A Queda dos Gigantes, de Ken Follet

A Queda dos Gigantes
Trilogia O Século - Livro 1
de Ken Follett

Edição/reimpressão: 2010
Páginas: 928
Editor: Editorial Presença

Resumo: Em A Queda dos Gigantes, o primeiro volume da trilogia "O Século", as vidas de 5 famílias - americana, alemã, russa, inglesa e escocesa - cruzam-se durante o período tumultuoso da Primeira Grande Guerra, da Revolução Russa e do Movimento Sufragista.
Neste primeiro volume, que começa em 1911 e termina em 1925, travamos conhecimento com as cinco famílias que nas suas sucessivas gerações virão a ser as grandes protagonistas desta trilogia. Os membros destas famílias não esgotam porém a vasta galeria de personagens, incluindo mesmo figuras reais como Winston Churchill, Lenine e Trotsky, o general Joffreou ou Artur Zimmermann, e irão entretecer uma complexidade de relações entre paixões contrariadas, rivalidades e intrigas, jogos de poder, traições, no agitado quadro da Primeira Grande Guerra, da Revolução Russa e do movimento sufragista feminino.
Um extraordinário fresco, excepcional no rigor da investigação e brilhante na reconstrução dos tempos e das mentalidades da época.

Rating: 5/5

Comentário: A Queda dos Gigantes, de Ken Follet, é a minha estreia com o autor. Já muito conhecido pelas suas obras, entre elas os volumes de "Os Pilares da Terra", surge-nos agora com o primeiro volume de uma trilogia que promete arrebatar os amantes de história e de romances históricos. É dos melhores livros que li em 2012, e que exige portanto da minha parte uma opinião mais  mais pormenorizada.

Abrangendo dez anos de História e histórias de vida, senti-me praticamente a viajar para outra época, até porque na altura seguia uma série que se passava exactamente na mesma altura - Downton Abbey. O cruzamento de realidades para o mesmo tempo histórico tornou a leitura bem mais interessante, o que já era praticamente impossível porque o livro me arrebatou completamente. É um livro com uma componente muito forte do ponto de vista histórico, especialmente pela abordagem escolhida, sendo complementada de uma forma totalmente natural com um lado mais social. Para além dessa dualidade de pontos de vista, que é criada entre as elites e pessoas do povo, a crescente análise da História sob os vários pontos de vista nacionais deixou-me plenamente satisfeita com a capacidade de intervenção de Ken Follet, que conseguiu mesmo criar uma narrativa de gigantes.

Começando então por essa análise de extractos sociais, as variantes nacionais permitem uma abordagem bastante exploratória das diferentes realidades da população, desde as elites que vivem em mansões com grandes casas, às comodidades de classe média americana que muito diferem da europeia, aos operários russos muitas vezes maltrapilhos, que já se arrastavam antes da I Guerra para obter um nível básico de subsistência. É criado um retracto social muito colorido e bastante real à luz dos conhecimentos históricos existentes.

Por outro lado, como a sinopse apresenta, são abordadas as vivências de 5 famílias, acompanhando as suas tropelias com a vida desde o período antes da guerra, durante e após, desde 1915 até 1924. Torna-se interessante não só experimentar uma visão criada país a país, mas principalmente absorver os impactos das conjunturas globais sobre as suas famílias, que reproduzem a história de tantas outras. Uma característica muito marcada é a componente política, devido ao facto de diversas personagens deterem a alguma altura um papel próximo junto ao núcleo de intervenções, especialmente no caso os ingleses e alemães, dado que as suas personagens surgem junto às altas instâncias políticas. Mais tarde, e atendendo à revolução Bolchevique, a realidade russa ganha também um novo destaque. O que significa por outro lado que ao longo de todo o livro surgem uma série de debates e cenários de guerra em resultado dessa experimentação táctica e estratégica por parte de algumas personagens, fazendo-nos de alguma forma sentir o enredo, embora já conhecendo o seu resultado, pelo menos o factual. Este é um dos pontos fortes do livro e que muito me fez gostar da obra, mas que pode aborrecer alguns leitores que prefiram uma abordagem mais leve.

É de não esquecer que é uma obra ficcional, e portanto não podem faltar momentos de drama, romance e angústia pura, como por exemplo o romance de Maud e Walter, que vêem uma declaração pública de hostilidades entre as suas duas pátrias criar um entrave a um romance que teria todo o sucesso em fluir. Mas falando mais destas famílias, aqui ficam algumas considerações:

Inglesa - A família Fitzherbert é o retracto da aristocracia britânica, com uma rede de contactos e conhecimentos que chega ao próprio Rei, engloba desde uma princesa russa a dois irmãos com temperamentos tão diferentes, e que a determinada altura colocará em xeque se valerão mais os laços familiares ou as convicções morais e políticas. Lady Maud é uma melhor de força que não se cala perante preceitos sociais e se irá enveredar pelas raízes dos movimentos sufragistas em Londres, para despeito do irmão e do conservadorismo que se afinca à sua essência. Apesar de tudo, Fitz tem uma alma nobre (se ignorarmos alguns percalços, capazes de o tornar detestável em algumas ocasiões) e preocupa-se genuinamente com os seus, e deixando-se arrebatar por problemas de consciência em vários momentos. Apesar de não se caracterizar pelas típicas formatações das famílias aristocráticas, os Fitzherbert não são verdadeiramente felizes, sendo que cada um dos irmãos, à sua forma, encontra prazer em pequenos momentos vistos como pecado à luz da sociedade actual, embora por motivos bastante diferenciados.

Galesas - A família Williams mais uma vez aposta nas acções de dois irmãos, estes diferentes dos anteriores, já que sempre se apoiaram ao longo de tudo. Lidando com uma situação que não esperava, Ethel faz frente ao pai e decide ser dona do seu destino, ignorando as formatações sociais que inicialmente a colocariam em desgraça, e enfrentando o acaso com uma postura batalhadora e bastante orgulhosa, característica que de alguma forma vai buscar ao seu maior opositor, o pai. William Williams ou Bill Duas Vezes (Billy) é outra personagem que não lida bem com as afrontas sociais e morais, principalmente as hipócritas e cínicas. Desafiando o carácter dominador do pai, decide escrever o seu próprio destino, não se preocupando se de alguma forma quebrará preceitos de classes anteriormente estabelecidos.

A aldeia de mineiros da qual a família Williams é natural, e que por sua vez é propriedade da família Fitzherbert é um dos cenários principais da acção, principalmente nos momentos iniciais passados no período pré-bélico. É sem dúvida uma demonstração das condições de vida e dos esforços daqueles que tão pouco recebiam e da classe do operariado no início do século XX. O retracto social é sem dúvida bastante interessante.

Alemã - Walter Von Ulrich é um diplomata em Londres e amigo muito chegado da família Fitzherbert...até as circunstância da vida os colocarem em campos opostos e ter de abandonar rapidamente o país que aprendeu a reconhecer como sua casa. De relação difícil com o pai, conselheiro próximo do Kaiser, é uma mente moderada e com capacidade de escolhas acertadas, sentindo-se frustrado e revoltado muitas vezes com o conservadorismo alemão que é incutido pela geração que de Otto,  que não compreende que o mundo em mudança exige uma estratégia mais cuidada. Ainda assim, um grande patriota com um sentido de dever elevado e que atende a resolver os problemas do seu país até ao fim. A sua consciência ética é várias vezes posta em causa pelas circunstâncias não planeadas da vida, as quais ele consegue contornar com elegância na grande maioria das vezes.

Russa - Grigori e Lev Péchkov são duas das personagens das quais me senti menos apegada ao inicio, mas que de uma forma ou de outra compõem o cenário deste grande enredo. Obrigado mais uma vez a tomar conta do irmão, Grigori vê um sonho há muito esperado adiado, o que acaba por se revelar como uma surpresa, já que através da Guerra descobre novos caminhos para construir uma vida válida para si e para a sua família, acreditando que o seu papel para a mudança da mentalidade da sociedade russa pode ser crucial, ao juntar-se ao grupo de intervenção liderado por Lenine. Acompanhamos a implementação da revolução bolchevique e das próprias contra-facções dentro do movimento. Katerina é impulsiva, mimada e infantil à primeira vez, sendo na sua grande maioria uma fachada de defesa para as com as adversidades que a vida já lhe trouxe e guardou. É bonita, mas também uma grande lutadora, que aprenderá ao longo do tempo a ser mais humilde e a repensar as suas prioridades. De qualquer forma, é e será sempre fiel a si mesma, não deixando que mais ninguém a pise e ignore o seu potencial.

Americana - Numa primeira fase, a perspectiva americana é introduzida por Gus Dewar, que trabalhará posteriormente no gabinete do Presidente Wilson, e tendo também assim uma visão privilegiada sobre a tomada de decisões políticas referentes ao conflito bélico que se trava na Europa. Com vários amigos espalhados por diferentes territórios, espera conseguir finalmente a paz, valorizando assim o seu presidente e a segurança daqueles que estima. Calejado por amores mal resolvidos, descobre o seu potencial no mundo da diplomacia e pretende desta forma validar a sua existência...até que alguém lhe comprove que vale a pena investir noutros aspectos da sua vida também.

Das várias críticas que li a este livro, positivas e menos boas, tenho que concordar que por vezes Ken Follet deixa-se levar por umas gaffes históricas que poderiam ser de maior senão tivessemos tão envolvidos no resto do enredo. Com o destaque a tantos momentos importantes, e devido à pormenorização que o autor dá a cada momento, é estranho, por exemplo, que tenha deixado de fora a execução do Czar e da sua família, voltando à Rússia já muito depois disso para contar um outro episódio que poderia ter sido dispensado. Por outro lado, há uma constante tentativa do autor de criar ligações, por vezes algo forçadas, entre todas as personagens principais do livro (o que acreditem, acontece diversas vezes).
Ainda assim, esses momentos são suplantados pela dimensão da obra (tanto em carácter literário como em tamanho) e pela riqueza e multiplicidade e dimensionalidade das suas personagens. Gosto especialmente do facto de que fique claro que não existem situações resolvidas em preto no branco, e que todas as pessoas têm uma alma algo negra, o que as coloca em xeque com os seus valores e faz repensar a melhor pessoa do mundo nas suas escolhas. São verdadeiramente retractos de pessoas que sobressaem nesta obra, tornando-a mais pura e interessante. Outro ponto a favor é sem sombra de dúvida a dimensão feminina nesta obra. A presença de várias personagens mulheres com um carácter vincado, assertivo e lutador deixa-me bastante satisfeita e de sorriso na cara, especialmente atendendo a época em questão.

Por fim, e talvez o ponto por onde deveria ter começado, adoro o nome da obra e a capa maravilha, com o contraste do céu cinzento com as papoilas, enunciando a tempestade, algo sangrenta, mas também a beleza da simplicidade humana contra o alcance de algo maior que a sua existência. Adoro, tem o selo do Encruzilhadas Literárias, e esperarei ansiosamente pelo próximo, a ser editado pela Editorial Presença ainda este mês de Setembro (dia 18)- "O Inverno do Mundo".







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 O INVERNO DO MUNDO, de Ken Follet - LANÇAMENTO A 18 DE SETEMBRO DE 2012 - Editorial Presença


Depois do extraordinário êxito de repercussão internacional alcançado pelo primeiro livro desta trilogia, A Queda dos Gigantes, retomamos a história no ponto onde a deixámos. A segunda geração das cinco famílias cujas vidas acompanhámos no primeiro volume assume pouco a pouco o protagonismo, a par de figuras históricas e no contexto das situações reais, desde a ascensão do Terceiro Reich, através da Guerra Civil de Espanha, durante a luta feroz entre os Aliados e as potências do Eixo, o Holocausto, o começo da era atómica inaugurada em Hiroxima e Nagasáqui, até ao início da Guerra Fria. Como no volume anterior, a totalidade do quadro é-nos oferecido como um vasto fresco que evolui a um ritmo de complexidade sempre crescente.



Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas e bookcrossing, a Cláudia ainda consegue estudar e fazer o seu mestrado enquanto lê nos transportes públicos. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado é tão fácil encontrá-la numa biblioteca como na Rota Jovem em Cascais. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

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