segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Opinião: O Dia em que Perdemos a Cabeça, de Javier Castillo




O Dia em Que Perdemos a Cabeça
Javier Castillo
 
Edição/reimpressão: 2019
Páginas: 456
Editor: Suma de Letras Portugal





Sinopse: Atreva-se a descobrir o mistério do ano sem perder a cabeça. 275000 exemplares vendidos

«São doze horas da manhã de 24 de Dezembro, falta um dia para o Natal. Caminho pela rua tranquilo, com o olhar perdido, e tudo parece estar em câmara lenta. Olho para cima e vejo erguerem-se quatro balões brancos que se afastam em direcção ao Sol. Enquanto ando, ouço gritos de mulheres e percebo como as pessoas, ao longe, não param de me observar. Para dizer a verdade, parece-me normal que olhem para mim e gritem, ao fim e ao cabo estou nu, coberto de sangue, e transporto uma cabeça entre as mãos.»

Centro de Boston, 24 de Dezembro, um homem caminha nu, trazendo nas mãos a cabeça decapitada de uma jovem mulher.
O Dr. Jenkins, director do centro psiquiátrico da cidade, e Stella Hyden, agente do FBI, vão entrar numa investigação que colocará em risco as suas vidas e a sua concepção de sanidade. Que acontecimentos fortuitos ocorreram na misteriosa Salt Lake City há dezassete anos? E por que estão todos a perder a cabeça agora?

Rating: 3/5
Comentário: Como sabem, os thrillers não brilham frequentemente nas minhas estantes. No entanto, de tempos a tempos gosto de pegar num que pareça reunir todos os ingredientes que gosto: mistério e suspense, poucas descrições demasiado gráficas, ação continua e personagens que me intriguem.
"O Dia em que Perdemos a Cabeça" de Javier Castillo tem todos estes elementos e mais alguns.
A trama está tão bem montada que cheguei à página 200 e pouco sem conseguir prever o que ia acontecer e, muitas vezes, sem perceber sequer o que estava a acontecer. Embora seja fornecidos ao leitor alguns elementos que permitem que este vá fazendo ligações entre contextos e vários elementos da história, falta-nos sempre o mais importante: o porquê. E sem respostas às nossas inquirições, a leitura acaba por se tornar mais viciante e simultaneamente temerosa, porque sabemos que a solução estará numa próxima página.
Neste aspecto o autor saiu-se brilhantemente e conseguiu convencer-me. O meu ritmo de leitura não é muito acelerado e Javier Castillo conseguiu pôr-me a ler 200 páginas em 2 dias, um feito ímpar!
No que toca ao encadeamento da narrativa, as vertentes vão-se encaixando a ritmos díspares, ou lentamente e com poucos elementos fornecidos (despertando a veia de dectetive de cada um), ou disparando-nos com vários elementos numa cadeia vertiginosa e imparável e que nos deixa sem fôlego.
O motivo porque não me senti totalmente rendida à narrativa prende-se com a razão principal que o autor atribuiu a vários acontecimentos do livro, e que a partir desse momento se torna justificativa para toda e qualquer incongruência de lógica que possa surgir. Não é o inverossímil que me colocou de pé atrás com o enredo (porque até esse, desde que logicamente fundamentado, traz robustez a uma narrativa), mas a bengala fácil que serviu de cola para vários ramos da rede complexa que o autor criou. Independentemente disso, reconheço que não foi deixada uma ponta solta (só aquele final, ai aquele final...!!!) e que na lógica de construção narrativa, Javier Castillo conseguiu levar os leitores onde queria.
Um dos elementos que achei mais interessantes neste thriller para pela construção da condição humana e no constante teste aos limites pelos quais passamos, mesmo quando não nos apercebemos.
Não existe uma personagem linear, e vários momentos de modelação de personalidade são abertos precisamente para explorarem a área cinzenta em que o Ser Humano geralmente opera.
Essa ausência do certo e do errado como lineares, e da capacidade tanto de regeneração como de perda e desconstrução por parte das pessoas reforça o nosso papel arbitrário na tomada de decisões e na análise dos nossos valores e moral como comando vital dos rumos tomados na nossa vida. Mas é também um elemento que serve de contraponto à subjugação do Determinismo, que é também constante na narrativa, desafiando o leitor a decidir por si o que é que está realmente em causa.
Este livro foi um bom pontapé de saída para 2019, e mesmo não tendo preenchido as minhas medidas por completo, estou curiosa com a continuação. Leiam também e venham cá comentá-lo em baixo. 



Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Opinião: Mortina, Uma História de Morrer a Rir, de Barbara Cantini




Mortina, Uma História de Morrer a Rir
Barbara Cantini
 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas: 48
Editor: Bertrand Editora





Sinopse: A Mortina é uma menina, mas não é uma menina como as outras: é uma menina morta-viva.
Vive no Casarão Decadente, com a tia Falecida, e o seu único amigo é um galgo albino, chamado Tristonho, que anda sempre com ela.
A Mortina gostava de ter amigos da sua idade para brincar, mas está proibida de se mostrar às pessoas, não fossem elas apanhar um susto de morte.

Mas um dia surge a sua grande oportunidade: a festa do Halloween!
A Mortina nem sequer precisa de arranjar uma fantasia…

Mas o que acontecerá quando as outras crianças descobrirem que ela não está mascarada?

Rating: 4/5
Comentário: Este livro é uma delícia! Já há algum tempo que não lia um livro infantil e me divertia tanto. Mortina é uma morta-viva muito castiça e traquinas, como se adequa à idade. A sua enorme imaginação é potenciada pela sua existência um tanto ou quanto peculiar, assim como de uma tutora muito protectora. É através das escassas páginas deste livro que vamos descobrindo como é que uma miúda espevitada e uma idosa saudosista conseguem lidar com a diferença de idade. Mas é também o encontro de uma criança com o seu desejo mais profundo.
As ilustrações são extremamente completas e bastante adequadas à temática (mesmo as que fazem rir!), e os pequenos comentários encontrados perdidos pelas páginas (alguns muito discretos, é preciso muita experiência a procurar Wally's para não os perder de vista!) fazem as delícias de qualquer leitor.
Achei imensa piada às personagens e ao enquadramento que a autora deu, especialmente à forma desempoeirada de Mortina viver a diferença, querendo algo tão simples como brincar, mesmo morta-viva. Morta-viva sim, e depois? ;) 





Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

domingo, 6 de janeiro de 2019

Divulgação: Ministra da Cultura sublinha a importância da coleção de Biografias de Grandes Figuras da Cultura Portuguesa Contemporânea da Contraponto: «um projeto extraordinário»


"A ministra da Cultura, Graça Fonseca, que participou na sessão de apresentação à Comunicação Social da coleção de Biografias de Grandes Figuras da Cultura Portuguesa Contemporânea, da Contraponto, na Biblioteca Nacional de Portugal, enalteceu este «projeto extraordinário», afirmando ainda que «a identidade cultural de um país faz-se, também, através desse gesto tão humano de recordar, de evocar a sua história, através dos nomes que a marcaram nas mais diversas áreas da cultura».

O editor da Contraponto, Rui Couceiro, destacou que esta coleção, «cujas obras são escritas maioritariamente por romancistas, tem como propósito contribuir para a tradição literária do país», à qual chamou «poder imaterial», através do reforço do «peso do género biográfico, ao qual a qualidade literária destas obras dará certamente um impulso».

A 15 de fevereiro é publicada a primeira das seis biografias desta coleção, um grande projeto editorial que irá permitir conhecer em profundidade personalidades extraordinárias dos séculos xx e xxi. O Poço e a Estrada, que irá retratar a escritora Agustina Bessa-Luís, é o primeiro volume a chegar às livrarias, estando à responsabilidade de Isabel Rio Novo o trabalho de biografar a escritora. Nas palavras da autora, os leitores desta biografia irão «descobrir uma pessoa ainda mais interventiva e inesperada, e em alguns pontos ainda mais controversa»."

Resultado do Passatempo: Uma História Negra, de Antonella Lattanzi


Caros leitores e leitoras,

O ano já começou, mas ainda estamos a fechar o balanço. Temos várias opiniões pendentes, assim como novidades a publicar, mas para já, o mais imediato é anunciar finalmente quem levará para casa um exemplar de "Uma História Negra", de Antonella Lattanzi. Sem mais demoras, os nossos parabéns a Nuno Antunes, de Sines. O livro deverá seguir por correio durante esta semana.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Opinião: Krabat, O Moinho do Feiticeiro, de Otfried Preußler



 
Krabat, O Moinho do Feiticeiro
Otfried Preußler
 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas: 256
Editor: Sextante





Sinopse: 
Um romance clássico da literatura de língua alemã, Krabat – O Moinho do Feiticeiro tem como pano de fundo histórico a Grande Guerra do Norte – travada entre potências que, no primeiro quartel do século XVIII, disputavam entre si a hegemonia no centro-leste da Europa.

Otfried Preussler conta-nos a história do aprendiz de moleiro Krabat e da sua luta para libertar a azenha da maldição do Mestre-moleiro. Rituais de magia negra e de liturgia cristã, sonho e realidade, amizade e ódio coexistem no mesmo espaço da narrativa, criando uma complexa teia de mistérios por desvendar e de perigos sempre à espreita.

Rating: 3/5
Comentário: Nada como o início do ano para escrever este livro, até porque a ideia da renovação e a mística do ritual de término da transladação da Terra está sempre presente.
Otfried Preußler escreveu "O Moinho do Feiticeiro" em 1971 e o romance juvenil tornou-se um clássico na literatura alemã, tendo sido distinguido com prémios como o Prémio de Literatura Juvenil Alemã (1972) e o Prémio Europeu do Livro Juvenil da Universidade de Pádua (1973). Para além de ter sido traduzido em 37 línguas, existe há uma adaptação ao cinema que, ou passou somente nos circuitos de língua alemã, ou passou-me despercebida porque tinha um total desconhecimento sobre esta história.
O que me atraiu para a sua leitura, para além de um olhar complacente e simultaneamente incisivo sobre um contexto histórico para uma parte da Europa raramente abordada na literatura vendida em Portugal, foi o facto de apresentar um enredo que apelava à magia negra e à simbologia inerente. Magia essa que não segue os preâmbulos criados pela saga do Harry Potter uns anos mais tarde, mas que se agarra às raízes da bizarria e do misticismo do oculto, que poderia não ser vista como indicada para jovens. Não fosse esta uma narrativa construída por camadas, e com várias interpretações à lus da dimensão analisada.
Numa constante dicotomia entre luz e escuridão, paz e guerra, conhecimento e ignorância, o autor traz-nos uma narrativa assente em metáforas e alegorismos, simbologia diversa e introdução de arreigos morais que criam um paralelismo constante entre duas forças que conduzem a narrativa.
Krabat, enquanto rapaz inocente, defronta-se com a argúcia e inteligência do Mestre-moleiro, cuja sagacidade o torna o senhor e capataz não só do Moinho, como da vida de 13 rapazes que compõem a sua força de trabalho. As imagens da brancura da farinha resultante do trabalho desenvolvido no negrume, a compleição dos rituais de compromisso em noite de liturgia sagrada, o reforço do conhecimento enquanto verdadeiro poder sobre a força bruta, são algumas das variantes em análise trazidas pelo autor. Mas são também mecanismos de apoio narrativo, que contam uma história bem mais leve e simples, se vista somente pela óptica narrativa - clara e fácil de entender pelo leitor juvenil.
São estas subtilezas inerentes à trama principal, também com laivos de contexto histórico e fundamentos das histórias tradicionais e populares germânicas, que tornam "O Moinho do Feiticeiro" um enredo mais denso do que inicialmente esperado, mas levado a cabo com mestria e afinamento modular, onde cada ritual de passagem (desde o mundo dos sonhos mudança de um ano para o outro) incute uma peça da trama que merece ser analisada individualmente.
Não obstante, Otfried apresenta uma narrativa corrente e facilmente lida pelos jovens, com os fundamentos certos para criar uma narrativa envolvente, mas também um enquadramento místico que transpira mistério e capacidade de superação e renovação.


Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.