quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Opinião: Tu Não És como As Outras Mães, de Angelika Schrobsdorff




Tu Não És como as Outras Mães

de

Edição/reimpressão: 2019
Páginas: 568
Editor: Alfaguara Portugal





Sinopse:
Enquanto jovem mulher, Else, uma menina mimada da burguesia de Berlim, fez duas promessas a si mesma: viver a vida intensamente e ter um filho de todos os homens que amasse.

"Tu Não és Como as Outras Mães" é a história real dessa vida intensa, extravagante, inconformista que foi a de Else Kirschner, uma mulher verdadeiramente livre, e uma mãe diferente de todas as outras.

Nascida na conservadora burguesia judia de Berlim, Else estava prometida para casar com um bom partido. Mas os encantos de um artista cristão - «o maior amor e pior partido da sua vida» - foram o trampolim que procurava para renunciar ao conforto da casa paterna e ser dona do seu destino num mundo cheio de promessa.
Corriam os loucos anos vinte, dias efervescentes numa Berlim que parecia a capital do mundo, um tempo irrepetível de cultura, esplendor e liberdade. Else vivia no centro dessa boémia, incapaz de suspeitar que uma ameaça arrepiante cercava inexoravelmente a sua família.

Quando as sombras do Nacional Socialismo tingiram a Europa de negro, Else, judia, teve de fugir com a família da cidade que tanto amava. No exílio, na Bulgária, tudo é miserável, tudo é muito pouco quando comparado com a primeira vida. Nessa segunda vida, Else arrepender-se-á de não ter protegido a família da calamidade, que se revela trágica para alguns.

Esta é a história de uma vida maior que a vida, um retalho de História extraordinário. Quem nos conta a história é Angelika Schrobsdorff, importante escritora de origem alemã. Era filha de Else e demorou quinze anos a pôr no papel a história da mãe, sem sentimentalismo mas com o amor e a admiração inevitáveis, criando um pedaço de grande literatura, um clássico do nosso tempo.

Rating: 4/5
Comentário: É universalmente admitido que, por mais que mães e filhas, pais e filhos se amem profundamente, existe um certo fosso geracional. Fosso esse que é também gerado pelos papéis por cada um ocupados, que não permite que se revejam como pessoas reais, para além da segmentação relacional. Uma mãe será sempre uma mãe para um filho ou filha, e toda a complementaridade relacional que advenha da sua existência como mulher, esposa, amiga, filha ou neta, fica submersa pela componente principal através da qual a conhecem.
"Tu Não És Como As Outras Mães" é precisamente um exercício levado a cabo por uma filha, que pretende relatar a vida da mãe no seu todo, sem subterfúgios e, na maior parte, juízos de valor. Mas este não é um livro de não ficção, ou uma biografia tradicional, encaixando-se mais no que hoje é designado ficção autobiográfica. Há laivos de literatura e poesia, há um embrionar de descobertas e sentimentos, e uma narrativa de uma enorme humanidade.
Passando por Berlim até à 2ª Guerra Mundial, mas também atravessando um território cooperante com a ideologia Nazi, onde tinha previamente utilizado como refúgio dos mesmos (Bulgária), esta história humana que também acaba por ser familiar permite auferir relatos em primeira mão sobre o período avassalador que atravessou a Europa naquele momento. Destaco o período pós-guerra vivido na Alemanha e o quanto também as populações locais sofreram com o processo. Ou o quanto alguns alienados, embora mais pobres e miseráveis, não tenham aprendido grande coisa no processo.
O amadurecimento de Else, pelas tragédias que lhe vão assaltando a porta, também se torna evidente à medida de que os anos passam. O estilhaçar dos anos augúrios sente-se a cair numa alma destroçada que, para o fim da sua vida, não é mais do que qualquer outra que tenha sofrido de igual ou pior maneira.
Else, à luz do contexto em que foi educada, não é realmente uma rapariga como as outras. Vivendo entre o sonho e a fantasia, o conforto familiar e "romantização" do que é o amor, é objecto da experimentação, dos Loucos Anos 20, dos desgostos amorosos e do desejo de ser cuidada sem que no processo lhe roubem a liberdade. É também alvo de tolice, egoísmo, infantilidade, amor generoso e capacidade de compreensão imensa. Angelika Schrobsdorff tentou reproduzir um retracto fiel de quem foi a sua mãe, embora me pareça que muita da coesão daí necessária nasceu da redacção deste livro. Não é um acto de admiração, é um processo emotivo para arrumar pendências na sua vida, ou não fosse a relação de ambas nem sempre ter sido a mais pacífica ou compreensiva. O final abrupto que é atribuído ao livro revela mesmo o foco em não criar floreamentos e reduzir-se aos factos, como se algum género de distanciamento emocional possa atribuir um novo olhar a esta mulher. Ao fim ao cabo, como se a tornando objecto de estudo houve uma maior permeabilidade para a compreender no seu todo e então sim, perdoá-la e perdoar-se mediante decisões nem sempre gentis para com uma ou outra.
O título é para mim outro indicio desde processo de cura ainda em execução, já que no que toca à essência, Else pareceu-me em tudo como qualquer outra mãe: com amor a transbordar pelos filhos e uma necessidade louca de assegurar o seu bem-estar, assim como uma constante preocupação. É claro que talvez a sua forma de o mostrar não fosse o mais tradicional, mas até a ideia de amor livre ocupa o segundo plano, os filhos sempre sempre em primeiro lugar.
Há ainda um elemento adicional que julgo corroborar com a minha interpretação. Na maior parte do texto, a narrativa é feita com um distanciamento na primeira pessoa do singular. O narrador, neste caso Angelika, retira-se da narrativa para somente relatar, sem incutir a sua leitura da realidade. Mas é depois constantemente vencida pela necessidade de se inserir numa história que também é sua e resvala novamente para a 1ª pessoa, cunhando parte de si na narrativa. Não sei se se notará um certo elemento de desilusão na autora com o fim do texto. Embora todos os elementos que possam identificar e caracterizar a mãe se encontrem neste livro, falta o mais importante: a sua mãe. Por mais que fosse fiel mediante testemunhos e experimentações na primeira pessoa, todos sabemos que a memória é mutável e perecível ao tempo, pelo que o resultado deste "estudo" será sempre uma óptica desta mulher. Segmentos de Else estarão sempre encobertos e desconhecidos para os seus filhos, e nem mesmo o cepticismo e cinismo de Angelika conseguem ocultar a desilusão de não se sentir plenamente bem sucedida. Mas a ânsia da descoberta e de um amor renovado também estão lá e palpitam um pouco por todo o livro, demonstrando vontade de compreensão e de leitura por inteiro de uma mulher, de um círculo social e de uma época histórica. Talvez Else não fosse assim tão diferente do mundo em geral, e sim Angelika fosse uma filha diferente das restantes.


Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

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