quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Opinião: A Ilha dos Segredos, Nadia Marks



A Ilha dos Segredos
Nadia Marks
 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas 304
Editor: Clube do Autor (Noites Brancas)
  




Sinopse: 
Muitas vezes, a vida corre ao contrário do planeado. Anna sabe-o melhor do que ninguém. Por isso, a viagem até à ilha onde estão as suas raízes promete dar-lhe a força de que tanto precisa. Na Grécia, Anna irá enfrentar a história desconhecida da sua família e descobrir mistérios enterrados há mais de cinquenta anos.
Nessa ilha paradisíaca do mar Egeu e à sombra dos limoeiros da casa de família, Anna irá confrontar-se com segredos dolorosos, histórias antigas e sensações adormecidas.
A Ilha dos Segredos é um romance sobre como o passado, o afeto pelos outros e a liberdade podem curar as feridas mais profundas.
«O grego antigo tem quatro palavras distintas para amor: agápe, eros, philía e storgé. Poderá afinal existir uma?»

Rating: 2.5/5
Comentário: Este ano estive com um apetite imenso por livros de verão, e a capa da "Ilha dos Segredos" chamou por mim desde que a vi. Acabei por ler as primeiras páginas e achei que poderia ser uma leitura muito interessante.
Ia iniciar a minha leitura no momento em que se deu a tragédia dos incêndios florestais na Grécia, e senti-me inibida de aproveitar estas paisagens por prazer, sabendo a dor e a dificuldade que estavam a viver os gregos ao momento.
Nesse sentido, optei por esperar mais umas semanas até pegar nele. Infelizmente, as minhas esperanças saíram algo defraudadas, porque contrariamente ao esperado, este livro não se enquadra nada nos clichés (que geralmente pedem-se para ser evitados, mas que curiosamente os procurava desta vez).
Ao iniciar-se num de tom de reconto do passado, esperamos por uma redenção das personagens ao descobrirem novos caminhos e desafios para além dos que a vida já premeditou. Esperamos também que esse tom seja circunscrito à contextualização do inicio da história e permita espaço para as personagens crescerem. Infelizmente, Nadia Marks não o concretizou da melhor forma. Uma narrativa cheia de potencial ficou balizada por uma escrita que me pareceu quase infantil e mais facilmente encontrada no reconto das histórias e das lendas do que num romance que pretende intuir profundidade e criar empatia com o leitor. As histórias das personagens foram sobejamente tratadas com leviandade, até as que exigiam uma maior preocupação e análise por parte do leitor. Não consegui, por isso, entregar-me à narrativa em nenhum momento nem torcer ou sentir as dores de nenhuma delas.
Não obstante, dou pontos à autora ao tentar incutir uma lógica narrativa diferenciada, por querer trazer conteúdo e não validar o enredo somente como uma história de amor. E julgo que teria sido muito bem conseguida se esta a tivesse trabalho de melhor forma. Não o tendo feito, e por tratar e levar a história toda pela rama, senti que mais valeria manter-se no registo tradicional dos romances femininos e levar à conclusão de uma história envolvente e emocionante. Infelizmente, "A Ilha dos Segredos" não me encheu as medidas.



Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Review: Ayiti, by Roxane Gay


Ayiti
by Roxane Gay

Edition: 2018
Publisher: Grove Atlantic / Grove Press






Summary:
Roxane Gay is an award-winning literary voice praised for her fearless and vivid prose, and her debut collection Ayiti exemplifies the raw talent that made her “one of the voices of our age” (National Post, Canada).

Clever and haunting by turns, Ayiti explores the Haitian diaspora experience. A married couple seeking boat passage to America prepares to leave their homeland. A mother takes a foreign soldier into her home as a boarder, and into her bed. And a woman conceives a daughter on the bank of a river while fleeing a horrific massacre, a daughter who later moves to America for a new life but is perpetually haunted by the mysterious scent of blood. Wise, fanciful, and daring,Ayiti is the book that put Roxane Gay on the map and now, with two previously uncollected stories, confirms her singular vision.

Rating: 2/5

Review: 
I received an online copy of this book through NetGalley in exchange of a honest review.
Roxane Gay is most known for her feminist books. Even knowing something about her works, I've never had the curiosity to read them until this story collection came up.
Nowadays, the refugees' problem is an highlight of our challenges and we can't escape them. The dysfunction between the realities and the approaches from everybody, from the welcomers (and sometimes, less welcomers) to the outsiders need to be explored and analysed, otherwise we will not find bases for compromise and the obstacles will not disappear.
Starting with that in mind, I wanted to learn more about the Haitian diaspora.
I was hoping to enjoy this book in the whole, but it felt a bit disappointing.
By reading the synopsis we can perceive this is not going to be a happy book. But I do believe, with all their constraint, that not everybody is unhappy and lives in difficulty, at least more than anybody else. Of course there are communities that are developed in a bubble and live by and for themselves, even living abroad. Even so, there are others than can find the balance to live in peace and feel fulfilment in every aspects of their lives.
The majority of the stories transmit pain, incomprehension of the characters came to a determined point in life and don't show any hope.
Focusing in the writing style, Roxanne Gay speech brings fluidity and pleasure, but at times there was something missing in order to glue the narratives.
I didn't was as much impressed as wanted to my abashment. Maybe in the future Roxanne and I will meet again.


Cláudia
About the author:
 
Addicted to the library Claudia loves to read on the move and we can usualy find her sitting in a train or bus reading while commuting to and from work. But don't be fooled she is also keeping an eye on the landscape and all around her. She is an avid defender of sustainability and volunteering and it's as easy to find her starting a new project as it is to find her chatting with her friends. She is a dreamer and loves good stories so she keeps looking for them in her personal life.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Resultado do Passatempo: Nix, Fantasmas do Passado

Ainda bem que estão atentos e não deixaram escapar esta oportunidade de passar as férias a ler!

Sem mais demoras, queremos agradecer à Editorial Presença mais uma colaboração e parabenizar Nélia Rosa de Ponta Delgada por ter ganho um exemplar de "Nix - Fantasmas do Passado"! Boas leituras e muitos mergulhos!

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Opinião: Pecados Santos, de Nuno Nepomuceno



Pecados SantosNuno Nepomuceno
 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas 448
Editor: Cultura Editora
  




Sinopse: 
Um rabino é encontrado morto numa das mais famosas sinagogas de Londres. O corpo, disposto como num quadro renascentista, representa o sacrifício do filho de Abraão, patriarca do povo judeu.
O caso parece ficar encerrado quando um jovem professor universitário a lecionar numa das faculdades da cidade é acusado do homicídio.
Mas é então que ocorrem outros crimes, recriando episódios bíblicos em circunstâncias cada vez mais macabras. E as dúvidas instalam-se.
Estarão ou não estes acontecimentos relacionados?
Porque insistirá a sua família em pedir ajuda a um antigo professor, ele próprio ainda em conflito com os seus próprios pecados?
As autoridades contratam uma jovem profiler criminal para as ajudar a descobrir a verdade. Mas conseguirá esta mente brilhante ultrapassar o facto de também ela ter sido uma vítima no passado?

Rating: 4.5/5
Comentário: Já todos estão mais que cansados de ouvir de falar do Nuno Nepomuceno. Duvido até que ainda haja alguém que não tenha ouvido falar do fantástico "Pecados Santos".
É inegável que os novos livros, a forma de os escrever, a construção de enredos e personagens do Nuno Nepomuceno têm vindo a crescer a olhos vistos de obra para obra, e não há como negar que este último bate os restantes aos pontos.
É um livro de acção, com intriga e conhecimento ao estilo do Dan Brown, mas no registo próprio do autor.
A acção começa intrigante e cheia de simbolismo, que vai sendo explorado ao longo da trama. A intriga é palpável, e o enlace histórico conduzido de forma fácil de empreender, continuando a ser interessante e estimulante. Acho que o autor conseguiu ensinar e passar as mensagens principais de forma resumida, mas tocando nos elementos certos. Este é de já um dos pontos fortes que o Nuno tem sempre revelado, a pesquisa intensa e segura com que se baseia e o modo esquemático como a entrega sem torná-la maçuda mas acutilante. Não conhecia muitos dos fundamentos da religião judaica e senti-me como uma aluna a aprender, mas de forma didáctica.
Existem várias teias narrativas, algumas meio a subterfúgio e que podem passar despercebidas a um olhar mais incauto. Estas acabam por conduzir a diversos dilemas e a alguns enigmas para resolver (de resto, fiquei bastante orgulhosa por ter antecipado dois deles, sendo no entanto bastante surpreendida com o final).
Embora o Afonso Catalão seja um anti-herói ao qual se lhe foi dada nova roupagem mediante os contactos especiais que vai tendo a um segmento da sociedade portuguesa, esta personagem cresceu neste livro. A um outro nível, a ligação à sua cara metade permitiu abordar outras questões da vida pessoal de ambos e fortalecer os laços de uma ligação que achei apressada e corriqueira no último livro.
De qualquer forma, esta fadada versão de homem dominado pelos seus demónios, perdoem-me a redundância, não terá como ganhar forma novamente, porque existe um limite do que é passível de aceitar numa personagem. Se ela voltar a entrar em cena, prevejo e aguardo por uma mudança de linha de abordagem narrativa.
Quando à acção em si, o encadeamento é lógico e acho que todos os níveis foram largamente abordados e fizeram-me sentido.
Contudo, continuo a achar que há alguma fragilidade do enredo que se evidencia sempre no final dos livros do autor (pelo menos neste e no anterior), que são abruptos e algo apressados, e com a colocação de elementos que pretendem chocar e causar reviravoltas, mas que a meu entender saem por vezes algo débeis. As explicações que são tão bem contextualizadas no restante livro acabam por sair aqui meio de chofre. Cumprem o propósito e revelam todos os pormenores necessários, mas fica a faltar algo no meu entender.
De qualquer forma, é certamente um vira páginas e foi uma óptima leitura para banhos de sol e horas de almoço apressadas. Conto estar atenta aos próximos trabalhos do autor e acompanhá-lo nas redes sociais. É que um bom espião que se preze já sabe que o Nuno vai deixando pistas sobre cenários geográficos a entrar em livros futuros quando anuncia as viagens que faz. Resta saber para onde nos levará na próxima!



Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Opinião: Chama-me pelo Meu Nome, André Aciman



Chama-se Pelo Teu Nome
André Aciman
 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas 284
Editor: Clube do Autor
  





Sinopse: 
Na idílica Riviera italiana nasce um romance intenso entre um rapaz de dezassete anos e o convidado dos pais, um estudante universitário que irá passar com eles umas semanas no verão.

A mansão sobre as falésias é povoada por um conjunto de personagens excêntricas, com um gosto especial pela boa vida. Mas nenhum dos jovens está preparado para as consequências da atração, que, durantes essas apaixonadas semanas de calor, mar e vinho, faz crescer entre eles o fascínio e o desejo, sentimentos que não conseguem suprimir, apesar de todas as proibições e dos perigos.

Divididos entre o receio das consequências e o fascínio que não conseguem esconder, avançam e recuam movidos pela curiosidade, o desejo, a obsessão e o medo, até se deixarem levar por uma paixão arrebatadora e descobrirem uma intimidade rara que temem nunca mais encontrar. 

Chama-me Pelo Teu Nome não é só uma história intemporal, é também uma análise franca, bela e dura sobre a paixão – como agimos, pensamos e sentimos. Uma elegia ao amor e um livro inesquecível.

Rating: 3/5
Comentário: Independentemente de gostarem ou não deste livro, é daqueles que de entranha na pele e todos o comentam. Confesso que já o terminei há algum tempo mas precisei de o processar para escrever uma opinião articulada. Como disse, as reacções tendem a ser antagónicas, mas quando o terminei senti que não estava para o oito, nem para o oitenta (e como tal, compreendia o porquê do livro ser acarinhado mas concordava também com os argumentos de quem não ficou fascinado pelo mais recente livro de André Aciman publicado em Portugal). Por isso mesmo senti necessidade de procurar um e outro lado da fasquia para discuti-lo.
"Chama-me pelo Meu Nome" recolhe-nos para os verões em Itália na década de 80, e é em parte uma personificação do idílico de verão que todos tivemos um dia (se é que ainda não o mantemos): os ares mediterrânicos, a praia e a gastronomia, o prazer de comer enquanto se sente o sol na pele, o enrolado do idioma italiano saboreado numa terra pequena, onde a familiaridade permite o aconchego do regresso mas é também um policiamento de condutas (contrariadas pelos nichos das falésias na praia e recantos junto a arvoredos e pomares). Sente-se o calor, o "dandismo",  o calcorrear despreocupado que só o verão pode pedir.
A isto acrescente-se o facto da família de Elio, o protagonista de 17 anos, pertencer ao mundo académico das Humanidades. Esta camada traz-nos todas as nuances da arte, da exploração dos idiomas, do conhecimento de escritores, filósofos, pintores e escultores, da música e da História, tudo inter conectado em conversas debaixo de lua pelo serão fora. Conseguem recriar a imagem?
É neste contexto que Elio nos apresenta quem é, como interage com o seu ambiente e quais são as angústias, tão adolescentes mas também adultas, que convulsionam o seu bem-estar.
Antes de enveredar pela análise do enredo principal, queria abordar o estilo do autor. É extremamente sensorial e cheio de nuances, apelando a todos os sentidos que temos através do canal da imaginação. Em algumas passagens achei-a quase que poética, lírica, e dedilhada com minúcia e delicadeza.
Dei por mim várias vezes enlevada, a seguir o raciocínio do autor quase que desligada da realidade. O problema é quando esse embalar era quebrado por algum calão pontual ou pelos pensamentos do Elio, que repentinamente se tornavam retorcidos para mim e até a meu entender desnecessários para o construir da narrativa.
Como a sinopse já subentende, vamos falar de amor, ou é essa a intenção de Aciman. Pegando no pressuposto que duas pessoas diferentes e de idades diferentes podem encontrar-se no momento certo e desenvolver um momento apoteótico e de enorme respeito e amor entre si, o autor traz-nos o desenrolar da relação de Elio e de Oliver, um académico convidado pelos pais do rapaz para passar uma temporada na sua casa e progredir o seu projecto de doutoramento.
Apesar de todo este nível de abertura, não é possível esquecer que o enquadramento temporal é a década de 80 em Itália, e numa Itália rural apesar de todos os pressupostos mais boémios e culturais que possam estar associados  à sua casa, mas que não seguem os padrões da comunidade local. O que perfaz que ao mesmo tempo que o discurso  impute uma incitação à liberdade, à descoberta da paixão e da sensualidade, também existe um elemento castrador, até imposto pelo próprio Elio.
Em muitas passagens, pela forma quase venérea como é escrito, deu-se-me muitas vezes a sensação de estar a ler uma fantasia reprimida, autobiográfica, uma paixão não realizada do autor. A não ser verdade, a intensidade da narrativa só revela ainda mais mestria.
Mas se tudo é positivo, qual o motivo porque disse entender as opiniões menos boas? Porque me apaixonei por tudo no livro, menos pelo que lhe dá forma - o romance, que para mim tem tudo menos romance.
Não sei se o desalento tenha a ver com estar na cabeça de um rapaz de 17 anos, ou se porque sempre fui uma pessoa mais de amores maduros e duradouros do que de paixões avassaladores e vorazes. Provavelmente teria preferido muito mais ouvir a voz do Oliver e conhecer os seus dilemas interiores porque as nuances que nos são transmitidas da sua personalidade despertam o interesse. Já Elio revela-se somente obcecado, de uma forma de ronda ali uma enorme instabilidade que não me convence como um comportamento normal ou padronizado de um adolescente da sua idade.
Senti falta da construção da relação, dos momentos passados a dois a estabelecer a intimidade, já que esses são referidos como factos mas não explorados ao momento, deixando em evidência a entrega à paixão e à vida sexual, mas de uma forma pujante que inibe o restante universo. O que não seria um problema tratando-se de um caso de verão, mas a história é sempre vendida pelo autor e pelas suas personagens como um amor, que com os seus contornos se prolongou para a vida, à sua maneira.
É precisamente por causa disso e de uma certa imiscuição no texto de um tom de incumprimento, frustração e saudosismo de um momento perdido ou que nunca aconteceu, que revejo uma vontade do autor em encontrar algo perdido, um voto de retratação com o passado. Talvez por isso não tenha dado tanto espaço na narrativa para os momentos do quotidiano e da sua vivência em férias, uma vez que os factos vividos já encaixam no seu puzzle interior, evidenciando as peças soltas que lhe faltavam para terminar a sua narrativa interior. Quer tenha sido um projecto de auto conhecimento e introspecção ou não, a história por si não me convenceu.
De qualquer forma, todos me dizem que o livro é um bom complemento ao filme (embora geralmente devesse ser o contrário) pelo que aguardo vê-lo em breve e ver se já me rendo mais à história de Elio e Oliver.







Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.