segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Opinião: Meu Segredo, Meu Amor, de Julie Cohen




Meu Segredo, Meu Amor

de

Edição/reimpressão: 2019
Páginas: 344
Editor: Porto Editora




Sinopse:
Robbie e Emily estão juntos desde sempre, mas o seu amor permanece vivo e forte. Ao longo da vida, têm partilhado a cama, a casa e uma ligação tão profunda que parece indestrutível. Mas há coisas que eles não partilham com ninguém, para bem de todos.
Numa manhã como qualquer outra, Robbie acorda, veste-se, escreve uma carta a Emily e sai de casa. Para sempre. Há um segredo que ambos guardam desde o dia em que se conheceram. Os sacrifícios e as escolhas que fizeram ao longo da vida podem agora ser expostos perante todos e esta é a única maneira de os preservar.

Rating: 3/5
Comentário: Fiquei apaixonada por esta capa e pela sinopse, pelo que quis muito descobrir qual o segredo encerrado nos anais da história de Robbie e Emily.
Como é que começo a falar-vos deste livro? Talvez pela clareza de raciocínio da autora, que conseguiu criar um enredo intrincado e que mesmo com vários saltos temporais, não perdeu o fio condutor nem apresentou incoerências narrativas. Existe um constante mistério, apresentado como um detalhe das histórias de vida deste casal, porque nada é mais misterioso do que as escolhas que fazemos e as consequências que delas derivam. Os pequenos indícios vão indicando o posicionamento dos momentos na história de vida das personagens, assim como os fios condutores e despontantes de determinadas decisões que se encarregaram de transformar directa ou indirectamente o curso das duas vidas.
No que toca propriamente ao enredo, Julie Cohen foi corajosa, e seguiu para uma conclusão já perseguida por muitos, que à última hora se acobardam e mudam de direcção. A autora foi estóica, manteve-se firme no seu leme narrativo, sabendo de antemão o que procurava criar com esta história. E também o quão mal interpretada poderia ser por se permitir, ainda que no mundo narrativo, a elaborar uma situação que do ponto de vista moral, é tão controversa.
Os ingredientes certos estão todos presentes, mas faltou-me empatia maior pelas personagens. Julgo que o principal motivo se deve ao facto de o plano se focar constantemente na explicação dos factos, não dando real oportunidade das personagens sentirem e demonstrarem o peso das suas emoções em cada momento. Essa ausência de relacionamento intensifica-se porque o fio se desenrola na direcção contrária dos acontecimentos, o que não seria problemático se nos desse mais alguns momentos com as personagens após as grandes revelações. Até porque, no meu entender, é a percepção dos outros que reforça o impacto e densidade das decisões deste casal. A falta delas, não fosse o desfecho final, poderia incorrer no erro de tornar estas decisões algo corriqueiras. Correndo o risco de ser também mal interpretada, o livro retracta uma história de amor, e de um grande amor, onde passando por cima das adversidades (muitas bastante complicadas) um casal soube encontrar-se uma e outra vez ao longo da sua vida.
Gostava que a autora tivesse retirado uns dois ou três dramas que roubaram espaço aos restantes, já tão densos e intensos que poderiam ter melhor exploração, até porque houve alguns elementos que foram colocados no mapa e que depois desaparecem sem continuidade ou grande explicação. Não interessando para a história principal, eram dispensáveis e potenciais dispersores da atenção do leitor. Foi um bom exercício, mas não me convenceu em pleno.


Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Opinião: Tu Não És como As Outras Mães, de Angelika Schrobsdorff




Tu Não És como as Outras Mães

de

Edição/reimpressão: 2019
Páginas: 568
Editor: Alfaguara Portugal





Sinopse:
Enquanto jovem mulher, Else, uma menina mimada da burguesia de Berlim, fez duas promessas a si mesma: viver a vida intensamente e ter um filho de todos os homens que amasse.

"Tu Não és Como as Outras Mães" é a história real dessa vida intensa, extravagante, inconformista que foi a de Else Kirschner, uma mulher verdadeiramente livre, e uma mãe diferente de todas as outras.

Nascida na conservadora burguesia judia de Berlim, Else estava prometida para casar com um bom partido. Mas os encantos de um artista cristão - «o maior amor e pior partido da sua vida» - foram o trampolim que procurava para renunciar ao conforto da casa paterna e ser dona do seu destino num mundo cheio de promessa.
Corriam os loucos anos vinte, dias efervescentes numa Berlim que parecia a capital do mundo, um tempo irrepetível de cultura, esplendor e liberdade. Else vivia no centro dessa boémia, incapaz de suspeitar que uma ameaça arrepiante cercava inexoravelmente a sua família.

Quando as sombras do Nacional Socialismo tingiram a Europa de negro, Else, judia, teve de fugir com a família da cidade que tanto amava. No exílio, na Bulgária, tudo é miserável, tudo é muito pouco quando comparado com a primeira vida. Nessa segunda vida, Else arrepender-se-á de não ter protegido a família da calamidade, que se revela trágica para alguns.

Esta é a história de uma vida maior que a vida, um retalho de História extraordinário. Quem nos conta a história é Angelika Schrobsdorff, importante escritora de origem alemã. Era filha de Else e demorou quinze anos a pôr no papel a história da mãe, sem sentimentalismo mas com o amor e a admiração inevitáveis, criando um pedaço de grande literatura, um clássico do nosso tempo.

Rating: 4/5
Comentário: É universalmente admitido que, por mais que mães e filhas, pais e filhos se amem profundamente, existe um certo fosso geracional. Fosso esse que é também gerado pelos papéis por cada um ocupados, que não permite que se revejam como pessoas reais, para além da segmentação relacional. Uma mãe será sempre uma mãe para um filho ou filha, e toda a complementaridade relacional que advenha da sua existência como mulher, esposa, amiga, filha ou neta, fica submersa pela componente principal através da qual a conhecem.
"Tu Não És Como As Outras Mães" é precisamente um exercício levado a cabo por uma filha, que pretende relatar a vida da mãe no seu todo, sem subterfúgios e, na maior parte, juízos de valor. Mas este não é um livro de não ficção, ou uma biografia tradicional, encaixando-se mais no que hoje é designado ficção autobiográfica. Há laivos de literatura e poesia, há um embrionar de descobertas e sentimentos, e uma narrativa de uma enorme humanidade.
Passando por Berlim até à 2ª Guerra Mundial, mas também atravessando um território cooperante com a ideologia Nazi, onde tinha previamente utilizado como refúgio dos mesmos (Bulgária), esta história humana que também acaba por ser familiar permite auferir relatos em primeira mão sobre o período avassalador que atravessou a Europa naquele momento. Destaco o período pós-guerra vivido na Alemanha e o quanto também as populações locais sofreram com o processo. Ou o quanto alguns alienados, embora mais pobres e miseráveis, não tenham aprendido grande coisa no processo.
O amadurecimento de Else, pelas tragédias que lhe vão assaltando a porta, também se torna evidente à medida de que os anos passam. O estilhaçar dos anos augúrios sente-se a cair numa alma destroçada que, para o fim da sua vida, não é mais do que qualquer outra que tenha sofrido de igual ou pior maneira.
Else, à luz do contexto em que foi educada, não é realmente uma rapariga como as outras. Vivendo entre o sonho e a fantasia, o conforto familiar e "romantização" do que é o amor, é objecto da experimentação, dos Loucos Anos 20, dos desgostos amorosos e do desejo de ser cuidada sem que no processo lhe roubem a liberdade. É também alvo de tolice, egoísmo, infantilidade, amor generoso e capacidade de compreensão imensa. Angelika Schrobsdorff tentou reproduzir um retracto fiel de quem foi a sua mãe, embora me pareça que muita da coesão daí necessária nasceu da redacção deste livro. Não é um acto de admiração, é um processo emotivo para arrumar pendências na sua vida, ou não fosse a relação de ambas nem sempre ter sido a mais pacífica ou compreensiva. O final abrupto que é atribuído ao livro revela mesmo o foco em não criar floreamentos e reduzir-se aos factos, como se algum género de distanciamento emocional possa atribuir um novo olhar a esta mulher. Ao fim ao cabo, como se a tornando objecto de estudo houve uma maior permeabilidade para a compreender no seu todo e então sim, perdoá-la e perdoar-se mediante decisões nem sempre gentis para com uma ou outra.
O título é para mim outro indicio desde processo de cura ainda em execução, já que no que toca à essência, Else pareceu-me em tudo como qualquer outra mãe: com amor a transbordar pelos filhos e uma necessidade louca de assegurar o seu bem-estar, assim como uma constante preocupação. É claro que talvez a sua forma de o mostrar não fosse o mais tradicional, mas até a ideia de amor livre ocupa o segundo plano, os filhos sempre sempre em primeiro lugar.
Há ainda um elemento adicional que julgo corroborar com a minha interpretação. Na maior parte do texto, a narrativa é feita com um distanciamento na primeira pessoa do singular. O narrador, neste caso Angelika, retira-se da narrativa para somente relatar, sem incutir a sua leitura da realidade. Mas é depois constantemente vencida pela necessidade de se inserir numa história que também é sua e resvala novamente para a 1ª pessoa, cunhando parte de si na narrativa. Não sei se se notará um certo elemento de desilusão na autora com o fim do texto. Embora todos os elementos que possam identificar e caracterizar a mãe se encontrem neste livro, falta o mais importante: a sua mãe. Por mais que fosse fiel mediante testemunhos e experimentações na primeira pessoa, todos sabemos que a memória é mutável e perecível ao tempo, pelo que o resultado deste "estudo" será sempre uma óptica desta mulher. Segmentos de Else estarão sempre encobertos e desconhecidos para os seus filhos, e nem mesmo o cepticismo e cinismo de Angelika conseguem ocultar a desilusão de não se sentir plenamente bem sucedida. Mas a ânsia da descoberta e de um amor renovado também estão lá e palpitam um pouco por todo o livro, demonstrando vontade de compreensão e de leitura por inteiro de uma mulher, de um círculo social e de uma época histórica. Talvez Else não fosse assim tão diferente do mundo em geral, e sim Angelika fosse uma filha diferente das restantes.


Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Opinião: Prisioneiros da Geografia, Tim Marshall




Prisioneiros da Geografia

de Tim Marshall

 Edição/reimpressão: 2019
Páginas: 256
Editor: Desassossego






Sinopse:
Dez Mapas que lhe Revelam Tudo o que Precisa de Saber sobre Política Internacional

Todos os líderes mundiais enfrentam limitações geográficas. As suas decisões são condicionadas por montanhas, rios, mares e betão. Para compreender o que abala o mundo, é necessário possuir conhecimento das ideias, movimentos e povos – mas sem um conhecimento sólido de geografia, nunca conseguiremos abarcar a totalidade dos eventos.

Se alguma vez se questionou sobre a razão de Putin ter uma obsessão pela Crimeia, de a paz parecer impossível no Médio Oriente, de os EUA entrarem em tantos conflitos armados ou de o poder da China continuar a crescer em todo o mundo, irá encontrar essas e muitas outras respostas neste livro.

Em dez capítulos que cobrem Rússia, China, EUA, América Latina, Médio Oriente, África, Índia e Paquistão, Europa, Japão, Coreias e o Ártico, o autor faz uso de mapas, ensaios e da sua longa experiência de viagens pelo globo para oferecer uma perspetiva do passado, presente e futuro, ajudando-nos a descobrir como a geografia é um fator tão determinante para a história do mundo.

Rating: 4/5
Comentário:  Para quem é Geógrafa de formação, é impossível ignorar as façanhas da geopolítica à luz dos constrangimentos físicos do território. E por mais que estas sejam múltiplas e díspares, Tim Marshall revela com brio as que mais condicionam o Mundo na actualidade, numa análise de 10 mapas que explicam muitas das tomadas de decisão e reviravoltas que nos chegam pelas notícias diariamente.
Passando pela Rússia, Estados Unidos, China, América Latina. Europa Ocidental, Médio Oriente, Árctico, Índia e Paquistão, Japão e Coreia e África, e através de uma linguagem acessível, o autor evidencia as principais tensões (fronteiriças, ideológicas, económicas e de segurança), a maior parte baseada não só na disposição natural dos territórios e as consequentes barreiras à sustentabilidade e desenvolvimento económico, mas também pela riqueza e pobreza dos solos (e o quanto estas condicionam as relações diplomáticas e as decisões de defesa e relações externas ao longo do globo).
A principal valência da abordagem do autor passa pela evidência de que, embora num mundo que caminha ou procura caminhar para uma resolução não armada dos seus conflitos, não desiste de concessionar um plano B, revestindo-se de frotas, novas relações diplomáticas, pretensões sobre zonas-chave que possam fragilizar os seus territórios e uma eminente preparação para a Guerra que poderá não vir, desde que cada um faça a sua parte e não antagonize o outro em demasia.
Recorrendo sempre a mapas que demonstram com maior pormenor áreas determinantes para a explanação de cada capítulo, Tim Marshall demonstra as evidentes fragilidades de um território (ou de muitos) que se vêem bloqueados por um sistema de status quo, que os favorece em detrimento dos conflitos bélicos, mas que não resolve parte das suas contendas.
Embora não faça todo um enquadramento histórico, o autor evidencia para cada caso as acções de causa-efeito, muitas delas de pendência factual histórica, que trazem para a ribalta tensões e rivalidades territoriais, assentes e decisões tomadas pelas gerações antepassadas. Há uma constante demonstração do frágil equilíbrio sobre o qual subsiste a delineação das nações no Mapa-Mundi, tal como o conhecemos, e que assim se mantém à custa de uma enorme intervenção (seja esta justificada ou não) pelas potências de maior domínio  e do receio de que a continuidade de uma refutação intensa sobre a delimitação de uma barreira apenas a destrua, dando azo a consequências muito piores. 
É uma chamada de atenção contínua para um mundo que para os comuns mortais surge adormecido, mas que condiciona a vida dos cidadãos em pleno. O que Tim Marshall nos traz é uma análise objectiva dos porquês, com algumas sugestões e orientações que possam justificar as decisões tidas como incompreensíveis para o cidadão comum, alertando que as fronteiras poderão estar mais diluídas com o tempo, mas que certos conflitos e pretensões territoriais não desapareceram e continuam bem vigentes.
E é também uma lembrança, dura, mas representativa da intervenção de um povo ocidental à escala global, que não soube olhar para a geografia, para a etnografia da Terra, decidindo com regra e esquadro fronteiras artificiais que são hoje resultado de uma lotaria de sorte ou azar, mas quase sempre, causadoras de conflitos de maior ordem e da precariedade de nações que só o são somente de nome. 


Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Opinião: O Homem Mais Rico do Mundo, As Muitas Vidas de Calouste Gulbenkian, de Jonathan Conlin




O Homem Mais Rico do Mundo, As Muitas Vidas de Calouste Gulbenkian

de Jonathan Conlin

 Edição/reimpressão: 2019
Páginas: 496
Editor: Objectiva






Sinopse:
Calouste Sarkis Gulbenkian morreu em Lisboa em 1955, aos 86 anos. Era, então, o homem mais rico do mundo.
Conhecido como «o senhor cinco porcento» pela sua participação na primeira companhia petrolífera a extrair petróleo no Irão, a sua vida privada é tão elusiva e bizantina quanto a sua forma de negociar. As mulheres de que se fazia acompanhar, os negócios com Estaline, a forma como usava a sua mulher, a encantadora Nevarte, para aprofundar relacionamentos e alianças, a sua paixão por arte.
Em Portugal e no mundo, o seu nome estará sempre associado ao mecenato e à maior e mais importante colecção privada de arte do país, exposta na Fundação Gulbenkian. Mas a fortuna que acumulou ao longo da sua vida tinha origem nos negócios do petróleo e acordos de alto nível que mediou entre governos e barões da indústria.

Jonathan Conlin enfrenta, neste livro, o caráter quase mítico de Calouste Gulbenkian, escrutinando a vida e os negócios de um dos homens mais influentes do seu tempo. Escrita com total acesso aos arquivos da Fundação Gulbenkian, esta é a biografia de um homem complexo no aniversário dos 150 anos do seu nascimento.

Rating: 4/5
Comentário: Alguém já foi ver a exposição sobre Calouste Gulbenkian à Fundação? Do lado de cá, decidi aguardar até escrever  opinião deste livro. Talvez por desconhecimento, as assunções que sempre tive por esta personalidade ,passavam pela arte e pelo conhecimento (e assim se vê o quão arreigado está o trabalho desenvolvido pela Fundação).
Foi por isso uma surpresa enveredar pela vida deste homem, de muitas vidas e mil caras, de trato suis generis, e uma forma muito arreigada de se mover pelo Mundo.

O trabalho desenvolvido pelo biógrafo explana a dificuldade que teve para recriar a vida deste homem nas várias esferas que o assistem. De facto, e pela reserva e individualidade como tratou da sua vida privada, há poucos registos escritos sobre o lado familiar. Registar todas as facetas de um homem neste livro revelou-se um desafio hercúleo para Jonathan Conlin o que justifica que por vezes as secções descritas com maior detalhe e nuance no livro sejam precisamente a de carácter profissional, que estarão devidamente documentadas. Embora tenha começado a leitura precisamente pelo interesse na composição de Gulbenkian enquanto homem, passei a apreciar e a interessar-me na dinâmica dos negócios por ele levados a cabo, precisamente por se tratar de uma esfera totalmente desconhecida para mim.



Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

terça-feira, 25 de junho de 2019

Opinião: Magalhães, Gianluca Barbera



Magalhães

de

 
Edição/reimpressão: 2019
Páginas: 240
Editor: Editorial Presença





Sinopse: Ano de 1519. Cinco carracas zarpam de Sevilha sob o comando de Fernão de Magalhães. A viagem durará três anos. Fernão de Magalhães confrontar-se-á com motins, tempestades, o gelo polar, doenças e contendas com tribos ferozes, na procura de uma passagem que, através da América do Sul, o conduza ao Oriente, em direção ao destino final: as fabulosas Ilhas das Especiarias. Os acontecimentos, porém, tomaram um rumo imprevisto.

Este romance é o relato da primeira viagem de circum-navegação da Terra, narrado pela voz de Juan Sebastián del Cano, um dos poucos homens que regressaram à pátria a bordo do único veleiro que se salvou. Sebastián del Cano irá atribuir a si próprio o mérito da empresa, manchando a memória de Fernão de Magalhães, que foi morto na desconhecida ilha de Mactan (no atual arquipélago das Filipinas) em circunstâncias dramáticas.

Magalhães é uma viagem não só real mas também da alma, descrita numa linguagem que parece tornar-se mais ancestral à medida que o relato da expedição prossegue rumo a terras cada vez mais ignotas e selvagens.

Rating: 3/5
Comentário: Magalhães é o homem do momento, ou da polémica do momento, se assim o quiserem designar. É também um dos grandes empreendedores do seu tempo, e um visionário para além dos interesses dos países. Ainda assim, a vontade de levar em diante a grandeza dos portugueses ficou ofuscada por um rei que lhe negou a dignidade requerida a um homem das descobertas que traria o país mais uma vez para a vanguarda das oportunidades económicas. Apesar de tudo, é também um homem de mistério, cuja glória hoje assinala se perdeu nos anais do tempo, dado que  o navegador faleceu durante a empreitada.
Pegando nos elementos históricos conhecidos, Gianluca Barbera tenta recriar o que poderá ter sido esta viagem de circum-navegação do globo, narrada na primeira pessoa, mas não pela voz de Fernão Magalhães.
Independentemente de se encarar o processo como descobrimentos ou redescoberta, navegação ou aventura, a passagem deste grupo de espanhóis liderados por portugueses deixou marcas no território, ou não fossem os Patagões assim designados desde a passagem da armada pelo território.
Em determinadas partes do Mundo, Magalhães tem mais evidência e reconhecimento do que em qualquer parte de Portugal e Espanha, e numa região que hoje em dia me escapa, pensaram até criar um museu em honra desta viagem, no local onde um dos seus navios afundou.
Explorando essa dinâmica, era expectável que Gianluca nos desse em parte esse sentido de pertença e aventura de um facto histórico conhecido mas cuja realização empática ainda estava aquém.
Não negando o processo de investigação realizado, o qual está patente nas primeiras páginas do livro (em que as descrições são precisas, completas e bastante elucidativas), falta-lhe um equilíbrio no segmento da narração da viagem, onde não só se repetem os momentos e passagens, como em última instância, também o carácter distinto que delimita esta viagem das restantes.
Há uma representação do que seria a vida a bordo, assim como a definição das várias dificuldades remetentes ao processo de ser um portugueses a comandar uma armada espanhola, fiel à coroa mas não a este homem, cujo feito irascível também não facilitava o ganho do respeito dos seus homens.
Julgo não estar enganada, mas é premente que a secção da viagem propriamente dita, salvo raros apontamentos biográficos sobre Magalhães, é composta totalmente por ficção. Ficção essa que acaba por se tornar aquém do esperado, e criando um certo desequilibro narrativo.
Ainda assim, retirei proveito desta leitura porque esses apontamentos biográficos foram um ganho e mais valia para o pouco que conhecia sobre Fernão de Magalhães e o processo da viagem, ou sobre o facto do navegador não viver tempo suficiente para configurar o sucesso da empreitada.
Acaba por ser essencialmente um livro de entretenimento puro, tendo por base o enfoque semelhante ao das biografias, já que no imediato a ficção não é dotada de muitas intervenções ou momentos de acção que justifiquem a sua existência delimitada.
A conjugação entre o mundo da ficção e dos dados biográficos é gerida por Gianluca com alguma ginástica, através da qual o autor tenta atenuar dicotomias e fragilidades de cada dimensão.
Acabou por ser, naturalmente, um livro de aprendizagem, mesmo que esse não seja o seu intuito principal. 

 



Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.