segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Opinião: Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos, de Olga Tokarczuk

 
Conduz o Teu Arado Sobre Os Ossos dos Mortos
de Olga Tokarczuk

Edição/reimpressão: 2019
Páginas: 288
Editor: Cavalo de Ferro





Sinopse:
«Uma surpreendente junção de thriller, comédia e tratado político, escrito por uma autora que combina um intelecto extraordinário com uma sensibilidade anárquica.» The Guardian
Numa remota aldeia polaca, a excêntrica Janina Duszejko, professora reformada, divide os seus dias a traduzir a poesia de William Blake e a observar os sinais da astrologia, fazendo por manter-se afastada das pessoas e próxima dos animais, cuja companhia prefere; mas a pacatez dos seus dias vê-se interrompida quando começam a aparecer mortos vários membros do clube de caça local. Certa de encontrar respostas, Janina decide lançar-se na investigação do caso, chegando a uma estranha teoria que espalhará o terror pela comunidade.
Sob a máscara de policial noir ou fábula macabra, Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos é um romance mordaz e desconcertante que questiona a nossa posição acerca dos direitos dos animais e responsabilidade sobre a natureza, bem como todas as ideias preconcebidas sobre a loucura, a justiça e a tradição.
«Podia ser uma versão do  filme Fargo, reescrita por  Thomas Mann.» The Telegraph
«Uma entre os poucos assinaláveis romancistas europeus a surgirem neste século.» The Economist

Rating: 4/5
Comentário: Olga Tokarczuk tornou-se mundialmente conhecida em 2019, após o anúncio dos galardões do Prémio Internacional Booker e do Prémio Nobel da Literatura 2018. Já me tinha cruzado com o "Viagens", livro que comprei há uns tempos, e pude ouvir o excerto de um dos seus contos durante o evento da Noite Europeia da Literatura em Junho de 2019.
Recolhi com agrado a notícia dos prémios ganhos, pelo que fiquei com curiosidade de, finalmente, enveredar nas histórias por si tecidas.
Foi com este estado de espírito que iniciei este livro, que todos associam ao thriller (e não deixa de o ser), mas que sempre conectei ao imaginário pagão e às raízes da terra e da Mãe Natureza. Incrivelmente, este livro é também isso tudo, ou não se iniciasse com personagens designadas por "Papão" e "Pé Grande". A criação mais bonita desta história prende-se como facto de estas ópticas residirem na mesma pessoa, Janina, a mulher que encarna a solidão do isolamento de um lugarejo e do amor da designação do Universo pela astrologia.
Com uma visão muito própria do mundo, esta personagem promove um encontro do seu eu com uma sensibilidade muito apurada, envolvendo a mística do quimérico com o factual da essência da vida.
Numa análise mais mundana, este livro é uma ode pelo respeito do equilíbrio dos ecossistemas, da bondade e do reconhecimento dos animais enquanto seres vivos, com a sua própria consciência, mas sempre dignos de existência. É também um thriller, onde homens feitos e confiantes de deterem o domínio da razão e do mundo, se vêem roubados do sopro da vida, quase que num pacto de equilíbrio com o Universo.
Olga Tokarczuk é uma mestre das palavras, com uma escrita bonita, envolvente, poética e singela. Este estilo ganha ainda mais corpo através do enredo, cuja dinâmica fluída contribui para reforçar uma aura mística e transcendente às personagens; mas também ao lugar, à passagem do tempo e ao enredo em si. Os momentos de mistério e catástrofe são inseridos na narrativa de uma forma torneante, como o curso de um rio, e pretendem criar a dimensão de continuidade, já que mesmo quando a vida se quebra, ela continua.
Uma voz refrescante, uma abordagem sui generis, um dilema simples apresentado com uma complexidade desconstruída. Um livro que vale a pena conhecer. Bravo. 


Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Opinião: Passagem para a Índia, de EM. Forster




Passagem para a Índia
de E.M. Forster

Edição/reimpressão: 2019
Páginas: 312
Editor: Relógio de Água




Sinopse:
Adela Quested chegou à cidade indiana de Chandrapore para casar. Acompanhada pela Sr.a Moore, tornam-se amigas do Dr. Aziz, que se oferece para lhes mostrar as Grutas Marabar.Mas quando exploram as grutas ocorre um acidente, e Aziz é acusado e detido. Enquanto o médico aguarda julgamento, a opinião dos britânicos e dos súbditos indianos divide-se entre a sua culpa e inocência, e as tensões surgidas ameaçam transformar-se em violência.

«Um dos romancistas ingleses mais estimados do seu tempo.»[The Times]

«De uma enorme mestria.»[Anita Desai]

Rating: 4/5
Comentário: "Passagem para a Índia" foi escrito em 1924, traduzindo-se num relato muito lúcido sobre os processos de ocupação colonial e das divisões estrato-sociais entre ocupantes e ocupados, com todos os estigmas e adversidades que decorrem de um processo de choque de culturas.  E chamo-o de um retrato lúcido, porque é um lampejo da demonstração de ruptura cultural à espera de acontecer, coberta por uma película de civilização forçada que o autor nos traz. Rotura essa que, como bem sabemos, só de configura cerca de 20 anos mais tarde, a 15 de Agosto de 1947 (o que facilmente permite averiguar a teimosia acostada de um antigo Império prestes a perder um dos seus "bens" mais preciosos, sem vontade alguma de abrir mão dele).
E.M. Forster sabe ser crítico, e é-no na sua abrangência de afectos, não poupando ninguém e libertando-se de possíveis identificações com favoritismos. Tanto são arrasados e analisados a comunidade anglo-indiana, sobranceira e determinada a implementar o que julga ser a nata do mundo em todas as esferas da vida, da social à económica, como a Índia é relatada com crueza, que nos leva por vezes a duvidar/ questionar se não há aqui também uma visão já europeísta e muito inglesa do país em questão: pessoas preguiçosas, servis, revolucionárias, insistentes e pouco sensatas, nunca compatíveis.
É de resto sobre esta barreira invisível mas bem latente sobre a qual nos debruçamos neste livro. A chegada de dois elementos estranhos ao ecossistema, que não pretendem adaptar-se às regras existentes para definir as suas, cada uma com os seus interesses subliminares em andamento.
Adela procura ser a sonhadora expedicionária do Mundo real, somente para calar a inconsciência mental quanto à diferença e recusa num casamento que tanto lhe faz, mas que pode até passar a querer fazer algo, nomeadamente, enfado.
A futura sogra, dotada de desprezo pelo papel que é obrigada a desempenhar, e necessidade de procurar algo com que se ocupar enquanto o tolo do filho não se decide e a nora não a liberta.
Da mesma forma que a sociedade se vai estilhaçando à medida que passamos da leitura superficial e da civilidade, este livro enverada-nos na história das personagens de igual forma, quando só polida a superfície é possível auscultar a verdadeira essência de cada uma.
O acontecimento descrito na sinopse acaba por não passar de um climax, que permite a continuidade da acção, até porque a resistência e caracterização societal assim já o adivinhava. Na prática, serve para libertar personagens e dar-lhes antena para o exorcismo das suas opiniões mais cerradas e anteriormente ignoradas.
Outro ponto interessante passa pela assumpção real de que a Índia é mais continente do que país, justificando a existência de vários povos e crenças, que não se coadunam em nada, somente na necessidade de se posicionarem quanto ao inimigo externo.
É um livro de retrato social, reflexão crítica, crónica de maus costumes, anti-vencedores e vencidos. Uma análise à mente humana e aos seu lado obscuro e ofegante por drama e necessidade de posicionamento intelectual.


Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Porto Editora: As Primeiras Novidades para 2020

No início do ano somos inundadas de novidades fresquinhas das editoras. Podíamos guardá-las para nós, mas gostamos de partilhá-las convosco. O Grupo Porto Editora está repleto novidades top e aqui ficam:

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  A Porto Editora divulgou hoje as suas novidades editoriais para os primeiros meses do ano que agora se iniciou. As apostas para o primeiro semestre de 2020 foram reveladas pelos responsáveis editoriais, de entre os mais de 90 títulos apresentados e distribuídos pelas chancelas Porto Editora, Assírio & Alvim, Sextante, Livros do Brasil, Ideias de Ler e Albatroz.

Pela Porto Editora, Cláudia Gomes anunciou a publicação de O Diário de Renia Spiegel, um poderoso testemunho da Segunda Guerra Mundial e dos horrores do Holocausto, num documento que esteve mais de setenta anos fechado no cofre de um banco e que tem vindo a ser chamado de o diário da "Anne Frank polaca". Ainda na Porto Editora, Manuel Alberto Valente revelou a chegada de um novo livro de contos de Mário de Carvalho, Epítome de Pecados e Tentações. Outra das grandes novidades para os primeiros meses de 2020 é a primeira reedição de Apresentação do Rosto, livro publicado por Herberto Helder em 1968, com as alterações feitas pelo autor num exemplar que guardava.

Pela Ideias de Ler, chancela especializada em títulos de não ficção, Cláudia Gomes revelou a publicação de um livro de Bill Gates, dedicado às alterações climáticas e às urgentes mudanças necessárias para impedir uma catástrofe imparável à escala global.

Na Sextante Editora, João Rodrigues sublinhou a edição de Deixa-te de mentiras, de Philippe Besson, premiado guionista francês que vai estar em Lisboa em fevereiro.

Na Livros do Brasil, São José Sousa evidenciou a chegada de Os Anos, de Annie Ernaux, livro finalista do Prémio Man Booker Internacional de 2019 e que marcou o reconhecimento mundial da autora como uma das mais importantes vozes da literatura francesa da atualidade.

Na Assírio & Alvim, destaque de Vasco David para Ruben A., no ano em que se assinala o centenário do nascimento do autor, com novas edições de Silêncio para 4 e O mundo à minha procura, a autobiografia agora reunida num único volume.
A reedição de uma obra de Herberto Helder, novo livro de Mário de Carvalho, o centenário de Ruben A. e um livro de Bill Gates entre os destaques da sessão."  

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Opinião: Meu Segredo, Meu Amor, de Julie Cohen




Meu Segredo, Meu Amor

de

Edição/reimpressão: 2019
Páginas: 344
Editor: Porto Editora




Sinopse:
Robbie e Emily estão juntos desde sempre, mas o seu amor permanece vivo e forte. Ao longo da vida, têm partilhado a cama, a casa e uma ligação tão profunda que parece indestrutível. Mas há coisas que eles não partilham com ninguém, para bem de todos.
Numa manhã como qualquer outra, Robbie acorda, veste-se, escreve uma carta a Emily e sai de casa. Para sempre. Há um segredo que ambos guardam desde o dia em que se conheceram. Os sacrifícios e as escolhas que fizeram ao longo da vida podem agora ser expostos perante todos e esta é a única maneira de os preservar.

Rating: 3/5
Comentário: Fiquei apaixonada por esta capa e pela sinopse, pelo que quis muito descobrir qual o segredo encerrado nos anais da história de Robbie e Emily.
Como é que começo a falar-vos deste livro? Talvez pela clareza de raciocínio da autora, que conseguiu criar um enredo intrincado e que mesmo com vários saltos temporais, não perdeu o fio condutor nem apresentou incoerências narrativas. Existe um constante mistério, apresentado como um detalhe das histórias de vida deste casal, porque nada é mais misterioso do que as escolhas que fazemos e as consequências que delas derivam. Os pequenos indícios vão indicando o posicionamento dos momentos na história de vida das personagens, assim como os fios condutores e despontantes de determinadas decisões que se encarregaram de transformar directa ou indirectamente o curso das duas vidas.
No que toca propriamente ao enredo, Julie Cohen foi corajosa, e seguiu para uma conclusão já perseguida por muitos, que à última hora se acobardam e mudam de direcção. A autora foi estóica, manteve-se firme no seu leme narrativo, sabendo de antemão o que procurava criar com esta história. E também o quão mal interpretada poderia ser por se permitir, ainda que no mundo narrativo, a elaborar uma situação que do ponto de vista moral, é tão controversa.
Os ingredientes certos estão todos presentes, mas faltou-me empatia maior pelas personagens. Julgo que o principal motivo se deve ao facto de o plano se focar constantemente na explicação dos factos, não dando real oportunidade das personagens sentirem e demonstrarem o peso das suas emoções em cada momento. Essa ausência de relacionamento intensifica-se porque o fio se desenrola na direcção contrária dos acontecimentos, o que não seria problemático se nos desse mais alguns momentos com as personagens após as grandes revelações. Até porque, no meu entender, é a percepção dos outros que reforça o impacto e densidade das decisões deste casal. A falta delas, não fosse o desfecho final, poderia incorrer no erro de tornar estas decisões algo corriqueiras. Correndo o risco de ser também mal interpretada, o livro retracta uma história de amor, e de um grande amor, onde passando por cima das adversidades (muitas bastante complicadas) um casal soube encontrar-se uma e outra vez ao longo da sua vida.
Gostava que a autora tivesse retirado uns dois ou três dramas que roubaram espaço aos restantes, já tão densos e intensos que poderiam ter melhor exploração, até porque houve alguns elementos que foram colocados no mapa e que depois desaparecem sem continuidade ou grande explicação. Não interessando para a história principal, eram dispensáveis e potenciais dispersores da atenção do leitor. Foi um bom exercício, mas não me convenceu em pleno.


Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Opinião: Tu Não És como As Outras Mães, de Angelika Schrobsdorff




Tu Não És como as Outras Mães

de

Edição/reimpressão: 2019
Páginas: 568
Editor: Alfaguara Portugal





Sinopse:
Enquanto jovem mulher, Else, uma menina mimada da burguesia de Berlim, fez duas promessas a si mesma: viver a vida intensamente e ter um filho de todos os homens que amasse.

"Tu Não és Como as Outras Mães" é a história real dessa vida intensa, extravagante, inconformista que foi a de Else Kirschner, uma mulher verdadeiramente livre, e uma mãe diferente de todas as outras.

Nascida na conservadora burguesia judia de Berlim, Else estava prometida para casar com um bom partido. Mas os encantos de um artista cristão - «o maior amor e pior partido da sua vida» - foram o trampolim que procurava para renunciar ao conforto da casa paterna e ser dona do seu destino num mundo cheio de promessa.
Corriam os loucos anos vinte, dias efervescentes numa Berlim que parecia a capital do mundo, um tempo irrepetível de cultura, esplendor e liberdade. Else vivia no centro dessa boémia, incapaz de suspeitar que uma ameaça arrepiante cercava inexoravelmente a sua família.

Quando as sombras do Nacional Socialismo tingiram a Europa de negro, Else, judia, teve de fugir com a família da cidade que tanto amava. No exílio, na Bulgária, tudo é miserável, tudo é muito pouco quando comparado com a primeira vida. Nessa segunda vida, Else arrepender-se-á de não ter protegido a família da calamidade, que se revela trágica para alguns.

Esta é a história de uma vida maior que a vida, um retalho de História extraordinário. Quem nos conta a história é Angelika Schrobsdorff, importante escritora de origem alemã. Era filha de Else e demorou quinze anos a pôr no papel a história da mãe, sem sentimentalismo mas com o amor e a admiração inevitáveis, criando um pedaço de grande literatura, um clássico do nosso tempo.

Rating: 4/5
Comentário: É universalmente admitido que, por mais que mães e filhas, pais e filhos se amem profundamente, existe um certo fosso geracional. Fosso esse que é também gerado pelos papéis por cada um ocupados, que não permite que se revejam como pessoas reais, para além da segmentação relacional. Uma mãe será sempre uma mãe para um filho ou filha, e toda a complementaridade relacional que advenha da sua existência como mulher, esposa, amiga, filha ou neta, fica submersa pela componente principal através da qual a conhecem.
"Tu Não És Como As Outras Mães" é precisamente um exercício levado a cabo por uma filha, que pretende relatar a vida da mãe no seu todo, sem subterfúgios e, na maior parte, juízos de valor. Mas este não é um livro de não ficção, ou uma biografia tradicional, encaixando-se mais no que hoje é designado ficção autobiográfica. Há laivos de literatura e poesia, há um embrionar de descobertas e sentimentos, e uma narrativa de uma enorme humanidade.
Passando por Berlim até à 2ª Guerra Mundial, mas também atravessando um território cooperante com a ideologia Nazi, onde tinha previamente utilizado como refúgio dos mesmos (Bulgária), esta história humana que também acaba por ser familiar permite auferir relatos em primeira mão sobre o período avassalador que atravessou a Europa naquele momento. Destaco o período pós-guerra vivido na Alemanha e o quanto também as populações locais sofreram com o processo. Ou o quanto alguns alienados, embora mais pobres e miseráveis, não tenham aprendido grande coisa no processo.
O amadurecimento de Else, pelas tragédias que lhe vão assaltando a porta, também se torna evidente à medida de que os anos passam. O estilhaçar dos anos augúrios sente-se a cair numa alma destroçada que, para o fim da sua vida, não é mais do que qualquer outra que tenha sofrido de igual ou pior maneira.
Else, à luz do contexto em que foi educada, não é realmente uma rapariga como as outras. Vivendo entre o sonho e a fantasia, o conforto familiar e "romantização" do que é o amor, é objecto da experimentação, dos Loucos Anos 20, dos desgostos amorosos e do desejo de ser cuidada sem que no processo lhe roubem a liberdade. É também alvo de tolice, egoísmo, infantilidade, amor generoso e capacidade de compreensão imensa. Angelika Schrobsdorff tentou reproduzir um retracto fiel de quem foi a sua mãe, embora me pareça que muita da coesão daí necessária nasceu da redacção deste livro. Não é um acto de admiração, é um processo emotivo para arrumar pendências na sua vida, ou não fosse a relação de ambas nem sempre ter sido a mais pacífica ou compreensiva. O final abrupto que é atribuído ao livro revela mesmo o foco em não criar floreamentos e reduzir-se aos factos, como se algum género de distanciamento emocional possa atribuir um novo olhar a esta mulher. Ao fim ao cabo, como se a tornando objecto de estudo houve uma maior permeabilidade para a compreender no seu todo e então sim, perdoá-la e perdoar-se mediante decisões nem sempre gentis para com uma ou outra.
O título é para mim outro indicio desde processo de cura ainda em execução, já que no que toca à essência, Else pareceu-me em tudo como qualquer outra mãe: com amor a transbordar pelos filhos e uma necessidade louca de assegurar o seu bem-estar, assim como uma constante preocupação. É claro que talvez a sua forma de o mostrar não fosse o mais tradicional, mas até a ideia de amor livre ocupa o segundo plano, os filhos sempre sempre em primeiro lugar.
Há ainda um elemento adicional que julgo corroborar com a minha interpretação. Na maior parte do texto, a narrativa é feita com um distanciamento na primeira pessoa do singular. O narrador, neste caso Angelika, retira-se da narrativa para somente relatar, sem incutir a sua leitura da realidade. Mas é depois constantemente vencida pela necessidade de se inserir numa história que também é sua e resvala novamente para a 1ª pessoa, cunhando parte de si na narrativa. Não sei se se notará um certo elemento de desilusão na autora com o fim do texto. Embora todos os elementos que possam identificar e caracterizar a mãe se encontrem neste livro, falta o mais importante: a sua mãe. Por mais que fosse fiel mediante testemunhos e experimentações na primeira pessoa, todos sabemos que a memória é mutável e perecível ao tempo, pelo que o resultado deste "estudo" será sempre uma óptica desta mulher. Segmentos de Else estarão sempre encobertos e desconhecidos para os seus filhos, e nem mesmo o cepticismo e cinismo de Angelika conseguem ocultar a desilusão de não se sentir plenamente bem sucedida. Mas a ânsia da descoberta e de um amor renovado também estão lá e palpitam um pouco por todo o livro, demonstrando vontade de compreensão e de leitura por inteiro de uma mulher, de um círculo social e de uma época histórica. Talvez Else não fosse assim tão diferente do mundo em geral, e sim Angelika fosse uma filha diferente das restantes.


Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.