sábado, 10 de abril de 2021

Rubrica nova: A Minha Livraria

Qualquer leitor adora enveredar por uma livraria e deixar-se deslumbrar por capas, sinopses e estantes a perder de vista. Sejam integrantes em grandes grupos de distribuição, ou independentes e de projecto único, a verdade é que não lhes somos indiferentes. 

Como tal, e porque já muito me têm ouvido falar de livrarias e incentivo à sua visitação, decidi dar o palco a outros leitores e leitoras, permitindo que desvendem os seus espaços de eleição. A primeira convidada é a Maria João Diogo, d' A Biblioteca da João. A livraria que seleccionou foi a Flaneur, no Porto. 

 

 

1) Recordas-te da primeira visita? Quando foi? 

Recordo-me sim. Foi em Junho de 2019, sou de Lisboa e tive a possibilidade de estar um dia, sozinha, no Porto. Decidi então que seria um dia dedicado a conhecer as livrarias, alfarrabistas e bibliotecas do Porto. A Flâneur foi a primeira livraria que visitei nesse dia tão bom! 

 

2) O que é que a torna tão especial para ti? / Em que é que se diferencia das restantes?  

O atendimento, sem dúvida. A livreira Cátia é excepcional. É atenciosa, simpática e, acima de tudo, ama os livros. Dentro desta livraria não senti que estava num espaço comercial, mas antes na concretização do sonho de alguém, que generosamente o partilhou comigo. A própria decoração da livraria, a atenção aos pormenores, os conhecimentos de Cátia, até a forma como embrulhou o livro que escolhi trazer comigo. Tudo me proporcionou uma experiência fantástica. 

 

 3) Com que tipo de leitores é que te cruzas por lá?  

Não me cruzei com ninguém, porque fui mesmo na hora de abertura. No entanto, consigo imaginar o espaço repleto de pessoas com um interesse comum, a paixão pela literatura, em amena conversa sobre determinado título ou autor. É muito fácil imaginar, porque o cenário está todo lá! 

 

 

 4) Deixa a sugestão de um livro a adquirir na tua livraria preferida.

Eu diria que qualquer livro com uma edição cuidada, um clássico, uma edição mais difícil de encontrar, haverá fortes possibilidades de sair da livraria satisfeito(a). Eu adquiri "O Estrangeiro" de Alberto Camus, por sugestão da livreira (um dos critérios, pouco convencional, confesso, era o tamanho do livro, já que ainda o dia estava a começar e iria andar com os livros adquiridos o dia todo às costas). Mas ficou-me debaixo de olho um livrinho que estava em destaque numa das mesas centrais, "O Livro do Chá" de Kakuzo Okakura, quando lá voltar virá comigo!

 

Fotos: ©Maria João Diogo



Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

segunda-feira, 22 de março de 2021

Não me lembro do título nem da capa, mas...#3

 

 
 
 
 
 
 
tinha uma capa azul.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Reiniciar, de Katherine May Ao longo da vida, sofremos revezes inesperados, como uma doença grave, a morte de um ser amado, uma ruptura sentimental ou a perda de emprego. Estes períodos podem ser solitários e dolorosos. No caso de Katherine May, o marido adoeceu, o filho deixou de ir à escola e os seus problemas de saúde forçaram-na a renunciar ao emprego. Este livro explora a maneira como ela suportou estes momentos difíceis, mas também como aproveitou as oportunidades únicas que eles lhe ofereciam.

Esta comovente narrativa, entrecortada com lições retiradas da literatura, da mitologia e da natureza, oferece uma perspectiva inspiradora sobre o poder regenerador do descanso e do isolamento. A luz provém de fontes surpreendentes, e a mudança, inevitavelmente, ocorrerá.

 


Os peixes não têm pés,
de Jón Kalman Stefánsson - Uma saga familiar de três gerações que acompanha a história da Islândia do século XX. Após receber uma estranha carta do seu pai, que o faz suspeitar de que este estará em fim de vida, Ari regressa à sua terra natal, em Keflavik, na Islândia. Nesta pequena cidade cercada por campos de lava negra, sede de uma base militar norte-americana, Ari é inundado pelas memórias da sua juventude nos anos 70 e 80, ouvindo Pink Floyd e Beatles, assaltando camiões de abastecimento americanos, e correndo atrás de raparigas. A par da história de Ari, há também a do seu próprio pai e a de seus avós, Oddur e Margret, de como estes se estabeleceram num lugar ancestral e elementar, dos mais inóspitos do mundo, e de como o mar, agora interdito à pesca, foi, para uns, destino, para outros, solidão e medo.

 
 
 
O Imperador, de Ryszard Kapuscinski - Um golpe militar histórico estava prestes a rebentar nas ruas da Etiópia quando em 1974 Ryszard KapuScinski chegou ao país. Haile Selassie, o Grande Senhor, o Venerável Monarca, Eleito por Deus, Imperador da dinastia salomónica que ocupara o trono ao longo de mais de quarenta anos, acabaria deposto pelo seu exército. KapuScinski quis ouvir aqueles que frequentaram os salões, os escritórios, os corredores do palácio, e através dos seus depoimentos, aqui reunidos, contar a história da vida e da queda da corte imperial de um homem que era para muitos um deus. O messias espiritual do movimento rastafári, uma figura mítico-religiosa que se acreditava capaz de mudar vidas com um simples olhar, um autocrata que viveu numa opulência extrema enquanto o seu povo sucumbia à fome. Nos relatos registados pela mão deste que foi um dos grandes jornalistas do século xx mora o grotesco e o magnífico, o dramático e o humorístico, o retrato de um país estrangulado de liberdades que, alegoricamente, poderia ser muitos outros. O Imperador é uma obra maior da arte da reportagem e um epitáfio espantoso de um regime marcante na história africana.




Nove mil dias e uma só noite, de Jessica Brockmole - Março de 1912. A jovem poetisa Elspeth Dunn nunca saiu da remota ilha escocesa de Skye, onde vive, e é com grande surpresa que recebe a primeira carta de um admirador do outro lado do Atlântico. É o início de uma intensa troca de correspondência que culminará num grande amor. Subitamente, a Europa vê-se envolvida numa Guerra Mundial, e o curso normal das vidas é abruptamente interrompido. Junho de 1940. O Velho Continente vive mais uma vez o tormento de um conflito mundial e uma nova troca epistolar incendeia os corações de dois amantes, desta vez o de Margareth, filha de Elspeth, e o do jovem piloto da Royal Air Force por quem se apaixonou. Cheio de glamour e de pormenores de época, este romance faz a ponte entre as vidas de duas gerações - os seus sonhos, as suas paixões e esperanças -, e é um testemunho do poder do amor sobre as maiores adversidades.

 
 
O avesso da pele, de Jeferson Tenório - Agora que o pai morreu, inesperada e precocemente, Pedro tem pouco mais a que se agarrar senão aos ensinamentos e às memórias deixadas pelo pai, professor de Literatura na rede de ensino público. E homem negro, num país que julga os homens e as mulheres pela cor da pele. Esvaziado pela ausência, Pedro retraça os passos de Henrique nas ruas, procura vestígios seus nos pertences deixados no apartamento. Reduzido por vontade da mãe a uma relação intermitente com o pai, resta a Pedro a possibilidade de reconstruir ou imaginar o passado de Henrique enquanto homem, enquanto pai para, pelo caminho, procurar o entendimento de si próprio. Nesta rota íntima de Pedro, Jeferson Tenório faz uma delicada investigação das relações entre pais e filhos, ao mesmo tempo que esboça um retrato poderoso de um país sulcado pela segregação e pela pobreza, em que muitos não podem mostrar por vezes, nem sentir o seu avesso, esse espaço onde "entre músculos, órgãos e veias existe um lugar só seu, isolado e único".
 



Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

sexta-feira, 19 de março de 2021

Entrevista a Nuno Nepomuceno

Já (quase) todos ouviram falar dele. Vencedor do Prémio Literário Note! em 2012. Desde então já publicou 8 livros (muitos deles disponíveis em formato físico e ebook, e agora também em audiolivro), e sempre que chegam às livrarias (físicas e online), rapidamente entram aos top de vendas. Falo-vos de Nuno Nepomuceno, autor de 42 anos, e hoje em dia conhecido como um dos produtores de thrillers psicológicos em Portugal.  

Travei conhecimento com o autor há alguns anos, quando este me contactou para dar a conhecer o primeiro livro da trilogia Freelancer (o vencedor do dito Prémio Note!), assim como dos seus subsequentes. Sempre achei extraordinário o envolvimento e dedicação na promoção dos livros por parte do autor. Estivemos recentemente à conversa, a propósito do lançamento do seu último livro "O Cardeal", publicado em Portugal pela Cultura Editora.

© Marisa Martins

O teu primeiro livro data de 2012. Diz-me quatro coisas que tenhas aprendido sobre o mundo editorial, que te eram desconhecidas ou mais te surpreenderam nestes últimos anos.

Diria que o que mais me surpreendeu foi a perceção da quantidade enorme de pessoas que tenta entrar no mercado. São muitos aqueles que hoje em dia desejam escrever; contudo, frequentemente, querem apenas publicar um livro, algo que não esperava. Depois, com a maturidade que vamos ganhando, há muitos pormenores que passamos a conhecer melhor, como o processo de produção e distribuição, como funcionam as livrarias, ou a promoção das obras.


Para quem está de fora, percebe-se que gostas de te envolver em todo o processo de construção do livro. Como sabemos, um autor está dependente da sua editora, desde o momento em que entrega o manuscrito. Como tem sido esse processo para ti: dás palpites, confias de olhos fechados, tens alguma linha divisória que estabeleça até onde concedes e o que pretendes ver representado?

Todos os autores devem estar envolvidos no processo de produção de um livro. Excetuando aqueles que se estão a estrear, que naturalmente se sentirão pouco à vontade, se os outros não fizerem parte do processo, então, algo de errado se passa. Pessoalmente, encaro a produção e promoção do livro como um trabalho de equipa. O interesse de que seja bem-sucedido é tanto meu, como da editora, e temos de nos entender em prol do livro.


Este ano de pandemia tem sido um desafio para todos. No entanto, sei de casos em que o isolamento serviu de mote para arregaçar as mangas e iniciar um projecto há muito escondido. Como têm sido estes últimos meses para ti?

Tenho outra carreira, que continua ativa, a qual desenvolvo a partir de um escritório onde estou sozinho. Passei por alguns períodos de teletrabalho, mas de um modo geral, a minha vida profissional não sofreu alterações. Continuo a ter um emprego diário e a escrever no tempo que sobra. Em termos pessoais, tenho tentado cumprir as regras, sem bem que para mim o isolamento não seja um problema. Escrevo profissionalmente há quase uma década, o que é um ato de solidão. Por outro lado, sou bastante reservado e estou habituado a conviver comigo e depender só de mim.


A editora com quem agora trabalhas, a Cultura Editora, tem um projecto editorial e de comunicação bastante moderno. Pretende chegar à população digital e conhecedora das plataformas de promoção de leitura, e estende-se por diversos formatos originais (falamos por exemplo do audiobook que produziram, ou da disponibilização em ebook). Como tem sido a experiência de replicares o Afonso Catalão em tantos “idiomas”?

Tem sido muito interessante, porque me tem dado algumas oportunidades de desenvolver a minha criatividade e aprender novas formas e ferramentas de trabalho. Produzir um e-book é simples e não precisa de intervenção minha, mas o mesmo não acontece com um audiolivro, em que tenho de rever as provas através do som. Além disto, a Cultura Editora tem-me proposto novas formas de comunicar, como são o caso das séries em formato podcast Os Ficheiros Catalão e O Assassino, que me têm dado outra maturidade enquanto escritor.

Vamos ao momento bola de cristal: Se pudesses adivinhar, quem será o público-leitor mais comum para os teus livros? Achas que se tem mantido fiel, ou mudado de perfil com os anos?

Inicialmente, quando escrevi o meu primeiro livro, pensava que seriam os homens, por se ter tratado de um policial. Atualmente, tenho outra perceção. Não creio num público-alvo; julgo que os meus livros são escritos para todas os géneros e idades a partir da adolescência. Todavia, penso que a maior parte dos meus leitores são mulheres entre os 30 e os 60 anos, também porque essa é a maior franja da população portuguesa que lê.

Esta é uma pergunta que já te terão feito muitas vezes: porquê sempre a temática religiosa, qual o apelo?

A religião continua a estar no centro da maioria dos confrontos militares e políticos em curso, sendo frequentemente o móbil para muitas das discussões mundiais. Aquilo no qual acreditamos não tem, várias vezes, uma explicação, levando-nos a atos desesperados. Por isso, quando comecei a criar a série Afonso Catalão, achei que seria uma boa oportunidade para abordar algumas questões fraturantes da sociedade atual, como são os casos da xenofobia e do racismo. Nenhum dos meus livros é sobre religião. A religião, enquanto algo que define algumas personagens, é que faz parte do livro.

Lançar um livro ao mundo é deixá-lo crescer junto de quem o lê, mas também estar sujeito à opinião dos leitores. Como é que lidas com as opiniões, tanto positivas como negativas?

Tento dar atenção aos comentários e opiniões que me chegam, sobretudo se forem construtivos e se eu considerar que fazem sentido. Porém, uso de algum comedimento. O que muitos detestam é adorado por outros e vice-versa. A leitura de um livro será sempre influenciada pelos gostos pessoais do leitor.


Ainda sobre opiniões, costumam diferir muito entre “leitores comuns” e críticos literários? Diz-me uma coisa que tenhas lido sobre um dos teus livros que te tenha surpreendido.

As comparações com outros escritores. Não considero que existam assim tantas semelhanças entre os meus livros e os do Dan Brown, ou do Daniel Silva.

O que é que já aprendeste sobre um livro teu, que nunca te tivesses apercebido, até alguém escrever sobre isso?

Não querendo parecer presunçoso, nada. Sou e serei sempre o melhor conhecedor da minha obra, uma vez que todo o trabalho que é desenvolvido até ao início da revisão é feito exclusivamente por mim.

Escrevendo sempre sobre temáticas parecidas, torna difícil a inovação. Há uma certa segurança por parte do leitor, que já sabe ao que vai. O que é procuras incutir a cada livro novo, para gerar sempre uma certa descoberta e novidade a quem o lê?

Não concordo. Há semelhanças entre os meus livros, porque são escritos por mim, mas a parecença não vai mais longe. Por exemplo, A Célula Adormecida é sobre um ataque terrorista, Pecados Santos sobre um assassino em série, A Última Ceia sobre um o roubo de um quadro, A Morte do Papa sobre o desaparecimento de uma adolescente e O Cardeal sobre o homicídio de uma idosa, além da trilogia Freelancer, três livros de espionagem internacional. Não sou um escritor de fórmulas, de aplicar a um livro uma estrutura narrativa e achar que os leitores vão adorar, só porque o meu thriller mais recente é uma cópia do anterior.

Esta é uma solução que aparentemente o público aprecia, mas que não me satisfaz. Tento sempre criar novas personagens, explorar diferentes temáticas, ensaiar narrativas diversas, ou adicionar elementos novos. É o caso do sobrenatural, em O Cardeal.

O que é que pode esperar quem ainda não leu "O Cardeal"?

O Cardeal é um livro muito especial para mim por vários motivos. Foi escrito numa fase de grandes problemas pessoais, que afetaram a minha progressão e que inclusivamente colocaram em perigo a edição do livro para janeiro de 2021, como fora planeado. Por outro lado, considero que é o meu melhor thriller em muitos aspetos, refletindo o meu amadurecimento pessoal e enquanto escritor. Resumindo-o de uma forma simples, os leitores podem esperar uma história sobre segredos familiares com personagens que gostam de livros, pensada para pessoas que também gostam de ler.


 Última pergunta: 3 livros que recomendes, e porquê?"

Os Pilares da Terra, de Ken Follett, e O Estranho Caso do Cão Morto, de Mark Haddon, por serem dos que mais gostei de ler, e A Paciente Silenciosa, de Alex Michaelides, por se tratar do último que li.

quarta-feira, 17 de março de 2021

Não me lembro do título nem da capa, mas...#2

 

 
 
 
 
 
 
 passava-se nos Açores.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
  Meridiano 28, de Joel Neto - Em 1939, o mundo entrou em guerra. Foi o conflito mais mortífero da história da humanidade. Mas, na pequena ilha açoriana do Faial, ingleses e alemães conviveram em paz durante mais três anos. Eram os loucos dos cabos telegráficos.
Do mar em frente emergiam os periscópios de Hitler. Dezenas de navios britânicos eram afundados todos os meses. Já em terra, as crianças inglesas continuavam a aprender na escola alemã, dividindo as carteiras com meninos adornados de suásticas. As famílias juntavam-se para bailes e piqueniques.
Os hidroaviões da Pan American faziam desembarcar estrelas do cinema e da música, estadistas e campeões de boxe. Recolhiam-se autógrafos. Jogava-se ao ténis e ao croquet. Dançava-se o jazz.
Viviam-se as mais arrebatadoras histórias de amor. Poderia um agente nazi ter-se escondido nos Açores, consumada a derrota de Hitler?
 
 
 

Os Dabney, uma família americana nos Açores, coord. e prefácio de Maria Filomena Mónica - Em 1806, a família Dabney desembarcou nos Açores, mais especificamente na ilha do Faial, onde o patriarca desempenharia a função de cônsul. A actividade diplomática andou a par dos negócios e do comércio, da filantropia também, e os Dabney integraram-se rapidamente na comunidade açoriana, abandonando o arquipélago apenas em 1892. No período de um século, esta família protestante foi o eixo de um dinamismo cultural que envolveu o convívio e a correspondência com diversas personalidades da época. A testemunhá-lo, o riquíssimo espólio de cartas, diários e outros documentos coligidos por Roxana Dabney. A presente antologia reúne os textos que hoje se revestem de maior interesse e eloquência, constituindo a visão estrangeira e esclarecida a partir da qual Maria Filomena Mónica traça um retrato da sociedade insular no século XIX.

 
 
 
Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio - "Mau Tempo no Canal" conta a história de uma rapariga, Margarida Clark Dulmo, que anda pelos seus 20 anos e vive na ilha do Faial, Açores, no início do século XX. Margarida, que pertence a uma das mais respeitáveis famílias luso- britânicas das ilhas, está destinada a casar com André Barreto, jovem herdeiro de outra família, esta da ilha de São Jorge. Entretanto surge pelo meio um flirt entre Margarida e João Garcia, jovem pertencente à família dos Garcias, rival e inimiga da família Clark Dulmo, a que Margarida pertence. Mas aquilo que parece ir desenvolver-se como uma nova versão da história de Romeu e Julieta faz uma inversão de marcha e prossegue de modo menos romântico, de acordo com os brandos costumes da terra açoriana.



As Ilhas Desconhecidas, de Raul Brandão - Em 1924 Raul Brandão fez uma viagem aos arquipélagos dos Açores e da Madeira num grupo de intelectuais - entre eles Vitorino Nemésio - promovida pelos autonomistas. Dessa visita, das suas impressões e anotações, surgiu o livro As Ilhas Desconhecidas - Notas e Paisagens, em que não só descreve com particular fulgor a beleza natural das ilhas, como observa a condição do seu habitante. Obra fundamental na formação da imagem (interna e externa) destes territórios, As Ilhas Desconhecidas tornou-se um dos mais importantes e belos livros de viagem da literatura portuguesa.

 
 
O Olhar do Açor, de Sandra Carvalho - A descoberta dos Açores, e todo o mistério e aventura que a envolveu, foi o mote para esta obra em dois volumes de Sandra Carvalho. O Olhar do Açor é uma narrativa que entretece com mestria verdade histórica e ficção, a realidade da sociedade portuguesa do século XV e a fantasia das personagens e dos cenários imaginados pela autora. Neste primeiro volume, que se centra nas histórias de vida dos fidalgos, ganham principal relevância as figuras de Constance, uma nobre inglesa enviada para Portugal para se casar com Gonçalves Vaz, senhor da valiosa herdade de Águas Santas; Nuno Garcia, um corsário implacável; Leonor, fruto ilegítimo da paixão de Constance e de Diogo, o jovem corajoso, protegido de Nuno Garcia e que Constance conhece durante a viagem, Guida, a escrava negra que cresceu com Leonor, e Tomás Rebelo, o fidalgo malévolo que deseja assenhorear-se de Águas Santas. Intriga, ganância, amor, paixão, e uma aura de misticismo, num romance extraordinário.
 



Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

terça-feira, 16 de março de 2021

Opinião: O que Contamos ao Vento, de Laura Imai Messina

 

O que Contamos ao Vento
de Laura Imai Messina


Edição/reimpressão: 2021
Tradutor/a: Inês Guerreiro
Páginas: 224
Editora: Suma de Letras Portugal




Sinopse:

No lado íngreme de Kujira-yama, a Montanha da Baleia, existe um imenso jardim chamado Bell Gardia. No meio há uma cabine, dentro da qual repousa um telefone que não funciona, carregado de vozes sopradas ao vento. De todo o Japão, milhares de pessoas que perderam alguém passam por ali todos os anos e usam o telefone para falar com aqueles que já partiram.

Yui é uma jovem de trinta anos, e 11 de Março de 2011 é a data que a mudou para sempre. Naquele dia, o tsunami varreu o país onde mora, engoliu a sua mãe e a sua filha, tirou-lhe a alegria de estar no mundo.

Ao saber, por acaso, daquele lugar surreal, Yui vai até Bell Gardia e conhece Takeshi, um médico que mora em Tóquio e tem uma filha de quatro anos, que emudeceu no dia em que a mãe morreu.

Quando Yui percebe que aquele lugar precioso corre o risco de ser arrasado por um furacão, decide enfrentar o vento, tanto aquele que sacode a Terra como o que levanta a voz de quem já não está presente.

Um livro sobre a perda e tudo o que fica por dizer.
 
Rating: 3/5
Comentário: Antes de iniciar esta opinião, deixo só o aviso de que já a tinha feito e publicado, mas por algum erro de comunicação do blogger com a cloud, tudo o que escrevi foi eliminado. Será a minha segunda tentativa de escrever sobre este livro, pelo que desculpem desde já algum poder de síntese e menor dinamismo (que eu nisto não sou nenhuma Dulce Cardoso). 
 
Esta foi das primeiras leituras do ano, embora a opinião só saia agora da gaveta.  Antes de começara falar sobre o enredo, julgo que devemos abordar o elemento de inspiração que Laura Messina trouxe para este romance. 

O Telefone do Vento existe na vida real. Situado em Otsuchi, foi criado por um jardineiro que pretendia criar um local de conexão com os seus entes queridos que já tinham partido. Segundo o criador, a inspiração veio da leitura de um livro, onde através de uma instalação semelhante, animais comunicavam com os seus antepassados. A sua ascenção a lugar de romaria nacional veio de um processo de comunicação contínuo por parte do autor do projeto, mas sempre com o cuidado de não transfigurar ou tornar esta experiência como um culto de massas ou local turístico.  A história do local deu lugar a uma adaptação cinematográfica, sendo agora o Telefone do Vendo ampliado internacionalmente pelas mãos de Laura Messina. (foto por Record7). A escolha do local da instalação nao terá sido certamente ao acaso, já que o envolvimento idilico da paisagem permite a sensação de recobro e proteção esperado de um projeto desta natureza. Sabe-se também que algumas pessoas de várias partes do mundo têm contacto o autor a pedir autorização para reproduzir a instalação nos seus países, ainda para mais com o peso incrementado pelas perdas de vidas durante a pandemia do SARS-COV2, que para muitos familiares e amigos nem permitem uma despedida presencial dos seus entes queridos.

Sendo um livro sobre perda, poderia ter um cunho narrativo algo pesado. Contrariamente, senti uma enorme delicadeza e respeito, não fosse a cultura japonesa estar já inculcada na autora, residente no país há muitos anos. Esta nuance não nos passa despercebida, como faria todo o sentido. Existe uma premência no respeito pela comunidade, esteja ela ainda presente ou tenha partido, e sobre a forma de honrar uns sem esquecer que a vida continua e tem de ser vivida, também com a sombra da dor, mas de forma a que esta não ofusque a nossa total existência. 
Yui é a personagem principal, que apesar da sua história pessoal e traumática (não fosse arrastada por um sindroma de stress-pós traumático causado pela tragédia de Fukushima) é também a cola de todas as narrativas, que permite ao colectivo subsistir para além do seu próprío núcleo. O seu percurso é representativo da evolução dos processos de perda, sempre presentes, mas com várias nuances e abordagens. É também a exemplificação de que almas perdidas se encontram com maior facilidade e, por vezes, são o bálsamo que necessitam umas para as outras. A empatia e a possibilidade de encontro na tragédia tendem a fazer nascer a solidariedade e a capacidade de acolher o outro quando o mesmo não está preparado para enfrentar o mundo real. 
Um dos aspectos cruciais neste livro é precisamente a análise do que é a perda e do que contempla o luto por alguém. E de que esse luto por vezes se faz por alguém que ainda vive, sendo tão ou mais doloroso do que a invocação dos que já cá não estão. 
Da minha experiência de partilha sobre o livro, é interessante perceber que o nível de emoção e empatia com o enredo está directamente ligado a níveis de perda mais vincados. Das conversas que fui tendo sobre o mesmo, realçou-se uma certa melancolia colmatada por vontade de se poderem dirigir a um local semelhante. A cabine do vento é somente uma reprodução palpável de uma ferramenta para colmatar distâncias e o peso opressor da ausência, que paradoxalmente, se faz mais presente e gigante do seria esperado. A possibilidade de dirigir as palavras e lembranças que uma pessoa de luto carrega em si para o universo - uma metafísica dirigida aos que já cá não estão - é um bálsamo para a alma, a dor e a saudade. E este "remédio" não tem impacto somente nos crentes e adeptos de alguma espiritualidade, mas também para todos aqueles que carregados de cepticismo e crença num fim absoluto, não têm por onde libertar a pressão da finitude. 
Outro elemento bonito e digno de nota é o constante equilibrio entre os elementos terrenos e os espirituais, o abstractismo e o real, e a contínua reprodução de elementos que interligam as duas dimensões. Falo das contínuas listas (de músicas, comidas, brincadeiras, objectos, etc) que vão surgindo ao longo da narrativa, sempre associadas a uma memória, e que tanto trazem o passado para o presente, como nos lembra de aqueles são os únicos elementos que ficaram para trás. 
O próprio processo de luto é abordado pelas constantes mutações e nuances que representa para pessoas diferentes, e como tal, a sua reprodução tem impactos diferentes em casa pessoa. Umas carregam traumas mais densos, procurando desvendar  o porquê de determinado desfecho, outros só procuram a continuidade do quotidano e a partilha de sucessos e derrotas, de risos e frustrações, nem que tenha de ser pelo bucal de um telefone. 
É uma história sobre redenção, sobre perdão, sobre aceitação de que a dor não desaparecerá, mas poderá tornar-se suportável com o tempo e ser abraçada, em prol de coisas boas. Que o futuro não acabou e que aqueles de quem gostamos podem sempre fazer parte dele, seja por que os carregamos em nós, seja porque existe uma Cabine de Vento, onde o que sentimos e pensamos pode ser partilhado.


Banda sonora enquanto escrevo: Lost Without You, de "Freya Ridings"
 
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Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.