Opinião: Lisboa - a Cidade Vista de Fora (1933-1974), de Neill Nochery



Lisboa 1933 - 1974 - A Cidade Vista de Fora
 de Neill Lochery

Edição/reimpressão: 2013
Páginas: 280

Resumo:
É uma obra que se debruça sobre as histórias dos estrangeiros que marcaram presença na cidade durante o período do Estado Novo. Reis e rainhas exilados, espiões, diplomatas, líderes mundiais e chefes de Estado, refugiados, estrelas de Hollywood e outras celebridades da época oferecem-nos uma perspectiva diferente e única do clima vivido em Lisboa durante quatro décadas, e da importância assumida pela capital em alguns momentos-chave da história europeia no século XX. Para quem considera que o contributo de Lisboa para o mundo terminou com o final da era dos Descobrimentos portugueses, esta obra torna-se uma leitura essencial, curiosa e surpreendente.


 Rating: 4/5 

Opinião: Esta foi a minha última leitura com a Editorial Presença e não podia ter gostado mais! São raras as vezes em que leio livros de não-ficção mas este foi um dos que não quis mesmo perder. De facto, tendo morado toda a minha vida na área da Grande Lisboa, este fantasma mítico da Lisboa dos velhos tempos cresceu comigo, e todos os locais e recantos de história que reflectem as grandes personalidades, as imagens de marca da socialite internacional, a magia de diversas casas reais europeias a circularem pelas mesmas ruas que hoje são minhas sempre teve algo de mágico. Não pelas personalidades em questão, mas pelas páginas de história, mais ou menos conhecidas, que foram sendo escritas sobre e para este espaço.
Não posso deixar de dizer que fiquei entusiasmada e o li num ápice, cheia de atenção a todos os pormenores. É bom terminar uma leitura, confirmando várias coisas que já sabia, recolhendo factos e coleccionando novas descobertas. Quantos daqui sabem que o Casino Royal, primeira grande aventura do 007, foi inspirada no Casino do Estoril, em plena II Guerra Mundial? E que antes de termos o aeroporto na Portela os aviões provenientes de tantos lugares longínquos como os Estados Unidos amaravam no Tejo? Ou que tivemos dois casamentos de casas reais no Estoril durante este período? Talvez sejam factos de conhecimento comum, mas que para as gerações mais novas (nas quais eu me incluo), são uma redescoberta das terras que são nossas, as quais nos habituámos a conhecer e a percorrer pela palma dos pés, e que nos trazem um rectrato vivido de uma Europa já muito diferente, com dinâmicas geopolíticas de cortar a respiração, e num ambiente de espionagem e suspense que talvez não se esperasse para a representação de uma Lisboa pacata.
São sem dúvida quadros de época, repletos de pormenores de construções idiomáticas, jogos de palavras e armadilhas de poder, que representam o interesse de diplomacia internacional por Lisboa, mais precisamente pela sua posição geográfica, e pelo significado de Portugal enquanto dado de jogo nos rearranjos internacionais resultantes tanto dos conflitos da II Guerra Mundial como da Guerra Fria. Senão acreditam, têm de ler, mas podem contar com co-habitação de ingleses e alemães nas ruas que tão conhecemos, com ilustrações da bonita Lisboa em filmes e revistas de renome, e com cartões de visita a imensas personalidades internacionais, onde contamos com artistas, actores, empresários, jornalistas, políticos e elementos das casas reais que marcaram o panorama internacional, e que passaram e/ou habitaram em Portugal (a título de exemplo, a princesa Grace Kelly ou a visita de Isabel II e do marido).
Só não leva um cinco porque acho que apesar destes acontecimentos importantes, e ainda que surjam excertos descritivos de Lisboa, o livro precisava de um capítulo introdutório caracterizador da cidade à época, assim como das populações locais, de modo a que todos os enquadramentos representados tivessem um seguimento sustentado. A lógica segue também para a apresentação de um mapa da cidade, a acompanhar os variados registos fotográficos, dado que as ruas que a mim me são familiares, porque sempre aqui vivi, o possam não ser quem não a conheça tão bem ou nunca tenha visitado Lisboa.

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Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas e bookcrossing, a Cláudia ainda consegue estudar e fazer o seu mestrado enquanto lê nos transportes públicos. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado é tão fácil encontrá-la numa biblioteca como na Rota Jovem em Cascais. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

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