Opinião: O Rouxinol, de Kristin Hannah

 
O Rouxinol, de Kristin Hannah

Edição/reimpressão: 2016
Páginas: 504
Editor: Bertrand Editora







Resumo: Na tranquila vila de Carriveau, Vianne despede-se do marido, Antoine, que parte para a frente da batalha. Ela não acredita que os nazis vão invadir a França… mas é isso mesmo que fazem, em batalhões de soldados em marcha, em caravanas de camiões e tanques, em aviões que enchem os céus e largam as suas bombas por cima dos inocentes. Quando um capitão alemão reclama a casa de Vianne, ela e a filha passam a ter de viver com o inimigo, sob risco de virem a perder tudo o que têm. Sem comida, dinheiro ou esperança, e à medida que a escalada de perigo as cerca cada vez mais, é obrigada a tomar decisões impossíveis, uma atrás da outra, de forma a manter a família viva. Isabelle, a irmã de Vianne, é uma rebelde de dezoito anos, que procura um objetivo de vida com toda a paixão e ousadia da juventude.

Enquanto milhares de parisienses marcham para os horrores desconhecidos da guerra, ela conhece Gäetan, um partisan convicto de que a França é capaz de derrotar os nazis a partir do interior. Isabelle apaixona-se como só acontece aos jovens… perdidamente. Mas quando ele a trai, ela junta-se à Resistência e nunca olha para trás, arriscando vezes sem conta a própria vida para salvar a dos outros. Com coragem, graça e uma grande humanidade, a autora best-seller Kristin Hannah capta na perfeição o panorama épico da Segunda Guerra Mundial e faz incidir o seu foco numa parte íntima da história que raramente é vista: a guerra das mulheres.

O Rouxinol narra a história de duas irmãs separadas pelos anos e pela experiência, pelos ideais, pela paixão e pelas circunstâncias, cada uma seguindo o seu próprio caminho arriscado em busca da sobrevivência, do amor e da liberdade numa França ocupada pelos alemães e arrasada pela guerra. Um romance muito belo e comovente que celebra a resistência do espírito humano e em particular no feminino. Um romance de uma vida, para todos.

Rating: 5/5

Comentário: Foram precisos alguns dias para conseguir consertar e discernir uma opinião coerente e que expressasse correctamente o quanto este livro me tocou. Atrevo-me a dizer que é dos melhores, senão o melhor que li nos últimos dois anos, composto por uma narrativa extremamente bonita e melódica, mas não menos crua ou despejada de potência. "O Rouxinol" pode ser uma versão fantasiada pela imaginação, sustentando-se em factos históricos e elementos e datas precisas para construir uma narrativa. Mas é também um murro no estômago, uma lembrança constante que por mais que exploremos, por mais que nos informemos e procuremos nunca esquecer o período tão negro, obscuro, dilacerante a que correspondeu a II Guerra Mundial, ele existiu e tem de ser falado e explorado até mais não, para que não se repita, para que não possamos fechar os olhos às evidências do passado e para nunca mais negar que o ser humano tanto pode ser belo e generoso como cruel, monstruoso, e paradoxalmente inumano. Este livro foi uma memória constante sobre o que sabemos e o que ainda desconhecemos - e que provavelmente nunca chegaremos a saber - sobre este período: resultante da vergonha e de memórias escondidas, do ressentimento, da necessidade das testemunhas de primeira mão esquecerem muito do que vivenciaram e que vai bem além do Holocausto e da perseguição aos judeus. Neste livro de Kristin Hannah, é a visão de um país ocupado que nos inunda a mente ao longo de 500 páginas, mostrando-nos o que foi viver sob o jugo nazi, denunciar a derrota, e ainda ter de lidar com os simpatizantes do regime, que se mostraram anti-patriotas e pouco defensores do seu país, muitas vezes entusiastas das oportunidades perfeitas a agarrar, ou simplesmente com o sofrimento e a degradação alheia.
A componente temporal  dá-nos uma perspectiva vasta e complementar sobre o período de ocupação em França, desde a descida das tropas alemãs pelo país, até o momento final de libertação. No centro desse período, são registadas as transformações sociais, físicas, psicológicas e de morais sofridas pela população ocupada, que vê em cada cruz suástica um inimigo (ou uma oportunidade), camuflado numa massa de colunas humanas que vão devastando com a sua presença cada canto de França.
Kristin Hannah traz-nos duas personagens femininas fortes, mesmo nas suas inseguranças e fragilidades, e procura, pelo olhar de cada uma, trazer-nos as várias facetas deste país ocupado. Desde as senhas de racionamento, ao movimento de Resistência, às rotas de evacuação de pilotos perdidos, à ocupação forçada das propriedades francesas, deixando mulheres e crianças a lidar à sua maneira com um inimigo confrontado nas frentes pelos maridos, irmãos e filhos há muito deslocados para fora do país (e posteriormente presos em campos de concentração), este é um registo completo, que nos conta uma história vasta da devassidão que uma guerra pode trazer. É complementar, tem várias personagens fortes, complexas, singulares, que atribuem uma voz múltipla e testemunhos diversos a um livro único.
Não quero desvendar o enredo, nem a direcção que toma a narrativa, mas só posso dizer-vos que surpreende, agarra e arranca páginas umas atrás das outras para se colarem à vossa retina e reterem-se na vossa mente. Um livro a juntar à lista dos preferidos certamente!

Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

3 leitores reagiram:

  1. Olá Cláudia,
    Quero muito, muito este livro!!! Parece ser muito bom!
    A lista não pára.
    Beijinhos e boas leituras

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  2. Li este livro há pouco tempo, depois de o ganhar num passatempo e fiquei absolutamente tocada pela história. É tudo aquilo de que gosto num livro. Mesmo depois de ter terminado de o ler, continuo a pensar naquelas personagens.

    Sempre fui fascinada pelo tema da Segunda Guerra Mundial e estou completamente de acordo de que é algo de que devemos falar, que deve ser recordado até mais não, para que o mundo não se esqueça do que aconteceu e para que nunca mais volte a acontecer. É o período mais negro da história do mundo, mas também mostra que mesmo no pior dos cenários, no meio de tudo o que há de abominável, é possível encontrar alguém que faz o bem.

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    Respostas
    1. Olá Ellie, é exactamente isso que penso. Acho que por vezes nesta manipulação de massas é impossível ver o ser o ser humano como um mero bicho, mas depois existem outros que ainda nos transmitem esperança, ao arriscarem e serem corajosos e inspirarem os restantes.

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