quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Opinião: Passagem para o Ocidente, de Mohsin Hamid



Passagem para o Ocidente
Mohsin Hamid
 
Edição/reimpressão: 2018
Páginas 208
Editor: Saída de Emergência




 
Sinopse: 
Num cenário de guerra, é possível o amor e a esperança.
A história do amor furtivo de Nadia e Saeed tem lugar numa cidade não nomeada cheia de postos de controlo e de bombas, um labirinto humano à beira da rutura. Quando a guerra civil rebenta, surgem estranhos rumores sobre a existência de portas clandestinas que levam a outros países. À medida que a violência aumenta, os dois jovens sabem que têm de deixar para trás a vida que sempre conheceram, embarcando numa viagem sem regresso, vertiginosa e cheia de surpresas.
Numa mistura singular de realismo e magia, Passagem para o Ocidente é um belíssimo romance sobre refugiados, que nos leva a questionar em que mundo queremos viver.

Rating: 3.5/5
Comentário:  Só me apercebi que "Passagem para o Ocidente" era o tão aclamado "Exist West" quando já ia a meio da narrativa, ainda que na capa estivesse bem explícito que este livro de Mohsin Hamid tinha sido nomeado para o Man Booker Prize.
Da minha parte, fiquei agarrada pela sinopse e queria redescobrir mais sobre esta relação num ambiente nada frutífero ao amor e ao despoletar das emoções humanas que associamos aos períodos em que estamos mais relaxados e em paz connosco.
Não podia deixar de começar por referir que Mohsin Hamid criou uma história muito humana e cheia de nuances, que tentou captar a essência do Ser Humano sem sem paternalista nem desonesto, sem dourar pílulas nem apimentar processos.
Embora em nenhum momento se diga que esta seria a realidade da Síria, nenhum leitor deixa de ajustar este país sem nome à realidade macabra que nos entrou em casa pelas televisões nos últimos 4 anos. E é também uma lembrança constante, agora que os media já não consideram notícia uma desgraça que é vigente e que infelizmente se tornou quase que estrutural da sociedade do séc. XXI e neste caso particular, da Europa - a crise dos refugiados.
O que o autor nos traz é de facto um romance que começa num período em que facções diferenciadas num país se começam a guerrear, obrigando a uma intervenção também não pacífica por parte do Estado.
A forma como as relações humanas se vão adaptando e reconstruindo com derivadas criadas pelo contexto social e político que se vive na posição geográfica onde as personagens se encontram é transmitida com enorme sensibilidade mas também sem receio de tocar na ferida.
Por sua vez, a condensação de emoções, sensibilidades, nuances narrativas tendo por base o objetivo de descrever o quanto uma guerra pode destituir as pessoas daquilo que são e têm sido até ao momento é poderosíssimo.
Com um toque alegórico e metafórico, quase que a roçar o fantástico, suplantam-se os processos de travessia associados às rotas de fuga dos refugiados. Mas este elemento insere-se no enquadramento geral com enorme mestria.
Outro dos pontos positivos pela narrativa é precisamente o facto de o autor não se assumir como defensor de uma outra situação quando o tratamento dos países ocidentais, optando por evidenciar as diversas áreas cizentas que circundam o espectro do certo e errado nestas situações. Tratando-se de personagens muito humanas, não poderiam deixar de existir momentos de tensão, defeitos e envolvimentos benéficos e várias óptimas de leitura para um mesmo acontecimento.
Mohsin Hamid não torna os refugiados num único grupo sem rosto nem cor, valorizando as suas personagens por aquilo que elas são e atribuindo-lhes a humanidade que elas merecem.
Mas também não desvaloriza as várias reacções e envolvimentos que são expectáveis e facilmente desenvolvidos nos países que passam a albergar milhares de migrantes resultantes de conflitos armados.
Com uma análise bastante real, assim como crua, o autor pretende não chocar nem sensibilizar mas contar as coisas pelo que elas são, repensando as respostas da Europa e dos Estados Unidos num modelo de resposta preditivo e funcional. "Passagem para o Ocidente é, no fundo, uma educação para os Direitos Humanos num contexto universal e complexo, sem análises dúbias e simplistas.
Vale a pena ler.


Cláudia
Sobre a autora:
 
Maratonista de bibliotecas, a Cláudia lê nos transportes públicos enquanto observa o Mundo pelo canto do olho. Defensora da sustentabilidade e do voluntariado, é tão fácil encontrá-la envolvida num novo projeto como a tagarelar sobre tudo e mais alguma coisa. É uma sonhadora e gosta de boas histórias, procurando-as em cada experiência que vive.

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