domingo, 5 de dezembro de 2021

Opinião: O Que Dizer das Flores, de Maria Isaac

O Que Dizer das Flores
de Maria Isaac


Edição/reimpressão: 2021
Páginas: 224
Editora: Cultura Editora
 


Sinopse: Bem-vindo a Mont-o-Ver! Português que se ponha a caminho da montanha, no inverno, ou da praia, no verão, é certo passar por esta planície de canaviais; mais certo ainda, nem dar por ela. A velha linha férrea passa-lhe ao lado e os comboios já nem sequer abrandam por aqui. Em tanto espaço igual, esta é paisagem fácil de se perder. Pois permitam que vos apresente os ilustres da vila. O padre Elias Froes, o homem santo que tem por hábito gastar tempo a pensar no mundo, raramente em si próprio. Guarda segredos que mais ninguém sabe. Catalina Barbosa, aventureira e contestatária. Menina bem-comportada apenas aos domingos, quando a avó a amordaça dentro de um vestido bonito para ir à missa. Rosa Duque, a mulher que, em tempos, teve tudo para ser feliz. Foi vencida por um coração partido e resgatada por uma flor. Zé Mau, o terror na vida das crianças. Os irmãos Mondego, os vilões nas histórias dos adultos. Este vilarejo pode até ser pequeno e parado, mas está cheio de gente atrapalhada com muita vida para esconder. Descubram comigo o que aconteceu, afinal, na noite do grande incêndio de há uma década e quem são os verdadeiros heróis desta nossa história pitoresca, temperada com os habituais mal-entendidos.
 
Rating: 3,5/5
Comentário: Mont-o-Ver é terra tipicamente portuguesa, com os devidos encantos e desafios. Terra pequena, presa ao passado por uma autoestrada que desviou o caminho e o progresso, ou a ideia de progresso inerente aos lugarejos que perdem população, oportunidades de trabalho e capacidade de regeneração local.
Como qualquer terra de menor dimensão, a comunidade tanto se conhece como se controla mutuamente, numa vigília sem fim e submetida a segredos e escaramuças, a amarguras e desalentos. Se é na unidade que encontram a sua força, é também através dela que se promovem as maiores injustiças, criando teatros de aparências e a exclusão de membros da comunidade que, ao abrigo de preconceitos e mal entendidos, vêem a sua imagem comprometida para sempre. 
O olhar inocente das crianças e de adultos-criança sobressai ao longo desta narrativa, onde os polos por vezes se invertem, e o que passa despercebido ao olhar conhecedor dos adultos advoga à superfície através de uma confirmação de um olhar límpido infantil. 
Os enredos misturam-se, as teias entre passado e presente começam a implicar-se à medida que as páginas avançam, e as relações entre pares se relevam mais complexas do que inicialmente pareciam. Embora estes fantasmas sejam trazidos para cima da mesa com uma pureza e uma descrição narrativa muito envolventes, perde-se um fio condutor na segunda metade do livro, com um desfecho apressado e arrematado para a conclusão, sem permitir o saboreio do contexto apresentado. 
As personagens com maior destaque acabam por perder relevância à boca da urna, e o contexto em que desenvolvem os restantes universos nucleares enreda nesta perca de força gravitacional. A vila, com tanto destaque, perde-se com as suas personagens embacia junto da auto-estrada, sem grande perspetiva de futuro. 
Ainda assim, gostei bastante da composição do lugarejo, assim como da forma como é contextualizado e descrito o lugar e todos os que nele interagem. A autora tem um estilo narrativo bonito, claro, aquoso e maleável às suas personagens. A própria narrativa sabe ter pontos de originalidade, especialmente quando potenciado o olhar do narrador, completamente inesperado, e que muitas vezes coloca o leitor em cheque. A sua revelação é uma pequena surpresa, já mesmo no fim, e consegue pelo menos rematar a história com algum alento. Sinto que lhe faltou fôlego na transição para a conclusão, mas não deixei de apreciar a sua construção até ao desfecho. Que Mont-o-Ver se deixe deslumbrar, com recurso a flores ou ao progresso.

Banda sonora enquanto escrevo: Qué Vendrá de "Zaz"
 
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Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

sábado, 4 de dezembro de 2021

Opinião: "O Grande Panda e o Pequeno Dragão" , de James Norbury

 

O Grande Panda e o Pequeno Dragão
de James Norbury

Edição/reimpressão: 2021
Páginas: 160
Editora: Suma de Letras Portugal


Sinopse: Este livro narra a viagem de dois amigos com tendência para se perderem. Como a maioria das pessoas. O Grande Panda e o Pequeno Dragão costumam acabar por se encontrar, mas, quando lhes custa recuperar o rumo, aceitam onde estão e desfrutam do seu lugar no mundo. Exploram as dificuldades e a felicidade que nos ligam a todos. Aprendem como viver o momento, como estar em paz com as incertezas e como encontrar forças para superar os obstáculos da vida, juntos.

Nesta maravilhosa viagem pelas estações do ano, ambos aprenderam que aquilo que verdadeiramente importa não é a meta, mas sim a companhia.

 
Rating: 3/5
Comentário: Antes de começar a opinião tenho de vos relembrar que li no início do ano "O Menino, a Toupeira, a Raposa e o Cavalo", de Charlie Mackesy. E acho que essa leitura prévia acaba por encobrir parte da beleza deste livro, porque me soa a algo visto. Os traços ilustrativos de James Norbury relembram-me o trabalho de Charlie Mackesy, embora este último apresentasse uma versão mais experimental, por vezes meio que inacabada. As mensagens, sejam estas alusivas ao confucionismo ou ao lado mais elementar da vida (a busca da essência, da procura de ser um melhor ser humano em comunhão com a natureza e o ciclo da vida), acaba por se repetir nos dois livros. A grande diferença prende-se com o olhar deste último, muito mais optimista e regulador de esperança, enquanto que o de Charlie Mackesy reflectia uma abordagem de superação dos momentos mais negros e a luz ao fundo do túnel. 
Precisamente por reflectir ensinamentos do filósofo chinês, assim como a presença de um panda (e de um próprio dragão pequenino que nos lembra uma entidade deífica de um certo filme de animação, também passado na China) existe uma presença constante de elementos asiáticos e posicionamentos de um certo elemento "nirvana" e de procura do eu e do Mundo em comunhão própria.
Em momentos tão cinzentos, como aqueles que a pandemia nos trouxe (e a reacção colectiva e diferencial de vários grupos), tem havido uma procura constante de momentos de encontro individual e colectivo. 
Este livro é uma pequena doçura, um bálsamo para os dias menos bons e uma lembrança da força interior de cada um. Um rebuçado para saborear ao final de um dia extenuante e uma lembrança que o amanhã é melhor. Que temos o direito de nos perder e encontrar, porque o que importa é o caminho e quem o faz connosco. Uma boa prenda para colocar no sapatinho deste ano.

Banda sonora enquanto escrevo: Anchor de "Novo Amor"
 
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Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Opinião: O Clube Jane Austen, de Natalie Jenner

O Clube Jane Austen
de Natalie Jenner

Edição/reimpressão: 2021
Páginas: 288
Editora: Chá das Cinco




 
Sinopse:
Um romance poderoso e comovedor que explora as tragédias e triunfos da vida 
Depois da Segunda Guerra Mundial, na pequena vila de Chawton, em Inglaterra, um grupo invulgar de pessoas arrasadas pela guerra reúne-se em prol de um objetivo maior: preservar o lar e o legado literário de Jane Austen, uma das melhores romancistas inglesas de todos os tempos.

Ao fundarem o Clube Jane Austen, os membros deste grupo tão diverso — um agricultor, uma jovem viúva, o médico local, uma estrela de cinema, entre outros — estão unidos no mesmo ideal. Enquanto se debatem numa luta silenciosa com as suas próprias mágoas e traumas, encontram no amor à literatura e nas palavras de uma das autoras mais celebradas da História uma razão para seguirem em frente, relembrando-nos assim do poder universal da literatura para redimir e curar.

#livrodeoferta

Rating: 4/5
Comentário: Existe um certo lado místico associado a Jane Austen e ao seu "poder curativo". Talvez pareça disparatado, mas a verdade é que muitos exemplares do seus livros foram distribuídos a soldados durante a I Guerra Mundial, dado que o lado satírico e as tramas românticas aligeiravam o seu mau-estar nas trincheiras, trazendo alento e conforto. 
Em "O Clube de Jane Austen" debruçamo-nos sobre uma vila de pequenas dimensões no meio rural no Reino Unido no período pós-guerra. Embora a sua localização dite algum distanciamento dos principais efeitos do conflito, não deixam de haver fantasmas enraizados nas perdas dos homens da terra, das famílias desfeitas e dos conflitos pessoais de quem viu a História passar por si. 
Chawton, local de residência de Jane Austen durante muitos anos, tornou-se um ponto de romaria para fãs da autora. É também um despoletar de interesse em alguns dos habitantes locais, que acabam por descobrir na autora e nas suas obras um conforto necessário e uma amiga, que mais tarde acabam por partilhar com a criação de um clube uma missão muito especial: preservar a antiga habitação de Austen, em risco de ser vendida a particulares com ambições meramente financeiras. 
O lado bonito deste enredo, que poderia ser bastante banal, passa pelo facto de uma admiração mútua por uma escritora poder ser despoletada em pessoas com diferentes perfis e experiências de vida, e que estando sós e bastantes perdidas, encontram alento nesta partilha em comum. E um mero interesse literário acaba por demonstrar o aparecimento de outros pontos em comum e do crescimento de uma família para todos os que não a tinham, fosse resultante de laços biológicos ou emocionais. 
É uma história de amor pelos livros e pela literatura de Austen, pelo poder da procura do outro através da timidez e da repressão do passado, do alento da amizade e de um optimismo inato em quem acredita que o bem pode sempre vencer. 

Banda sonora enquanto escrevo: Georgiana, de "English Chamber Orchestra, Benjamin Wallfisch"
 
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Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

sábado, 10 de julho de 2021

"A Minha Livraria", escolha da Cristina Delgado (O Tempo Entre os Meus Livros)

Quando lancei o desafio à Cristina (O tempo entre os meus livros), ela não foi capaz de enumerar uma única livraria. O que é óptimo sinal, porque terei várias sugestões para vos apresentar nos próximos posts desta rubrica. As livrarias são sempre diferentes e especiais para todas as pessoas. A Déjà Lu, a primeira escolha da Cristina, é especial para ambas. A primeira livraria solidária do país, nasceu num nicho mágico, na Cidadela Art District em Cascais, em 2005. Funcionando como uma livraria de livros já lidos (livrem-se de os chamar de segunda mão), reúne os esforços de um batalhão de voluntários e voluntárias que abrilhantam o projeto com o seu amor aos livros e à causa. É que o valor recolhido na venda destes livros doados reverte a favor da Associação Portuguesa de Portadores de Trissomia 21 e Pais 21. Eu tive o privilégio de ser uma das voluntárias durante muitos anos, que só a pandemia e necessidades de força maior afastaram temporariamente do projeto. Mas planeio voltar! O que é bonito é continuar a cruzar-me com pessoas do mundo dos livros que, de uma forma ou de outra, ou passaram pela livraria e se apaixonaram ou são voluntários do projecto. Mas afinal o que é que a torna tão especial?? A Cristina revela tudo:

                        

 1) Recordas-te da primeira visita? Quando foi? 

Não me recordo da primeira vez que visitei a Déjà Lu. Lembro-me sim da sensação de pertença que ele me trouxe. Estava em casa! Ficaria ali se pudesse, passaria ali as tardes a ler. O ambiente é fabuloso e a decoração, simples mas muito imaginativa, não lhe fica atrás..

2) O que é que a torna tão especial para ti? / Em que é que se diferencia das restantes?  

Uma das coisas que a diferencia das restantes é precisamente a decoração. Caixas e caixas de vinho a servirem de estantes, mensagens ao leitor em cartões junto aos livros indicando o género literário com frases cheias de subtileza e muito engraçadas, moveis aproveitados e que estariam no lixo se não tivessem encontrado esse lugar encantado,  sofás a pedir assento, TV esventradas a servir de estante, um mundo cheio de detalhes que não é qualquer meia hora que chega para descobrir!