Opinião: O Olhar do Açor, de Sandra Carvalho


O Olhar do Açor
de Sandra Carvalho

Edição/reimpressão: 2014
Páginas: 392
Editora: Editorial Presença 

Resumo: 
A descoberta dos Açores, e todo o mistério e aventura que a envolveu, foi o mote para esta obra em dois volumes de Sandra Carvalho. O Olhar do Açor é uma narrativa que entretece com mestria verdade histórica e ficção, a realidade da sociedade portuguesa do século XV e a fantasia das personagens e dos cenários imaginados pela autora. Neste primeiro volume, que se centra nas histórias de vida dos fidalgos, ganham principal relevância as figuras de Constance, uma nobre inglesa enviada para Portugal para se casar com Gonçalves Vaz, senhor da valiosa herdade de Águas Santas; Nuno Garcia, um corsário implacável; Leonor, fruto ilegítimo da paixão de Constance e de Diogo, o jovem corajoso, protegido de Nuno Garcia e que Constance conhece durante a viagem, Guida, a escrava negra que cresceu com Leonor, e Tomás Rebelo, o fidalgo malévolo que deseja assenhorear-se de Águas Santas.


Intriga, ganância, amor, paixão, e uma aura de misticismo, num romance extraordinário.

Rating: 4/5 

Opinião: "Olhar do Açor" foi a minha estreia com a Sandra Carvalho e fui agradavelmente surpreendida com o registo, atendendo ao público-alvo indicado. Apesar da quantidade de livros publicados pela autora através da Editorial Presença, este foi o primeiro que realmente me despertou a atenção. Com uma capa maravilhosa (desde o barco até ao símbolo do pendente na contracapa), e a apelar à época dos Descobrimentos e da expansão marítima, com a influência de corsários e piratas, drama e contexto histórico adequado, fiquei muito curiosa até lhe deitar as mãos.

Numa primeira instância esperava um livro mais adulto. Apesar dos seus restantes livros serem do género YA, a minha percepção foi de que ela teria sigo arrojada e escrito um livro diferente aos seus habituais. "O Olhar do Açor" consegue sê-lo, de facto, mas não se desvia da legião de fãs conquistados ao longo dos últimos anos pela Saga das Pedras Mágicas. Nessa medida, tive de ajustar a minha percepção do livro nesse contexto e nessa lógica de análise transformou-se aos meus olhos e adotei-o completamente. Nesse sentido, Sandra Carvalho está de parabéns ao ter escrito um livro arrojado e cativante, especialmente atendendo ao contexto e ao seu enquadramento histórico. Sem medo de errar ou remexer com uma altura da História de Portugal tantas vezes já retractada em livros, a componente ficcional e mística não se sobrepôs à realidade, optando por explorar um leque de campos omissos, sem no entanto esquecer o restante enfoque, mesmo que à distância.

Sendo uma fã dos romances históricos, tanto dos resultantes das máquinas do tempo de Isabel Alçada e de Ana Maria Magalhães, ou da moeda mágica de Alice Vieira, até às versões mais pormenorizadas e enriquecidas de, por exemplo, Isabel Stilwell, gostei desta lufada de ar fresco que nos presenteou com uma nova abordagem. Para além disso, o inicio desta leitura procedeu-se ao "A Vida Louca dos Reis e Rainhas de Portugal" de Orlando Leite, Raquel Oliveira e Sónia Trigueirão (editado pela Marcador), pelo que todos os pormenores históricos ainda estavam vívidos, e este livro ainda se tornou mais interessante.

Não gostei muito do capítulo inicial, talvez pelo facto da introdução ser conduzida pela Constance, uma personagem cuja fragilidade, ainda que adequada, me fez alguma comichão. Assim sendo, é quando realmente se começiou a desenrolar a acção que o livro se tornou realmente interessante para mim.

Acompanhando Leonor e Guida ao longo de aventuras sofridas, fantasmagóricas por vezes, e capazes de vergar vontades, fui-me envolvendo num discurso corrente cheio de acontecimentos inesperados, mortes (algumas dolorosas), paixões (in)correspondidas e uma aura de mistério e esoterismo que não abandonou nenhuma das suas personagens desde a primeira página. Apesar do enredo ter como grandes protagonistas estas duas adolescentes, com toda a liberdade poética que lhes é atribuída, as restantes personagens não passam despercebidas, causam impacto, demonstram que existem e que são importantes para o desenrolar da trama, ainda que a sua estrutura seja um tanto ou quanto linear. Desde o responsável da estalagem, aos trabalhadores de Águas Santas, todos deixam marcas em cada página, da mesma forma que imputem registos na vida destas duas amigas tão diferentes e inseparáveis desde infância.

Pela apresentação da sinopse e da capa, espera uma presença marítima mais vincada neste livro, e que só surgirá muito em diante, e que espero que seja devidamente explorada no próximo livro (que corresponderá ao livro final da duologia). De resto, diverti-me imenso ao conjugar os vários elementos que a autora nos forneceu, com pequenas pistas para os mistérios para os quais nem as personagens têm resposta e serão as peças-chave para o desenlace desta aventura marítima, entre perigos perniciosos e constrições de forças e fé na coragem e no amor pelo próximo, mesmo que esta se assemelhe perigoso.

Para finalizar, adorei a construção linguística que a Sandra incutiu ao livro, com vocábulo corrente no que concerne aos discursos diretos, mas conjugando com adequações mais cuidadas no restante tratamento, através da utilização de recursos linguísticos muitos diversicados e de vocabulário mais erudito, sem no entanto escapar à compreensão do leitor comum. Ficarei à espera do próximo!

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Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

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