sábado, 23 de março de 2019

Opinião: Sono, de Haruki Murakami



Sono

de Haruki Murakami

 
Edição/reimpressão: 2010
Páginas: 96
Editor: Casa das Letras




Sinopse: «Há dezassete dias que não durmo.» Assim tem início a história que Haruki Murakami imaginou e escreveu sobre uma mulher que, certo dia, deixou de conseguir dormir. Pela calada da noite, enquanto o marido e o filho dormem o sono dos justos, ela começa uma segunda vida. E, de um momento para o outro, as noites tornam-se de longe mais interessantes do que os dias... mas também, escusado será dizer, mais perigosas.

Rating: 4/5
Comentário: O idílico de um período de sono satisfatório é um dos celeumas da sociedade moderna. Ou não existissem clínicas especializadas em ensino e tratamento do sono. Haruki Murakami soube pegar  na questão e criar uma novela alegórica e surrealista que valida a dormência causada pelo quotidiano e a desconexão ao mundo real, enquanto simultaneamente joga com o mistério da noite para consolidar a narrativa.
Partindo das maleitas de uma noite mal resolvida, de um pesadelo que nada mais é do que um grito de ajuda para a superação da inoperância do dia-a-dia, "Sono" é uma canção escrita às sombras do que somos e do que poderíamos ser. É também uma vontade de valorizar o que nos é mais importante, especialmente a essência única que nos compõe e que fica perdida entre as responsabilidades e constantes papéis que devemos assumir. Esquecendo o mais importante, que é a nossa identidade.
É também uma chamada de atenção para o que temos diante de nós e que acaba por passar despercebido. Pela necessidade de realmente olhar para as pessoas que temos defronte de nós e vê-las por inteiro. E eliminar distracções que inibam o reconhecimento da presença do outro.
Simultaneamente, apresenta um lado mais pragmático ligado precisamente aos aspectos físicos e biológicos da privação de sono. Que acabam precisamente por ter um papel de extrema importância para o desfecho da narrativa.
Todas as realizações são acompanhadas de ilustrações lindíssimas, que só por si contam uma história própria, e cujas nuances e fluidez reforçam e fazem crer que a vida é movimento e continuidade, seja em formato for.


Se estiverem interessados, o livro está hoje em promoção na Leya com 30% de desconto. Aqui fica o link.



Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

sexta-feira, 15 de março de 2019

Opinião: A Última Ceia, de Nuno Nepomuceno


 
A Última Ceia
Nuno Nepomuceno
 
Edição/reimpressão: 2019
Páginas: 360
Editor: Cultura Editora






Sinopse: Uma nota enigmática é encontrada junto a lascas de tinta e tela, e à moldura vazia de um quadro famoso. O ladrão deixou um recado. Promete repetir a façanha dentro de um ano. De visita à igreja de Santa Maria delle Grazie em Milão, uma jovem mulher apaixona-se por um carismático milionário. Mas quando alguns meses depois é abordada por um antigo professor, Sofia é colocada inesperadamente perante um dilema. Deverá denunciar o homem com quem vai casar-se, ou permitir tornar-se cúmplice deste ladrão de arte irresistível?

Enquanto a intimidade entre o casal aumenta, um jogo de morte, do gato e do rato, começa. E aquilo que ao início aparentava ser um conto de fadas, transforma-se rapidamente num pesadelo, enquanto um plano ousado e meticuloso é urdido para roubar a obra-prima de Leonardo da Vinci. Requintado, intimista, inspirado em acontecimentos verídicos, A Última Ceia transporta-nos até ao elitista mundo da arte. Passado entre Londres e Milão, habitado por uma coleção extraordinária de personagens, para as quais a ambição e fama sobrepõem-se a qualquer outro valor, este é um thriller sofisticado de leitura compulsiva. Uma viagem surpreendente ao centro de uma teia de intrigas, romances e traições.

Rating: 3/5
Comentário: É verdade, mais um livro do Nuno Nepomuceno a ser lido no Encruzilhadas Literárias. Acompanhar a carreira de um escritor é sempre interessante. Somos espectadores privilegiados do seu percurso e evolução, mas também detectamos quando os mesmos necessitavam de espaço para maturar um livro com maior cuidado, especialmente por já lhe conhecermos o estilo e a prosa. "A Última Ceia" é um dos livros que se encaixa na última categoria.
A sinopse denota que a trama tem tudo para dar certo. Obras de arte, criminosos, mistérios e vários actores, todos com propósitos e ambições diferentes.
Passando além fronteiras e reforçando os mecanismos do subterfúgio, "A Última Ceia" vai-nos transmitindo várias pistas que vão sendo desvendadas rapidamente, mas que ainda assim prendem o leitor à trama.
Por outro lado, a complementaridade do universo do Afonso Catalão surge algo forçada e desnecessária. Este livro sobrevivia sem esse elemento, vivendo como livro independente. Até porque os pontos de conexão que foram fornecidos sobre ele e a sua família poderiam ter sido mais explorados e eram bastante interessantes. Mereciam brilhar, num outro livro que não este.
As personagens deste enredo foram bem delineadas, precisando de ser consolidadas e ganhar maior dimensão. Para isso, contribuiria a eliminação de certos elementos descritivos que nada acrescentam à narrativa e ocupam espaço que poderia ser preenchido pelo desenvolvimento e esclarecimento de várias questões que surgem repentinas, pouco exploradas, desconectas do restante enredo e que são resolvidas sumariamente pela não resolução.
Senti o fim como algo apressado, especialmente pelo desaparecimento repentino de algumas personagens, de uma forma que não me fez muito sentido.
Por outro lado, e como o autor já nos vem habituando, o livro revela estudo (especialmente o de campo, o de análise directa), que atribui uma singularidade de posse à narrativa e nos transmite para o plano da deslocação in loco. Do ponto de vista do conhecimento em geral, aprendo sempre algo novo nos livros do Nuno, e este caso não foi excepção. Com uma forma leve, mas completa, o enredo tem sempre o reforço de um enquadramento, seja histórico ou conceptual, que valida a narrativa. Foi das partes mais interessantes do livro, para mim. E julgo que, apesar de encadeada por questões e factos acessórios, conseguiu brilhar e validar o título que dá nome a esta narrativa.
Não há como detalhar mais esta experiência de leitura sem revelar o enredo. Tratando-se de um thriller, é tudo o que menos se quer. Deste modo, fica o desejo de que este livro seja um dia reeditado, com outra abordagem, porque uma maturação mais lenta vai trazer ao de cima o sumo que pontifica uma narrativa ágil, intrincada e com diversas surpresas.




Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quinta-feira, 7 de março de 2019

Opinião: A Sociedade Literária da Tarte da Casca de Batata, de Mary Ann Shaffer e Annie Barrows



A Sociedade Literária da Tarte da Casca de Batata

de Mary Ann Shaffer, Annie Barrows

 
Edição/reimpressão: 2010
Páginas: 384
Editor: Suma de Letras Portugal






Sinopse: Londres, 1946. Depois do sucesso estrondoso do seu primeiro livro, a jovem escritora Juliet Ashton procura duas coisas: um assunto para o seu novo livro, e, embora não o admita abertamente, um homem com quem partilhar a vida e o amor pelos livros. É com surpresa que um dia Juliet recebe uma carta de um senhor chamado Dawsey Adams, residente na ilha britânica de Guernsey, a comunicar que tem um livro que outrora pertenceu a Juliet. Curiosa por natureza, Juliet começa a corresponder-se com vários habitantes da ilha. É assim que descobre que Guernsey foi ocupada pelas tropas alemãs durante a segunda Guerra Mundial, e que as pessoas com quem agora se corresponde formavam um clube secreto a que davam o nome de Sociedade Literária da Tarte de Casca de Batata. O que nasceu como um mero álibi para encobrir um inocente jantar de porco assado transformou-se num refúgio semanal, pleno de emoção e sentido, no meio de uma guerra absurda e cruel.

Rating: 4/5
Comentário: "A Sociedade Literária da Tarte de Casca de Batata" é um hino à esperança e à reconstrução, à capacidade de encontrar humor no meio da negritude, e da procura dos laços de companheirismo como rede de sobrevivência no meio da crueldade. Ou do inesperado. Algo que as próprias autoras replicam, já que Annie Barrows apoiou a tia e deu continuidade à redacção deste livro, quando a segunda deixou de estar apta por questões de saúde.
Guernsey é um exemplo da extensão dos tentáculos da guerra, com tudo o que ela acarreta, mantendo vivos os fantasmas da deportação e da fome, mas talvez ligeiramente mais protegida da crueldade atroz que outros locais presenciaram durante a ocupação nazi.
Ou talvez assim o seja somente pelos olhares destas personagens, que procuraram num momento que, primeiramente serviu de sobrevivência e depois de recriação de refúgio, conseguiram encontram alguma luz que os inter-conectasse e protegesse ds malvadez humana.
Este é um romance epistolar, formato que ligeiramente me deixa com algum resguardo. Mas as autoras foram inteligentes e criaram um sistema credível, com a participação de diversos intervenientes nesta correnteza comunicacional.
Isto implica uma mestria imensa, para além de dar corpo a consolidação a diversas personagens que teriam passado despercebidas com uma abordagem diferente.
Juliet, enquanto protagonista, é um girassol cheio de luz, que traz uma nova envolvência a uma comunidade que vive suspensa no passado, aguardando os fantasmas que não voltam. Não ocupando o seu espaço, mas contribuindo com leveza e jovialidade, esta jovem deixa-se enredar por uma noção de rir da e com a vida, mesmo quando esta é trágica, encontrando no humor uma ferramenta poderosíssima para fazer frente a tantas coisas, nomeadamente a dor da perda.
Mas são tantas e tão ricas as personagens, que por vezes Juliet só brilha porque estas existem. Isolda é a doçura da ingenuidade e da fome do bem; Dawsey a solidez discreta, a estrutura que suporta um vendaval, desde que não olhe para dentro de si; Amelia a maternal, a sensatez transmitida num colo, mas também a fragilidade de quem não se sente capaz de encarar o horror de frente por muito mais, mesmo que se enverede em canas de força para continuar a vingar. Quadro composto pelo núcleo de Londres, onde é sem dúvida Sydney que roubou o meu coração. Com um estilo despreocupado, protector, algo irónico e de uma generosidade enorme, representa as loucuras às quais aderimos por amizade, ao respeito ímpar pelo próximo e à necessidade de viver a própria vida. Como se quer, e sem jukgamentos.
As cartas são repletas de momentos de humor e sensibilidade, coragem e resiliência. É um livro que não ignora a 2ª Guerra Mundial mas pretende utilizá-la como bengala para o que mais importa. A sobrevivência e a esperança depois da tragédia. O vigor da renovação. E o prazer de descobrir que apesar de muitas vezes feio, o mundo ainda nos traz alguns raios de sol. Especialmente se plantados e alimentados dentro de nós.





Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.