terça-feira, 6 de novembro de 2018

Opinião: Os Provocadores de Naufrágios, de João Azambuja



Os Provocadores de Naufrágios
João Nuno Azambuja
 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas 304
Editor: Guerra e Paz
  




 
Sinopse: 
Baseada em factos reais, esta é a história de Klaus Kittel, um alemão portuense que combateu na Segunda Guerra Mundial. Um homem mergulhado numa época de pesadelo, de guerra, morte e ditaduras. Uma Europa destroçada, de onde surge uma história improvável, mas verdadeira, feita de viagens e fintas ao destino.
Kittel foi sempre perseguido pela crueldade humana. Em criança, expulsaram-no de Portugal. Em adulto, viveu os bombardeamentos aliados e fugiu ao Exército Vermelho. Passou pela grande depressão, assistiu à ascensão de Hitler e discursou para a elite do Partido Nazi. Depois da guerra, é preso. Sobrevive aos campos de prisioneiros, onde milhares de homens encontraram a morte. Mas consegue fugir, com o que talvez seja uma misteriosa ajuda de Álvaro Cunhal.
Foi escravo, soldado, marido. Um romance escrito pela pena de uma das mais promissoras vozes das Letras portuguesas, vencedora do Prémio Literário UCCLA, sobre a qual disse o poeta Fernando Pinto do Amaral ser «capaz de exprimir um intenso sentido de revolta em face do mundo contemporâneo»..

Rating: 3.5/5
Comentário: Hoje em dia já me começo a questionar se o interesse crescente da sociedade do séc. XXI perante a 2ª Guerra Mundial se prende com a necessidade de conhecimento e reconhecimento do nível de maldade até onde as pessoas podem ir ou se é puro voyeurismo da desgraça alheia e degradação do ser humano. Julgo que inadvertidamente acabámos por cair num meio termo, e daí a crescente no mundo literário de ficção e não ficção sobre a temática, que nunca passa de "moda", mas que peca por incidir precisamente nas mesmas análises, nos mesmos níveis de desgraça e calamidade, sem aprofundar ou obedecer minimamente a um espírito crítico que vá para além da emissão de um juízo de valor ou outro, já muito pobre e gasto.
Nesse sentido, obrigo-me a ter um olhar mais crítico e a realizar uma selecção mais cuidada sobre o que pretendo ler sobre este período (embora, e mea culpa me confesso, ainda me deixe resvalar na outra direcção quando um romance ou outro me puxam pela sinopse). Acima de tudo, o que procuro são abordagens diferentes, leituras diferentes, e uma leitura da realidade segundo uma manta de retalhos mais vasta.
Em seguimento dessa análise, "Os Provocadores de Naufrágios" pareciam-me uma leitura indicada.
Ao fim ao cabo, não é todos os dias que enveredamos na história de um alemão que ingressa na guerra sem necessidade e por sentido patriótico, patriotismo esse acerbado pelas raízes saudosistas e familiares de uma história não vivida. O que em última instância nem é assim tão verdade, já que para todos os efeitos, Klaus Kittel cresceu e viveu em Portugal, sendo mais português do que alguma vez foi alemão, mas é arrastado por força das circunstâncias para um momento em que não é considerado pelos seus pares nem uma coisa nem outra: nem tão português que seja bem-vindo nos seus circuitos familiares enquanto a nação que lhe deu origem ocupa lentamente toda a Europa, nem tão alemão que se reveja em funcionalismos culturais criados por um povo longe do qual sempre viveu.
Este livro é escrito em jeito de reconto memorial, com alternâncias entre um período em que Klaus se encontra como prisioneiro de guerra na Alemanha e posteriormente em França, com momentos episódicos da sua vida, e que compõem o seu tecido cronológico. É acima de tudo o relato de uma vivência de um homem real, com inspiração em pedaços de uma memória relatada em diário, e imaginados por João Azambuja de forma a compor todo o seu historial.
Daí advém a aplicação de vários provérbios populares, de uma sensatez e ligação às raízes muito portuguesa e também de um certo distanciamento - quase observacional e não vivencial - na descrição de momentos que seriam muito difíceis de superar e observar. Não há de facto um reforço empático ao nível das emoções, porque toda a narrativa é tida como um relato algo distanciado, mas torna-se um troféu quase que corriqueiro e esperado de um homem em final de vida, que não se sente vítima do que viveu e aceita-o em pleno como um momento da sua História. É uma abordagem peculiar e original de um relato que poderia ser algo polémico, mas também muito humana e sensível, atenta aos detalhes e à representação do ser humano no seu todo.
Não me senti comovida, porque não é esse o sentimento que o livro incute, mas fui agradavelmente surpreendida pela narrativa. "Os Provocadores de Naufrágios" revelou-se uma leitura peculiar mas que me deu bastante prazer.



Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.