quarta-feira, 11 de julho de 2018

Opinião: Ginástica Facial, de Sónia dos Santos



Ginástica Facial
de Sónia dos Santos
 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas: 192
Editor: Manuscrito
  



Sinopse: 
O aspeto da pele do rosto, as rugas de expressão, os sinais de flacidez e envelhecimento, com os efeitos do sol e da poluição diária, são algumas das preocupações que temos com o nosso rosto. O primeiro impulso é comprar cremes, caros e pouco indicados para a nossa pele, que não surtem o efeito desejado. 

E se lhe dissermos que bastam dez minutos por dia para ginasticar o seu rosto e trabalhar todos os músculos da face de forma a conseguir uma pele mais luminosa, elástica e jovem?

Em Ginástica facial, Sónia dos Santos, especialista em estética avançada, traz-lhe 31 exercícios de ginástica facial que vão transformar o seu rosto. Exercícios simples e rápidos, para fazer em casa, sem gastar dinheiro e com efeitos visíveis em pouco tempo. Inclui ainda receitas de máscaras faciais naturais, massagens para o rosto e conselhos de nutrição para alimentar bem a sua pele.


Rating: 4/5
Comentário: Quanto a vocês não sei, mas desde que passei a fasquia dos 25 que passei a ouvir a os célebres comentários a propósito da pele. De como ela vai encontrar-se com o poder da gravidade no futuro, de como os hormonas irão alterar a sua flexibilidade e capacidade de regeneração, que deveria começar a aplicar alguns cremes anti-idade adequados à minha faixa etária para atenuar rugas ou traços de expressão, que inevitavelmente iriam surgir.
Nestas coisas, acho que a experiência alheia é boa conselheira, e aconselhei-me junto de quem sabe para que no futuro não ficasse a chorar sobre o leite derramado. Mas sentia sempre falta de uma intervenção mais activa, que os cremes não mostram e não aparentam, especialmente quando me deparava com a zona das bochechas e do pescoço. Por essas e por outras, quando vi o lançamento da Manuscrito em Junho passado, cheguei à conclusão que era mesmo de um guia destes de que andava à procura.
Se exercitamos o cérebro, os músculos das pernas, coxas e barriga, porque não os da face? Este é o mote da Sónia Santos para nos demonstrar que com pouco esforço mas persistência podemos cuidar de nós e de um dos órgãos mais importantes que temos: a pele.
Se dizem que os olhos são o espelho da alma, a pele é sem dúvida o espelho do nosso organismo muitas vezes. Se não acreditam, não bebam água suficiente durante uns dias e durmam poucas horas por noite, encham-se de açúcar e fiquem em salas de fumo e vejam o que ela vos conta no dia seguinte!
Em "Ginástica Facial", a autora apresenta um guia cuidado, sucinto, esclarecedor e fácil de acompanhar. Era inevitável começar um livro deste género e não abordar questões relacionadas com  a pele em si. Recorrendo a esquemas e explicações breves, a autora explica a estrutura e o funcionamento da pele, a influência de várias fases da nossa vida sobre o orgão e o que podemos fazer para proteger a pele o melhor que pudermos.
Achei este capítulo inicial importante e pertinente, não só numa lógica de transmissão de conhecimento, mas também de identificação das nossas mazelas e potenciais causas. Acima de tudo, permitiu também aproveitar os exercícios mais indicados para a situação que queria corrigir.
A explicação dos exercícios está feita de uma forma bastante intuitiva, e sai facilitada pela divisão dos mesmos por faixas etárias, representações esquemáticas que evidenciam os movimentos a adoptar e o uso de fotografias da própria autora a executá-las.
Estive a experimentar alguns exercícios nos últimos meses e posso dizer que: a) fazer caretas ganha toda uma nova dimensão; b) se algumas "expressões"/exercícios acabam por ser algo desconfortáveis pelo tempo solicitado para os executar, à semelhança dos glúteos, tudo se trabalha e acaba por se tornar mais fácil, c) aliado a uma correcta hidratação e tratamento da pele, sinto que este plano de exercícios tem aumentado a sua elasticidade.
Finalmente, a pergunta que todos querem saber: se irá ajudar a atenuar o aparecimento de rugas? A autora, formada e especialista em pele, diz que sim e é essa a intenção. Mas naturalmente não as fará desaparecer ou não aparecer de todo. De qualquer forma, ofereço-me para regressar daqui a 10 anos com comentários mais pertinentes sobre esta ginástica facial!

Aproveito também para partilhar uma entrevista da autora sobre o assunto aqui.
 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

domingo, 8 de julho de 2018

Passatempo: Meet&Greet com a autora Janne Teller

Boa tarde Encruzilhad@s,

Para alegrar o vosso Domingo temos um passatempo relâmpago!

Gostavam de ganhar o novo livro de Janne Teller, "Guerra"? Estão disponíveis para conhecer a autora dia 11 de Julho em Lisboa? Então este passatempo é o passatempo que estavam à procura.

Em parceria com a Editora Bertrand temos um exemplar do livro de "Guerra" de Janne Teller para oferecer assim como a oportunidade de conhecer a autora.


As condições deste passatempo são diferentes das habituais. Para se habilitarem a ganharem uma cópia deste livro terão de estar disponíveis para conhecer a autora em Lisboa dia 11 de Julho às 19 horas. Será no Meet&Greet que receberão o livro.

Se estão disponíveis no dia e hora acima estipulados preencham o formulário abaixo e boa sorte!

Regras do passatempo
1) O passatempo decorre até às 23h59 do dia 10 de Julho de 2018.
2) Todos os dados solicitados (incluindo Nick de Seguidor) devem ser devidamente preenchidos e completos.
3) Só será aceite uma participação por pessoa.
4) O passatempo abrange todo o território português (Portugal Continental e Ilhas).
5) O/A vencedor/a será sorteado de forma aleatória (random.org), sendo o resultado anunciado na página do blog e o contacto efectuado por e-mail.
6) O/A vencedor/a compromete-se a estar presente no Meet&aGreet com a autora Janne Teller onde receberá a cópia do livro. O Meet&Greet será em Lisboa, em local a designar, dia 11 de Julho às 19 horas. Se por algum motivo o/a vencedor/a não poder comparecer o livro não será enviado por correio. 
7) Todos os dados pessoais guardados, para efeitos de passatempo, serão eliminados após entrega do prémio ao vencedor ou vencedora.
8) Para a participação ser válida os participantes tem de pôr um "gosto" na página de Facebook do Encruzilhadas Literárias e da Bertrand Editora.


sexta-feira, 29 de junho de 2018

Opinião: Segredos de Uma Alimentação Saudável, Michel Lallement





Segredos de Uma Alimentação Saudável
de Michel Lallement
 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas: 256
Editor: Guerra & Paz


  



Sinopse: 
Agora sim! Um médico oncologista que nos ensina de forma simples, a prevenir e combater as doenças que mais nos afectam.
que têm em comum o cancro, o Alzheimer, a diabetes, a fibro­mialgia, a artrose, a osteoporose e a obesidade? Além de estarem a afectar cada vez mais pessoas, estas e outras doenças têm origem numa inflamação crónica das nossas células, cujas causas es­tão muitas vezes associadas ao consumo de alimentos tóxicos e a intolerâncias alimentares.
Em Segredos da Alimentação Saudável, o Dr. Michel Lallement, cirurgião oncológico,  explica e mostra-nos como funcionam na prática os mecanismos por meio dos quais intoxicamos o nosso organismo com uma alimentação inadequada e ensina-nos a escolher o que comemos, invertendo o caminho que nos pode levar ao encontro de algumas das piores doenças dos nossos dias. 

Rating: 3,5/5
Comentário: Acho que para falar sobre "Segredos de Uma Alimentação Saudável", terei de começar por abordar a experiência do autor enquanto profissional. Isto porque na atualidade proliferam livros sobre alimentação saudável, ou sustentável, ou para emagrecer, etc. No entanto, na medida em que este livro aborda a questão das doenças e a forma como estas duas temáticas se correlacionam, não estaria ao alcance de cada um criar um livro de referência sobre a temática.
"Confrontado durante duas décadas com o feroz aumento da incidência de cancro nos seus pacientes cada vez mais jovens, o Dr. Michel Lallement, cirurgião oncológico, dedicou muitos anos de trabalho e pesquisa para determinar o grau de influência dos factores nutricionais neste fenómeno. Desde 1991 envolvido no combate ao cancro, o Dr. Lallement propôs aos seus pacientes compilar toda a informação sobre os seus hábitos de alimentação, e foi com base nos resultados obtidos da análise desse dossiê, munido ao mesmo tempo dos mais recentes e avalizados estudos de outros médicos e investigadores desta área, que conseguiu chegar às impressionantes conclusões apresentadas em Comer Saúde, um êxito de vendas em França. Actualmente, o Dr. Lallement dedica-se à prevenção e acompanhamento terapêutico de doenças degenerativas. (Guerra & Paz)"É precisamente pela questão da inflamação e das inflamações crónicas que Michel Lallement começa este livro. Toda a parte introdutória do livro se dedica na abordagem ao processo inflamatório (o que é, potenciais causas e consequências, como é que a inflamação se relaciona com as doenças cancerígenas e qual o impacto da mesma na casualidade de progredirem para o aparecimento de cancros no futuro), sempre, claro, criando paralelos com a alimentação.
Evidenciando desde a primeira página que não pretende ser um livro de recomendação médica, mas de esclarecimento, o autor determina por diversas vezes a necessidade do leitor contactar outro colega de profissão em caso de necessidade.
É evidente que o livro foi pensado no mercado para o qual foi escrito, pelo que há diversas estatísticas que dizem respeito a França, mas é possível equacionar os valores correspondentes para o território nacional pelos artigos e reportagens que vão saindo sobre as temáticas abordadas de tempos a tempos.
Julgo que foi precisamente esta a abordagem que tornou a leitura mais fácil, mas também interessante e fresca, diferente do que tenho lido até então sobre as temáticas. Naturalmente abordas os alimentos e a alimentação pelo todo, focando-se mais nas propriedades e nas evidências científicas da aplicação de mais nutrientes ou proteínas provenientes de um leque da pirâmide alimentar em detrimento de outro.
Todo o discurso é realizado dentro da lógica do carácter consultivo e não dogmático, sem insistências, abordagens decisivas para que mudemos de vida ou geradores de culpa por falta de capacidade de correspondência. Acima de tudo, coloca disponível para o leitor o maior número de informação possível, seguindo os preceitos de que, no que respeita a médicos e a doenças, mas também aos livros o/a paciente é que sabe.

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Opinião: A minha avó pede desculpa, de Fredrik Backman



A Minha Avó Pede Desculpa
de Fredrik Backman
 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas: 336
Editor: Porto Editora
  


Sinopse: 
Elsa tem sete anos de idade, quase oito, e é diferente. Para já, tem como melhor - e única - amiga a avó de setenta e sete anos de idade, que é doida: não levemente taralhoca, mas doida varrida a sério, capaz de se pôr à varanda a tentar atingir pessoas que querem falar sobre Jesus com uma arma de paintball, ou assaltar um jardim zoológico porque a neta está triste. Todas as noites, Elsa refugia-se nas histórias da Avozinha, cujo cenário é o reino de Miamas, na Terra-de-Quase-Acordar, um reino mágico onde o normal é ser diferente.

Quando a Avozinha morre de repente e deixa uma série de cartas a pedir desculpa às pessoas que prejudicou, tem início a maior aventura de Elsa. As cartas levam-na a descobrir o que se esconde por detrás das vidas de cada um dos estranhíssimos moradores de um prédio muito especial, mas também à verdade sobre contos de fadas, reinos encantados e a forma como as escolhas do passado de uma mulher ímpar criam raízes no futuro dos que a conheceram.

A minha avó pede desculpa é uma belíssima história, contada com o mesmo sentido de humor e a mesma emoção que o romance de estreia de Fredrik Backman, o bestseller internacional Um homem chamado Ove.

Rating: 4,5/5
Comentário: Há livros que nos conquistam com as suas narrativas. Este foi um deles.
Elsa é uma miúda cheia de sorte. Porque teve uma avozinha como a sua. E a Avozinha teve o maior dos tesouros, por poder partilhar um mundo de magia e aprendizagens com a sua neta, a pessoa que mais amou em todo o Mundo.
É precisamente através desta menina, cheia de genica e garra, que apesar de vítima de bullying não baixa os braços e se estende à derrota, e encontra formas de resposta (mesmo que estas não correspondam ao por si esperado) que nos vamos ligando e derretendo perante o seu olhar narrativo, já que é através dela que conhecemos toda a história. E também por isso é necessário, mesmo com uma escrita bastante fluída e leve, ler com atenção os relatos desta criança, para quem não passem despercebidos os ciúmes e inseguranças com o irmão mais novo, o medo de rejeição do padrasto quando o novo irmão nascer, o não ter nunca mais uma parceira de brincadeiras, agora que a avó se foi...
Existe uma ternura inalienável nas relações de avós e netos, especialmente naquelas que são dotadas de uma série de códigos especiais, rituais de convivência e amor, segredos que nem se partilham entre pais e filhos  e toda uma mescla de movimentos identificativos que tornam estas relações tão especiais. A desta avó e neta ainda ganha um destaque maior pelo imaginário e universo criado para esta neta, pautado por histórias que compõem toda uma realidade alternativa, e que de uma forma que Elsa nem imagina, irá condicionar toda a narrativa. Porque estas histórias serão a chave para a condução da narrativa, cujo desfecho e enlace será traduzido com mestria, delicadeza e uma enorme sensibilidade.
Outro ponto muito forte nos livros de Fredrik Backman, já sentido com "Um Homem Chamado Ove" é a importância do espírito de comunidade, da partilha de vivências entre vizinhos e das necessidades de não nos isolarmos. A teia que une estas personagens, que surge na edificação de um prédio onde todos habitam, traz mais nas suas estruturas do que seria inicialmente esperado.
A forma como estas personagens se interligam, com as mais diversas e complicadas personalidades, tendo como fio condutor esta miúda destemida, é uma delícia de descobrir. 
Com muitas mensagens especiais sobre a vivência e a condição humana, que são apresentadas com delicadeza e de forma subtil, o autor traz-nos uma belíssima narrativa, uma história familiar, e a noção importante que os laços, quando fortes, perduram para lá da morte.

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

terça-feira, 12 de junho de 2018

Os Altos e Baixos do Meu Coração, de Becky Albertalli




Os Altos e Baixos do Meu Coração
de Becky Albertalli
 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas: 288
Editor: Porto Editora
  


 

Sinopse: 
Aos 17 anos, Molly sabe tudo o que há para saber sobre o amor não correspondido. É que a jovem já se apaixonou 27 vezes, mas sempre em segredo. E por mais que a irmã gémea, Cassie, lhe diga para ter juízo, Molly tem sempre cuidado. É melhor ter cuidado do que sofrer.
Quando Cassie se apaixona, a sua nova relação traz um novo círculo de amigos. Dele faz parte Will, que é engraçado, namoradeiro e um excelente candidato a primeiro namorado da Molly.
Mas há um problema: o colega de Molly, Reid, um cromo e fã incondicional de Tolkien, por quem ela jamais se apaixonaria… certo?
Uma história divertida e comovente sobre primeiros amores e a importância de sermos fiéis a nós mesmos.


Rating: 4/5
Comentário: Becky Albertalli, quem me dera que tivesses escrito estes livros quando eu era adolescente. Porque acredita, teriam feito toda a diferença.
Estou a escrever-vos esta opinião com a companhia dos Florence and The Machine, aproveitem para os ouvir quando lerem este livro, porque é decididamente a sua banda sonora (vão descobrir porquê).
Li "Os Altos e Baixos do Meu Coração" num ápice, durante a tarde de hoje, porque precisava de uma leitura descontraída depois de umas semanas algo tumultuosas. Quando o acabei, fiquei cheia de vontade de partilhar convosco o porquê de não poderem perderem este livro (no caso de serem fãs de YA), e podem crer que me deito com o coração quentinho.
Julgo que nem a sinopse original nem esta fazem jus ao enredo. Porque sim, é sobre a Molly e sobre o seu coração palpitante; mas é muito mais do que isso. Porque todos os livros desta autora se debruçam essencialmente sobre uma necessidade primária de todos: a aceitação e a inclusão, seja ela resultante de que factor estiver em causa.
Não me vou debruçar sobre o conceito inclusivo, porque tal como a autora não lhe dá evidência (porque é uma coisa banal, é suposto ser uma coisa banal, estamos em pleno século XXI para os mais distraídos), também não o vou fazer. Um casal de mães, filhos por procriação assistida ou famílias judias e interraciais? São coisas que deveriam estar assentes nos nos alicerces societais. Por isso todos estes elementos são contextualizações para quem são a Cassie e a Molly, mas não os assuntos em destaque.
Então o que é que discute aqui? A aceitação. A auto-induzida e a vinda do mundo exterior, que muitas vezes é o principal factor a deixar-nos desconfortáveis na nossa pele, mesmo quando achamos que estamos bem e não precisamos de "arranjos".  A idade encarrega-se de nos ensinar estas coisas, mas a adolescência é um período especialmente difícil e todos os factores que nos fazem sentir desconectados, pertencentes a uma outra realidade, incapazes de assentar e fazer parte da maioria levam o ser humano mais confiante a colocar-se em causa.
Molly aborda muitas destas questões na forma como se sente: não descontente com o seu corpo, mas com o que os outros esperam dela por causa disso, não descontente com quem é, mas com medo que isso não chegue para não ser rejeitada pelos alvos do seu afecto, feliz pelo sucesso da irmã, mas incapaz de lidar com o seu pouco à-vontade nas situações onde ela é rainha (e na verdade não é, sendo tão frágil e sensível como a sua gémea), não descontente com os seus talentos, mas que lhe parecem tão banais ao pé de tantos jovens mais artísticos, destemidos, desenvolvidos e com objectivos claros.
Há vários assuntos que esta autora aborda, e que nunca vi abordados desta forma em nenhum livro YA que tenha lido até ao momento. Dou-vos como exemplo as dúvidas que podem assolar os adolescentes quando se vêem alvo de afecto, mas também inspirando-se no afecto que vêm no outro que não encaixa no dito padrão que a sociedade aceita. Para além do risco de abrir o coração e de ter a hipótese de o quebrar, se alguém escolhe como alvo de afecto "um falhado", um "elemento fora da caixa", o que é que isso diz de si? Serão também "falhados"?
Não se tratando de uma questão certa ou errada, o que a autora faz é relembrar-nos da fragilidade e exposição que a adolescência nos deixou/ deixa a todos e o quanto o mundo envolvente pode ser cruel (mesmo quando é bem intencionado) ao ditar-nos padrões aos quais não podemos ou não devemos escapar. E que para além disso, mesmo quando não queremos ou não somos os mais indicados para os seguir, nos perseguem precisamente por evidenciarmos a diferença.
E se existem jovens a ler este texto, vou deixar clara a mensagem da Becky: não há nada errado convosco. Se o mundo não vos aceita, o problema é dele, não vosso. Hão-de encontrar as pessoas certas que vos respeitem tal e qual já são, porque elas também já andam à vossa procura.
Não me revi nesta adolescente, mas sim em muitos dos seus pensamentos quando tinha a sua idade. É uma das características da Becky Albertalli: lembrar-nos que também um dia já fomos adolescentes (ou no caso dos leitores ainda o serem, de que há por aí outros iguais). Molly é intensa, e com um coração enorme, amada e capaz de reagir nos momentos indicados aos problemas que lhe assistem, mas também nervosa, insegura, ciumenta, engraçada, melhor amiga, irmã, filha, namorada. Mas é essencialmente a Molly.
Claro que não posso descurar ou passar em branco o romance. A autora sabe sempre tocar-nos no ponto fraco e trazer histórias ternurentas e cheias de palpitações, sonhos, agitação e desejo. Desejo que seja desta que a personagem tenha o seu final feliz, que dê tudo certo, que a vulnerabilidade dê recompensa. Que prevaleça a coragem, o amor, a amizade e o respeito mútuo. Que os adolescentes aprendam com bons exemplos. Que se revejam nos seus pares. E a Molly, no seu percurso lento, estudado, arriscado, e sempre sonhador, traz-nos todas as boas sensações sobre o que é estar apaixonado e ser-se correspondido, mesmo que o seu coração ande aos altos e baixos. Só me apetece relê-lo de novo. Como já disse ao início, deito-me de coração cheio.

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.