segunda-feira, 23 de julho de 2018

Opinião: Guerra - E se fosse aqui?, de Janne Teller



Guerra - E se fosse aqui?
de Janne Teller
 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas 64
Editor: Bertrand
  





Sinopse: 
Janne Teller faz uma experiência provocadora: vira do avesso a atual crise de migrantes e faz de nós os refugiados. Faz-nos ver como se sente alguém que é obrigado a fugir do seu país, a ser exilado e a lutar pela sobrevivência num país estrangeiro.

Neste conto, a Europa desintegrou-se devido à guerra e o único ponto do globo que está em paz e é acessível é o Médio Oriente. Seguimos a fuga de uma família comum e vemos a sua vida de refugiados através do seu filho de 14 anos.

Rating: 3/5
Comentário: No passado dia 11 tive a oportunidade de conhecer a autora Janne Teller, numa iniciativa conjunta com a Bertrand Editora (aos mais atentos, sorteámos a oportunidade de se juntarem a nós e de ganharem um exemplo assinado pelas mãos da própria autora).
Não há como falar de "Guerra" sem enunciar a vida e as experiências profissionais da autora. Jane é uma assaz activista pelos Direitos Humanos e conta com passagens pelas Nações Unidas e a União Europeia, Moçambique, Tânzania e Bangladesh, sempre relacionada com a questão da resolução de conflitos.
O contacto com populações em fuga, com necessidades de protecção, as faltas de meios suficientes, o desenraizamento forçado e a dor presencial facetada em todos os momentos terão tido certamente preponderância na redacção deste livro.
A premissa é interessante (e mais ainda, importante): pretende criar empatia para a questão dos refugiados ao abordar a história de um jovem de 14 anos nessa situação. A forma de chamar a atenção? Personificando a narrativa para cada país. Neste caso, o jovem visado é português e lida com uma guerra na Europa que de alguma forma o puxa de na direcção do norte de África à procura da tão almejada paz.
O livro tem frases curtas, directas, descritivas, factuais. Pretende obedecer mesmo a uma lógica de relato curto e seco sobre o que seria viver num Portugal devastado pela guerra. Enuncia ainda as milícias, as dificuldades de sobrevivência, o mal estar físico e colectivo, a falta de esperança.
E tudo escrito num livro com menos de 100 páginas, editado segundo a forma de um passaporte, com ilustrações apropriadas e que se encaixam na esquemática seleccionada. É ainda necessário acrescentar que até a capa tem pequenas variâncias, consoante o país, provavelmente numa tentativa gráfica de expressar o mais aproximado possível a concretização de um passaporte nas nossas mãos.
Como disse, falar deste livro implica referir a autora.
Ao longo da nossa conversa, Jane Teller confidencionou-nos de que todos os seus livros são escritos como forma de dar resposta às suas questões e dúvidas internas. E que mesmo essas nunca ficam respondidas na totalidade até ao contacto com o público, cujas sensibilidades e realidades acabam por traduzir em diferentes percepções da obra.
Este livro, que inicialmente era um pequeno ensaio publicado há uns anos numa revista, tem tido diferentes recepções. Se na Dinamarca, um político proeminente evidenciou que nunca se passaria nada semelhante no seu país, na Hungria foi encarado como uma provocação. A intenção nunca foi nem uma coisa nem outra, mas simplesmente colocar este assunto na ordem do dia, porque assuntos tabu não são discutidos e como tal, não são procuradas soluções para lidar com os desafios do dia a dia.
Perguntei-lhe se já tinha tido algum tipo de retorno por parte de refugiados, ao que ela nos indicou que sim, muitos deles sentindo-se gratos por finalmente terem um testemunho tão aproximado da realidade sobre as suas experiências, o que poderia ajudar amigos e conhecidos a compreender melhor o que é ser refugiado (muitos sentindo-se também bastante espantados por se depararem com uma mulher caucasiana como a autora desta obra).
Resta-me acrescentar que embora o grupo presente não tenha chegado a acordo, encaro esta obra como um livro para ser lido por todos, especialmente por jovens adultos, já que o mesmo pode ser um óptimo ponto de partida para discutir um dos grandes temas do século XXI. A vaga de refugiados que já está, e irá continuar a alterar o nosso modo de estar e ver o mundo, assim como o da sociedade europeia. Recomendo por isso a todos, sendo uma leitura com um carácter especialmente educativo.



Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Passatempo: Nix- Fantasmas do Passado, de Nathan Hill


Com a colaboração da Editorial Presença, temos para oferecer um dos exemplares do livro "NIX - Fantasmas do Passado", de Nathan Hill. 

Este foi um dos livros mais falados no mundo literário dos Estados Unidos e chegou a Portugal em Maio. Para se habilitarem a ganhar um exemplar, basta que preencham o formulário em baixo com os dados solicitados. 

Sinopse: Estamos em 2011. Há décadas que Samuel Andresen, professor universitário e escritor falhado, não vê Faye, sua mãe. Mas eis que ela reaparece, depois de ter cometido um crime que não só captou a atenção dos media mas que veio incendiar um país politicamente dividido. Faye é descrita como uma hippie radical com um passado sórdido. 

Contudo, tanto quanto Samuel sabe, Faye era uma rapariga comum que casou com o namorado do seu tempo do liceu. Que versão da sua mãe será a verdadeira? Mas duas coisas são evidentes: ela enfrenta acusações graves e precisa da ajuda de Samuel. 

Para a salvar, ele terá de embarcar na sua própria viagem, à descoberta de segredos há muito enterrados sobre a mulher que ele julgava conhecer - segredos que se arrastam ao longo de gerações e que têm origem na Noruega. À medida que empreende essa viagem, Samuel irá confrontar não só as perdas de Faye, mas também o seu próprio amor perdido, e irá reaprender tudo o que julgava saber sobre a mãe e sobre si próprio.

Desde o Midwest suburbano até à cidade de Nova Iorque e aos motins de 1968 que abalaram Chicago e outras cidades norte-americanas, Nix - Fantasmas do Passado explora - com um humor subtil e uma grande sensibilidade - a resiliência do amor, mesmo num tempo de mudanças radicais.

Bestseller do New York Times, vencedor do Los Angeles Times Book Prize para primeira obra de ficção e Finalista do National Book Critics Circle Award. Considerado o LIVRO DO ANO pelos principais meios de comunicação social internacionais. Meryl Streep e J.J. Abrams associam-se à Warner Bros TV na produção de uma série de TV baseada neste livro.

Primeiras Páginas aqui.

Regras do passatempo
1) O passatempo decorre até às 23h59 do dia 30 de julho de 2018.
2) Todos os dados solicitados (incluindo Nick de Seguidor) devem ser devidamente preenchidos e completos.
3) Só será aceite uma participação por pessoa.
4) O passatempo abrange todo o território português (Portugal Continental e Ilhas).
5) O/A vencedor/a será sorteado de forma aleatória (random.org), sendo o resultado anunciado na página do blog e o contacto efectuado por e-mail.
6) O Encruzilhadas Literárias e/ou a Editora não se responsabilizam pelo extravio ou danos causados pelos CTT nas encomendas enviadas.
7) Todos os dados pessoais guardados, para efeitos de passatempo, serão eliminados após entrega do prémio ao vencedor ou vencedora.




«Estas e outras novidades no site da Editorial Presença aqui» 

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Opinião: Ginástica Facial, de Sónia dos Santos



Ginástica Facial
de Sónia dos Santos
 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas: 192
Editor: Manuscrito
  



Sinopse: 
O aspeto da pele do rosto, as rugas de expressão, os sinais de flacidez e envelhecimento, com os efeitos do sol e da poluição diária, são algumas das preocupações que temos com o nosso rosto. O primeiro impulso é comprar cremes, caros e pouco indicados para a nossa pele, que não surtem o efeito desejado. 

E se lhe dissermos que bastam dez minutos por dia para ginasticar o seu rosto e trabalhar todos os músculos da face de forma a conseguir uma pele mais luminosa, elástica e jovem?

Em Ginástica facial, Sónia dos Santos, especialista em estética avançada, traz-lhe 31 exercícios de ginástica facial que vão transformar o seu rosto. Exercícios simples e rápidos, para fazer em casa, sem gastar dinheiro e com efeitos visíveis em pouco tempo. Inclui ainda receitas de máscaras faciais naturais, massagens para o rosto e conselhos de nutrição para alimentar bem a sua pele.


Rating: 4/5
Comentário: Quanto a vocês não sei, mas desde que passei a fasquia dos 25 que passei a ouvir a os célebres comentários a propósito da pele. De como ela vai encontrar-se com o poder da gravidade no futuro, de como os hormonas irão alterar a sua flexibilidade e capacidade de regeneração, que deveria começar a aplicar alguns cremes anti-idade adequados à minha faixa etária para atenuar rugas ou traços de expressão, que inevitavelmente iriam surgir.
Nestas coisas, acho que a experiência alheia é boa conselheira, e aconselhei-me junto de quem sabe para que no futuro não ficasse a chorar sobre o leite derramado. Mas sentia sempre falta de uma intervenção mais activa, que os cremes não mostram e não aparentam, especialmente quando me deparava com a zona das bochechas e do pescoço. Por essas e por outras, quando vi o lançamento da Manuscrito em Junho passado, cheguei à conclusão que era mesmo de um guia destes de que andava à procura.
Se exercitamos o cérebro, os músculos das pernas, coxas e barriga, porque não os da face? Este é o mote da Sónia Santos para nos demonstrar que com pouco esforço mas persistência podemos cuidar de nós e de um dos órgãos mais importantes que temos: a pele.
Se dizem que os olhos são o espelho da alma, a pele é sem dúvida o espelho do nosso organismo muitas vezes. Se não acreditam, não bebam água suficiente durante uns dias e durmam poucas horas por noite, encham-se de açúcar e fiquem em salas de fumo e vejam o que ela vos conta no dia seguinte!
Em "Ginástica Facial", a autora apresenta um guia cuidado, sucinto, esclarecedor e fácil de acompanhar. Era inevitável começar um livro deste género e não abordar questões relacionadas com  a pele em si. Recorrendo a esquemas e explicações breves, a autora explica a estrutura e o funcionamento da pele, a influência de várias fases da nossa vida sobre o orgão e o que podemos fazer para proteger a pele o melhor que pudermos.
Achei este capítulo inicial importante e pertinente, não só numa lógica de transmissão de conhecimento, mas também de identificação das nossas mazelas e potenciais causas. Acima de tudo, permitiu também aproveitar os exercícios mais indicados para a situação que queria corrigir.
A explicação dos exercícios está feita de uma forma bastante intuitiva, e sai facilitada pela divisão dos mesmos por faixas etárias, representações esquemáticas que evidenciam os movimentos a adoptar e o uso de fotografias da própria autora a executá-las.
Estive a experimentar alguns exercícios nos últimos meses e posso dizer que: a) fazer caretas ganha toda uma nova dimensão; b) se algumas "expressões"/exercícios acabam por ser algo desconfortáveis pelo tempo solicitado para os executar, à semelhança dos glúteos, tudo se trabalha e acaba por se tornar mais fácil, c) aliado a uma correcta hidratação e tratamento da pele, sinto que este plano de exercícios tem aumentado a sua elasticidade.
Finalmente, a pergunta que todos querem saber: se irá ajudar a atenuar o aparecimento de rugas? A autora, formada e especialista em pele, diz que sim e é essa a intenção. Mas naturalmente não as fará desaparecer ou não aparecer de todo. De qualquer forma, ofereço-me para regressar daqui a 10 anos com comentários mais pertinentes sobre esta ginástica facial!

Aproveito também para partilhar uma entrevista da autora sobre o assunto aqui.
 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

domingo, 8 de julho de 2018

Passatempo: Meet&Greet com a autora Janne Teller

Boa tarde Encruzilhad@s,

Para alegrar o vosso Domingo temos um passatempo relâmpago!

Gostavam de ganhar o novo livro de Janne Teller, "Guerra"? Estão disponíveis para conhecer a autora dia 11 de Julho em Lisboa? Então este passatempo é o passatempo que estavam à procura.

Em parceria com a Editora Bertrand temos um exemplar do livro de "Guerra" de Janne Teller para oferecer assim como a oportunidade de conhecer a autora.


As condições deste passatempo são diferentes das habituais. Para se habilitarem a ganharem uma cópia deste livro terão de estar disponíveis para conhecer a autora em Lisboa dia 11 de Julho às 19 horas. Será no Meet&Greet que receberão o livro.

Se estão disponíveis no dia e hora acima estipulados preencham o formulário abaixo e boa sorte!

Regras do passatempo
1) O passatempo decorre até às 23h59 do dia 10 de Julho de 2018.
2) Todos os dados solicitados (incluindo Nick de Seguidor) devem ser devidamente preenchidos e completos.
3) Só será aceite uma participação por pessoa.
4) O passatempo abrange todo o território português (Portugal Continental e Ilhas).
5) O/A vencedor/a será sorteado de forma aleatória (random.org), sendo o resultado anunciado na página do blog e o contacto efectuado por e-mail.
6) O/A vencedor/a compromete-se a estar presente no Meet&aGreet com a autora Janne Teller onde receberá a cópia do livro. O Meet&Greet será em Lisboa, em local a designar, dia 11 de Julho às 19 horas. Se por algum motivo o/a vencedor/a não poder comparecer o livro não será enviado por correio. 
7) Todos os dados pessoais guardados, para efeitos de passatempo, serão eliminados após entrega do prémio ao vencedor ou vencedora.
8) Para a participação ser válida os participantes tem de pôr um "gosto" na página de Facebook do Encruzilhadas Literárias e da Bertrand Editora.


sexta-feira, 29 de junho de 2018

Opinião: Segredos de Uma Alimentação Saudável, Michel Lallement





Segredos de Uma Alimentação Saudável
de Michel Lallement
 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas: 256
Editor: Guerra & Paz


  



Sinopse: 
Agora sim! Um médico oncologista que nos ensina de forma simples, a prevenir e combater as doenças que mais nos afectam.
que têm em comum o cancro, o Alzheimer, a diabetes, a fibro­mialgia, a artrose, a osteoporose e a obesidade? Além de estarem a afectar cada vez mais pessoas, estas e outras doenças têm origem numa inflamação crónica das nossas células, cujas causas es­tão muitas vezes associadas ao consumo de alimentos tóxicos e a intolerâncias alimentares.
Em Segredos da Alimentação Saudável, o Dr. Michel Lallement, cirurgião oncológico,  explica e mostra-nos como funcionam na prática os mecanismos por meio dos quais intoxicamos o nosso organismo com uma alimentação inadequada e ensina-nos a escolher o que comemos, invertendo o caminho que nos pode levar ao encontro de algumas das piores doenças dos nossos dias. 

Rating: 3,5/5
Comentário: Acho que para falar sobre "Segredos de Uma Alimentação Saudável", terei de começar por abordar a experiência do autor enquanto profissional. Isto porque na atualidade proliferam livros sobre alimentação saudável, ou sustentável, ou para emagrecer, etc. No entanto, na medida em que este livro aborda a questão das doenças e a forma como estas duas temáticas se correlacionam, não estaria ao alcance de cada um criar um livro de referência sobre a temática.
"Confrontado durante duas décadas com o feroz aumento da incidência de cancro nos seus pacientes cada vez mais jovens, o Dr. Michel Lallement, cirurgião oncológico, dedicou muitos anos de trabalho e pesquisa para determinar o grau de influência dos factores nutricionais neste fenómeno. Desde 1991 envolvido no combate ao cancro, o Dr. Lallement propôs aos seus pacientes compilar toda a informação sobre os seus hábitos de alimentação, e foi com base nos resultados obtidos da análise desse dossiê, munido ao mesmo tempo dos mais recentes e avalizados estudos de outros médicos e investigadores desta área, que conseguiu chegar às impressionantes conclusões apresentadas em Comer Saúde, um êxito de vendas em França. Actualmente, o Dr. Lallement dedica-se à prevenção e acompanhamento terapêutico de doenças degenerativas. (Guerra & Paz)"É precisamente pela questão da inflamação e das inflamações crónicas que Michel Lallement começa este livro. Toda a parte introdutória do livro se dedica na abordagem ao processo inflamatório (o que é, potenciais causas e consequências, como é que a inflamação se relaciona com as doenças cancerígenas e qual o impacto da mesma na casualidade de progredirem para o aparecimento de cancros no futuro), sempre, claro, criando paralelos com a alimentação.
Evidenciando desde a primeira página que não pretende ser um livro de recomendação médica, mas de esclarecimento, o autor determina por diversas vezes a necessidade do leitor contactar outro colega de profissão em caso de necessidade.
É evidente que o livro foi pensado no mercado para o qual foi escrito, pelo que há diversas estatísticas que dizem respeito a França, mas é possível equacionar os valores correspondentes para o território nacional pelos artigos e reportagens que vão saindo sobre as temáticas abordadas de tempos a tempos.
Julgo que foi precisamente esta a abordagem que tornou a leitura mais fácil, mas também interessante e fresca, diferente do que tenho lido até então sobre as temáticas. Naturalmente abordas os alimentos e a alimentação pelo todo, focando-se mais nas propriedades e nas evidências científicas da aplicação de mais nutrientes ou proteínas provenientes de um leque da pirâmide alimentar em detrimento de outro.
Todo o discurso é realizado dentro da lógica do carácter consultivo e não dogmático, sem insistências, abordagens decisivas para que mudemos de vida ou geradores de culpa por falta de capacidade de correspondência. Acima de tudo, coloca disponível para o leitor o maior número de informação possível, seguindo os preceitos de que, no que respeita a médicos e a doenças, mas também aos livros o/a paciente é que sabe.

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Opinião: A minha avó pede desculpa, de Fredrik Backman



A Minha Avó Pede Desculpa
de Fredrik Backman
 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas: 336
Editor: Porto Editora
  


Sinopse: 
Elsa tem sete anos de idade, quase oito, e é diferente. Para já, tem como melhor - e única - amiga a avó de setenta e sete anos de idade, que é doida: não levemente taralhoca, mas doida varrida a sério, capaz de se pôr à varanda a tentar atingir pessoas que querem falar sobre Jesus com uma arma de paintball, ou assaltar um jardim zoológico porque a neta está triste. Todas as noites, Elsa refugia-se nas histórias da Avozinha, cujo cenário é o reino de Miamas, na Terra-de-Quase-Acordar, um reino mágico onde o normal é ser diferente.

Quando a Avozinha morre de repente e deixa uma série de cartas a pedir desculpa às pessoas que prejudicou, tem início a maior aventura de Elsa. As cartas levam-na a descobrir o que se esconde por detrás das vidas de cada um dos estranhíssimos moradores de um prédio muito especial, mas também à verdade sobre contos de fadas, reinos encantados e a forma como as escolhas do passado de uma mulher ímpar criam raízes no futuro dos que a conheceram.

A minha avó pede desculpa é uma belíssima história, contada com o mesmo sentido de humor e a mesma emoção que o romance de estreia de Fredrik Backman, o bestseller internacional Um homem chamado Ove.

Rating: 4,5/5
Comentário: Há livros que nos conquistam com as suas narrativas. Este foi um deles.
Elsa é uma miúda cheia de sorte. Porque teve uma avozinha como a sua. E a Avozinha teve o maior dos tesouros, por poder partilhar um mundo de magia e aprendizagens com a sua neta, a pessoa que mais amou em todo o Mundo.
É precisamente através desta menina, cheia de genica e garra, que apesar de vítima de bullying não baixa os braços e se estende à derrota, e encontra formas de resposta (mesmo que estas não correspondam ao por si esperado) que nos vamos ligando e derretendo perante o seu olhar narrativo, já que é através dela que conhecemos toda a história. E também por isso é necessário, mesmo com uma escrita bastante fluída e leve, ler com atenção os relatos desta criança, para quem não passem despercebidos os ciúmes e inseguranças com o irmão mais novo, o medo de rejeição do padrasto quando o novo irmão nascer, o não ter nunca mais uma parceira de brincadeiras, agora que a avó se foi...
Existe uma ternura inalienável nas relações de avós e netos, especialmente naquelas que são dotadas de uma série de códigos especiais, rituais de convivência e amor, segredos que nem se partilham entre pais e filhos  e toda uma mescla de movimentos identificativos que tornam estas relações tão especiais. A desta avó e neta ainda ganha um destaque maior pelo imaginário e universo criado para esta neta, pautado por histórias que compõem toda uma realidade alternativa, e que de uma forma que Elsa nem imagina, irá condicionar toda a narrativa. Porque estas histórias serão a chave para a condução da narrativa, cujo desfecho e enlace será traduzido com mestria, delicadeza e uma enorme sensibilidade.
Outro ponto muito forte nos livros de Fredrik Backman, já sentido com "Um Homem Chamado Ove" é a importância do espírito de comunidade, da partilha de vivências entre vizinhos e das necessidades de não nos isolarmos. A teia que une estas personagens, que surge na edificação de um prédio onde todos habitam, traz mais nas suas estruturas do que seria inicialmente esperado.
A forma como estas personagens se interligam, com as mais diversas e complicadas personalidades, tendo como fio condutor esta miúda destemida, é uma delícia de descobrir. 
Com muitas mensagens especiais sobre a vivência e a condição humana, que são apresentadas com delicadeza e de forma subtil, o autor traz-nos uma belíssima narrativa, uma história familiar, e a noção importante que os laços, quando fortes, perduram para lá da morte.

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

terça-feira, 12 de junho de 2018

Os Altos e Baixos do Meu Coração, de Becky Albertalli




Os Altos e Baixos do Meu Coração
de Becky Albertalli
 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas: 288
Editor: Porto Editora
  


 

Sinopse: 
Aos 17 anos, Molly sabe tudo o que há para saber sobre o amor não correspondido. É que a jovem já se apaixonou 27 vezes, mas sempre em segredo. E por mais que a irmã gémea, Cassie, lhe diga para ter juízo, Molly tem sempre cuidado. É melhor ter cuidado do que sofrer.
Quando Cassie se apaixona, a sua nova relação traz um novo círculo de amigos. Dele faz parte Will, que é engraçado, namoradeiro e um excelente candidato a primeiro namorado da Molly.
Mas há um problema: o colega de Molly, Reid, um cromo e fã incondicional de Tolkien, por quem ela jamais se apaixonaria… certo?
Uma história divertida e comovente sobre primeiros amores e a importância de sermos fiéis a nós mesmos.


Rating: 4/5
Comentário: Becky Albertalli, quem me dera que tivesses escrito estes livros quando eu era adolescente. Porque acredita, teriam feito toda a diferença.
Estou a escrever-vos esta opinião com a companhia dos Florence and The Machine, aproveitem para os ouvir quando lerem este livro, porque é decididamente a sua banda sonora (vão descobrir porquê).
Li "Os Altos e Baixos do Meu Coração" num ápice, durante a tarde de hoje, porque precisava de uma leitura descontraída depois de umas semanas algo tumultuosas. Quando o acabei, fiquei cheia de vontade de partilhar convosco o porquê de não poderem perderem este livro (no caso de serem fãs de YA), e podem crer que me deito com o coração quentinho.
Julgo que nem a sinopse original nem esta fazem jus ao enredo. Porque sim, é sobre a Molly e sobre o seu coração palpitante; mas é muito mais do que isso. Porque todos os livros desta autora se debruçam essencialmente sobre uma necessidade primária de todos: a aceitação e a inclusão, seja ela resultante de que factor estiver em causa.
Não me vou debruçar sobre o conceito inclusivo, porque tal como a autora não lhe dá evidência (porque é uma coisa banal, é suposto ser uma coisa banal, estamos em pleno século XXI para os mais distraídos), também não o vou fazer. Um casal de mães, filhos por procriação assistida ou famílias judias e interraciais? São coisas que deveriam estar assentes nos nos alicerces societais. Por isso todos estes elementos são contextualizações para quem são a Cassie e a Molly, mas não os assuntos em destaque.
Então o que é que discute aqui? A aceitação. A auto-induzida e a vinda do mundo exterior, que muitas vezes é o principal factor a deixar-nos desconfortáveis na nossa pele, mesmo quando achamos que estamos bem e não precisamos de "arranjos".  A idade encarrega-se de nos ensinar estas coisas, mas a adolescência é um período especialmente difícil e todos os factores que nos fazem sentir desconectados, pertencentes a uma outra realidade, incapazes de assentar e fazer parte da maioria levam o ser humano mais confiante a colocar-se em causa.
Molly aborda muitas destas questões na forma como se sente: não descontente com o seu corpo, mas com o que os outros esperam dela por causa disso, não descontente com quem é, mas com medo que isso não chegue para não ser rejeitada pelos alvos do seu afecto, feliz pelo sucesso da irmã, mas incapaz de lidar com o seu pouco à-vontade nas situações onde ela é rainha (e na verdade não é, sendo tão frágil e sensível como a sua gémea), não descontente com os seus talentos, mas que lhe parecem tão banais ao pé de tantos jovens mais artísticos, destemidos, desenvolvidos e com objectivos claros.
Há vários assuntos que esta autora aborda, e que nunca vi abordados desta forma em nenhum livro YA que tenha lido até ao momento. Dou-vos como exemplo as dúvidas que podem assolar os adolescentes quando se vêem alvo de afecto, mas também inspirando-se no afecto que vêm no outro que não encaixa no dito padrão que a sociedade aceita. Para além do risco de abrir o coração e de ter a hipótese de o quebrar, se alguém escolhe como alvo de afecto "um falhado", um "elemento fora da caixa", o que é que isso diz de si? Serão também "falhados"?
Não se tratando de uma questão certa ou errada, o que a autora faz é relembrar-nos da fragilidade e exposição que a adolescência nos deixou/ deixa a todos e o quanto o mundo envolvente pode ser cruel (mesmo quando é bem intencionado) ao ditar-nos padrões aos quais não podemos ou não devemos escapar. E que para além disso, mesmo quando não queremos ou não somos os mais indicados para os seguir, nos perseguem precisamente por evidenciarmos a diferença.
E se existem jovens a ler este texto, vou deixar clara a mensagem da Becky: não há nada errado convosco. Se o mundo não vos aceita, o problema é dele, não vosso. Hão-de encontrar as pessoas certas que vos respeitem tal e qual já são, porque elas também já andam à vossa procura.
Não me revi nesta adolescente, mas sim em muitos dos seus pensamentos quando tinha a sua idade. É uma das características da Becky Albertalli: lembrar-nos que também um dia já fomos adolescentes (ou no caso dos leitores ainda o serem, de que há por aí outros iguais). Molly é intensa, e com um coração enorme, amada e capaz de reagir nos momentos indicados aos problemas que lhe assistem, mas também nervosa, insegura, ciumenta, engraçada, melhor amiga, irmã, filha, namorada. Mas é essencialmente a Molly.
Claro que não posso descurar ou passar em branco o romance. A autora sabe sempre tocar-nos no ponto fraco e trazer histórias ternurentas e cheias de palpitações, sonhos, agitação e desejo. Desejo que seja desta que a personagem tenha o seu final feliz, que dê tudo certo, que a vulnerabilidade dê recompensa. Que prevaleça a coragem, o amor, a amizade e o respeito mútuo. Que os adolescentes aprendam com bons exemplos. Que se revejam nos seus pares. E a Molly, no seu percurso lento, estudado, arriscado, e sempre sonhador, traz-nos todas as boas sensações sobre o que é estar apaixonado e ser-se correspondido, mesmo que o seu coração ande aos altos e baixos. Só me apetece relê-lo de novo. Como já disse ao início, deito-me de coração cheio.

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

O que fazemos com os seus dados?



Sim, calculamos que já deitem pelos olhos emails e notas informativas sobre a nova directiva europeia para a Protecção de Dados que entra e vigor amanhã. 

Apesar de geralmente não ser necessária nenhuma partilha de dados pessoais com o Encruzilhadas Literárias, acabamos por ter acesso a alguns dados pessoais quando provenientes de passatempos. Sendo assim, apesar de não termos uma Política de Privacidade formal, e porque queremos ser o mais transparentes possível com a parca informação que recolhemos, saibam que:

-Para efeitos de passatempo em formulário criado para o efeito, solicitamos apenas o nome completo, email e localidade.
-Aquando a selecção do vencedor/a, enviamos email a avisar a comunicar o resultado. Após confirmação do/a receptor/a, o formulário utilizado para o efeito é apagado. Não guardamos os seus dados pessoais para além do tempo estritamente necessário para apurar resultados.
-A informação sobre moradas, necessárias para o envio dos exemplares - quando enviados directamente pelo blogue - consta somente nos emails trocados com a quem se destinam os exemplares. Esses dados, embora expressos nos emails que guardamos para registo da nossa actividade, não são utilizados com qualquer outro propósito, nem partilhados com terceiros. A qualquer altura poderá solicitar que os apaguemos.
-A informação sobre moradas, necessárias para o envio dos exemplares - quando enviados pelas editoras - são reencaminhados pela gestão do blogue à pessoa responsável de contacto para que proceda ao envio. Cada editora, também sujeita à regulamentação GDPR apresenta na sua página uma secção dedicada à política de privacidade por eles exercida, a qual deve ser consultada directamente. Em qualquer momento, poderão solicitar que os dados em causa deixem de constar nas suas bases de dados, ou registo informático, devendo solicitar por escrito ao blogue a sua intenção, de forma a que a possamos comunicar directamente.

Qualquer dúvida ou esclarecimento necessário deverá ser remetido para o nosso contacto de email: encruzilhadas (@) gmail.com

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quarta-feira, 2 de maio de 2018

Porto Editora na Feira do Livro: Primeiras Novidades

 Os 20 anos do Nobel de Saramago, lançamentos de livros, atividades para toda a família e workshops são alguns dos destaques do espaço Autores Que Nos Unem


  
O Grupo Porto Editora volta a marcar presença em mais uma edição da Feira do Livro de Lisboa que, este ano, decorre de 25 de maio a 13 de junho, no Parque Eduardo VII.

 A preparação decorre há vários meses e são muitos os autores convidados para este encontro anual com os leitores, sob o mote Autores Que Nos Unem . Lançamentos, sessões de autógrafos, atividades para crianças, tertúlias, showcookings , workshops e várias outras ações vão, tal como nas edições anteriores, levar milhares de leitores ao espaço Autores Que Nos Unem para conhecer os seus escritores portugueses e estrangeiros de eleição e celebrar o livro e a leitura.

 A programação será divulgada ao longo das próximas semanas através do site www.autoresquenosunem.pt , redes sociais e outros meios.

 Para celebrar os 20 anos da atribuição do Nobel da Literatura a José Saramago , o espaço Autores que nos Unem vai ser palco de várias iniciativas e terá um pavilhão especial dedicado ao autor e à sua obra.

 Os leitores que visitarem o espaço Autores Que Nos Unem vão encontrar vários escritores portugueses, entre eles os que estão agora a lançar os seus livros mais recentes: Mário de Carvalho ( Burgueses somos nós todos ou ainda menos ), Richard Zimler ( Maria e Danilo e o Mágico Perdido ) e Jacinto Lucas Pires ( A gargalhada de Augusto Reis ) são alguns dos exemplos. Os visitantes vão também poder conhecer as novas obras e coleções da renovada Sextante Editora , que surgirá já este mês para uma nova década de bons livros. 

 No dia 4 de junho, o mestre espiritual brasileiro, Sri Prem Baba , estará na Feira para lançar Propósito e, a 13 de junho, será apresentada a obra António Variações: Entre Braga e Nova Iorque , assinada por Manuela Gonzaga .

Outras inicitivas:
  • Revisitação ao Caderno Diário da Memória com Mário Augusto (26 de maio e 2 de junho);
  • Sessão prática de Shinrin-Yoku (banhos de floresta), orientada por Alex Gesse, guia certificado da Shinrin Yoku Portugal (27 de maio);
  • Sérgio Godinho , José Riço Direitinho e Filipa Melo falam sobre Sexo na literatura , com destaque para as suas obras recentes dos autores (31 de maio);
  • Passeio noturno pela Lisboa desconhecida e insólita , guiado pelo autor, Anísio Franco (1 de junho);
  • O Poder dos seus gestos , workshop com a autora, Irina Golovanova (2 de junho);
  • Descãoplicar , ação pet friendly com o autor, Pedro Emanuel Paiva (10 de junho);
  • Evocação a Aquilino Ribeiro, com o lançamento de uma nova edição de Cinco Réis de Gente (10 de junho);
  • Sessões infantis com Luísa Ducla Soares (27 de maio e 2 de junho) e Álvaro Magalhães (3 de junho).

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Opinião: Reino de Feras, de Gin Phillips



Reino de Feras
de Gin Phillips

 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas: 272
Editor: Suma de Letras Portugal
  


Sinopse: 
Lincoln é um bom menino. Aos quatro anos, é curioso, inteligente e bem-comportado. Lincoln faz o que a mãe diz e sabe quais são as regras.
«As regras hoje são diferentes. As regras são que temos de nos esconder e não deixar que o homem da pistola nos encontre.»
Quando um dia comum no Jardim Zoológico se transforma num pesadelo, Joan fica presa com o seu querido filho. tem de reunir todas as suas forças, encontrar a coragem oculta e proteger Lincoln a todo o custo – mesmo que isso signifique cruzar a linha entre o certo e o errado, entre a humanidade e o instinto animal.
É uma linha que nenhum de nós jamais sonharia cruzar.
Mas, por vezes, as regras são diferentes.
Um passeio de emoção magistral e uma exploração da maternidade em si – desde os ternos momentos de graça até ao poder selvagem. Reino de Feras questiona onde se encontra o limite entre o instinto animal para sobreviver e o dever humano de proteger os outros. Por quem deve uma mãe arriscar a sua vida?

Rating: 3/5
Comentário: Este livro é daqueles que têm como função dividir águas e grupos, com muitas opiniões diversificadas, o que para um primeiro romance para adultos (a autora é maioritariamente conhecida pelos seus livros infantis) é o melhor chamariz possível.
Depois de ter tido a oportunidade de o discutir com leitoras bem mais rápidas do que eu, tive curiosidade de saber o que esta leitura faria por mim, mesmo sabendo de antemão um ou outro pormenor.
Como enuncia a sinopse, Joan encontra-se no Jardim Zoológico com o seu filho Lincoln, quando se depara com o inesperado e se vê obrigada a esconder-se para proteger a sua vida e a do seu filho.
Com a infeliz frequência com que se vão sucedendo casos de tiroteios e sequestro pelos Estados Unidos, Gin Phillips poderia dar-nos uma visão resultante de uma fórmula que continua a ser frequente mas ainda assim aterradora. No entanto, vai mais longe e enuncia-nos uma caçada inexplicável e incoerente, que me relembrou o massacre de Anders Behring Breivik na Noruega em 2001. As razões do mesmo não são muito exploradas para além de umas breves nuances em jeito de explicação, mas cumprem o propósito de denotar que existe uma multiplicidade na perversidade alheia, que não se termina nos casos mais conhecidos; até porque também o fanatismo tem várias tonalidades de cinzento.
O cenário seleccionado é precisamente alvo dessa intenção premeditada e através de alguns momentos onde a abordagem se direcciona para um dos atiradores, conseguimos ter acesso a essa alegoria.
De qualquer forma, precisamente por se tratar de um jardim zoológico, senti que faltavam duas coisas: a primeira passa pela criação de um desenho esquemático em género de planta do Zoo, porque nem sempre foi fácil construir uma imagem mental para as deslocações dos personagens. Do ponto de vista do próprio espaço, a narrativa é pautada por muitos silêncios. Embora seja explicado em parte o motivo dessa ausência de ruído, estando num lugar repleto de animais, seria de esperar que uma situação avessa causasse não só um enorme impacto nos bichos, como estes se tornassem também imprevisíveis e mais um elemento de perigo.
A abordagem narrativa leva-nos em várias direcções, ao termos como companhia não só Joan e o seu filho, como um dos assassinos e algumas personagens secundárias. Estes permitiram que fosse tendo acesso a outros elementos da acção, de forma a compor um cenário mais exigente do que as narrativas individuais transmitiam ao longo da leitura.
Por falar em ritmo narrativo, admito que para os habitué no mundo do thriller este romance possa não parecer muito dinâmico, já que são somente dois ou três elementos a pontuar os momentos de maior acção, que nunca chega a ser verdadeiramente vertiginosa. Ainda assim, a acção faz sentido, o contexto está explicado e existe capacidade de encaixe e curiosidade para perceber o desvendar do conflito.
Relativamente às personagens, nem Joan nem o filho são companhias fáceis de suportar, ele porque sendo criança tem necessidades constantes, ela porque nem sempre é a mais inteligente nas decisões que toma. Ainda assim, é o facto de passarmos o tempo maioritariamente com eles que evidencia o real ponto forte da narrativa: o poder do amor maternal e todas as vertiginosas correntes que ele acarreta. Talvez esse amor não se evidencie tanto pelas acções mas pelas considerações que a personagem vai fazendo sobre o seu papel enquanto mãe e o crescimento do filho, quase que numa lembrança constante de que aquele menino terá de sair vivo daquela situação porque tem muito por viver e desenvolver.                           
É aqui que surge a controvérsia, por duas ou três decisões tomadas pela personagem. Posso dizer-vos que todas pessoas que são mães com quem falei deste momento, torceram o nariz à credibilidade do enredo e questionaram se a autora seria mãe na vida real. Não tendo acesso a essa informação, e não sabendo portanto se é isso que nos divide, uma vez que não tenho filhos também, a verdade é que uma das acções de Joan, por muito que chocante ao início (e algo que eu julgo nunca ser capaz de fazer), acabou por fazer sentido: a verdade é que o acompanhamento do raciocínio dela tornou-a plausível, especialmente porque também a personagem não está em paz com o seu comportamento, e isso em parte"desculpa-a".
Quanto à representação do mal, a análise das motivações primordiais deste grupo é algo fugidia para permitir grandes considerações, mas o tipo de discurso do elemento com o qual temos contacto, levou-me a crer que talvez se tratasse de alguém com algum défice de aprendizagem, o que traria uma abordagem bastante interessante sobre o perigo de reunir vários elementos explosivos no mesmo cocktail (especialmente pela capacidade de manipulação e promoção da maldade por parte do mundo exterior) .
O desfecho não foi surpreendente, mas cumpriu o seu propósito na totalidade. Algumas pontas são deixadas soltas ou por resolver, o que no contexto de um livro não traz grande nível de satisfação para o leitor. Da minha parte, tendo estado maioritariamente no papel de Joan, porque esta é a companhia mais regular da narrativa, optei por considerar que o facto desta decorrer ao momento, fez com que a personagem tivesse exactamente as mesmas dúvidas, as quais só veria esclarecidas posteriormente ao último momento do livro.
No geral, não é de todo um romance de ritmo acelerado. Muitas das situações relatadas foram provocadas de forma algo incisiva somente para que se pudessem desencadear os elementos perfeitos de uma perseguição de risco, levando o leitor sempre a crer que na ausência de uma decisão pouco inteligente, talvez nenhuma das personagens como potenciais vítimas fosse ameaçada.
Ainda assim, o facto que os pormenores estarem lá (mesmo que mais ou menos explorados), da escrita ser fluente e estar estruturada de forma interessante, leva-me a crer que Gin Phillips poderá trabalhar melhor os seus pontos fracos e trazer-nos um thriller em cheio muito em breve. Li-o em dois dias e quis muito conhecer o desfecho desta história. Podendo não ser o que os fãs do género procuram, é uma boa porta de entrada para leigos e curiosos do thriller.

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

sábado, 31 de março de 2018

Opinião: Boneca de Trapos, de Daniel Cole



Boneca de Trapos
de Daniel Cole

 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas: 472
Editor: Suma de Letras Portugal
  




Sinopse: 
O teu nome está na lista. Conseguirás salvar-te?

William Fawkes, um controverso detetive conhecido por «Wolf», acabou de ser reintegrado no seu posto após ter sido suspenso por agressão a um suspeito. Ainda sob avaliação psicológica, Fawkes regressa ao ativo, ansioso por um caso importante. se encontra com a sua antiga colega e amiga, a inspetora Emily Baxter, num local de crime, tem a certeza de que é aquele o grande caso: o corpo que encontram é formado pelos membros de seis vítimas, suturados de modo a formar uma marioneta, que ficou conhecida como «Boneca de Trapos». Fawkes é incumbido de identificar as seis vítimas, mas tudo se complica quando a sua ex-mulher, que é repórter, recebe uma carta anónima com fotografias do local do crime, acompanhada de uma lista na qual constam os nomes de seis pessoas e as datas em que o homicida tenciona assassiná-las. O último nome da lista é o de Fawkes. A sentença de morte com data marcada desperta as memórias mais sombrias de Wolf. O detetive teme que os assassinatos tenham mais a ver com ele — e com o seu passado — do que qualquer um possa imaginar.

 

Rating: 4/5
Comentário: Todos sabem que a melhor parte dos policiais e dos thrillers é a tensão crescente e a necessidade de adivinhar o que é que vai acontecer a seguir. É por isso que os leio pouco, nunca aguento e fico maluca enquanto os leio. Adoro assistir séries e filmes do género, mas é certo que uma vez ou outra escondo a cara entre os dedos em antecipação. É uma tontice, mas que uma leitura impossibilita porque temos de ler todas as linhas para que o enredo faça sentido. Isso não me impede de gostar do género, e de tanto em tanto tempo seleccionar uma história para descobrir.
Daniel Cole trabalhou na produção de séries de acção e policial como 24 e como tal, é perito em reunir os ingredientes necessários para criar uma trama que prenda o leitor. Mas também sem esquecer que as personagens devem ser carismáticas e que algumas deverão ter o condão de nos pautar com muito momentos humorísticos, mesmo que de humor negro, como acontece neste livro.
Julgo que foi fácil para o autor reunir todos estes ingredientes, porque de facto dei por mim por diversas vezes a visualizar a acção como num episódio televisivo.
Daniel Cole fornece-nos uma personagem principal com os seus próprios mistérios, várias personagens secundárias com protagonismo e histórias individuais (o que num enredo de um policial nem sempre é fácil de surgir, assim como de manter o equilíbrio) fornecidas em pequenos pormenores que abrem o apetite para saber mais, e um criminoso que parece sempre estar à frente do departamento da polícia e do leitor.
Os crimes são desenhados com mestria e surpresa e não dão indícios ao leitor de que os mesmos irão acontecer e no formato em causa. Por outro lado, um ponto alto deste livro para mim passa pela descrição dos crimes e dos actos do criminoso. São claros, bem distintos, mas sem excesso de pormenores e imagens gráficas, as quais eu dispenso de sobremaneira.
É bastante claro, desde início, que existe uma relação entre o momento inicial narrado e o caso que está a ser discutido posteriormente e que dá nome ao livro, e este quebra-cabeças acompanha o leitor e fá-lo tentar descortinar pistas ao longo de cada momento da narrativa.
Adorei a interacção das personagens, as piadas sarcásticas, a acção interrupta e o estilo corriqueiro que fizeram as páginas voar a um ritmo acelerado.
O desfecho é completamente inesperado e alguns pontos causaram estranheza, que se explica por este ser o primeiro livro de uma série, com elementos a serem explorados em próximos volumes.
No total, destaco principalmente esta equipa de polícias que para mim foi o ponto forte da narrativa, mais até do que o crime em causa, e cuja estrutura se assemelha mesmo à das séries televisivas.
Vou estar atenta aos próximos livros e desafios de Wolf, até porque gostaria de saber qual o ponto de partida de um próximo volume atendendo ao desfecho de "Boneca de Trapos".

 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

terça-feira, 6 de março de 2018

Opinio: A Arte Subtil de Saber Dizer Que Se F*da, de Mark Manson



A Arte Subtil de Saber Dizer Que Se F*da
de Mark Manson

 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas: 208
Editor: Desassossego
  


Sinopse: 
Uma abordagem que nos desafia os instintos e nos força a questionar tudo o que sabemos sobre a vida
Durante décadas convenceram-nos de que o pensamento positivo era a chave para uma vida rica e feliz. Mas esses dias chegaram ao fim. Que se f*da o pensamento positivo! Mark Manson acredita que a sociedade está contaminada por grandes doses de treta e de expectativas ilusórias em relação a nós próprios e ao mundo.
Recorrendo a um estilo brutalmente honesto, Manson mostra-nos que o caminho para melhorar a nossa vida requer aprender a lidar com a adversidade. Aconselha-nos a conhecer os nossos limites e a aceitá-los, pois no momento em que reconhecemos os nossos receios, falhas e incertezas, podemos começar a enfrentar as verdades dolorosas e a focar-nos no que realmente importa.
Recheado de humor e experiências de vida, A Arte Subtil De Saber Dizer Que Se F*da é o soco no estômago que as novas gerações precisam para não se perderem num mundo cada vez mais fútil.

Rating: 3/5
Comentário: Quem já nos acompanha há uns tempos, sabe que não tenho por hábito ler livros de auto-ajuda e/ou desenvolvimento pessoal; mas este título sobressaiu no meio das novidades editoriais do início do ano e achei que era uma lufada de ar fresco necessária no que tocava ao meu panorama de leituras.
De qualquer forma, não acho que este livro de Mark Manson se encaixe verdadeiramente em nenhuma destes géneros. Isto porque o autor nos apresenta, acima de tudo, o que é a sua visão do mundo e o que fazer para enfrentá-lo, visão essa que advém (embora o mesmo se tenha especializado no assunto através do ganho de competências ao longo dos anos a escrever colunas sobre a temática) de uma base empírica, e que como tal, pouco ou nenhum fundamento científico tem. Mas também sou apologista que na maioria dos casos, não são os estudos ou as intervenções científicas que se adaptam melhor às nossas necessidades do dia a dia, mas os mecanismos de resposta que vamos adquirindo através da experiência e das coisas que nos correm melhor ou pior. Dito isto, é a partir deste pressuposto que o autor nos apresenta um conjunto de acções/ projecções de vida por si adquiridas e que, fazendo-lhe sentido e tendo-lhe trazido um maior nível de bem-estar, este decide partilhá-lhas connosco.
Não há como começar a escrever sobre elas sem referir o título. Quando o vi em português, quis ir descobrir o original (já que sabemos que as traduções nunca são fáceis, especialmente pela impossibilidade literal de comportar os mesmos significados e intenções para um público socio- culturalmente diferente). A aproximação entre ambos está deliciosa, embora no fundo não compreenda o alcance que o autor lhe quis transmitir. Se a expressão "que se f*da" se prende mais com a intenção de embora pesando as consequências e as responsabilidades dos nossos pensamentos e acções, decidimos avançar, pensando que logo se vê no que é que vai dar (e mandando-as para trás das costas), verbalizar um "not giving a f*ck", transmite mais a ideia de que as coisas deixam, efectivamente, de ter importância (isto, claro, no meu entender). Ainda assim, ambos cumprem o propósito de chamar a atenção do leitor para a necessidade de equacionar o que é que anda a fazer e quanto tempo perde preocupado com coisas que, a acontecer, não merecem o tempo que lhes dispensamos.
Compreendendo o que é que os críticos indicam como uma abordagem contra intuitiva, os princípios com os quais o autor se rege não me eram desconhecidos (alguns até os coloco em prática, na minha medida) e portanto não posso dizer que contenham o factor "uau" que poderá ter para muitas outras pessoas. Ainda assim, não posso negar que foi um prazer encontrar outro semelhante naquelas páginas porque, como o autor enuncia a determinada altura, não somos assim tão especiais nem diferentes uns dos outros.
É um livro que cria uma abordagem crítica ao egocentrismo e antropocentrismo que rege a maioria das sociedades (especialmente as ocidentais, sendo as que o autor naturalmente conhece mais de perto), e que esparrama as suas fragilidades diante dos olhos do leitor. Mas também reforça com contra indicativos formatos para contrariar as ratoeiras por elas criadas.
Podendo ser ligeiramente provocador a determinadas alturas, reconheço que Mark Manson sofre de um dos mal por si enunciados, já que contrariando o que disse anteriormente, o seu posicionamento quando nos apresenta quais os mecanismos ditos contra intuitivos, é precisamente numa lógica dourada, como se a sua metodologia fosse A certa e devesse ser adoptada por todos, não fosse verdade que ao não o fazerem, a responsabilidade dos seus problemas será somente sua.
Falando em responsabilidade, um dos capítulos que achei mais interessantes passa precisamente pela relação dinâmica entre culpa e responsabilidade, segundo uma abordagem que já pratico no meu dia a dia, embora considere algo perigosa pela aura de plenitude que o autor transmite. A título de exemplo, ele relata um caso de um pai que perdeu um filho e refuta a sua teoria. Diz ter-se sentido inicialmente culpado, mas que no fundo depois de ponderar o assunto considera estar correcto. No meu entender, esta análise a todos os níveis e esferas da nossa vida pode desenvolver outros sentimentos de culpa e inadaptabilidade, precisamente porque acontecimentos mais trágicos nem sempre nos permitem reagir segundo um plano de acção e que não acho, de todo, que alguém se deva culpar e responsabilizar por isso (Leiam o livro e venham discutir esta teoria comigo mais tarde!).
O segundo capítulo que mais ocupou a minha atenção tratou das relações tóxicas e de dependência, e neste caso acho que o autor acertar na mouche.
No fundo, não concordando na totalidade com as várias indicações transmitidas pelo autor, considero que "A Arte Subtil de Saber Dizer Que se F*da" não deixa de ser uma lufada de ar fresco e de remexer algumas mentes que nunca se tenham debruçado sobre as temáticas abordadas pelo autor segundo este prisma. São provocadoras, mas não se imiscuem no universo dos leitores, já que o livro está montado quase que numa lógica de story telling, evidenciando precisamente os desafios sentidos pelo autor ao longo da sua vida, e as respostas que teve de dar para vencer um obstáculo, tornando-as depois mantras para vencer numa vida mais simples e feliz.
Merece ser lido e discutido, já que os posicionamentos enunciados pelo autor pretendem acima de tudo servir como alavancas para o despertar de consciências. E se no final aprendermos todos a dizer "que se f*da" ou "not giving a f*ck" mediante uma série de circunstâncias da nova vida, o livro cumprirá o seu propósito.


 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Opinião: As Curiosidades da História de Portugal no Arquivo do Ministério do Tempo



As Curiosidades da História de Portugal no Arquivo do 
Ministério do Tempo

 
Edição/reimpressão: 2017
Páginas: 448
Editor: Manuscrito
  



Sinopse: 
Será que Viriato foi mesmo o primeiro grande herói de Portugal?
Conhece a história do rei que foi casado com duas mulheres?
Sabia que o infante D. Henrique, o Navegador, fundador da Escola de Sagres, pouco ou nada andou de barco?

Com base na série de ficção histórica da RTP que conquistou os portugueses - Ministério do Tempo -, As Curiosidades da História de Portugal no Arquivo do Ministério do Tempo reúne 64 episódios curiosos da História de Portugal. Partindo desde os tempos mais remotos, atravessando a Idade Média e a Idade Moderna, para chegar à época contemporânea, vamos reviver nestas páginas a nossa História pelo seu lado mais curioso, inusitado e divertido, pondo em causa alguns dos factos que os livros de História sempre nos deram como certos.

Na mesma época em que os marinheiros portugueses davam novos mundos ao mundo, D. João II ficou a conhecer o incrível segredo das Portas do Tempo. Para as gerir criou o Ministério do Tempo. E atribuiu-lhe uma única missão: garantir que ninguém viaja ao passado para alterar o presente. O Ministério do Tempo mantém-se aberto até aos nossos dias. É o grande segredo do Estado Português. A sua existência passa da boca de uns poucos eleitos para os ouvidos de outros. Apenas os melhores e mais úteis são chamados para trabalhar no Ministério do Tempo.

Rating: 4/5
Comentário: Não sei quanto a vocês, mas sempre fui uma enorme fã de História, desde miúda. O prazer de assistir a "O Ministério do Tempo" proveio precisamente do facto da série trazer de uma forma divertida, vários contextos de época que se introduziam na História de Portugal, sem correr o risco de efectivamente a contar e entrar em incongruências. A parte mais engraçada passou precisamente pela entrada de personagens históricas, que enlaçadas por um sentido de humor bastante inteligente, lançavam vários comentários que só o ouvido mais atento e algo conhecedor poderia entender na totalidade, sem estragar no entanto a visualização para o público vasto.
Nesse sentido, e porque sempre tive curiosidade sobre factos menos conhecidos da História de Portugal, quis muito ler este lançamento da Manuscrito.
Começo por dizer que da série do "Ministério do Tempo", só herda o título, pelo que os fãs da mesma que não forem acérrimos da História de Portugal podem não divertir-se por aí além. Julgo que, embora cumpra o seu propósito, já que o mesmo acaba por utilizar a referência à série, poderia ter um capítulo introdutório que incidisse mais na lógica da ficção, do género de um relatório de missão ou nem que fosse um apanhado que contextualizasse a série.
Seguidamente, confesso que me assustei com o primeiro capítulo, porque esperava algo mais leve e a linguagem pareceu-me demasiado enciclopédica para o que pretendia ser uma colectânea de episódios curiosos da História de Portugal.
Felizmente, essa situação compreendeu somente o capítulo inicial e permitiu-me desfrutar em pleno dos restantes do modo que esperava: uma redacção episódica, simples, fácil de acompanhar e com algum sentido de humor envolvido, nem que fosse pelo tipo de casos seleccionados.
O livro está organizado por ordem cronológica, acompanhando todos os períodos da História do nosso país até ao 25 de Abril, sendo que os casos seleccionados se inserem em narrativas menos conhecidas sobre a nossa História para cada um desses períodos.
Outra questão interessante, para além das pertinentes chamadas de atenção, passou pela apresentação de referências e datas-chave em quadros de chamada de atenção, que facilitam ainda situar os enredos narrados não só no plano nacional, mas também europeu.
Várias personalidades, já de todos conhecidas pela intervenção dos manuais escolares ganham assim uma nova cor, com destaque para situações menos exploradas ou de total desconhecimento da maioria das pessoas. A título de exemplo, poderão descobrir que Vasco da Gama não era santinho nenhum, que a expressão "Deus, Pátria e Família" pode não ser tão lusa como o esperado ou que o romance de D. Fernando com D. Leonor Teles podia não ser tão afogueado como nós pensamos. A tão fantástica polémica de D. Afonso Henriques e D. Teresa? Claro que não poderia faltar.
Os episódios são curiosos, interessantes, sucintos e capazes de captar a atenção do leitor, para além de virem relatados em capítulos breves.
Eu optei por vir descobrindo estes e outros momentos um de cada vez, para saborear em pleno cada novo momento descoberto. É um óptimo livro para relaxar ao final do dia e descansar a cabeça após um dia de trabalho. Fica a recomendação.


 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Uma Mulher Desnecessária, de Rabih Alameddine



Uma Mulher Desnecessária
de  Rabih Alameddine
 
Edição/reimpressão: 2017
Páginas: 264
Editor: Porto Editora
  


Sinopse: 
Aaliya Saleh vive sozinha no seu apartamento em Beirute, rodeada por pilhas e pilhas de livros. Sem Deus, sem pai, sem filhos e divorciada, Aaliya é o «apêndice desnecessário» da sua família. Todos os anos, ela traduz um novo livro para árabe, e depois guarda-o. Os trinta e sete livros que Aaliya já traduziu nunca foram lidos por ninguém. Depois de ouvir as vizinhas, as três «bruxas», a criticar a extrema brancura do seu cabelo, Aaliya tinge-o… de azul.

Neste assombroso retrato da crise de idade de uma mulher solitária, os leitores seguem a mente errante de Aaliya, à medida que ela vagueia pelas visões do passado e do presente da capital do Líbano: reflexões coloridas sobre literatura, filosofia e arte são invadidas por memórias da guerra civil libanesa e do próprio passado volátil de Aaliya. Ao tentar superar o envelhecimento do corpo e as inoportunas explosões emocionais que o acompanham, Aaliya é confrontada com um desastre impensável que ameaça estilhaçar a quietude da vida que ela escolheu para si mesma.

Rating: 4/5
Comentário: Reconheço que este possa não ser um livro para qualquer leitor ou leitora, mas foi dos mais bonitos que li ultimamente. Rabih Alameddine traz-nos a história de uma mulher que à luz da sociedade que a acolhe é precisamente aquilo que o título enuncia: uma mulher desnecessária. Uma mulher que não cumpre os preceitos societais através da sua vida pessoal nem constribui activamente com uma actividade profissional que seja compreendida e aceite pela população em geral. Para além disso, e mesmo que seja de desconhecimento geral, o seu passatempo de tradução acaba por se assemelhar a uma pequena ocupação inglória, atendendo a que o resultado dessa tradução acaba arrumado em caixas espalhadas pela sua casa. Ou será que a sua produção vale pela acção e tempo investido, independentemente do resultado? Até que ponto os nossos interesses são válidos só porque nos dão prazer?
Esta é uma das questões que fica latente ao longo da narrativa e a qual vai sendo abordada e desvendada ponto por ponto, especialmente com reflexões mais aprofundadas e acutilantes sobre a arte da tradução e todos os preceitos que a cobrem.
Simultâneamente, os singelos acontecimentos da vida quotidiana são elucidações e pontes de transposição para outras partes da vida passada desta mulher, que não fossem esses momentos e quase que validações da sua presença e existência, teria passado a vida em branco.
São também os pequenos acontecimentos do presente que lhe atribuem uma certa dimensão corpórea, que desfaz a ilusão de que Aaliya só vive no passado e não tem existência no mundo actual. E esses pequenos momentos, tão caricatos, são também aqueles que reforçam um carácter mais ligeiro a um livro carregado de melancolia, despreendimento e alguma dose de luto pelo mundo já vivido, pelas personagens que passaram pela sua vida e já não estão presentes e por aquilo que Aaliya foi e/ou poderia ter sido.
"Uma Mulher Desnecessária" é também uma ode à arte, com inúmeras reflexões filosóficas e abordagens artísticas, desde a música clássica à, naturalmente, literatura. São mencionados vários autores e autoras, com muitas citações e até desconstruções sobre o que foi por estes/as referenciado. E em variados momentos mais corriqueiros, talvez porque estes/as sejam os companheiros e companheiras que mais a acompanham (mesmo que no campo metafórico) ao longo de toda a sua vida, as análises por estes/as produzida quase que justificam ou valorizam os seus pensamentos.
Não tenho a certeza de tratar-se de liberdade de tradução, mas a referência constante à obra de Fernando Pessoa pareceu-me a determinada altura como excessiva. Percebo a necessidade de aproximar a leitura à realidade do leitor, mas sem que esta deturpe o original quanto ao seu enquadramento geográfico.
No geral, este é um livro muito especial e cheio de nuances, com uma abordagem sensível e sublime ao que é ser mulher na Líbia, sem tomar as dores e as percepções de todo um género mas recriando uma história que facilmente se enquadra na temática. É um enredo que conjuga subtileza, estética, filosofia e poesia, assim como representações multiculturais que não podem nem devem ser desmerecidas.
É um óptimo livro, com um ritmo lânguido que pede para ser lido com prazer e calma. Recomendo.


 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.