terça-feira, 17 de outubro de 2017

Opinião: Uma Estranheza em Mim, de Orhan Pamuk


 
Uma Estranheza em Mim
de 
 
Edição/reimpressão: 2016
Páginas: 640
Editor: Editorial Presença
  



Sinopse: 
O novo romance de Orhan Pamuk combina uma história de amor marcante com um retrato muito pessoal de Istambul e das profundas mudanças aí ocorridas entre 1969 e 2012.

Mevlut viu-a apenas uma vez e foi o suficiente para se apaixonar. Após 3 anos de cartas enviadas em segredo, decidem fugir. A escuridão da noite auxilia a fuga mas a luz de um relâmpago revela um engano terrível que os marcará para sempre.

Chegados a Istambul, Mevlut decide aceitar o seu destino seguindo os passos do pai. Todas as noites vende boza, uma bebida tradicional turca, esperando um dia enriquecer. Durante 4 décadas acompanhamos Mevlut pelas ruas de Istambul, o seu olhar face às alterações que ocorrem e as diferentes pessoas com quem se cruza.

Uma Estranheza em Mim, do autor Prémio Nobel da Literatura, foi candidato ao Man International Book Prize 2016.  Excerto
 
Rating: 3,5/5
Comentário:  "Uma Estranheza em Mim" foi a minha estreia com Orhan Pamuk. Deixei-me inicialmente ser envolvida pelo título, tão peculiar, e depois pela sinopse. Quem nos segue há uns tempos já sabe que é fácil deixar-me seduzir por sagas familiares, especialmente quando passadas em países diferentes dos que habitualmente aparecem retractados.
Pamuk traz-nos a transformação de um mundo visto pelo olhar de homem simples ao longo de três gerações, enquanto que simultaneamente nos arrasta pela transformação estrutural que sofre Istambul - a cidade, mas que também se torna em Istambul - a personagem, ao longo de quatro décadas.
Melut é um rapaz simples, sonhador, mas também muitas inconstâncias, que parte para Istambul com o pai, de forma a dar seguimento ao negócio familiar de venda ambulante de Boza, que lhes permite sustentar a família que se mantém na aldeia natal.
É a partir deste momento que se denotam os contrastes, da vivência de uma aldeia para a cidade, da cidade em si e das suas diversas regiões, dos actores que nela residem e que determinam o seu comportamento e desenvolvimento.
O enredo é transmitido paralelamente na primeira pessoa, mas também como sendo uma crónica, um relato documental do que foi a vida desta família. Todas as personagens que a determinada altura assumem o papel de narrador interpelam directamente quem as lê, rompendo a quarta dimensão. É um elemento original, que contrasta com os romances do género, trazendo-nos a verdadeira essência de uma família: a mesma história, várias versões, atropelos na narrativa, várias versões, segredos e intrigas.
Alguns dos dilemas existenciais destas personagens acompanham-nos desde a primeira à última página, ao longo de todos os anos da sua existência. São instâncias que fazem parte da sua personalidade e definem o ADN que lhes dá voz. Sem estas problemáticas, o que cada uma representa e as suas relações interpessoais não seriam as mesmas. Há os direitos de propriedade de um terreno, há umas cartas direccionadas a uma irmã (que poderia ou não ser a destinatária original), há o futuro dos vendedores de rua, do ser um bom muçulmano e/ou um bom turco, de respeitar a moral e a ordem familiar, do que é estar vivo e ter uma certa estranheza em nós.
Como já tive oportunidade de referir, a cidade de Istambul ganha um destaque bastante relevante, ao ponto de por vezes não se entender bem se lemos uma história que se passa pela cidade ou se vemos a história da cidade a ser representada pelos que vivem nela. As alterações dos bairros, os movimentos sociais que as impulsionaram, a ida e vinda de grupos minoritários à medida que as relações diplomáticas do país se vão alterando, a diminuição do espaço de vivência da rua como era, a proliferação exótica dos vendedores de boza tradicionais, são todas marcas da mesma moeda, que realçam o fervilhar que conduz esta narrativa.
Foi uma história em que gostei de emergir e descobrir aos poucos, já que o facto de não se evidenciar realmente uma parte dos elementos neste cenário complexo e diversificado, por vezes dificultou a criar uma conexão mais próxima durante a leitura.
Ainda assim, foi uma estreia brilhante com este autor, e já tenho mais uns três na calha para dar continuidade a esta exploração de Istambul perante o olhar acutilante e a consciência moral de Orhan Pamuk.



                                          Foto: Editorial Presença



 
Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

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