quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Opinião: Os Falsários, de Bradford Morrow



Os Falsários
de  Braford Morrow
 
Edição/reimpressão: 2017
Páginas: 264
Editor: Clube do Autor
  





Sinopse: 
Na tradição dos policiais de Agatha Christie e Arthur Conan Doyle, um romance misterioso e profundo sobre o fascínio do colecionismo e o lado sombrio do comércio de livros raros.

O que acontece quando mentimos tão bem que perdemos a noção do que é real? Numa prosa magnificamente cuidada, Bradford Morrow traça uma linha débil entre o devaneio e a intuição, a memória e a ficção autoilusória, entre o amor verdadeiro e o falso.

Uma comunidade bibliófila é abalada com a notícia de que Adam, um colecionador de livros raros, foi atacado e as suas mãos decepadas. Sem suspeitos, a polícia não consegue avançar no caso, e a irmã procura desesperadamente uma pista.

Ao longo das páginas repletas de mistério e simbologias, escritores famosos e citações brilhantes, Will, cunhado e colega de profissão de Adam Diehl, tenta obter uma resposta e, ao mesmo tempo, escapar às ameaças do misterioso «Henry James». Consciente do simbolismo do caso, ele sabe que um homem sem mãos se vê privado do instrumento mais precioso quando se trata de imitar a caligrafia de William Faulkner, James Joyce, Conan Doyle e outros que tais. Na verdade, Will, ele próprio genial falsário, talvez saiba demais.

Rating: 3/5
Comentário: Vamos começar pelo elementar: não acho que "Os Falsários" seja um livro para todos. Mas quem gostar do género, vai deixar-se embrenhar pelo enredo, não tanto pela acção mas mais pela teia que é montada.
Nunca li Agatha Christie, por isso não tenho elemento de comparação, mas o que posso dizer é que embora esta história se inicie com um crime, rapidamente se transforma num livro de memórias do narrador, que utiliza o crime como ponto de partida para enunciar a sua história, assim como definir os caminhos que o ligam a esse acontecimento (neste caso, pelo facto de conhecer a vítima).
Ainda assim, há sempre a nuance de mistério porque o crime, por si bastante estranho, vai sendo alvo de debate e exploração fugidia ao longo de todo o romance. É certo que a determinada altura há uma quase certeza da origem e razão do seu desfecho, mas ainda assim aguarda-nos sempre um elemento que induz a insegurança de se estar a ser precipitadamente rápido a julgar a evidenciar juízos de valor.
Outra coisa de renome é o amor aos livros, que é evidenciado de diversas formas e por diferentes personagens, o que só transmite que este é também um objecto de apreço para o autor.
O mundo das falsificações das obras de arte é sempre interessante para quem gosta de livros e que, ainda que não sendo bibliófilo no sentido mais lato, tem interesse em perceber o objecto e colecção e qual a sua validade e interesse no seio do mercado dos livros raros.
Existe na mesma o misto de mistério e de uma certa latência lânguida que o arrasta, o coloca num sfumato que nunca o tira de cena mas também não o traz para o plano principal da acção, e cujo desenvolvimento é paralelo, contínuo, e explorado quanto baste até que a terminologia da cadência narrativa traga novamente o crime para a ribalta.
Sendo um livro de quase memória e com um cunho tão pessoal, "Os Falsários" contam uma história passada, completa, sem grandes sobressaltos ou composições rápidas como as dos thrillers actuais. Mas traz a capacidade de desvendar um mistério ao decompô-lo por partes, de forma a analisar o todo, e de descobrir a lógica por detrás da engrenagem. É assim um livro muito mais intelectual ou de análise crítica, mas óptimo para quem se julga à altura de um bom mistério.


 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

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