segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Opinião: O Silêncio da Chuva de Verão, de Dinah Jefferies



O Silêncio da Chuva de Verão
Dinah Jefferies
 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas 352
Editor: Topseller
  




 
Sinopse: 
Rajputana, Índia, 1930. Desde a morte do marido que a jovem inglesa Eliza vive para a fotografia. Determinada a estabelecer o seu nome, ela aceita um convite do governo britânico para retratar a vida da família real indiana no Estado de Juraipore, de forma a enaltecer a influência da Coroa Britânica.
No palácio real, Eliza conhece Jayant, irmão mais novo do marajá, que a leva a conhecer uma terra marcada por contrastes: de um lado, paisagens de beleza incomparável e uma cultura rica e vibrante, e do outro, a mais devastadora das misérias.
Durante a viagem, Eliza desperta Jayant para a pobreza do povo indiano, ao mesmo tempo que ele lhe mostra a face negra do domínio britânico na Índia. Até que, numa revelação quase kármica, os dois descobrem que estão profundamente ligados e apaixonam-se.
Mas com a família real e os britânicos a oporem-se à sua relação, conseguirão Eliza e Jayant libertar-se das obrigações e cumprir o seu destino?
Uma história sobre um amor genuíno que enfrentará o peso dos costumes e da tradição no coração da Índia colonial.
Primeiras páginas aqui.

Rating: 3.5/5
Comentário: Sempre tive uma paixão enorme pela História e pelo Mundo em geral e dou por mim muitas vezes a ler ficção e relatos que abordem as vivências dos países colonizados e das contradições e contrastes entre ocupantes e ocupados. As sensibilidades culturais, as nuances narrativas e as ópticas de abordagem aos mesmos problemas, assim como a capacidade de envolvimento de pessoas de diferentes realidades mas com os mesmos valores e emoções é sempre uma descoberta e uma aprendizagem imensa. É especialmente por gostar de História que também tenho ciente que muitas vezes só surge uma compreensão de momentos e factos quando todas as versões são analisadas, porque as versões que perduram no tempo são sempre as dos vencedores ou dos mais hábeis a comunicar.
Estes foram alguns dos factores que me fizeram escolher "O Silêncio da Chuva de Verão". Já conhecia a autora desde "A Mulher do Plantador de Chá", e embora tenha sentido falta de um maior relato da vivência local do país onde passava a narrativa (naquele caso, o Ceilão) quis dar uma nova oportunidade à autora.
De facto, neste livro a Índia é também uma personagem por si, e ganha o destaque devido, onde não lhe falham as crenças e as idiossincrasias de um país que quer crescer mas também se vê subjugado a uma potência imperial que se julga e actua como superior. É um relato com cheiros, cor, magia e sons, misticismo e debates político-sociais, com apresentações dos dois lados da mesma moeda e das diferenças que uma coexistência forçada podem trazer.
Quanto ao enredo principal, não há como negar que se trata de um romance feito para deliciar e entreter os leitores, com toques certeiros entre mistério e paixão, descrições e momentos intensos, e que trazem uma história completa que balança obrigações familiares com vontades pessoais, necessidade de auto crescimento com obstáculos estruturais, tentativas de superação e compreensão do papel do Ser Humano no ecossistema global que gere as ligações entre Homem, Natureza, País e Crença.
Dinah traz-nos personagens interessantes, com profundidade q.b., que se completam através do meio em que vivem e no qual interagem, que as incorporam de maior significado.
Ainda assim, há espaço para o seu desenvolvimento de forma a que não representem só modelos societais, mas que se governem por personalidades individualizadas. Faltou espaço de crescimento de algumas, especialmente num ambiente rico como o do palácio, o qual não foi explorado devidamente. Mesmo a Índia, que se assume quase como um ser de vontade e força maior, é descrita e enunciada frequentemente, embora só seja explorada de forma ligeira com pequenas explorações pontuais por parte das personagens.
Um dos momentos mais idílicos que consta neste romance é precisamente o período da Monção, para o qual é despertado constantemente o interesse do leitor e das personagens e quando chega em pleno, ocupa espaço de narrativa que lhe é adequado. Faltava uma maior força das descrições para que a sua punjança fosse mais certeira, mas permitiu uma conjugação enternecedora e de desfecho.
Dinah Jefferies gosta de viajar pela Ásia e de abordar vários países que lhe falem ao coração. Sinto que a autor nos quer colocar a suspirar por aquele canto do Globo e que mesmo com algumas falácias pelo meio, vai conseguindo cativar o leitor para as paisagens, a vivência e os olhares que, não sendo seus, passam a brilhar também no seu imaginário.



Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

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