Opinião: Perto de Ti, Longe de Nada

 

Perto de Ti, Longe de Nada

de Sílvia Soares

Edição/reimpressão: 2014
Editora: Edição de Autor 

Resumo:

Recentemente divorciada, Julia procura afastar-se do passado e reencontrar a alegria num recomeço. Partindo numa viagem sem destino, conta as suas aventuras e desventuras no blogue da revista para a qual trabalha. Os seus seguidores, novas amizades e também Erika, a sua instável amiga e divertida chefe, acompanham-na.
O pintor invulgar e cativante é Jean-Pierre que vive pelo mundo, sem amarras. Talentoso e confiante, julgava já não procurar nada… até conhecê-la. Tudo o que ele queria era pintar o seu retrato…
Fabrizio, Enzo, Marillia, Gerardo, Adelline, Maria Rita e Matteo são algumas das personagens que farão parte desta viagem, entrando ainda em cena os recém-casados Sara e Valter, a personificação de que os opostos se atraem.
E tudo começa em Milão… Pelo caminho, Julia encontra muito mais do que esperava. Mas será que encontra o que realmente procurava?
Uma história sobre o amor, nas suas diferentes formas, sobre a busca interior da felicidade.
  
Rating: 3/5 

Opinião:  "Perto de Ti, Longe de Nada" é o 3º romance de Sílvia Soares, uma jovem autora que gosta de imputar as suas experiências pessoais e sonhos (porque não dizê-lo) nas obras que escreve.

Este livro foi gentilmente cedido pela autora Sílvia Soares, a quem agradecemos o gesto e a aposta no Encruzilhadas Literárias. Queremos continuar a divulgar novos autores portugueses e apoiar o seu sucesso! Para além disso, as mensagens a nós reservadas foram recebidas com muito carinho. Para saberem mais sobre a autora, podem clicar aqui.

Ainda não vi nenhuma opinião escrita sobre este livro o que me leva a pensar (sem egocentrismos) que talvez seja a primeira a vir a público para a blogosfera, o que me deixa um tanto ou quanto sensível à responsabilidade. Mas vamos lá.

Começo por dizer que adoro a fotografia da capa, e sabendo tratar-se da autoria da autora (e da sua importância no enredo), não posso deixar de ficar contente por poder ver a casa de hera, sem ter de forçar a imaginação para criar este edifício tão bonito.
Li este livro com uma relativa rapidez e interesse, não só porque o enredo me cativou, mas também devido à sua fácil leitura. No entanto, tive algumas reservas sobre a obra até ao fim, o que dificultou a definição da minha opinião sobre ele. Por outro lado, quando cheguei ao final e li as últimas linhas, todas as questões que poderia apresentar ao livro como pontos menos positivos acabaram por ser justificados, e com essa nova perspectiva, entendo o porquê de algumas escolhas da autora. No entanto, não poderei ser suficientemente clara sem revelar alguns spoilers, o que não pretendo fazer, pelo que a presente opinião poderá ser um pouco injusta, ainda não sei se para os leitores se para a Sílvia.
Este é sem dúvida um livro pessoal, não tanto devido às vivências das personagens que o compõem mas porque mesmo sem conhecer a autora, consegui vê-la em todas as páginas desta obra. Vemos as várias cidades, especialmente Milão pelos seus olhos, provamos pratos que chegaram até si e visualizamos edifícios e locais através, não de indicações de guias turísticos mas da sua vivência e percepção dos lugares.
A Sílvia diz várias vezes inspirar-se nas suas viagens, e esse factor ressalva-se em toda a obra, o que é sem dúvida uma vantagem para quem quer contextualizar-se. Por outro lado, acho que poderia ter sido melhor explorado nesta parte, porque embora tenha captado as experiências sensoriais das personagens, num sentido prático não conheci Milão, ou não vi Milão na grande maioria das vezes. Os hotéis, os cafés, as localidades retractadas poderiam ser em qualquer parte de Itália (salvo raras excepções referenciadas de monumentos, edifícios ou locais). A esse nível, destaco também o facto de por vezes achar que existiram pormenores colocados em grande relevo desnecessariamente, em detrimento desta outra perspectiva. Confesso que me custou um pouco habituar com essa lógica de saber sempre o que a personagem comia, vestia, os passos que dava no quarto enquanto se arrumava, etc, num excesso de descrições quotidianas um pouco desinteressantes.
Numa outra lógica, as cartas da Julia para os leitores não me pareceram muito...realistas? É suposto serem crónicas de viagem e dei por mim a ler desabafos a rondar a escrita de diário pessoal e intimista, que numa práctica comum não aconteceria segundo o modelo que carreira profissional em causa. Este foi um dos pontos que me fez mais confusão, mas mais uma vez, quando li as páginas finais do livro percebi a razão pela qual elas estavam escritas dessa forma.
Senti falta de mais trocas de emails com Erika, atendendo ao que nos é apresentado pela sinopse, e que eu gostaria que não fossem a repetição de pontos já descritos anteriormente mas uma adição complementar à narrativa.
Do ponto de vista de redação e construção linguística, a autora escreve bem, sabe bem ler a sua obra e terminei este livro muito rapidamente. Denotam-se os vastos anos de leituras e de escrita que decerto antecederam a aposta da Sílvia no outro lado do mundo literário. E na grande generalidade, dá prazer em ler. O texto flui, o estilo é muito contemporâneo e bastante articulado. Destaco apenas a necessidade de se trabalhar melhor os diálogos, um pouco forçados e repetitivos, que por vezes me fizeram torcer ligeiramente o nariz. Apóstrofes em excesso e alguns pleonasmos que não acrescentaram muito ao livro. Deste modo, e apesar da revisão cuidada da autora, que é bastante visível, aconselhava nesta fase de melhoria a procurar um grupo de leitores-beta, que com um outro olhar poderiam fazer brilhar ainda mais a obra da autora e corrigir estas pequenas bengalas de construção.
Quanto ao enredo, é uma estória doce, daquelas que nos embalam e que soube bem ler no comboio, onde podia fechar os olhos e imaginar-me também num movimento mais prolongado, a partir para longe. A ideia de viajar e de conhecer pessoas interessantes pelo caminho não é mais do que uma possível realidade que muitos vivenciam, e foi apresentada com uma naturalidade extrema, resultando numa mistura de nacionalidades e personalidades. Gostei de ver as suas relações e a perpetuação da amizade imediata e rápida, tão típica nesta modalidade de encontros e desencontros, que por vezes se desfaz mas que compõe a melhor lembrança para tempos inesquecíveis.
Julia é uma mulher que facilmente se relaciona com todos, cujas relações interpessoais estão novamente a ser trabalhadas e aperfeiçoadas, beneficiando da aproximação de pessoas afáveis e com uma bagagem de vida para explorar em conjunto. É divertida quando se vira para o mundo exterior e sente-se a evolução da personagem ao longo das páginas, à medida que vai saindo de um casulo de mágoa para as primeiras tentativas da redenção pessoal. A sua relação com Jean-Pierre é simultâneamente previsível contraditória, seguindo desfechos que podem parecer cliché, mas que no minuto final se revelam algo diferente. Gostava de ter sabido o desfecho da história de Maria Rita e Matteo (até porque adorei os pais desta rapariga), assim como mais alguma informação destas personagens com as quais a personagem principal se cruza, ultrapassando a lógica de adição à trama para realmente fazerem parte dela. De qualquer forma, ninguém me tira da cabeça que com ou sem namorada, o Fabrizio tinha era uma paixoneta pela Julia!
Para finalizar, fiquei surpreendida com o último capítulo e com a carta final, que me deixaram com a sensação de ter juntado novamente as peças, mas também de algum sentimento agridoce que, e agora pensando em retrospectiva, era inevitável.
Estarei atenta às futuras obras desta autora cheia de potencial, a quem desejo o maior dos sucessos!

Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas e bookcrossing, a Cláudia ainda consegue estudar e fazer o seu mestrado enquanto lê nos transportes públicos. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado é tão fácil encontrá-la numa biblioteca como na Rota Jovem em Cascais. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

3 leitores reagiram:

  1. Eu estou a ler este livro. É uma historia leve, interessante e muito rica em experiências sensórias que me transporta de um dia-a- dia violento, para uma viagem onde a riqueza são os acontecimentos de alguém que foge do fim de uma relação e deseja encontrar novamente a si própria. Confesso que não procuro registos históricos neste livro, e é me bastante gratificante o pouco que consigo ler diariamente sobre o desenvolver da relação de Julia e Jean-Pierre. Entendo que as outras personagens serão apenas animadores desta historia, e que é tal e qual o que nos acontece quando viajamos, onde conhecemos pessoas que entram e saem da nossa viagem á medida que esta passa e que função é apenas de apimentar as nossas historias, sem perder o nosso rumo.
    Não entendo que as cartas da Julia sejam crónicas de uma viagem, mas sim uma coluna de um blog da revista, onde escreve sobre aquilo que lhe apetece, até me faz lembrar uma certa personagem muito conhecida da serie “ sexo e a cidade”.
    Concordo quando diz que este livro se baseia em experiências reais da escritora é o que sinto em cada pagina e que me dá igualmente prazer em ler, sobretudo porque se encaixa perfeitamente em algo que me apetece ler, uma historia simples em que o dialogo é fluído, com uma personagem desigual que é o Jean Pierre, que o imagino como sendo uma personagem diferente!
    Estou ansiosa pelo Fim!

    ResponderEliminar
  2. Olá Susana,

    A vantagem de sermos leitores diferentes é mesmo essa: ter uma experiência diferente ao ler um livro :) Obrigada pela sua opinião, o fim vai surpreendê-la!

    ResponderEliminar
  3. Eu já li o livro e gostei muito. Ainda para mais sendo de uma autora ainda jovem. Promete.
    As descrições das refeições das personagens, não as acho desnecessárias, antes pelo contrário: quem está em Itália é cativado pela comida e pelos seus aromas. O que tem mais é de comer. No contexto, acho apropriado. Um blogue, mesmo sendo de uma publicação tem de conter sempre relatos de carácter pessoal. Achei interessante acompanhar a evolução dos mesmos.
    Fiquei agradada com as viagens, os lugares, os ambientes e com um certo humor que por vezes existe. Quem não conhece os locais referidos fica com vontade de os conhecer. Por exemplo, Miramare. Gostaria de lá ir.
    Vale a pena ler este livro. Não se fica defraudado nem com a sensação de vazio.

    ResponderEliminar