inexplicável e incoerente, que me relembrou o massacre de Anders Behring Breivik na Noruega em 2001. As razões do mesmo não são muito exploradas para além de umas breves nuances em jeito de explicação, mas cumprem o propósito de denotar que existe uma multiplicidade na perversidade alheia, que não se termina nos casos mais conhecidos; até porque também o fanatismo tem várias tonalidades de cinzento.
O cenário seleccionado é precisamente alvo dessa intenção premeditada e através de alguns momentos onde a abordagem se direcciona para um dos atiradores, conseguimos ter acesso a essa alegoria.
De qualquer forma, precisamente por se tratar de um jardim zoológico, senti que faltavam duas coisas: a primeira passa pela criação de um desenho esquemático em género de planta do Zoo, porque nem sempre foi fácil construir uma imagem mental para as deslocações dos personagens. Do ponto de vista do próprio espaço, a narrativa é pautada por muitos silêncios. Embora seja explicado em parte o motivo dessa ausência de ruído, estando num lugar repleto de animais, seria de esperar que uma situação avessa causasse não só um enorme impacto nos bichos, como estes se tornassem também imprevisíveis e mais um elemento de perigo.
A abordagem narrativa leva-nos em várias direcções, ao termos como companhia não só Joan e o seu filho, como um dos assassinos e algumas personagens secundárias. Estes permitiram que fosse tendo acesso a outros elementos da acção, de forma a compor um cenário mais exigente do que as narrativas individuais transmitiam ao longo da leitura.
Por falar em ritmo narrativo, admito que para os habitué no mundo do thriller este romance possa não parecer muito dinâmico, já que são somente dois ou três elementos a pontuar os momentos de maior acção, que nunca chega a ser verdadeiramente vertiginosa. Ainda assim, a acção faz sentido, o contexto está explicado e existe capacidade de encaixe e curiosidade para perceber o desvendar do conflito.
Relativamente às personagens, nem Joan nem o filho são companhias fáceis de suportar, ele porque sendo criança tem necessidades constantes, ela porque nem sempre é a mais inteligente nas decisões que toma. Ainda assim, é o facto de passarmos o tempo maioritariamente com eles que evidencia o real ponto forte da narrativa: o poder do amor maternal e todas as vertiginosas correntes que ele acarreta. Talvez esse amor não se evidencie tanto pelas acções mas pelas considerações que a personagem vai fazendo sobre o seu papel enquanto mãe e o crescimento do filho, quase que numa lembrança constante de que aquele menino terá de sair vivo daquela situação porque tem muito por viver e desenvolver.                           
É aqui que surge a controvérsia, por duas ou três decisões tomadas pela personagem. Posso dizer-vos que todas pessoas que são mães com quem falei deste momento, torceram o nariz à credibilidade do enredo e questionaram se a autora seria mãe na vida real. Não tendo acesso a essa informação, e não sabendo portanto se é isso que nos divide, uma vez que não tenho filhos também, a verdade é que uma das acções de Joan, por muito que chocante ao início (e algo que eu julgo nunca ser capaz de fazer), acabou por fazer sentido: a verdade é que o acompanhamento do raciocínio dela tornou-a plausível, especialmente porque também a personagem não está em paz com o seu comportamento, e isso em parte"desculpa-a".
Quanto à representação do mal, a análise das motivações primordiais deste grupo é algo fugidia para permitir grandes considerações, mas o tipo de discurso do elemento com o qual temos contacto, levou-me a crer que talvez se tratasse de alguém com algum défice de aprendizagem, o que traria uma abordagem bastante interessante sobre o perigo de reunir vários elementos explosivos no mesmo cocktail (especialmente pela capacidade de manipulação e promoção da maldade por parte do mundo exterior) .
O desfecho não foi surpreendente, mas cumpriu o seu propósito na totalidade. Algumas pontas são deixadas soltas ou por resolver, o que no contexto de um livro não traz grande nível de satisfação para o leitor. Da minha parte, tendo estado maioritariamente no papel de Joan, porque esta é a companhia mais regular da narrativa, optei por considerar que o facto desta decorrer ao momento, fez com que a personagem tivesse exactamente as mesmas dúvidas, as quais só veria esclarecidas posteriormente ao último momento do livro.
No geral, não é de todo um romance de ritmo acelerado. Muitas das situações relatadas foram provocadas de forma algo incisiva somente para que se pudessem desencadear os elementos perfeitos de uma perseguição de risco, levando o leitor sempre a crer que na ausência de uma decisão pouco inteligente, talvez nenhuma das personagens como potenciais vítimas fosse ameaçada.
Ainda assim, o facto que os pormenores estarem lá (mesmo que mais ou menos explorados), da escrita ser fluente e estar estruturada de forma interessante, leva-me a crer que Gin Phillips poderá trabalhar melhor os seus pontos fracos e trazer-nos um thriller em cheio muito em breve. Li-o em dois dias e quis muito conhecer o desfecho desta história. Podendo não ser o que os fãs do género procuram, é uma boa porta de entrada para leigos e curiosos do thriller.

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

sábado, 31 de março de 2018

Opinião: Boneca de Trapos, de Daniel Cole



Boneca de Trapos
de Daniel Cole

 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas: 472
Editor: Suma de Letras Portugal
  




Sinopse: 
O teu nome está na lista. Conseguirás salvar-te?

William Fawkes, um controverso detetive conhecido por «Wolf», acabou de ser reintegrado no seu posto após ter sido suspenso por agressão a um suspeito. Ainda sob avaliação psicológica, Fawkes regressa ao ativo, ansioso por um caso importante. se encontra com a sua antiga colega e amiga, a inspetora Emily Baxter, num local de crime, tem a certeza de que é aquele o grande caso: o corpo que encontram é formado pelos membros de seis vítimas, suturados de modo a formar uma marioneta, que ficou conhecida como «Boneca de Trapos». Fawkes é incumbido de identificar as seis vítimas, mas tudo se complica quando a sua ex-mulher, que é repórter, recebe uma carta anónima com fotografias do local do crime, acompanhada de uma lista na qual constam os nomes de seis pessoas e as datas em que o homicida tenciona assassiná-las. O último nome da lista é o de Fawkes. A sentença de morte com data marcada desperta as memórias mais sombrias de Wolf. O detetive teme que os assassinatos tenham mais a ver com ele — e com o seu passado — do que qualquer um possa imaginar.

 

Rating: 4/5
Comentário: Todos sabem que a melhor parte dos policiais e dos thrillers é a tensão crescente e a necessidade de adivinhar o que é que vai acontecer a seguir. É por isso que os leio pouco, nunca aguento e fico maluca enquanto os leio. Adoro assistir séries e filmes do género, mas é certo que uma vez ou outra escondo a cara entre os dedos em antecipação. É uma tontice, mas que uma leitura impossibilita porque temos de ler todas as linhas para que o enredo faça sentido. Isso não me impede de gostar do género, e de tanto em tanto tempo seleccionar uma história para descobrir.
Daniel Cole trabalhou na produção de séries de acção e policial como 24 e como tal, é perito em reunir os ingredientes necessários para criar uma trama que prenda o leitor. Mas também sem esquecer que as personagens devem ser carismáticas e que algumas deverão ter o condão de nos pautar com muito momentos humorísticos, mesmo que de humor negro, como acontece neste livro.
Julgo que foi fácil para o autor reunir todos estes ingredientes, porque de facto dei por mim por diversas vezes a visualizar a acção como num episódio televisivo.
Daniel Cole fornece-nos uma personagem principal com os seus próprios mistérios, várias personagens secundárias com protagonismo e histórias individuais (o que num enredo de um policial nem sempre é fácil de surgir, assim como de manter o equilíbrio) fornecidas em pequenos pormenores que abrem o apetite para saber mais, e um criminoso que parece sempre estar à frente do departamento da polícia e do leitor.
Os crimes são desenhados com mestria e surpresa e não dão indícios ao leitor de que os mesmos irão acontecer e no formato em causa. Por outro lado, um ponto alto deste livro para mim passa pela descrição dos crimes e dos actos do criminoso. São claros, bem distintos, mas sem excesso de pormenores e imagens gráficas, as quais eu dispenso de sobremaneira.
É bastante claro, desde início, que existe uma relação entre o momento inicial narrado e o caso que está a ser discutido posteriormente e que dá nome ao livro, e este quebra-cabeças acompanha o leitor e fá-lo tentar descortinar pistas ao longo de cada momento da narrativa.
Adorei a interacção das personagens, as piadas sarcásticas, a acção interrupta e o estilo corriqueiro que fizeram as páginas voar a um ritmo acelerado.
O desfecho é completamente inesperado e alguns pontos causaram estranheza, que se explica por este ser o primeiro livro de uma série, com elementos a serem explorados em próximos volumes.
No total, destaco principalmente esta equipa de polícias que para mim foi o ponto forte da narrativa, mais até do que o crime em causa, e cuja estrutura se assemelha mesmo à das séries televisivas.
Vou estar atenta aos próximos livros e desafios de Wolf, até porque gostaria de saber qual o ponto de partida de um próximo volume atendendo ao desfecho de "Boneca de Trapos".

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

terça-feira, 6 de março de 2018

Opinio: A Arte Subtil de Saber Dizer Que Se F*da, de Mark Manson



A Arte Subtil de Saber Dizer Que Se F*da
de Mark Manson

 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas: 208
Editor: Desassossego
  


Sinopse: 
Uma abordagem que nos desafia os instintos e nos força a questionar tudo o que sabemos sobre a vida
Durante décadas convenceram-nos de que o pensamento positivo era a chave para uma vida rica e feliz. Mas esses dias chegaram ao fim. Que se f*da o pensamento positivo! Mark Manson acredita que a sociedade está contaminada por grandes doses de treta e de expectativas ilusórias em relação a nós próprios e ao mundo.
Recorrendo a um estilo brutalmente honesto, Manson mostra-nos que o caminho para melhorar a nossa vida requer aprender a lidar com a adversidade. Aconselha-nos a conhecer os nossos limites e a aceitá-los, pois no momento em que reconhecemos os nossos receios, falhas e incertezas, podemos começar a enfrentar as verdades dolorosas e a focar-nos no que realmente importa.
Recheado de humor e experiências de vida, A Arte Subtil De Saber Dizer Que Se F*da é o soco no estômago que as novas gerações precisam para não se perderem num mundo cada vez mais fútil.

Rating: 3/5
Comentário: Quem já nos acompanha há uns tempos, sabe que não tenho por hábito ler livros de auto-ajuda e/ou desenvolvimento pessoal; mas este título sobressaiu no meio das novidades editoriais do início do ano e achei que era uma lufada de ar fresco necessária no que tocava ao meu panorama de leituras.
De qualquer forma, não acho que este livro de Mark Manson se encaixe verdadeiramente em nenhuma destes géneros. Isto porque o autor nos apresenta, acima de tudo, o que é a sua visão do mundo e o que fazer para enfrentá-lo, visão essa que advém (embora o mesmo se tenha especializado no assunto através do ganho de competências ao longo dos anos a escrever colunas sobre a temática) de uma base empírica, e que como tal, pouco ou nenhum fundamento científico tem. Mas também sou apologista que na maioria dos casos, não são os estudos ou as intervenções científicas que se adaptam melhor às nossas necessidades do dia a dia, mas os mecanismos de resposta que vamos adquirindo através da experiência e das coisas que nos correm melhor ou pior. Dito isto, é a partir deste pressuposto que o autor nos apresenta um conjunto de acções/ projecções de vida por si adquiridas e que, fazendo-lhe sentido e tendo-lhe trazido um maior nível de bem-estar, este decide partilhá-lhas connosco.
Não há como começar a escrever sobre elas sem referir o título. Quando o vi em português, quis ir descobrir o original (já que sabemos que as traduções nunca são fáceis, especialmente pela impossibilidade literal de comportar os mesmos significados e intenções para um público socio- culturalmente diferente). A aproximação entre ambos está deliciosa, embora no fundo não compreenda o alcance que o autor lhe quis transmitir. Se a expressão "que se f*da" se prende mais com a intenção de embora pesando as consequências e as responsabilidades dos nossos pensamentos e acções, decidimos avançar, pensando que logo se vê no que é que vai dar (e mandando-as para trás das costas), verbalizar um "not giving a f*ck", transmite mais a ideia de que as coisas deixam, efectivamente, de ter importância (isto, claro, no meu entender). Ainda assim, ambos cumprem o propósito de chamar a atenção do leitor para a necessidade de equacionar o que é que anda a fazer e quanto tempo perde preocupado com coisas que, a acontecer, não merecem o tempo que lhes dispensamos.
Compreendendo o que é que os críticos indicam como uma abordagem contra intuitiva, os princípios com os quais o autor se rege não me eram desconhecidos (alguns até os coloco em prática, na minha medida) e portanto não posso dizer que contenham o factor "uau" que poderá ter para muitas outras pessoas. Ainda assim, não posso negar que foi um prazer encontrar outro semelhante naquelas páginas porque, como o autor enuncia a determinada altura, não somos assim tão especiais nem diferentes uns dos outros.
É um livro que cria uma abordagem crítica ao egocentrismo e antropocentrismo que rege a maioria das sociedades (especialmente as ocidentais, sendo as que o autor naturalmente conhece mais de perto), e que esparrama as suas fragilidades diante dos olhos do leitor. Mas também reforça com contra indicativos formatos para contrariar as ratoeiras por elas criadas.
Podendo ser ligeiramente provocador a determinadas alturas, reconheço que Mark Manson sofre de um dos mal por si enunciados, já que contrariando o que disse anteriormente, o seu posicionamento quando nos apresenta quais os mecanismos ditos contra intuitivos, é precisamente numa lógica dourada, como se a sua metodologia fosse A certa e devesse ser adoptada por todos, não fosse verdade que ao não o fazerem, a responsabilidade dos seus problemas será somente sua.
Falando em responsabilidade, um dos capítulos que achei mais interessantes passa precisamente pela relação dinâmica entre culpa e responsabilidade, segundo uma abordagem que já pratico no meu dia a dia, embora considere algo perigosa pela aura de plenitude que o autor transmite. A título de exemplo, ele relata um caso de um pai que perdeu um filho e refuta a sua teoria. Diz ter-se sentido inicialmente culpado, mas que no fundo depois de ponderar o assunto considera estar correcto. No meu entender, esta análise a todos os níveis e esferas da nossa vida pode desenvolver outros sentimentos de culpa e inadaptabilidade, precisamente porque acontecimentos mais trágicos nem sempre nos permitem reagir segundo um plano de acção e que não acho, de todo, que alguém se deva culpar e responsabilizar por isso (Leiam o livro e venham discutir esta teoria comigo mais tarde!).
O segundo capítulo que mais ocupou a minha atenção tratou das relações tóxicas e de dependência, e neste caso acho que o autor acertar na mouche.
No fundo, não concordando na totalidade com as várias indicações transmitidas pelo autor, considero que "A Arte Subtil de Saber Dizer Que se F*da" não deixa de ser uma lufada de ar fresco e de remexer algumas mentes que nunca se tenham debruçado sobre as temáticas abordadas pelo autor segundo este prisma. São provocadoras, mas não se imiscuem no universo dos leitores, já que o livro está montado quase que numa lógica de story telling, evidenciando precisamente os desafios sentidos pelo autor ao longo da sua vida, e as respostas que teve de dar para vencer um obstáculo, tornando-as depois mantras para vencer numa vida mais simples e feliz.
Merece ser lido e discutido, já que os posicionamentos enunciados pelo autor pretendem acima de tudo servir como alavancas para o despertar de consciências. E se no final aprendermos todos a dizer "que se f*da" ou "not giving a f*ck" mediante uma série de circunstâncias da nova vida, o livro cumprirá o seu propósito.


 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Opinião: As Curiosidades da História de Portugal no Arquivo do Ministério do Tempo



As Curiosidades da História de Portugal no Arquivo do 
Ministério do Tempo

 
Edição/reimpressão: 2017
Páginas: 448
Editor: Manuscrito
  



Sinopse: 
Será que Viriato foi mesmo o primeiro grande herói de Portugal?
Conhece a história do rei que foi casado com duas mulheres?
Sabia que o infante D. Henrique, o Navegador, fundador da Escola de Sagres, pouco ou nada andou de barco?

Com base na série de ficção histórica da RTP que conquistou os portugueses - Ministério do Tempo -, As Curiosidades da História de Portugal no Arquivo do Ministério do Tempo reúne 64 episódios curiosos da História de Portugal. Partindo desde os tempos mais remotos, atravessando a Idade Média e a Idade Moderna, para chegar à época contemporânea, vamos reviver nestas páginas a nossa História pelo seu lado mais curioso, inusitado e divertido, pondo em causa alguns dos factos que os livros de História sempre nos deram como certos.

Na mesma época em que os marinheiros portugueses davam novos mundos ao mundo, D. João II ficou a conhecer o incrível segredo das Portas do Tempo. Para as gerir criou o Ministério do Tempo. E atribuiu-lhe uma única missão: garantir que ninguém viaja ao passado para alterar o presente. O Ministério do Tempo mantém-se aberto até aos nossos dias. É o grande segredo do Estado Português. A sua existência passa da boca de uns poucos eleitos para os ouvidos de outros. Apenas os melhores e mais úteis são chamados para trabalhar no Ministério do Tempo.

Rating: 4/5
Comentário: Não sei quanto a vocês, mas sempre fui uma enorme fã de História, desde miúda. O prazer de assistir a "O Ministério do Tempo" proveio precisamente do facto da série trazer de uma forma divertida, vários contextos de época que se introduziam na História de Portugal, sem correr o risco de efectivamente a contar e entrar em incongruências. A parte mais engraçada passou precisamente pela entrada de personagens históricas, que enlaçadas por um sentido de humor bastante inteligente, lançavam vários comentários que só o ouvido mais atento e algo conhecedor poderia entender na totalidade, sem estragar no entanto a visualização para o público vasto.
Nesse sentido, e porque sempre tive curiosidade sobre factos menos conhecidos da História de Portugal, quis muito ler este lançamento da Manuscrito.
Começo por dizer que da série do "Ministério do Tempo", só herda o título, pelo que os fãs da mesma que não forem acérrimos da História de Portugal podem não divertir-se por aí além. Julgo que, embora cumpra o seu propósito, já que o mesmo acaba por utilizar a referência à série, poderia ter um capítulo introdutório que incidisse mais na lógica da ficção, do género de um relatório de missão ou nem que fosse um apanhado que contextualizasse a série.
Seguidamente, confesso que me assustei com o primeiro capítulo, porque esperava algo mais leve e a linguagem pareceu-me demasiado enciclopédica para o que pretendia ser uma colectânea de episódios curiosos da História de Portugal.
Felizmente, essa situação compreendeu somente o capítulo inicial e permitiu-me desfrutar em pleno dos restantes do modo que esperava: uma redacção episódica, simples, fácil de acompanhar e com algum sentido de humor envolvido, nem que fosse pelo tipo de casos seleccionados.
O livro está organizado por ordem cronológica, acompanhando todos os períodos da História do nosso país até ao 25 de Abril, sendo que os casos seleccionados se inserem em narrativas menos conhecidas sobre a nossa História para cada um desses períodos.
Outra questão interessante, para além das pertinentes chamadas de atenção, passou pela apresentação de referências e datas-chave em quadros de chamada de atenção, que facilitam ainda situar os enredos narrados não só no plano nacional, mas também europeu.
Várias personalidades, já de todos conhecidas pela intervenção dos manuais escolares ganham assim uma nova cor, com destaque para situações menos exploradas ou de total desconhecimento da maioria das pessoas. A título de exemplo, poderão descobrir que Vasco da Gama não era santinho nenhum, que a expressão "Deus, Pátria e Família" pode não ser tão lusa como o esperado ou que o romance de D. Fernando com D. Leonor Teles podia não ser tão afogueado como nós pensamos. A tão fantástica polémica de D. Afonso Henriques e D. Teresa? Claro que não poderia faltar.
Os episódios são curiosos, interessantes, sucintos e capazes de captar a atenção do leitor, para além de virem relatados em capítulos breves.
Eu optei por vir descobrindo estes e outros momentos um de cada vez, para saborear em pleno cada novo momento descoberto. É um óptimo livro para relaxar ao final do dia e descansar a cabeça após um dia de trabalho. Fica a recomendação.


 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.