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quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Opinião: Passagem para o Ocidente, de Mohsin Hamid



Passagem para o Ocidente
Mohsin Hamid
 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas 208
Editor: Saída de Emergência




 
Sinopse: 
Num cenário de guerra, é possível o amor e a esperança.
A história do amor furtivo de Nadia e Saeed tem lugar numa cidade não nomeada cheia de postos de controlo e de bombas, um labirinto humano à beira da rutura. Quando a guerra civil rebenta, surgem estranhos rumores sobre a existência de portas clandestinas que levam a outros países. À medida que a violência aumenta, os dois jovens sabem que têm de deixar para trás a vida que sempre conheceram, embarcando numa viagem sem regresso, vertiginosa e cheia de surpresas.
Numa mistura singular de realismo e magia, Passagem para o Ocidente é um belíssimo romance sobre refugiados, que nos leva a questionar em que mundo queremos viver.

Rating: 3.5/5
Comentário:  Só me apercebi que "Passagem para o Ocidente" era o tão aclamado "Exist West" quando já ia a meio da narrativa, ainda que na capa estivesse bem explícito que este livro de Mohsin Hamid tinha sido nomeado para o Man Booker Prize.
Da minha parte, fiquei agarrada pela sinopse e queria redescobrir mais sobre esta relação num ambiente nada frutífero ao amor e ao despoletar das emoções humanas que associamos aos períodos em que estamos mais relaxados e em paz connosco.
Não podia deixar de começar por referir que Mohsin Hamid criou uma história muito humana e cheia de nuances, que tentou captar a essência do Ser Humano sem sem paternalista nem desonesto, sem dourar pílulas nem apimentar processos.
Embora em nenhum momento se diga que esta seria a realidade da Síria, nenhum leitor deixa de ajustar este país sem nome à realidade macabra que nos entrou em casa pelas televisões nos últimos 4 anos. E é também uma lembrança constante, agora que os media já não consideram notícia uma desgraça que é vigente e que infelizmente se tornou quase que estrutural da sociedade do séc. XXI e neste caso particular, da Europa - a crise dos refugiados.
O que o autor nos traz é de facto um romance que começa num período em que facções diferenciadas num país se começam a guerrear, obrigando a uma intervenção também não pacífica por parte do Estado.
A forma como as relações humanas se vão adaptando e reconstruindo com derivadas criadas pelo contexto social e político que se vive na posição geográfica onde as personagens se encontram é transmitida com enorme sensibilidade mas também sem receio de tocar na ferida.
Por sua vez, a condensação de emoções, sensibilidades, nuances narrativas tendo por base o objetivo de descrever o quanto uma guerra pode destituir as pessoas daquilo que são e têm sido até ao momento é poderosíssimo.
Com um toque alegórico e metafórico, quase que a roçar o fantástico, suplantam-se os processos de travessia associados às rotas de fuga dos refugiados. Mas este elemento insere-se no enquadramento geral com enorme mestria.
Outro dos pontos positivos pela narrativa é precisamente o facto de o autor não se assumir como defensor de uma outra situação quando o tratamento dos países ocidentais, optando por evidenciar as diversas áreas cizentas que circundam o espectro do certo e errado nestas situações. Tratando-se de personagens muito humanas, não poderiam deixar de existir momentos de tensão, defeitos e envolvimentos benéficos e várias óptimas de leitura para um mesmo acontecimento.
Mohsin Hamid não torna os refugiados num único grupo sem rosto nem cor, valorizando as suas personagens por aquilo que elas são e atribuindo-lhes a humanidade que elas merecem.
Mas também não desvaloriza as várias reacções e envolvimentos que são expectáveis e facilmente desenvolvidos nos países que passam a albergar milhares de migrantes resultantes de conflitos armados.
Com uma análise bastante real, assim como crua, o autor pretende não chocar nem sensibilizar mas contar as coisas pelo que elas são, repensando as respostas da Europa e dos Estados Unidos num modelo de resposta preditivo e funcional. "Passagem para o Ocidente é, no fundo, uma educação para os Direitos Humanos num contexto universal e complexo, sem análises dúbias e simplistas.
Vale a pena ler.


Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Uma Mulher Desnecessária, de Rabih Alameddine



Uma Mulher Desnecessária
de  Rabih Alameddine
 
Edição/reimpressão: 2017
Páginas: 264
Editor: Porto Editora
  


Sinopse: 
Aaliya Saleh vive sozinha no seu apartamento em Beirute, rodeada por pilhas e pilhas de livros. Sem Deus, sem pai, sem filhos e divorciada, Aaliya é o «apêndice desnecessário» da sua família. Todos os anos, ela traduz um novo livro para árabe, e depois guarda-o. Os trinta e sete livros que Aaliya já traduziu nunca foram lidos por ninguém. Depois de ouvir as vizinhas, as três «bruxas», a criticar a extrema brancura do seu cabelo, Aaliya tinge-o… de azul.

Neste assombroso retrato da crise de idade de uma mulher solitária, os leitores seguem a mente errante de Aaliya, à medida que ela vagueia pelas visões do passado e do presente da capital do Líbano: reflexões coloridas sobre literatura, filosofia e arte são invadidas por memórias da guerra civil libanesa e do próprio passado volátil de Aaliya. Ao tentar superar o envelhecimento do corpo e as inoportunas explosões emocionais que o acompanham, Aaliya é confrontada com um desastre impensável que ameaça estilhaçar a quietude da vida que ela escolheu para si mesma.

Rating: 4/5
Comentário: Reconheço que este possa não ser um livro para qualquer leitor ou leitora, mas foi dos mais bonitos que li ultimamente. Rabih Alameddine traz-nos a história de uma mulher que à luz da sociedade que a acolhe é precisamente aquilo que o título enuncia: uma mulher desnecessária. Uma mulher que não cumpre os preceitos societais através da sua vida pessoal nem constribui activamente com uma actividade profissional que seja compreendida e aceite pela população em geral. Para além disso, e mesmo que seja de desconhecimento geral, o seu passatempo de tradução acaba por se assemelhar a uma pequena ocupação inglória, atendendo a que o resultado dessa tradução acaba arrumado em caixas espalhadas pela sua casa. Ou será que a sua produção vale pela acção e tempo investido, independentemente do resultado? Até que ponto os nossos interesses são válidos só porque nos dão prazer?
Esta é uma das questões que fica latente ao longo da narrativa e a qual vai sendo abordada e desvendada ponto por ponto, especialmente com reflexões mais aprofundadas e acutilantes sobre a arte da tradução e todos os preceitos que a cobrem.
Simultâneamente, os singelos acontecimentos da vida quotidiana são elucidações e pontes de transposição para outras partes da vida passada desta mulher, que não fossem esses momentos e quase que validações da sua presença e existência, teria passado a vida em branco.
São também os pequenos acontecimentos do presente que lhe atribuem uma certa dimensão corpórea, que desfaz a ilusão de que Aaliya só vive no passado e não tem existência no mundo actual. E esses pequenos momentos, tão caricatos, são também aqueles que reforçam um carácter mais ligeiro a um livro carregado de melancolia, despreendimento e alguma dose de luto pelo mundo já vivido, pelas personagens que passaram pela sua vida e já não estão presentes e por aquilo que Aaliya foi e/ou poderia ter sido.
"Uma Mulher Desnecessária" é também uma ode à arte, com inúmeras reflexões filosóficas e abordagens artísticas, desde a música clássica à, naturalmente, literatura. São mencionados vários autores e autoras, com muitas citações e até desconstruções sobre o que foi por estes/as referenciado. E em variados momentos mais corriqueiros, talvez porque estes/as sejam os companheiros e companheiras que mais a acompanham (mesmo que no campo metafórico) ao longo de toda a sua vida, as análises por estes/as produzida quase que justificam ou valorizam os seus pensamentos.
Não tenho a certeza de tratar-se de liberdade de tradução, mas a referência constante à obra de Fernando Pessoa pareceu-me a determinada altura como excessiva. Percebo a necessidade de aproximar a leitura à realidade do leitor, mas sem que esta deturpe o original quanto ao seu enquadramento geográfico.
No geral, este é um livro muito especial e cheio de nuances, com uma abordagem sensível e sublime ao que é ser mulher na Líbia, sem tomar as dores e as percepções de todo um género mas recriando uma história que facilmente se enquadra na temática. É um enredo que conjuga subtileza, estética, filosofia e poesia, assim como representações multiculturais que não podem nem devem ser desmerecidas.
É um óptimo livro, com um ritmo lânguido que pede para ser lido com prazer e calma. Recomendo.


 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

sábado, 6 de setembro de 2014

Opinião: A incrível viagem do faquir que ficou fechado num armário Ikea, de Romain Puértolas





A incrível viagem do faquir que ficou fechado num armário Ikea
de Romain Puértolas 

Edição/reimpressão: 2014
Páginas: 208
Editora: Porto Editora 

(As primeiras páginas podem ser lidas no site da Editora)



Resumo:  O maior fenómeno de popularidade da literatura francesa atual. Traduzido em 36 países.

Ajatashatru Larash Patel, faquir de profissão, que vive de expedientes e truques de vão de escada, acorda certa manhã decidido a comprar uma nova cama de pregos. Abre o jornal e vê uma promoção aliciante: uma cama de pregos a €99,99 na loja Ikea mais próxima, em Paris. Veste-se para a ocasião - fato de seda brilhante, gravata e o seu melhor turbante - e parte da Índia com destino ao aeroporto Charles de Gaulle. Uma vez chegado ao enorme edifício azul e maravilhado com a sapiência expositiva da megastore sueca, decide passar aí a noite a explorar o espaço. No entanto, um batalhão de funcionários da loja a trabalhar fora de horas obriga-o a esconder-se dentro de um armário, prestes a ser despachado para Inglaterra. Para o faquir, é o começo de uma aventura feita de encontros surreais, perseguições, fugas e aventuras inimagináveis, que o levam numa viagem por toda a Europa e Norte de África.

A incrível viagem do faquir que ficou fechado num armário IKEA é uma aventura rocambolesca e hilariante passada nos quatro cantos da Europa e na Líbia pós-Kadhafi, uma história de amor mais efervescente do que a Coca-Cola, mas também o reflexo de uma terrível realidade: o combate travado por todos os clandestinos, últimos aventureiros do nosso século.
Rating: 3/5 

Opinião:  Se procuram um livro ligeiro, bem-disposto e que vos faça sorrir por uns instantes, Ajatashatru Larash Patel, mais conhecido por Laracha ou por uma série de palavras a compôr frases impenetráveis (só perceberá quem der uma hipótese a este livro) será o responsável por umas quantas horas agradáveis. Apesar de ser um contexto muito diferente, e com um enredo também diferenciado, foram várias em que me veio à memória o filme "Está Tudo Louco!" de 2001. Com várias peripécias, personagens peculiares, situações cómicas e totalmente fora de contexto, existiram vários momentos que fizeram lembrar o quão louco era realmente o enredo, e que não fica nada atrás neste livro. Ou não estivéssemos a falar de alguém que fica fechado num armário. Do Ikea. Em França. Quando ia às compras.
E deixem-me dizer que algo que aprendi com este livro foi que visitar um IKEA em Alfragide ou em Paris é a mesma coisa. A descrição da loja foi tão clara que me vi a passear mentalmente no de cá, sem ser capaz de encontrar alguma diferença. Ser ser o sari da empregada da cozinha. 
Larash é uma personagem peculiar com um objetivo muito concreto: comprar uma cama de pregos IKEA em promoção (porque é que se venderia algo do género em Paris ultrapassa-me). Mas o que parece uma missão (relativamente) simples irá revelar-se um desafio intenso, imprevisível, caricato e cheio de revelações, apoteoses, e pequenas reflexões sobre o ser humano em várias situações muitas vezes vistas como banais, mas que transformarão o nosso personagem. Uma das partes mais divertidas, e este é um pequeno spoiler, passa exactamente por esta personagem encarnar um vigarista da maior espécie, e que não só se irá (naturalmente) enterrar até ao pescoço por causa disso, como justificará muitas acções e resoluções tomadas por si (que consideraríamos idiotas) e que inexplicavelmente lhe irão correr sempre de formas que o leitor não estava à espera. Não deixa de ser um livro previsível, mas com aquele tipo de previsibilidade que só é visto ao último minuto, ainda que garantamos que estava sempre lá. Está escrito com uma linguagem leve, divertida, capaz de nos fazer passar bons momentos. Confesso que em algumas partes senti que o autor queria forçar o riso, o que me retirava parte do prazer de vivenciar as cenas, pelo que foram realmente as passagens mais naturais, em que o autor intencionalmente ou não se limitava a contar a estória e alguns dos pensamentos do personagem, que me fizeram sorrir.
As poucas personagens secundárias que surgem no livro, mas que nos acompanham até ao final, criaram o factor comédia de forma mais imediata, mas mais dinâmica e interactiva, que contribuiu para enriquecer a narrativa. 
Simultaneamente, o processo de transformação pessoal, de análise do contexto envolvente, da importância da vida e das suas particularidades perante outras e sobre o funcionamento em geral, através do cérebro e coração de um pequeno faquir vigarista, não deixam de ser chamadas de atenção para o que nos rodeia e para a necessidade de o compreender de coração aberto, com vontade de aprender e de sonhar mais longe.
Uma surpresa diferente!

Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Opinião: Um Amor na Cornualha, de Liz Fenwick




 Um Amor na Cornualha
de Liz Fenwick

Edição/reimpressão: 2014
Páginas: 368
Editora: Quinta Essência  


Resumo: 
Fugir no dia do próprio casamento nunca parece bem.

Quando a pressão do futuro casamento se torna demasiada, Jude foge da igreja, deixando um bom homem no altar, a sua mãe furiosa e os convidados com mexericos suficiente para durar um ano.
Culpada e envergonhada, Jude foge para Pengarrock, uma mansão em ruínas na Cornualha, no cimo de uma falésia, onde aceita um emprego a catalogar a extensa biblioteca da família Trevillion. A casa é um refúgio bem-vindo para Jude, cheia de história e segredos, mas quando seu novo proprietário chega, torna-se claro que Pengarrock não é amada por todos.
Quando Jude sucumbe ao feitiço da casa, descobre um enigma familiar decorrente de uma terrível tragédia que teve lugar séculos antes: ao que parece, há algures um tesouro perdido. E quando Pengarrock é posta à venda, parece que o tempo está a esgotar-se para a casa e para Jude…

Rating: 3,25/5 

Opinião: Um Amor na Cornualha é o segundo romance que leio de Liz Fenwick e confesso que apesar de ter achado o primeiro melhor estruturado (e portanto, com um rating maior), este é o meu preferido dos dois.
Decorrendo num mesmo cenário, a capa deste é ainda mais bonita e transporta-nos para o universo do enredo com uma enorme facilidade, levando-nos a construir o contexto envolvente.
Para quem lê a sinopse, o desenrolar da estória é um tanto previsível e sem muitos sobressaltos mas, e à semelhança de tantos outros livros (assim como de filmes), nem tudo o que é previsível é mau. Um Amor na Cornualha torna-se numa leitura fácil, aconchegante e confortável, cheia de clichés saborosos e bem recebidos, e consideravelmente envolvente. Com uma escrita leve e agradável, é um bom romance para as férias e uma óptima leitura de praia.
Jude é uma mulher perdida nos preâmbulos de um casamento desfeito e sem magia, rodeada pela pressão social resultante dos seus actos, que lhe trazem consequências inesperadas e com as quais ela não sabe lidar. Mais do que isso, a vergonha e a ausência de rumo, assim como a dificuldade de explicar as razões que a levaram a fugir da promessa de um futuro perfeito, obrigam-na a mudar de realidade e a refugiar-se na Cornualha, sob orientação de Petroc, o simpático proprietário de Pengarrock.
A sua integração na casa e no novo quotidiano é quase imediata, assim como a paixão assolapada que a envolve pelo lugar que a acolheu, e que acabará por ter um papel preponderante na delineação da sua nova vida....
Gostei de Jude: é uma personagem simpática, não muito complicada (contrariamente ao que ela se julga) e de fácil entendimento. Para além disso, a autora foi capaz de a dotar de uma capacidade de análise clara sobre as relações com o espaço e com os habitantes locais da região que a acolheu, pelo que facilmente conseguimos visualizar este pedaço de terra que muito se assemelha a um paraíso. A decisão extrema que a leva para longe de um noivo aprovado por todos traz certamente consequências para si e para a sua família, que nunca nos passam despercebidas. Ainda assim, gostava que este ponto tivesse sido melhor trabalhado. No que toca a John, a autora que me desculpe mas a abordagem que fez foi tão ridícula que em determinada autora apeteceu-me gritar de frustração. Foi completamente não plausível e sinceramente, a determinada altura já não sabia se teria pena dele ou se simplesmente queria que este desaparecesse. Para além de que senti faltar um real ponto final para este trecho da narrativa. A relação com a família e com os amigos deixados para trás, com tanto potencial, foi também apressada e um bocado incoerente, atendendo a todas as conjugações que a autora poderia ter feito. Mas adiante.
Gostava também de ter visto mais desenvolvida a descrição da aldeia local, assim como uma maior relação com os seus habitantes, que passou um bocado desnecessariamente ao lado da construção do enredo apesar da tentativa de recuperação já para o final. Passamos muito tempo com Jude, o que não é complicado porque tal como já referi ela é bastante gostável, mas por vezes o remoer da sua mente podia tornar-se tendencialmente cansativo.
É o tema principal do tesouro perdido, sobre o qual não posso falar muito, que mais me agarrou na segunda parte do livro. Numa mistura interessante entre pedaços de história e especulações do presente, as ligações e pistas vão sendo conectadas peça a peça, num puzzle só resolvido mesmo nas últimas páginas, e que nos dá tempo para magicar a sua composição e desfecho. Com alguns percalços resultantes de uma estrutura narrativa por vezes confusa da autora neste ponto (julgo eu que propositada), o verdadeiro tesouro perdido (que para mim, mais do que o real, são os pedaços de memória e história familiar dos Trevillion) vai chegando até nós calmamente, camada por camada, construindo uma imagem aprazível de acompanhar.
Quanto ao destino de Pengarrock e à relação do novo proprietário com esta propriedade...terão de ler o livro para a descobrir.


Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Opinião: Aromas do Amor, de Dorothy Koomson


     

 Aromas do Amor
de Dorothy Koomson 

Edição/reimpressão: 2014
Páginas: 472
Editora: Porto Editora 

(As primeiras páginas podem ser lidas no site da Editora)


Resumo:  Procuro a combinação perfeita de aromas; o sabor que eras tu. Se o encontrar, sei que voltarás para mim.

Passaram-se 18 meses desde a morte de Joel, o marido de Saffron, e o culpado nunca foi descoberto.

Agora, fazendo os possíveis para lidar com a perda, Saffron decide terminar Os Aromas do Amor, o livro de receitas que Joel tinha começado a escrever antes da sua trágica morte.

Quando, finalmente, tudo parece ter voltado à normalidade, a filha de 14 anos de Saffron faz uma revelação chocante que abala a relação entre ambas. E, ao mesmo tempo, cartas misteriosas lançam uma nova luz sobre a morte de Joel.

Será um grande amor capaz de sobreviver à maior das perdas?

Rating: 4/5 

Opinião: Descobri a Dorothy Koomson aos 16 anos, quando saiu o primeiro livro da sua autoria em Portugal (A Filha da Minha Melhor Amiga) e gostei instantaneamente do estilo da autora: leve, bem recortado, cativante, capaz de nos colocar nas situações mais incómodas presenciadas pelas personagens, mas também (e especialmente nessas) nas extremamente felizes. Com um carisma extraordinário, as suas personagens não nos deixam indiferentes. E o melhor de tudo é que não são perfeitas: sofrem, riem, sentem, vivem amarguras e medos (pavores até), paixões e arrebatamentos que nos percorrem enquanto lemos as suas histórias e nos levam do mundo real para o seu universo. Mesmo não que não soubesse que um livro era da sua autoria, o estilo de Dorothy é tão patente que duvido que não chegasse a essa descoberta depressa. Acima de tudo, a autora oferece-nos sempre rebuçados agridoce sob a forma de livros mimosos, com histórias que nem sempre correm bem (pelo menos na sua totalidade), mas com um significado muito humano. E esse é o seu factor - chave preponderante: as personagens de Dorothy não têm medo de ser verdadeiramente humanas e de nos arrastar por corredores de memórias que tanto são nossas ou de conhecidos como de personagens dos seus livros. E mais do que isso, as emoções vêem dotadas de um realismo patente, sem hipérboles desnecessárias a forçar o drama (e uma potencial lágrima do leitor), e que ainda assim têm a capacidade de nos comover e criar emoções empáticas.
De todos os seus livros que li até hoje, sempre considerei o primeiro o melhor e o mais rico deles todos. Pelo menos até ler o "Aromas do Amor", que julgo ocupar uma posição muito semelhante. Apesar de ter tido algumas dúvidas em determinadas partes da obra, este volume conseguiu superar-se a si mesmo e provar-me porque é que a autora é tão bem sucedida no que faz. Mas já lá vamos.
Com este novo romance da Dorothy, senti-me a revisitar uma casa de uma tia há muito negligenciada, mas que nunca esquecemos. As suas personagens não são particularmente originais, ou pelo menos não tão diferentes que não as encaixássemos num dos seus livros, mas ainda assim souberam galgar território ao longo da narrativa e torná-la o seu espaço pessoal.
Senti-me meio que aos solavancos no início do livro, e só entrei realmente no enredo quando a Parte I finalizou, mas a partir daí deixei-me render pelas personagens. Saffron continua a sentir-se uma viúva precoce apesar de se ter passado mais de um ano desde o assassinato do marido. É por isso uma personagem instável, que vive a tentar combater o luto para respirar enquanto simultaneamente puxa para si as réstias memórias de um casamento feliz que preenchia todos os compartimentos do seu ser. Por esse motivo, algumas atitudes erráticas tiveram o condão de me espicaçar a irritação com a personagem e considerá-la injusta nas suas configurações. Naturalmente, o seu estado catatónico sempre foi capaz de a justificar e perdoar, pelo que ao longo do livro fui aprendendo a fazer o mesmo sempre que ela pisava o risco. Phoebe e Zane são apresentados pela óptica caleidoscópica de uma mãe-galinha que só pretende proteger os filhos de um mundo perverso que lhes levou o pai cedo demais. Gostava de os ter visto mais presentes no activo, e não apenas em pensamentos ou recordações de situações recentemente vividas pela mãe, mas ainda assim foram ganhando destaque ao longo do livro. Já Fynn é o típico bem-disposto, generoso, coração de manteiga, com sentido de humor apurado que Dorothy gosta de incutir nas personagens masculinas por quem nutre um fraquinho (e ela que não o negue, que os seus livros são o comprovativo disso mesmo ;) ). Já a Tia Betty merece todo o destaque por ser aquele elemento excêntrico mas benemérito que sempre gostaríamos de ter na família. Fiquei bastante satisfeita com as suas inclusões na história, já que são esses elementos que servem de contra-balanço às conjugações que apelam à veia dramática da autora.
Nesse campo, tenho a dizer que o enredo teve a sua exploração devida, com conduções a uma série de explicações mais ou menos lógicas, e que nos fez entender todo o percurso de cada elemento da trama. Não posso contar quase nada sobre a acção principal da estória sem que vos desvende desnecessariamente algum factor que prefeririam ter acesso durante uma boa leitura. Vou apenas dizer que o mosaico criado com todas as articulações temporais e as conjugações interpessoais trouxe um livro que vale a pena ler.
Apesar de tudo, gostava de ter visto mais explorada (e de outra forma) a redação do livro de receitas de Joel (agora também da mulher), e evitar alguns acrescentos desnecessários, que criaram em certos momentos um excesso de complexidade que não trouxe nenhum conteúdo por aí além, enquanto outros elementos dignos de análise acabaram por passar por segundo plano.
Ainda assim, e para concluir, só posso dizer que o final foi bem conseguido justificando toda a narrativa, mas dando simultaneamente uma indicação de fecho do ciclo e também de continuidade numa nova realidade. Fiquei com pena que o desfecho de Fynn fosse o apresentado, apesar de perceber o motivo desse seguimento (mas no entanto não podia deixar de torcer por ele até ao fim, e fiquei um pouco desiludida por não ter a cena que esperava). De qualquer forma, vão sentir-se satisfeitos e concordar que o tempo passado com a família Mack-el-Roy (ou Mack -le- Roy como diria o Agente Clive) foi bem merecido.

Portanto já sabem: adquiram o livro e venham autografá-lo na Feira do Livro de Lisboa nos próximos dias 14 e 15 de Junho pelas 15H. A Dorothy é conhecida por dar grandes abraços aos leitores e suspeito que são capazes de precisar de algum após terminarem "Aromas do Amor".

Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Opinião: Um Dia Esta Dor Vai Ser Útil, de Peter Cameron

Um Dia Esta Dor Vai Ser Útil     

 Um Dia Esta Dor Vai Ser Útil
de Peter Cameron 

Edição/reimpressão: 2014
Páginas: 240
Editora: Marcador 




Resumo: 
Um Dia Esta Dor Vai Ser Útil é a história de um rapaz sofisticado e vulnerável com um grande apreço pelo mundo, mas sem a menor ideia de como viver nele. James tem 18 anos, é filho de pais divorciados. Eloquente, sensível e cínico, rejeita as presunções que orientam o mundo adulto que o rodeia – incluindo a expectativa de que irá para a universidade no outono seguinte.

Por ele, mudar-se-ia para uma casa antiga numa cidade pequena do Midwest. Um Dia Esta Dor Vai Ser Útil passa- se durante uns dias abrasadores de verão. Ao mesmo tempo que faz confidências à sua compreensiva avó, James boicota uma psicóloga astuta, lamenta a sua irmã pretensiosa e cria uma identidade falsa online para poder avançar com o fraquinho que sente por alguém próximo.

Rating: 4/5 

Opinião: "Um Dia Esta Dor Vai Ser Útil" é um livro docemente irónico, com o toque certo de cinismo inerente a uma adolescência solitária e introvertida. Peter Cameron merece um maior reconhecimento em Portugal e estou mesmo contente por ter sabido da existência desde pequeno livro editado pela Marcador, que pode não ser grande em tamanho mas é no resto para mim.
A adolescência nem sempre é fácil, muito menos para os que não se encaixam no padrão e que muitas vezes procuram conforto através de subterfúgios e de indirectas (por vezes imensamente discretas ao ponto de passarem despercebidas à maioria), e James relembra-nos a todos que em algum momento das nossas vidas já passámos por ocasiões semelhantes. A diferença é que para si esse é o sentimento permanente e o qual se encarrega de distribuir e reformular junto dos parentes mais próximos. Tal como indica a sinopse, este rapaz é vulnerável e sente-te desencaixado do mundo que o rodeia, mas anseia por ele no meio da neblina de tédio que o cobre, o leva a questionar as coisas com uma relativa indiferença e a agir sem querer pensar muito nas consequências ou na origem de cada gesto, sob a pena de sofrer ataques de pânico. No fundo, nega-se a si próprio e não sabe lidar com a sua voz interior, colocada cada vez mais fundo para que não se escape, não se mostre ao mundo em momento algum.
É com este cenário implementado que vamos vendo o decorrer da personagem, e a sua relação com todos os familiares (desde a mãe algo neurótica, à irmã meio snobe e empertigada, ou ao pai que deseja tudo de bom para o filho mas não sabe lidar com ele fora dos seus padrões de funcionamento) e com as poucas pessoas com que se cruza fora deste núcleo, não mais sãs que ele. Vale-lhe a avó, que o ampara nas situações caricatas e lhe traz parte do colo que ele se recusa reconhecer como necessário e desejado.
Todo este cenário ainda se torna mais completo com a chegada de uma psicóloga que nem quereria para mim, presa aos estigmas profissionais que a impedem de facto de ajudar James, mas de quem suspeito que ele até venha a sentir falta...
Quanto à condução final, gostaria de ter as últimas páginas do livro mais trabalhadas, principalmente no que resulta da exposição frontal de James consigo próprio; dado que o lapso temporal impediu visionarmos as transformações que o tempo implicava, em jeito de conclusão.
Por outro lado, o discurso de toda a narrativa, na primeira pessoa e com um toque de subtileza que mistura  introversão e exploração curiosa dos momentos entediantes de terceiros, foi uma constante sensação de dejá-vu para mim. De facto, e ainda que muito melhor resolvido que James, conheço alguém muito parecido na forma de se expressar, de ver o mundo e de testar as pessoas em seu redor (muitas vezes sem consciência) até ao ponto de ebulição que as faça explodir, perdendo a paciência ou criando juízos de valor incorrectos. Desta forma, esta personagem encarnou alguém da minha vida pessoal a determinada altura, e foi inevitável ouvir as palavras de James com uma voz diferente, como se tivesse sentados a meu lado um e outro numa troca de opiniões e galhardetes constante, e que me fez expulsar algumas gargalhadas ao tentar imaginar a pessoa real em algumas das situações vividas pela fictícia (mesmo - ou melhor, principalmente - as sem piada nenhuma).
"Um Dia Esta Dor Vai Ser Útil" não é um livro de auto-ajuda ou de psicologia, mas que pode ainda assim apelar à reflexão de pequenos momentos das nossas vidas, que passam despercebidos ao olho comum mas não ao de Peter Cameron e das suas personagens e que nos levam no doce embalo da adolescência incompreendida por um jovem que tem medo (puro!) de se conhecer a si próprio. Vale a pena e recomendo a leitura.

Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Opinião: Perto de Ti, Longe de Nada

 

Perto de Ti, Longe de Nada
de Sílvia Soares

Edição/reimpressão: 2014
Editora: Edição de Autor 

Resumo:

Recentemente divorciada, Julia procura afastar-se do passado e reencontrar a alegria num recomeço. Partindo numa viagem sem destino, conta as suas aventuras e desventuras no blogue da revista para a qual trabalha. Os seus seguidores, novas amizades e também Erika, a sua instável amiga e divertida chefe, acompanham-na.
O pintor invulgar e cativante é Jean-Pierre que vive pelo mundo, sem amarras. Talentoso e confiante, julgava já não procurar nada… até conhecê-la. Tudo o que ele queria era pintar o seu retrato…
Fabrizio, Enzo, Marillia, Gerardo, Adelline, Maria Rita e Matteo são algumas das personagens que farão parte desta viagem, entrando ainda em cena os recém-casados Sara e Valter, a personificação de que os opostos se atraem.
E tudo começa em Milão… Pelo caminho, Julia encontra muito mais do que esperava. Mas será que encontra o que realmente procurava?
Uma história sobre o amor, nas suas diferentes formas, sobre a busca interior da felicidade.
  
Rating: 3/5 

Opinião:  "Perto de Ti, Longe de Nada" é o 3º romance de Sílvia Soares, uma jovem autora que gosta de imputar as suas experiências pessoais e sonhos (porque não dizê-lo) nas obras que escreve.

Este livro foi gentilmente cedido pela autora Sílvia Soares, a quem agradecemos o gesto e a aposta no Encruzilhadas Literárias. Queremos continuar a divulgar novos autores portugueses e apoiar o seu sucesso! Para além disso, as mensagens a nós reservadas foram recebidas com muito carinho. Para saberem mais sobre a autora, podem clicar aqui.

Ainda não vi nenhuma opinião escrita sobre este livro o que me leva a pensar (sem egocentrismos) que talvez seja a primeira a vir a público para a blogosfera, o que me deixa um tanto ou quanto sensível à responsabilidade. Mas vamos lá.

Começo por dizer que adoro a fotografia da capa, e sabendo tratar-se da autoria da autora (e da sua importância no enredo), não posso deixar de ficar contente por poder ver a casa de hera, sem ter de forçar a imaginação para criar este edifício tão bonito.
Li este livro com uma relativa rapidez e interesse, não só porque o enredo me cativou, mas também devido à sua fácil leitura. No entanto, tive algumas reservas sobre a obra até ao fim, o que dificultou a definição da minha opinião sobre ele. Por outro lado, quando cheguei ao final e li as últimas linhas, todas as questões que poderia apresentar ao livro como pontos menos positivos acabaram por ser justificados, e com essa nova perspectiva, entendo o porquê de algumas escolhas da autora. No entanto, não poderei ser suficientemente clara sem revelar alguns spoilers, o que não pretendo fazer, pelo que a presente opinião poderá ser um pouco injusta, ainda não sei se para os leitores se para a Sílvia.
Este é sem dúvida um livro pessoal, não tanto devido às vivências das personagens que o compõem mas porque mesmo sem conhecer a autora, consegui vê-la em todas as páginas desta obra. Vemos as várias cidades, especialmente Milão pelos seus olhos, provamos pratos que chegaram até si e visualizamos edifícios e locais através, não de indicações de guias turísticos mas da sua vivência e percepção dos lugares.
A Sílvia diz várias vezes inspirar-se nas suas viagens, e esse factor ressalva-se em toda a obra, o que é sem dúvida uma vantagem para quem quer contextualizar-se. Por outro lado, acho que poderia ter sido melhor explorado nesta parte, porque embora tenha captado as experiências sensoriais das personagens, num sentido prático não conheci Milão, ou não vi Milão na grande maioria das vezes. Os hotéis, os cafés, as localidades retractadas poderiam ser em qualquer parte de Itália (salvo raras excepções referenciadas de monumentos, edifícios ou locais). A esse nível, destaco também o facto de por vezes achar que existiram pormenores colocados em grande relevo desnecessariamente, em detrimento desta outra perspectiva. Confesso que me custou um pouco habituar com essa lógica de saber sempre o que a personagem comia, vestia, os passos que dava no quarto enquanto se arrumava, etc, num excesso de descrições quotidianas um pouco desinteressantes.
Numa outra lógica, as cartas da Julia para os leitores não me pareceram muito...realistas? É suposto serem crónicas de viagem e dei por mim a ler desabafos a rondar a escrita de diário pessoal e intimista, que numa práctica comum não aconteceria segundo o modelo que carreira profissional em causa. Este foi um dos pontos que me fez mais confusão, mas mais uma vez, quando li as páginas finais do livro percebi a razão pela qual elas estavam escritas dessa forma.
Senti falta de mais trocas de emails com Erika, atendendo ao que nos é apresentado pela sinopse, e que eu gostaria que não fossem a repetição de pontos já descritos anteriormente mas uma adição complementar à narrativa.
Do ponto de vista de redação e construção linguística, a autora escreve bem, sabe bem ler a sua obra e terminei este livro muito rapidamente. Denotam-se os vastos anos de leituras e de escrita que decerto antecederam a aposta da Sílvia no outro lado do mundo literário. E na grande generalidade, dá prazer em ler. O texto flui, o estilo é muito contemporâneo e bastante articulado. Destaco apenas a necessidade de se trabalhar melhor os diálogos, um pouco forçados e repetitivos, que por vezes me fizeram torcer ligeiramente o nariz. Apóstrofes em excesso e alguns pleonasmos que não acrescentaram muito ao livro. Deste modo, e apesar da revisão cuidada da autora, que é bastante visível, aconselhava nesta fase de melhoria a procurar um grupo de leitores-beta, que com um outro olhar poderiam fazer brilhar ainda mais a obra da autora e corrigir estas pequenas bengalas de construção.
Quanto ao enredo, é uma estória doce, daquelas que nos embalam e que soube bem ler no comboio, onde podia fechar os olhos e imaginar-me também num movimento mais prolongado, a partir para longe. A ideia de viajar e de conhecer pessoas interessantes pelo caminho não é mais do que uma possível realidade que muitos vivenciam, e foi apresentada com uma naturalidade extrema, resultando numa mistura de nacionalidades e personalidades. Gostei de ver as suas relações e a perpetuação da amizade imediata e rápida, tão típica nesta modalidade de encontros e desencontros, que por vezes se desfaz mas que compõe a melhor lembrança para tempos inesquecíveis.
Julia é uma mulher que facilmente se relaciona com todos, cujas relações interpessoais estão novamente a ser trabalhadas e aperfeiçoadas, beneficiando da aproximação de pessoas afáveis e com uma bagagem de vida para explorar em conjunto. É divertida quando se vira para o mundo exterior e sente-se a evolução da personagem ao longo das páginas, à medida que vai saindo de um casulo de mágoa para as primeiras tentativas da redenção pessoal. A sua relação com Jean-Pierre é simultâneamente previsível contraditória, seguindo desfechos que podem parecer cliché, mas que no minuto final se revelam algo diferente. Gostava de ter sabido o desfecho da história de Maria Rita e Matteo (até porque adorei os pais desta rapariga), assim como mais alguma informação destas personagens com as quais a personagem principal se cruza, ultrapassando a lógica de adição à trama para realmente fazerem parte dela. De qualquer forma, ninguém me tira da cabeça que com ou sem namorada, o Fabrizio tinha era uma paixoneta pela Julia!
Para finalizar, fiquei surpreendida com o último capítulo e com a carta final, que me deixaram com a sensação de ter juntado novamente as peças, mas também de algum sentimento agridoce que, e agora pensando em retrospectiva, era inevitável.
Estarei atenta às futuras obras desta autora cheia de potencial, a quem desejo o maior dos sucessos!

Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas e bookcrossing, a Cláudia ainda consegue estudar e fazer o seu mestrado enquanto lê nos transportes públicos. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado é tão fácil encontrá-la numa biblioteca como na Rota Jovem em Cascais. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.