quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

"À Luz do que Sabemos", de Zia Haider Rahman




À Luz do Que Sabemos
de  Zia Haider Rahman
 
Edição/reimpressão: 2016
Páginas: 744
Editor: Quetzal
  





Sinopse: 
Numa manhã de setembro, um investidor da banca, a rondar os quarenta anos, com a carreira em colapso e o casamento em queda-livre, recebe uma visita-surpresa na sua moradia de Londres. Após a dificuldade inicial em identificar uma figura pobremente vestida e de mochila às costas, acaba por reconhecer nela o amigo dos tempos da faculdade, um tipo brilhante que desaparecera anos atrás em circunstâncias misteriosas. Ao longo dos dias que se seguirão, Zafar contará a sua história.

À Luz do Que Sabemos é a epopeia de um homem e da sua desintegração psicológica - e uma peça extraordinária de uma nova literatura pós-colonial. Temas como a não-pertença, o deslocamento, a emigração e a migração voluntária e económica - e também a política, a história, a religião e a matemática. Uma história repleta de histórias e de personagens em movimento, com ecos de W.G. Sebald e de Teju Cole.

Uma ligação amorosa entre Zafar - o bem-sucedido filho de emigrantes do Bangladesh - e Emily, filha da elite aristocrática - atravessa toda a narrativa, que se desenrola entre Londres, Nova Iorque, Bangladesh e o Afeganistão. À Luz do Que Sabemos é um romance enciclopédico, mas é também um livro sobre tudo aquilo que não sabemos ou que não conseguimos saber.

Rating: 3/5
Comentário: A julgar pelas opiniões que tenho lido sobre este livro, este insere-se na categoria dos extremos: ou se ama, ou se odeia. Curiosamente, julgo ter obtido uma reacção mais equilibrada e posso evidenciar muitas secções de interesse, em detrimento de outras que julgo terem-se estendido para além do necessário (e criando alguns momentos de leitura mais lentos e algo aborrecidos).
Voltemos ao início. "À Luz do Que Sabemos" reflecte uma gestão básica da condição humana: agir em conformidade com as nossas dúvidas, angustias e necessidades mediante o que sabemos nesse exacto momento. É um livro que aborda longamente as reflexões mundanas e intelectuais, assim como filosóficas do que é estar vivo e em que circunstâncias.
A outro nível, conduz paralelamente uma história contada em momentos avulsos sobre a existência de Zafar, demarcando várias ocasiões da sua vida como uma retrospectiva constante, algo periclitante, e com incidência em variâncias que tanto elucidam o leitor com novos momentos que compõem a narrativa, como servem somente como elementos do mosaico global.
A composição discursiva é estranha e pode dificultar a leitura a um olhar mais distraído, exige concentração e foco, dado que a estrutura está montada como num discurso real: com interrupções, desvio para contar outras histórias, retorno ao ponto de origem como se nada se tratasse, divagações em profundidade sobre determinadas temáticas, interrupções de parte a parte.
Fez-me alguma confusão a identidade desconhecida, o nunca pronunciarmos ou tornar claro quem é o narrador, que acaba por se tornar o leitor, embora nunca o sendo porque acrescenta momentos episódios  à sua nova posição.
Não é fácil gostar de nenhuma das personagens, e talvez este seja um dos maiores entraves para muitos leitores. Pertencem a uma elite, algo snob e pouco dada à compaixão e com crises existenciais que não se adequam, em primeira instância, ao mundo real. Mas não deixam de transmitir uma humanidade que as torna difíceis de decifrar mas com um interesse contínuo e latente.
A relação contínua entre os vários intervenientes do enredo começará por evidenciar uma série de contrariedades e fossos só levemente enunciados, e que mediante a exploração de quem são estas personagens ao longo da narrativa, elas vão perdendo o seu ADN translúcido e tornando-se bastante mais palpáveis, menos perfeitas e com enormes falhas. E à luz do que vamos sabendo, a nossa percepção de cada uma, o nosso posicionamento sobre os valores, a identidade e a veracidade de cada uma, vai-se constantemente alterando.


 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

0 leitores reagiram:

Enviar um comentário